Tudo ao molho e fé em Gyokeres
O melhor do mundo e de Mirandela
Pedro Azevedo

Se um treinador se medisse só pelo seu modelo de jogo e qualidade das dinâmicas nele empregues, o Rui Borges seria provavelmente o melhor treinador do mundo e arredores e também de Mirandela (o pleonasmo aqui usado foi só para que a Sofia Oliveira não se chateasse, que ela tem o preconceito de que atrás dos montes há um micro-cosmos onde só existem tabernas e uma obsessão com a imagem do Rui Borges à mesa a escrevinhar tácticas em toalhas de papel manhoso enquanto manda abaixo uns penáltis... de verde). Sendo isso o essencial, não é tudo. Há depois que fazer correctas escolhas de jogadores (o elenco para a época e para cada jogo), manter a personalidade da equipa independentemente da adversidade (ou adversário, ou currículo do treinador adversário) e saber comunicar para dentro e fora [no caso do Sporting implica ser muitas vezes treinador-presidente, as mesmas em que o presidente se ausenta para tratar da fisiatria dos portugueses ou para servir o país, na Junta de Freguesia, em Kandahar ou simplesmente jogando à sueca (fomento das relações bilaterais entre 2 países).]
Durante a semana acalentei a esperança de que o Flávio Gonçalves ocupasse o lugar do Pote. Fi--lo não olhando ao bilhete de identidade, mas tão somente à semelhança de características que unem o Flávio ao Pedro e às boas prestações recentes do primeiro na B, Youth League e selecções jovens de Portugal. Mas o Rui Borges não me fez a vontade (raramente a faz quando se trata de jovens) e apresentou Mangas de entrada. Ora, toda a gente sabe que Mangas nem para entrada, nem para prato principal, só mesmo para sobremesa, pelo que logo aí se percebeu que a escolha foi bizarra. Não contente, o Rui lançou mais tarde aquele rapaz que fomos desencantar à "(Mo)town" de Leiria, o desconcertante Alisson, que, pelo razoável desconhecimento do jogo e simultaneamente forma electrizante como se entrega ao mesmo, a gente vê mais a entoar o "What's Going On?" do Marvin Gaye ou a fazer de duplo do James Brown no frenético "Night Train" do que efetivamente a jogar à bola. E assim, num jogo que dava para tudo, desperdiçou-se a oportunidade de também dar mais minutos ao Salvador. O Kochorashvili também jogou. Se o futebol para Javier Marías é a recuperação semanal da infância, a utilização do georgiano serve o propósito de nos recordar semanalmente porque perdemos 5 pontos contra o Porto e o Braga. Não é mau jogador, claro, mas ou evolui muito ou será sempre curto para o Sporting, qual Kocho amputado do "rashvili" (só sobrou o rabo de cavalo).
Quando não lhe esfregam durante uma semana o currículo do Mourinho na cara, o Rui Borges pode concentrar-se naquilo que é muito bom: aprimorar o seu formidável modelo de jogo e preparar a próximo encontro. Foi o que aconteceu antes da recepção ao AVS, um clube com um nome em forma de assim, que em forma de assim também é um campeonato em que o Casa Pia joga em Rio Maior e onde um nome sem clube lá dentro (B SAD) jogou durante anos no Estádio Nacional, assim mesmo, Nacional, para que o paradoxo da situação fosse inequivocamente bem português. E assim, contra um clube com um nome feito na hora, à hora de jogo já o seu desfecho estava mais do que feito. Na verdade até antes, que os primeiros golos vieram em trio, como nas corridas de touros, com um picanço inicial sob a forma de tércio de varas, seguido por um tércio de bandarilhas, para terminar num tércio de capa e espada. Tudo em acelerado, que, como consequência, o AVS morreu na arena (relvado) em 5 minutos. A coisa poderia ter ficado por aí, mas quando se tem um jogador como Maxi Araújo todos os jogos são para serem levados a sério, não há tempo para brincadeiras. (O uruguaio por vezes parece um bebé com raivinha nos dentes, num desassossego permanente, nesse transe não deixando dormir quem esteja à sua volta.) Suarez, Maxi e Catamo marcaram na primeira parte e voltaram a fazê-lo no segundo tempo, ao jeito de uma peladinha que muda aos três e acaba em meia-dúzia. E mais não foram porque Rúben Semedo, outro produto da nossa Formação, não permitiu, deixando-nos a amarga sensação do seu presente (em Aves) não ser mais aquilo que o passado chegou a augurar para o seu futuro. Por falta de cabeça, como outros com igual ou até superior talento.
Tenor "Tudo ao molho...": Maxi Araújo
