Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Comte, Conte e contos
Pedro Azevedo

Mozart destacou-se pelas suas composições para viola, violino e violoncelo, por isso não foi de admirar que na sua cidade natal, Salzburgo, o Porto tivesse passado a maior parte do tempo encostado às cordas. Na Luz, a diferença entre o sucesso e o fracasso foi um dedinho (6 cm). A novidade é que esse dedo não foi ainda do treinador, como Mourinho prometera, mas sim do VAR, que antes Mourinho renegara. Ironias da vida...
Quem não esteve para recitais nem para arriscar 1 milímetro foi o Rui Borges, que cedo viu a sua equipa entrar em modo cruzeiro e nada fez ao leme para alterar o rumo dos acontecimentos, por muito que agora se queixe de facilitismo. Na Amoreira a pensar no San Paolo (Diego Maradona), o Sporting portou-se como aquele homem que está presencialmente com uma mulher, mas espiritualmente tem o pensamento noutra. Claro, podia-se ter escolhido um padrão de homem diferente, por exemplo um jovem a viver o seu primeiro grande amor e totalmente empenhado nesse sentimento: um Sporting à imagem de João Simões. Mas não, na hora da verdade imperou o pragmatismo absoluto e lá entrou o burocrata número 1 do reino do leão (Kochorashvili), aquele de quem Rui Borges diz estar um pouco aquém mas ainda assim nunca deixa além. E depois veio o Fresneda (dele já pode dizer-se que foi à linha... de Cascais), para assegurar que o dia no escritório não escaparia mesmo da madorra, pelo que os únicos sobressaltos vieram mesmo da imensidão de passes falhados por Inácio, o que já vem sendo recorrente nos últimos tempos. O problema dos serviços mínimos é que para se saber se são suficientes, primeiro é necessário ter a noção do que é demais, e o Sporting nem perto esteve do demais, arriscando assim a que o entendido por suficiente se pudesse ter traduzido em insuficiente e dois pontos tivessem voado. Não aconteceu, mas, a repetir-se a experiência, é certo que um dia acontecerá. "É o que é" - ouvir-se-á então, quando na verdade o que for será exclusivamente porque o quisemos assim, "deixando correr o marfim" para depois ficarmos de "trombas". Ontem também perdemos a oportunidade de dar minutos que se vissem a jogadores que nos sobressaltam o coração, como o Quaresma e o Simões (à espera que o Kocho tenha um traumatismo no rabo de cavalo, a fim de jogar), da nossa Formação, ou o Ioannidis, este último com a "oportunidade" de ir finalmente a campo num momento em que a equipa tinha já abdicado totalmente de jogar à bola. Depois, queixamo-nos de que o nosso campeonato não é competitivo e espalhamos o conto de que assim não temos ritmo para a Europa, quando somos nós os primeiros a tirar o pé do acelerador, por opção. Os que o tiraram, porque Trincão não chegou sequer a aproximar-se do pedal em nenhum momento. Fica porém a ideia de que com tanta poupança, menos do que uma vitória em Nápoles soará a derrota. Já dizia o Comte (o Auguste), que tudo na vida é relativo, e esse é o único valor absoluto. Veremos se o Conte (o Antonio) estará pelos ajustes...
Tenor "Tudo ao molho...": Maxi Araújo
