Tudo ao molho e fé em Gyokeres
O dia de Rui Borges (La Vie en Rose)
Pedro Azevedo

O Bertrand Russell dizia que muitos homens cometem o erro de substituir o conhecimento pela afirmação de que é verdade aquilo que eles desejam. Depois de ouvir Rui Borges após a recepção ao Braga, cheguei a temer que isso se estivesse a passar com o nosso treinador. Mas hoje, no pré-jogo, numa mini-entrevista à SportTV, vi Rui Borges reconhecer que deveria ter utilizado o João Simões nesse jogo e percebi que ele retirou ensinamentos do erro. Fiquei aliviado, mais ainda quando vi o miúdo Simões a subir ao relvado como titular. Costuma dizer-se que Deus protege os audazes e o nosso treinador teve hoje um dia de afirmação. Um dia inteiramente merecido, porque uma coisa é a crítica construtiva e outra é o enxovalho. O amor afirma, o ódio nega. Mas por cada afirmação há milhares de negações. Assim o amor é pequeno em face do que se odeia (Vergílio Ferreira). Hoje, Rui Borges conseguiu que isso fosse mentira. E assim chegou à verdade. Com conhecimento. Fazendo substituições decisivas para a vitória, que Geny e Alisson marcaram os golos do triunfo e Ioannidis deu imenso trabalho ao Marselha, a atacar e a defender. Ainda sobre a verdade, a nota de que Simões teve dois raids com bola na primeira parte que fizeram jus ao que muitos comentadores vêm escrevendo por aqui, além de um passe para Suarez que ia dando golo e uma espectacular rotação sobre um defesa que o argentino que guarda as redes do Marselha evitou que só parasse dentro da baliza francesa. E por último, mas não menos importante ("last but not the least"), mais uma verdade, ou melhor, a VARDADE: o árbitro e os seus auxiliares cometeram 3 erros, todos em prejuízo do Sporting (penalty contra nós, golo anulado e expulsão de Maxi) que o VAR inverteu. Com o "plus" de com a anulação do penalty contra ter vindo também o segundo amarelo e concomitante expulsão de um jogador do Marselha, permitindo-nos jogar toda o segundo tempo contra dez (estranhamente, ganhámos, o que deve ter deixado a fazer contas de cabeça o "filósofo" JJ). Foi bom para o Sporting e veio na altura ideal para calar quem parece querer substituir a verdade sujeita a erros ou omissões pela mentira que criou tanta escola que chegou até a ser vista como verdadeira.
Os jogadores e a equipa não estiveram perfeitos, a noite sim. E esperançosa, também. devido à forma como Rui Borges preparou o jogo e agiu durante o mesmo. Adensou-se porém uma dúvida: no lance do golo do Marselha, Fresneda não só deu muito espaço à recepção de Paixão como depois lhe ofereceu o lado de dentro para rematar, dois erros na mesma jogada que me fizeram questionar se ganhámos alguma coisa ao trocar um terceiro central por um lateral direito convencional.
Há 50 anos atrás, o Marselha levou-nos o nosso imortal Yazalde. A vingança serviu-se não fria, mas como naqueles congelados da Iglo. Tanto assim foi, que teve de ir ao micro-ondas (do VAR) para se fazer justiça. Três jogos, seis pontos na Champions. Segue-se uma viagem a Turim, capital da região do Piemonte que curiosamente tem uma bandeira muito semelhante à da Dinamarca. Depois da afirmação de Rui Borges, será esse o sinal da reafirmação de Hjulmand (algo alheado esta temporada) no panorama do futebol europeu? Ou será que estou a ver "La Vie en Rose", única consequência positiva que se pode retirar da observação daquele leão (tra)vestido de pantera cor de rosa que mais parece saído de uma comédia do Blake Edwards? (Quem sabe se subliminarmente não nos estão a oferecer a parábola de um Rui Borges como uma espécie de Inspector Clouseau, algo desajeitado e errático no discurso e na acção, mas que no fim leva sempre a sua avante e sai ganhador?)
PS: Estamos a precisar do melhor de Trincão e Pote.
Tenor "Tudo ao molho...": Geny Catamo
