Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Encontros imediatos do terceiro grau
Pedro Azevedo

Com um treinador certificado do quarto nível, o Amarante vinha a Alvalade defrontar um adversário cujo treinador ainda aguarda a chegada do diploma do terceiro grau, pelo que, seguindo a cartilha da ANTF e seu presidente, os amarantinos seriam à partida os grandes favoritos. Mas Taça é Taça, e a história da Taça de Portugal tem sido feita de Davides que batem o pé a Golias e às vezes até lhes acertam com uma boa fisgada. Pelo que havia a esperança de que a diferença de habilitações literárias entre os comandantes se pudesse esbater e que em Alvalade emergisse o Sporting como um dos tomba-gigantes que ancestralmemte animam a competição. Ao contrário do senhor José Pereira, o João Pereira ainda não é suficientemente conhecedor. Mas começa a dar provas de que é muito mais sábio do que o homónimo José, na medida em que, já dizia o velho Sócrates, sábio é aquele que conhece os limites da sua própria ignorância. Nada porém que abale as convicções do senhor José Pereira, que assentam no seguinte silogismo aristotélico: "Não há conhecimento sem certificação" - primeira proposição; "João Pereira não tem certificação" - segunda proposição; "logo, João Pereira não tem conhecimento" - conclusão. E assim, entre um discípulo de Aristóteles, que foi discípulo de Platão que por sua vez foi discípulo de Sócrates, e um discípulo directo de Sócrates, estabeleceu-se a dicotomia entre conhecimento e sabedoria, que conhecimento é saber que o tomate é um fruto, sabedoria é não misturá-lo numa salada de frutas. Depois, há também a questão de saber-se se ao menor conhecimento se devem aplicar restrições de mobilidade: sem conhecimento, o João Pereira pode estar no banco. Todavia, não se pode levantar ou dar instruções. José Pereira revela aqui uma visão do mundo tipo colégio interno "brutânico", onde coabitam o ponteiro na cabeça, a reguada na mão e o isolamento do aluno não certificado numa cadeira junto ao quadro, imóvel, em silêncio e se possível ostentando umas orelhas de burro. Ora, isto denota um grande desconhecimento da complexidade do ser humano. Se, para José Pereira, o não conhecimento obriga ao imobilismo, a psicologia clínica doutrina que há pessoas, e não só seres hiperactivos ou dislexicos, que se expressam melhor pelo movimento, que necessitam do movimento para melhor compreenderem o mundo e o que as rodeia. São os casos dos bailarinos, actores de teatro e cinema ou... jogadores e treinadores de futebol. Ou seja, para eles menor movimento significa menor conhecimento (e não o seu contrário).
Seja porque o plantel quis marcar uma posição pós-Ruben Amorim ou porque os jogadores sentiram a necessidade de mostrar a sua solidariedade com João Pereira neste diferendo com a ANTF, a verdade é que o Sporting surgiu muito motivado em campo. A revolta tem dessas coisas, e muitas vezes acontece-nos estarmos sozinhos contra o mundo e isso ainda dar-nos mais força. Foi o que aconteceu com o Edwards, que vinha jogando menos e viu aqui uma oportunidade. E lá foi sozinho, contra o mundo, fintando para a esquerda e para a direita, naquele seu jeito de quem mói o sentimento (obrigado, Carlos Tê), de quem questiona o que faz aqui e para onde vai, muitas vezes perdendo-se no caminho, absorto nos seus próprios pensamentos e desligado de tudo o resto. Não desta vez, porque não só encontrou o caminho como escolheu o mais difícil, não recorrendo ao atalho de procurar o seu melhor pé na altura da conclusão. E saiu bomba, abrindo o marcador. Logo de seguida veio uma jogada de laboratório, uma daquelas que para qualquer espírito atento seria motivo de doutoramento de um treinador: aproveitando a actual lei do fora de jogo, Harder expôs-se à profundidade. A defesa do Amarante ficou imóvel, feliz pelo dinamarquês ter caído na armadilha. Só que atrás dele veio o Bragança, que recebeu o passe do Matheus Reis e cruzou para a entrada da pequena área onde Esgaio apareceu a desviar subtilmente para golo. Simples e eficaz. E ao quarto de hora o Sporting fazia surpresa na Taça, ganhando por 2-0 ao treinador licenciado do Amarante. Entretanto, o Trincão estava num turbilhão, rodopiava entre os adversários como se não houvesse amanhã e ia causando os estragos habituais da presença de um furacão. De um desses lances resultou o estrondo de um poste a abanar, o que até fez o Harder trocar os pés. Lívido, o dinamarquês não esperou pela demora: nova bola de Trincão e o Harder a colocá-la fora do alcance do guarda-redes do Amarante. E antes que chegasse ao fim da primeira parte, o Bragança desviou do guardião o suficiente para que o Edwards aparecesse a bisar.
O Amarante perdia 4-0 ao intervalo e pior terá ficado quando os seus jogadores viram o Gyokeres a aquecer. Antes que entrasse, o Trincão combinou com o Harder pelo centro e rematou para o 5-0. Depois, o sueco entrou naquele seu jeito de que ou vai ou racha. E começou por rachar... no poste, duas bombas executadas de livre directo, para logo facturar na sequência de um penalty. Em cima do minuto 90, o Sporting continuava a pressionar o Amarante e a não deixá-lo respirar, a tónica de todo o jogo. No fim foram 6, mas podiam ter sido muito mais. Não sei se Jose Pereira terá ficado incrédulo ao ver um treinador sem nível golear um encartado, mas nestas coisas talvez seja melhor citar o William Blake: "Há o conhecido, o desconhecido, e no meio estão as portas da percepção". Trocando por miúdos, na antecâmara do jogo era conhecimento de todos que o João Pereira não tinha nível. Adicionalmente, desconhecia-se o que poderia mostrar quando tivesse a oportunidade. Acabado o jogo, a percepção geral é a de que João Pereira poderá ter unhas para tocar esta guitarra. O que nos leva a Einstein e este seu pensamento: "É mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito". O futuro dirá se Jose Pereira, à semelhança de idêntica polémica criada com Ruben Amorim, não começou ontem a engolir o preconceito. Preconceito que é um pré-conceito das coisas, e como tal não valoriza a experiência. Não deixa por isso de ser intrigante que quem quer fazer do futebol uma ciência não valorize a experiência, sujeitando-se assim a encontros imediatos do terceiro grau. Imagine-se quando for do quarto...
Tenor "Tudo ao molho...": Trincão
