Tudo ao molho e fé em Gyokeres
In vitrum, veritas
Pedro Azevedo

No meu tempo de criança, os miúdos sonhavam jogar em grandes palcos como o José Alvalade. Como são mais as vezes em que se sonha com os olhos fechados do que aquelas em que eles estão bem abertos, havia momentos em que a bola se transviava e acertava numa montra. A ocorrência permitia treinar questões de segurança como a rápida evacuação do improvisado recinto "desportivo" (nesse tempo denominado de "rua"), bem como praticar o sprint na fuga ao dono da loja. Lembrei-me desses sonhos de criança ao tentar captar o sentimento da maioria dos jogadores do Marinhense na antevisão da visita a Alvalade, muitos deles a pisarem a relva de um estádio grande pela primeira vez.
O Marinhense trouxe o autocarro até Alvalade e o Sporting cedo procurou fazer a bola atravessar o seu pára-brisas. O Trincão conseguiu-o em duas ocasiões, mas, como a reposição do vidro não é um problema na Marinha Grande, os leirienses nem necessitaram de ir à Carglass. Salvador Blopa e Quaresma, respectivamente, foram os assistentes do primeiro e segundo golo: enquanto o Quaresma esteve majestoso a defender, o Salvador evidenciou-se pela qualidade do cruzamento, levantando a dúvida se não será já hoje uma alternativa vantajosa a Vagiannidis e a Fresneda para a posição de lateral direito.
Um outro jogador em destaque foi o Rodrigo Ribeiro, um miúdo com pés de veludo e compostura de craque, que se movimentou muito bem na frente do ataque e acabou por ser uma vítima da ausência do VAR (golo aparentemente mal anulado). Em contraposição, o Morita está absolutamente fora dos níveis mínimos exigíveis de rendimento. O que se passa com o nosso "Tsubasa"?
Quanto ao Marinhense, o seu dia teve tudo a ver com o material cerâmico que é ex-libris da cidade onde o clube se insere: o vidro é frágil, sim, mas tem brilho, e brilhante foi a resistência de um clube do quarto escalão do futebol português contra o bicampeão nacional.
Tenor "Tudo ao molho...": Trincão
