Tudo ao molho e fé em Gyokeres
A Barca da Glória aguarda na doca
Pedro Azevedo
O Leitor imagine 2 barcas ancoradas num imaginário cais do Lumiar. Numa vai o agora auto-proclamado diabo vermelho César Peixoto, a caminho do inferno. Na outra, um anjo sueco, timoneiro do trajecto para a glória. A equipa do Sporting já se encontra no cais, mas o argumento que determinará em qual barca entrará será escrito em conjunto com Gil Vicente. Nesse auto da barca do inferno, os Sportinguistas querem ver a sua equipa viajar na barca da glória, ainda que um eventual sucesso hoje não garanta que esta se faça imediatamente ao mar, devendo a embarcação permanecer pelo menos mais uma semana em doca seca, aqui alegoricamente representando o purgatório. Foi com estes cenário presente na mente dos seus atletas que a equipa do Sporting foi a jogo esta noite, não jogando só futebol mas também a vida ou, pelo menos, a possibilidade de continuar de boa saúde.
Não foi nada fácil. Se o Gil jogasse sempre assim estaria a lutar pela Europa dos milhões. Mas se pela Europa não jogou e daí não virão milhões, causou estranheza que, nos minutos finais do jogo, em vez de ir atrás do resultado, meia equipa do Gil tenha procurado expulsar o Gyokeres, assim a jeito de quem sabe que perdeu a lotaria mas não desiste de tentar a terminação (diz o ditado que "quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem"). De qualquer forma, é de elogiar a organização dos gilistas, com dois centrais sobre o Gyokeres que mais pareciam sósias do Marcel Desailly. Do lado do Sporting houve muita precipitação no passe e um erro básico que consistiu em entregar à volatilidade do elevador de St Juste um papel central nas operações defensivas, equívoco esse que esteve na origem do golo do Gil. Verdade seja dita que Rui Borges redimiu-se com a tripla substituição que asfixiou o Gil e levou à vitória final. Nesse particular, o recém-entrado Hjulmand, sozinho, foi mais influente do que os dois médios (Debast e Morita) que o precederam, Harder esteve na origem do golo de Maxi e Quenda gerou alguns desequilíbrios, como o que resultou num livre que Trincão bateu na trave. Mas foi o patinho-feio Quaresma a sentenciar a partida. Um golo à Deco ou Pote, em folha seca e contra-luz, de refinada arte, uma vitória contra o preconceito, que Einstein dizia ser mais difícil de destruir do que a desintegração de um átomo. Mais do que um passe à baliza, um passe-social com acesso à barca da glória, para já a aguardar no purgatório.
Aliviada a tensão, foi bonita a festa final, com Nuno Santos, Bragança e João Simões vestidos à civil dentro do relvado a mostrarem que o grupo está unido e se cair será de pé.
No Sábado há derby na Luz. À hora que escrevo esta crónica. desconhecem-se ainda como estarão nesse dia as variações de tensão da eiectricidade comprada a Espanha. Não se sabe se ocorrerão picos de produção de energia alternativa e se o nosso sistema vai estar a importar nesse momento, arriscando um shut-down que leve a um apagão total. Mais do que na táctica do Borges, no Gyokeres ou no lançamento dos búzios, é nisso que devemos investir o tempo que nos resta ate lá a fim de fazermos uma previsão razoável sobre as hipotéticas movimentações à luz da vela no Marquês, que é como quem diz, voltaREN que estás perdoada (e para cúmulo aliviavam-se também as dores de cotovelo do rival).
Tenor "Tudo ao molho...": Edu Quaresma

