Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Três Górgonas
Pedro Azevedo
À entrada de Old Trafford avista-se uma estátua erigida em honra de Best, Charlton e Law, a United Trinity. No novo Sporting, de Rui Borges, a trindade é composta por Gyokeres, Gyokeres e ainda Gyokeres, pelo que uma escultura que a representasse seria algo assim a jeito de três cabeças de Górgonas num corpo de Medusa. Recorrendo à mitologia viking, nesse tudo ao molho e fé em Gyokeres, o nórdico personifica simultaneamente o deus Odin, o filho (Vik)Thor e o espírito de Valhalla (o equivalente ao Olimpo, apenas reservado aos guerreiros mais bravos): ele primeiro transporta a bola, depois assiste para si próprio e finalmente imortaliza-se pelo golo. De uma forma tão óbvia que só lhe falta mesmo marcar um canto e aparecer a finalizar ao primeiro poste. Isto é tudo muito bonito enquanto permite disfarçar as nossas insuficiências como equipa e a falta de ousadia do nosso treinador, mas na realidade nenhuma dependência é boa e a nossa Gyodependência não foge à regra. Como aliás se viu ontem: enquanto Gyokeres batalhava como um leão, Rui Borges fechava-se sobre si próprio como um ouriço-cacheiro, hibernando durante o jogo como em tantos outros (Dragão, Aves...), activando a(s) defesa(s) e daí partindo só para contra-ataques como aquele que se pôde observar em conferência de imprensa quando o tema foi Harder (momento francamente embaraçoso).
Se a primeira parte foi essencialmente um duelo entre Gyokeres e Hornicek que o guarda-redes do Braga venceu por 3cm (dois golos encaixados, um deles anulado por fora de jogo, e duas excelentes defesas), na etapa complementar os minhotos foram tomando o controlo do jogo perante a inércia do banco dos leões, que mexeu tarde e já claramente em marcha-atrás com a entrada de Maxi para o lugar de Geny (e não de Matheus Reis). Curiosamente, com o Braga sempre a explorar a superioridade numérica sobre o nosso lado esquerdo - os seus avançados arrastavam Matheus para dentro e na ala surgiam prometedoras possibilidades de cruzamento - , seria de uma precipitação de Maxi (com muito menos rotinas de interior do que de ala, foi atraído à toa para o eixo em vez de manter a posição de meio-termo) que se abriria a auto-estrada por onde os braguistas lançariam o centro que lhes deu o golo do empate. Para certamente enfado de Varandas e contentamento do Yves Saint Laurent da Pedreira, que o ladeava. Antes, porém, em duas ocasiôes, o Gyokeres pensou que sozinho estaria melhor que mal-acompanhado e tudo perdeu, consequência inevitável da tal dependência exagerada que surge da ausência de trabalho específico de combinações e faz com que o ego apareça e o objectivo colectivo se perca em função do individual. O Trincão não lhe quis ficar atrás e embora com menos estatuto ou moral fez o mesmo, assim se perdendo outras óptimas oportunidades de matarmos o jogo, tudo perante a passividade de Rui Borges. Enfim, "é o que é". E, "nesse sentido" (descendente), passámos para segundo. Com o Braga, a vermos o campeonato por um canudo, o que na verdade é o mesmo que observarmos o Pote pelo telescópio Hubble (parece sempre que está muito mais perto do que a realidade nos diz). Sim, porque esperou-se por Pote como quem espera por Godot, e o Beckett nem mora aqui (embora a Unidade de Performance seja uma "bela peça").
Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

