Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Carta de Brugge
Pedro Azevedo

Depois do jogo de ontem, em Amesterdão, a contar para a Liga dos Últimos, o futebol português regressou à Champions com a recepção do Sporting ao Club Brugge. De Brugge enviou Pedro, o das Sete Partidas e um dos vultos mais brilhantes da nossa história, uma carta ao irmão, D. Duarte, rei de Portugal. Nela, entre vários conselhos à governação sobre justiça, educação, finanças públicas e administração geral do reino, o infante advertia para a urgência da acção, que "aqueles que tarde vencem, ficam vencidos". Não sei se Rui Borges leu a Carta, mas o treinador do Sporting seguiu o princípio pouco português de que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, nesse transe praticamente carimbando o passaporte para a fase seguinte da "Liga Milionária". Para isso, na ausência dos salões faustosos da corte do tempo de Pedro, Rui escolheu o relvado do José Alvalade para dar um baile ao treinador do Brugge. Um verdadeiro banho táctico que assentou na atracção à marcação homem a homem, seguida da dissuasão que levou os defesas do Brugge para longe da sua área e abriu espaços nas suas costas para a entrada de jogadores nossos vindos de trás. Se isto é alheira(bol), como dizem os afectados snobs seus detractores (sempre hipervalorizando a forma em detrimento do conteúdo), então foi demasiado indigesta para os da Flandres, não faltando ainda o ovo a cavalo (qualificação quase garantida) e os grelos (que são verdes, a cor da esperança) em vez das batatas fritas que seriam mais do agrado dos belgas (com as "moules", que assim quem se "lixou" foi o mexilhão).
O Sporting cedo se adiantou no marcador após uma perfuração pela direita de Geny ter sido concluída com um remate deflectido pelo guarda-redes belga para as costas de Quenda, que abriu o baile com um rodopio que fez a bola anichar-se nas redes. Pouco depois, o mesmo Geny aproveitou a desertificação do interior provocada pelo êxodo dos belgas para zonas junto às margens e com uma voltinha isolou Suarez para um golo de grande requinte técnico. Antes do intervalo, o Sporting podia ainda ter ampliado o resultado, mas uma jogada de génio de Trincão terminou com um remate que tirou a tinta ao poste.
Na etapa complementar, o Sporting procurou essencialmente gerir a vantagem no marcador. Isso acabou por provocar alguns momentos de tensão no nosso último reduto, o que não teria acontecido caso Suarez não tivesse entrado em modo carnavalesco e enfeitado demasiadamente um lance, perdendo um golo cantado. Assim, o Brugge chegou a agigantar-se, mas uma investida de Maxi (o verdadeiro "jogador à Sporting", cheio de raça) encontrou Quenda na profundidade e este centrou para Trincão, num "pas de deux" com Maxi, bailar antes de desferir um remate indefensável. Com o 3-0, o jogo terminou ali.
Com a vitória de hoje, o Sporting entrou para o lote de 8 primeiros classificados que têm apuramento automático para os oitavos-de-final. Mais importante, tem agora uma vantagem de 4 pontos para o vigésimo quinto classificado (o primeiro excluído) e de 6 pontos para o vigésimo sexto, quando faltam apenas 3 jornadas para terminar a primeira fase. Não estamos ainda matematicamente apurados, se não fizermos fé em Pitágourinho, treinador do nosso rival (para quem 9 pontos serão suficientes), mas demos hoje um passo de gigante para garantirmos a qualificação. E sem o mágico Pote, Ioannidis e Debast, além dos lesionados de longa duração (Nuno Santos e Bragança).
Tenor "Tudo ao molho...": Trincão (Geny seria uma óptima alternativa), pelas movimentações com ou sem bola que desestabilizaram por completo os belgas.
