Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Dobradinha para o jantar
Pedro Azevedo
Em Portugal, o inho e inha não são meros diminutivos, usam-se essencialmente como demonstração de carinho ou válvula escapatória de culpa. Assim, é com o mesmo propósito de tirar o ar a um balão que um português trata uma pratada de cozido, que daria para alimentar uma família inteira durante uma semana, como um cozidinho. Ao mesmo tempo que lhe mostra o seu amor. O mesmo ocorre com a feijoadazinha, as favinhas ou... a dobradinha. Esta leveza que opomos propositadamente ao peso é muito portuguesa de Portugal. No Brasil são usados aumentativos como "ão" para sublimar e vender o peso, em restaurantes do tipo Chimarrão ou Porcão e shows televisivos como o Faustão, mas cá não. Pelo que no Domingo, em Portugal, houve festa rija de Taça nas matas do Jamor. E para o jantar, uma dobradinha, assim mesmo, com sufixo a jeito de um oxímoro, como quem quer a todo o custo evitar uma indigestão após mais de duas horas e meia a enfardar. Também porque, esta época, as coisas boas para o Sporting vieram aos pares: bicampeonato e campeonato e taça na mesma temporada. O que o Benfica procurou denodadamente evitar, no seu Jamor de Perdição, que bem poderia ser um romance melodramático do Camilo Castelo Branco.
O Sporting começou bem e durante um quarto de hora conseguiu ligar o seu jogo por dentro. Mas depois veio um penalty contra, revertido pelo VAR por fora de jogo anterior, e com ele a dúvida. Dividido entre continuar a atacar ou melhor guarnecer a sua defesa, o Sporting descompactou-se, alongou-se no campo e abriu brechas no meio campo por onde o Benfica foi sempre encontrando espaços. E assim, durante os restantes 75 minutos, o nosso rival foi sempre superior. Valeu-nos então o Rui Silva, excelente contratação do inverno do nosso contentamento em que também chegou o Rui Borges. Sofremos um golo e poderíamos ter sofrido outro logo de seguida, se não tivesse havido uma falta prévia sobre o Trincão. Sem na altura se perceber, o Trincão começava a deixar o seu nome na Taça: primeiro a evitar que o adversário se destacasse ainda mais no marcador, mais tarde a fazer a diferença a nosso favor. Com o aproximar do fim do jogo, o futebol foi substituído pelo circo, o Benfica montou a tenda e foram mais os números de palhaçadas de quedas no relvado do que de jogadas. O jogo parava constantemente, e por cada interrupção entravam em campo os maqueiros do INEM, voluntários do Instituto de Socorros a Náufragos, avaliadores de sinistros de companhias seguradoras e médicos legistas, em suma, um sem número de não intervenientes directos no jogo. Todos à espera de mais uma palhaçada de Otamendi, sempre expedito a pedir as boas graças do árbitro, qual foca perante a audiência do Zoomarine. Até que durante uns segundos ninguém caiu e o Trincão viu uma nesga de terreno por onde se escapulir até servir o Gyokeres. Arrancou o sueco e logo se pensou que o António Silva faria contenção ou o mandaria para o chão. Mas não, o António não resistiu a ir ao encontro da bola e assim ficou fora dela. Veio então o Renato, qual elefante em loja de porcelana, e partiu a louça toda. Penalty! - assinalou o árbitro. Logo o Gyokeres converteu. Sem fazer o suficiente para isso, o Sporting empatava, mesmo no finzinho, um jogo que merecia perder. Veio o prolongamento.
O tempo extra trouxe-nos uma equipa destroçada psicologicamente (Benfica). A cara disso mesmo era o Di Maria, que não teria jogado o seu último jogo doméstico pelo Benfica, caso o Sporting não tivesse igualado. Acresce que, quando o argentino entrou, os encarnados já perdiam: foi na sequência de um canto, após Samuel Soares ter evitado novo golo do Gyokeres, que Trincão centrou e Harder cabeceou com força e colocação para a baliza. O jogo aproximava-se do fim e Di Maria era já a única ameaça benfiquista em campo. Era preciso pará-lo e Rui Borges não hesitou em fazer entrar o jovem David Moreira, que passou no teste com distinção. E de um seu roubo de bola se originou uma triangulação entre Gyokeres, Harder e Trincão que permitiu a este último obter o terceiro golo dos leões, não sem antes fazer passar a bola entre as pernas de António Silva, que já que o tempo é para números circenses ao menos que não fiquem atrás de um Cirque Du Soleil. Sol que parece acompanhar este Sporting iluminista e muitíssimo renascentista. Em oposição ao clube curiosamente da Luz, hoje caminhante nas trevas. Como se vítima de um qualquer mau-olhado ou de um pé frio, onde antes até houve uma mão de Vata (ou "vaca" para ultrapassar aquele Marselha).
Tenor "Tudo ao molho...": Francisco Trincão. Rui Silva, Harder, Maxi (o primeiro a dar a cara nos duelos individuais) e Inácio (excelente nas dobras) merecem uma menção honrosa.
"Em Abril, águas mil. Em Maio, ganhamos com paio"

