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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

10
Fev26

Um jogo de xadrez


Pedro Azevedo

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O jogo do título foi afinal o jogo do medo. Duas equipas que mais pareceram ser duas companhias de seguros (e resseguros), medindo escrupulosamente os riscos, multiplicando-se em cálculos atuariais e procurando evitar terem de recorrer a avaliadores de sinistros. Dois treinadores apostados em servir de exemplo à Protecção Civil e assim pouparem o show-off telefónico ao ministro Leitão Amaro, de tanto investirem na prevenção. E jogadores autómatos, peões de circunstância, tele-comandados, reféns dos joysticks nas mãos dos seus treinadores. Para enquadrar tudo isto, um roteiro escrito antecipadamente e cumprido na íntegra pelos actores presentes no relvado. Com uma honrosa excepção: Rodrigo Mora, o miúdo que se rebeliou contra o espartilho táctico e soltou a criatividade e o imprevisto. Ir contra um guião pré-estabelecido em nome da liberdade de expressão é um crime que os treinadores do nosso tempo não estão dispostos a tolerar. Seguir-se-á certamente um degredo semelhante ao que o jovem craque já vem experenciando, que o tempo no futebol moderno é o de glorificação do azelha, do Fresneda, um tipo sem o menor jeito para jogar à bola, que durante o jogo nada mais fez do que cruzar contra o primeiro pino que lhe apareceu pela frente até ser bafejado pelo sortilégio raro de encontrar um pino com asas. Está assim o futebol, e é uma grande chatice. Um jogo de xadrez assistido ao vivo por mais de 50.000 pessoas, em ambiente de Guerra Fria (propaganda à parte, o André Villas-Boas é tão regenerador do futebol português quanto o Trump é defensor dos direitos dos emigrantes na América), mas sem o Fischer ou o Spassky para nos deleitarem com o seu génio. Um futebol amordaçado, de liberdade condicionada e cheio de atitudes pidescas como as amplamente reportadas ontem no Dragão. É o que acontece quando se entrega o seu destino a treinadores e presidentes de clubes. Até ao dia em que os jogadores se sublevem e reclamem para si o protagonismo. Aí, sim, mais do que a liberdade, regressará a arte. E com ela se moldará também uma nova classe de adeptos, amantes de um bom espectáculo e não fanáticos radicalizados e apostados em ganhar a qualquer preço. 

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