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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

28
Nov23

Tudo ao molho e fé em Deus

Relembrar o passado em Alvalade


Pedro Azevedo

De tão raro nos dias de hoje, um jogo de Domingo à tarde em Alvalade traz-nos inevitavelmente à memória aquele tempo em que os glúteos se acondicionavam na "almofadinha para a bola", o estômago se acomodava entre um rajá e um nougat - havia também quem, corajosamente, deglutisse o mítico courato e sobrevivesse para relatar a experiência - e a moleirinha se protegia do sol com um chapéu em tricórnio feito de papel de jornal. Nos muitos carros, estacionados em redor do estádio, as senhoras também improvisavam, recorendo ao tricô ou ao crochê como forma de matarem o tempo de espera dos maridos. Como se vê, não era perfeito: a pedra da bancada chegava a ser muito inóspita no Inverno, fria e bastas vezes molhada, e as adeptas do sexo feminino dispunham-se pelo estádio em quantidade muito reduzida. Mas havia um grande número de jovens sempre presente, um castiço apoio organizado ao som de batuque&pandeireta e traje de chapéu de palha (Vapores do Rêgo) e um ambiente geral onde o civismo e o genuíno entusiasmo popular coexistiam em sã camaradagem, ocasionalmente entrecortado com momentos de pancadaria um-para-um rapidamente resolvidos, quase sempre causados pela escassez de sangue no álcool que resultava da ingestão importante para a produção nacional de 5l de vinho de um garrafãozinho ali à mão de tinto a martelo. [Sim, este tipo de objectos potencialmente contundentes (para o fígado) eram permitidos no interior dos estádios.] Lembrei-me disso tudo a propósito da visita do Dumiense...

 

O Dumiense, epíteto de São Martinho de Dume, conversor dos suevos que reinaram no território mais tarde português, no século VI, milita no quarto escalão do futebol português. Em último lugar. Pelo que a tarefa do Sporting nestes dezasseis-avos-de-final da Taça de Portugal não se afigurava difícil. Talvez por isso, os leões entraram a passo, subiram para trote no início do segundo tempo e só mudaram para galope quando Gyokeres entrou para instantaneamente deixar a sua marca na partida. Marcámos cedo, por Neto. Um golo prematuro do ancião Neto não constitui só uma antítese, é também toda uma efeméride. Porque o Neto, que na verdade é avô de todos os outros, não marcava desde o zénite da sua carreira. (De São Petersburgo para São Martinho foram 10 anos de viagem em sobressalto da bola, com esta a chorar a todos os santos.) Todavia, um prémio justo para alguém que joga melhor discursivamente do que com os pés, é muito profissional e tem uma influência bem positiva no balneário. Depois, o Nuno Santos, que já assistira de canto para o primeiro golo, marcou um outro que foi desviado pelo Matheus Reis para a entrada da pequena área onde apareceu o Coates a chutar contra o poste. Na recarga, o Paulinho voltou a mostrar a sua boa relação com o golo... nas Taças. 

 

No segundo tempo, o Sporting entrou com outro ritmo e logo marcou por Trincão. Na assistência, de calcanhar, o Paulinho. De seguida, mais um canto do Nuno Santos e o Coates, que igualava Polga como o jogador estrangeiro com mais presenças em jogos pelo Sporting (e, possivelmente, mais auto-golos, também), a elevar-se e a marcar de cabeça. Depois, cruzamento do Hjulmand e o nosso avançado centro a cabecear para golo. Entrou então o Gyokeres, e com ele a Cavalgada das Valquírias começou: assistência para o hat-trick de Paulinho, recepção de um passe de Nuno Santos (outra vez!!!) e finta ao guarda-redes que terminou em penálti e iniciativa a solo que acabou em golo. Tudo num intervalo de 12 minutos que já contempla os festejos intercalares dos golos. 

 

Foi um Domingo de Taça, com muita gente de Dume (distrito de Braga) a colorir as bancadas e a transmitir a nostalgia dos tempos em que o futebol era encarado como uma festa e não uma batalha. E houve goleada, das antigas também, tónico que se espera inspirador aquando da deslocação a Bérgamo para defrontar a Atalanta, equipa que nos traz à memória o início da nossa única gesta gloriosa nas competições europeias. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Paulinho. Nuno Santos seria uma excelente alternativa e Gyokeres fez muito em muito pouco tempo.

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