Tudo ao molho e fé em Gyokeres
(Contra)tempo
Pedro Azevedo
Caro Leitor, agora que já se conhece o desfecho da Supertaça, eu devo confessar que até estava optimista para o jogo. E porquê? (O porquê das coisas é sempre mais importante do que "o que?" ou "como?", pese embora, curiosamente, a generalidade das pessoas invista o dobro do tempo na resposta a qualquer uma das outras duas interrogações.) A razão é simples: enquanto o Sporting se preparou convictamente para jogar contra o Benfica, na colectividade de Carnide as opiniões divergiam quanto ao adversário: para o Lage, seria o Tempo; para a Direcção, o Fábio Veríssimo. Se o Sporting se dispunha a jogar contra o Benfica, mas este apenas considerava defrontar o Tempo ou o Verissimo, então ficava invalidado à partida o silogismo aristotélico que faria com que o Sporting jogasse também contra o Tempo ou o Verissimo, sem dúvida duas preocupações a menos para os Leões. Restaria porém perceber como poderíamos defrontar uma equipa que não queria jogar connosco. Ganharíamos por falta de comparência? Obriga-los-íamos a ir a jogo, ainda que por eles tivessem de haver 2 bolas extra em campo, uma por cada adversário? Além do mais, da perspectiva do Sporting, o Benfica jogar contra o Tempo seria uma causa perdida: o Tempo é a mercadoria mais importante das nossas vidas, especialmente se utilizado de uma forma em que não seja desperdiçado ingloriamente. Mas é impossível parar a sua marcha inexorável, pelo que a expressão "Ganhar (ao) Tempo" é puramente idiomática e visa apenas elucidar que o Tempo foi bem gasto. Por outro lado, ganhar a um árbitro, que não tem balizas e até é proibido de tocar na bola sob pena da jogada ser interrompida, seria o paradigma da posse de bola estéril, só fazendo sentido mesmo para um clube que se acha acima de qualquer um ou de qualquer coisa. Gloriosamente, dizem eles..
Bom, falta de comparência não houve, pelo que fomos a jogo. Um confronto entre uma equipa de futebol e um bando de protestantes, não sei se Luteranos ou Calvinistas, filosofando em rebelião contra os dogmas do Tempo e da Arbitragem. Uma coisa a fazer lembrar aquele sketch dos Monty Python - Philosophy Football -, mas com o Benfica a fazer de gregos e germânicos ao mesmo tempo (e com "O Barbas", possivelmente nas bancadas, de fato de treino vermelho, interpretando o papel de Karl Marx). Para provar que jogar contra o Tempo era uma tonteria, cedo (5 minutos) o Benfica se viu obrigado a correr atrás do Tempo. Todavia, a equipa de arbitragem anulou o nosso golo, o que por um lado serviu o Benfica e por outro mostrou que jogar contra o árbitro era uma tonteria ainda maior. Ainda assim, o Sporting foi melhor no primeiro tempo e poderia ter marcado, mas um Harder em modo "Calamity Jane" e um Morita para quem hoje em dia 1m2 é um latifúndio (não se entende porque Borges não lançou Simões, actualmente o nosso único médio capaz de transportar a bola em condução até à área adversária) impediram a criação de mais jogadas de perigo.
Veio o segundo tempo e o Benfica marcou. Dir-se-ia, dada a forma como estava a correr o jogo, que foi galo. Mas não, foi um outro tipo de ave: um peru. De Rui Silva, um momento infeliz de um excelente guarda-redes que logo a seguir faria uma defesa "impossível" a remate do mesmo Pavlidis. A partir daí percebi o filme todo: o Lage não queria ganhar (ao) Tempo, queria, isso sim, jogar a favor do tempo, que é como quem diz, perder tempo. E o Benfica também não queria jogar contra o Verissimo, mas sim jogar com ele. As rábulas foram sucedendo-se, pouco se jogou, o nosso jogador mais esclarecido (Maxi) teve de sair e, como se já não fosse pouco, Rui Borges ainda teve a luminária ideia de lançar Esgaio para lateral esquerdo, talvez em tirocínio para o futuro, que 5 laterais/alas esquerdos de raiz é possível que não satisfaça a gula mirandelense do nosso treinador. Rui Borges que pareceu "alheiro", perdão, alheio ao que acontecia no relvado, qual professor Pardal sonhando com maquinações à volta do 3-4-3, com Hjulmand fora do seu lugar para que Fresneda fosse caçar ganbusinos para a direita e Geny se metesse para dentro, onde é perfeitamente ineficaz. Isto depois de ter andado a treinar o contrário: Fresneda a bolínar e Geny por fora. Uma coisa que deve funcionar excelentemente na cabeça do treinador, mas que dá cabo dos nervos aos adeptos e, suspeito, aos jogadores. "Nesse sentido", "é o que é": se o jogo pede um médio capaz de queimar linhas, RB mete um clone de Hjulmand (Kochorashvili). E na hora do aperto, troca de pontas de lança quando pode recuar Pote.
Concluindo, se do banco de suplentes raramente se vê um golpe de asa, o gabinete de arquitectura sito em Alcochete parece mais concentrado em desenhar esquemas em que o 3-4-3 (em Manchester há quem dê explicações) se desdobre em 4-2-3-1 a atacar, enquanto a defender já se viu um pouco de tudo, desde o 3-5-2, 4-4-2 e ontem 5-3-2 (o 5-4-1 de antigamente deve ter ido para o cesto dos papéis). Com tanto sistema, o meu receio é que nós, adeptos, começemos por sistema a pedir o 1-1-2.
... Esta foi a crónica possível de um jogo que o Sporting ofereceu ao seu rival Benfica. Como aqui tenho escrito abundantemente, falta um box-to-box tipo Matheus Nunes ao futebol do Sporting (Simões talvez desse, mas não conta) que compense o menor poder de fogo causado pela deserção de Gyokeres. A minha esperança é que tanta aparente incompetência esconda um plano genial: Rui Costa vencer as eleições do Benfica e Lage também ficar. Será?
Tenor "Tudo ao molho...": Maxi Araujo

