Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Ah Geny(o) do “Catamo”!
Pedro Azevedo

Gerir é antecipar o futuro. Vai daí, visionário como nenhum outro, Varandas fez obras em Alcochete. Não serviu para que, por exemplo, Flávio Gonçalves tivesse oportunidades na equipa principal (na sequência da sua promoção à primeira equipa, o Sporting gastou 20 milhões de euros em Luís Guilherme e Faye e viu a B perder o primeiro lugar na Segunda Liga, um loose-loose), mas pelo menos teve a virtude de abrir espaço para que lá fosse montado um hospital de campanha que abrigasse os mártires da nossa Unidade de Performance.
Entretanto, a aposta na Formação (do Palmeiras) prossegue em bom ritmo: o Luís Guilherme estreou-se a titular e o que se pode dele dizer é que, face ao Flávio, o Sporting ganhou... 1 ano (19 contra 18). Como diria o Palma, enquanto houver dinheiro, a gente vai continuar... o modelo centrado ... no mercado (vulgo "gestão de roulotte", que nesta actividade, de trading de jogadores com futebol lá dentro, o dinheiro é nómada e chapa ganha-chapa gasta).
Fresneda podia ter sido destacado para central pela direita, mas Rui Borges "nesse sentido" pô-lo na esquerda. "É o que é", ou seja, com o Luís Guilherme completamente "fora dela", valeu-nos o Matheus Reis, esse sim um utilitário que fez sentido trazer para Alvalade (desde que focado em pisar somente a bola). Muito por culpa de Geny, um jogador em que cientificamente acreditávamos tanto que deixámos ficar até muito recentemente 75% dos seus direitos económicos no Amora (nem todos os acasos implicam ocasos), o Sporting adiantou-se primeiro no marcador e a seguir reforçou a sua vantagem. Este segundo golo foi um hino ao futebol, desde o passe (à Beckenbauer) do Inácio até à recepção orientada com o peito e concomitante remate do moçambicano.
Depois, o Simões e o Trincão pegaram no jogo e o Sporting foi montando o seu habitual carrossel, fazendo esquecer as inúmeras ausências de jogadores importantes. De Bragança até Lisboa foram 11 meses de viagem, mas o Daniel ainda veio a tempo de colorir mais o marcador. Um regresso que se saída, de um jogador que veio da nossa Formação ("et pour cause", não custa nada relembrar). Inevitavelmente, lá teve de entrar o Alisson: olhos postos no chão, correria à jamaicano, dois colegas sozinhos a pedirem a bola e remate ingloriamente para fora - "I rest my case!"
Rui Borges tacticamente tem o brilhantismo científico de um Dr Jekyll, mas depois é ensombrado por um lado de Mr Hyde que violenta a nossa Formação e o faz curvar-se perante adversários de semelhante igualha (é bom relembrar que o Simões não estava em campo em todos os jogos domésticos que não ganhámos, considerando que na Luz já entrou com o jogo empatado). Conseguirá Jekyll sobrepor-se a Hyde? Ou, tal como na novela de Robert Louis Stevenson, o Hyde tomará conta dele? É que disso não dependerá só esta época, mas (estou absolutamente convencido) também o nosso futuro. Para já, no presente, ganhámos...
Tenor "Tudo ao molho...": Geny Catamo
