Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Brunilda, Siegfried e "Os Amigos de Alex"
Pedro Azevedo
Caro Leitor, a esperança de Frederico Varandas resume-se a que o presente dilema em que se encontra o futebol do Sporting (o treinador deve ser substituído?) possa ser resolvido da forma como ontem marcámos os golos, ou seja, primeiro empurrar com a barriga a sua concretização (golo de Harder) para depois vir a beneficiar do atraso (golo de Gyokeres, após um atraso de bola de Frederico... Venâncio).
Descontrolo emocional (expulsões de Esgaio e St Juste), falta de rigor na adopção da linha de fora de jogo (aos 77 minutos, Debast voltou a afundar, não respeitando a linha e colocando um açoriano em jogo, permitindo um cruzamento do Santa Clara que só não deu golo por acção de um Quaresma milagreiro; em cima da hora, Simões pôs em jogo o jogador que empata a partida), tomadas de decisão criticas (muitos passes errados a meio-campo, St Juste a encolher-se e a dar uma grande oportunidade de golo ao Santa Clara), jogadores fora da sua posição (Quenda como interior e pela esquerda), pouco jogo entrelinhas (os interiores voltaram a jogar de dentro para fora e não o seu inverso, ocupando previamente o espaço que de outro modo poderia ser descoberto), gestão de esforço incompreensível (Quaresma estava em dúvida para o jogo e foi o último central a ser substituído, acabando por sair visivelmente lesionado), um treinador graduado que faz lembrar o ministro de propaganda do Iraque a vender uma realidade alternativa (insólita conferência de imprensa de TT) e outro estagiário que mostra uma humildade no discurso que não encontra correspondência na tentação de apressadamente procurar dar um toque pessoal naquilo que antes estava perfeito, tudo isto fez parte do menu ontem apresentado por João Pereira em Alvalade.
Eu imagino que não seja fácil para um estagiário ser graduado em CEO e lançado às feras num mercado aberto, fortemente mediático, competitivo e nem sempre concorrencialmente leal. A pressão é ainda maior quando estamos a falar de uma grande empresa, naturalmente muito escrutinada pela opinião pública. Para que a aprendizagem se vá fazendo sem grandes ondas, é fundamental que haja resultados. E quando os resultados não aparecem e tens a árdua tarefa de substituir um antigo CEO que teve muito sucesso, então esse tempo de aprendizagem pode esgotar-se rapidamente e seres convidado a sair. Porque se antes foi criada a percepção de que tinhas um Aston Martin nas mãos, não podes ter a prestação de um Mini. Precisas de tempo, mas esse tempo só se ganha com vitórias. Se não ganhas e não consegues transmitir onde está o problema, então quem te observa chega imediatamente à conclusão que também não saberás encontrar a solução. Porque uma coisa é teres poder, outra é seres reconhecido como uma autoridade por aqueles que lideras. E se nunca é bom haver colaboradores a medir o pulso ao novo líder, no futebol, com o mercado de Janeiro à vista, ainda é pior. Também por isso, os resultados são muito importantes, e nesse sentido, ontem, João Pereira voltou a ganhar tempo. O que fará com ele, ninguém sabe, sendo certo que parece ter havido um retrocesso no processo desde o jogo com o Boavista. O que nos leva à probabilidade de ocorrência futura de um Complexo de Brunilda: este, que assente na velha lenda alemã de Brunilda e Siegfried (ver Caixa de Comentários), aparece quando num relacionamento um dos parceiros vê no outro um super-herói, produzindo sobre ele expectativas e ilusões demasiado altas, irrealistas, para ao fim de um longo tempo começar a ver os seus defeitos e perceber que afinal ele não era assim tão perfeito, acabando por o desvalorizar por completo. A bem do Sporting, esperemos que Frederico Varandas e restantes defensores da solução João Pereira nunca venham a sofrer deste complexo.
Enfim, as coisas não estão fáceis, mas também não era preciso "A Lei da Desvantagem de Malheiro" para as piorar, promovendo o anti-jogo e a falta de intensidade com que se jogou. Como não é suposto que um jogador tenha de andar a fintar um árbitro que corta sistematicamente linhas de passe a quem ataca por mau posicionamento ou que um vídeo-árbitro não consiga descortinar uma cotovelada na boca de Gyokeres dentro da área do Santa Clara, mas também isso ocorreu ontem, em Alvalade. Pelo que uma coisa é o nosso titubeante João Pereira, outra é a percepção, que espero seja errónea, de que há um sistema a reerguer-se que aproveita o nosso mau momento para definitivamente nos enterrar. Nesse sentido, um VAR avariado não é natural, o que é natural é o Restaurador Olex (e não Alex). E de restauro bem está precisada a arbitragem portuguesa, que o que se passou em Alvalade foi inadmissível para todos com excepção dos "Amigos de Alex", saudosistas de um outro tempo que não queremos que volte.
Tenor "Tudo ao molho...": Vik Thor Gyokeres. Harder marcou um golo importante na primeira vez em que tocou na bola. Debast esteve muito bem até ao momento em que o Santa Clara foi atrás do resultado.

