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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

13
Nov23

Tudo ao molho e fé em Deus

Perder por ideias que não são nossas


Pedro Azevedo

Em Post anterior, eu havia escrito que o futebol português nunca nos engana e que a nossa melhor hipótese no derby seria anteciparmo-nos e enganarmos o futebol português com um jogador recém-chegado e ainda não aculturado a este meio-ambiente (Gyokeres). Esteve quase a dar certo! Vamos por partes: em primeiro lugar, o futebol português continua a não nos enganar. Mas tenta. Mesmo que, pelo menos desde meados dos anos 80, já saibamos do que a casa gasta, ainda há quem pense que com papas e bolos se enganam os tolos. Vai daí, menosprezando-nos, não fazem a coisa por menos e enviam-nos mesmo o dono de uma pastelaria... Depois, o tema do Gyokeres. O sueco não vai em fitas, joga jogo a jogo o jogo pelo jogo, como um homem de barba rija, e é terrivelmente eficaz. Não foi por ele que perdemos ontem, mas poderia muito bem ter sido por ele que o teríamos ganho, assim tivesse havido ainda um pouco mais de ambição colectiva no primeiro tempo. Mas não houve, o que poderia ter passado por um lateral/ala mais ofensivo (no ano do título eram Pedro Porro e Nuno Mendes), e pusemo-nos a jeito para o que restava do jogo. Por fim, as razões principais pelas quais não deu certo, que remeto para os próximos parágrafos. 

 

Não deu certo porque o Inácio foi expulso e ficámos 46 minutos a jogar com menos 1. Como a expulsão resultou de um segundo amarelo, o lance não foi ao VAR. Se tivesse ido ao VAR, o alegado toque que originou a falta e o cartão não seria nítido na pantalha vermelha e branca que realizou a transmissão (mais uma singularidade da infindável xico-esperteza lusa), pelo que provavelmente o Inácio teria sido despenalizado e nós continuaríamos a jogar com 11. Todavia, Rúben Amorim, no final, concedeu que foi falta, e, se o nosso próprio treinador viu aquilo que a televisão não mostrou, eu não vou estar aqui a defender o indefensável. 

 

Também não deu certo porque uma chave de pernas por trás ao Gyokeres que o poderia ter lesionado gravemente nos ligamentos de um joelho, perpetrada pelo excelente João Neves (curiosamente, mais tarde decisivo no volte-face encarnado), não mereceu do árbitro e VAR mais do que um cartão amarelo, mantendo-se assim o Benfica com superioridade numérica no campo. Essa dualidade de critérios foi aliás flagrantemente expressa no tratamento dado aos dois maiores pantomineiros em campo: enquanto Edwards viu o amarelo por simulação, Rafa atravessou o jogo todo a recrear o Baywatch, sem Pamela Anderson ou naufragos por perto que o justificassem, passando incólume ao critério arbitral. 

 

Igualmente não deu certo porque o árbitro decidiu prolongar a partida por mais 6 minutos, o que pareceu excessivo a toda a gente que não torcesse pelo Benfica. Paradoxalmente, o timing do último golo, já nos descontos dos descontos, justifica-se pelo tempo perdido nos festejos do golo do empate.

 

Finalmente, não deu certo principalmente porque numa altura em que era preciso esconder a bola e há muito que o Morita já andava de bofes de fora, o nosso treinador fez entrar o Paulinho para o meio campo em detrimento do Bragança. Usando o argumento de que era preciso ganhar bolas de cabeça. Se era por isso, não se entende porque foi o baixinho Esgaio batido ao primeiro poste no golo do empate do Benfica e não estava lá o Paulinho, sabendo-se que St Juste estava logo atrás e as outras torres (Coates, Diomande, Gyokeres, Hjulmand) concentradas no meio, junto à pequena área. Onde estava o Paulinho (para lá daquela hesitação à entrada da nossa área, em que deixou a bola bater no chão por clara desadaptação à função)? [Se Amorim propala tanto a ideia da nossa cultura de posse de bola, não se entende porque trocou a cultura pela agricultura (mandando a ideia "às couves") e se preocupou mais em reagir ao adversário do que agir em consonância com as suas ideias base.]

 

Concluindo, nada do que se passou ontem na Luz e que se relaciona com o futebol português nos enganou, era tudo esperado. Quem nos enganou ontem foi o nosso treinador, que desta vez mexeu mal e não resistiu a lançar jogadores da sua predilecção, mesmo que fora do seu habitat natural, dando assim uma prova de falta de confiança a um jogador (Bragança) que até estava a subir bastante de produção. O Edwards, que apesar de pantomineiro criou 2 lances de golo (aquele que Pote desperdiçou, até bem mais evidente), o Hjulmand (melhor exibição de verde e branco), o Morita - "You say Morato, I say Morita... Let's call the whole thing off" -, imperial no 1º tempo com os seus passes de primeira sempre precisos e a tirarem diversos adversários simultaneamente do caminho da bola, o Diomande, o Coates, o patinho feio Matheus Reis e, acima de todos, o Gyokeres mereciam melhor contrapartida para o engenho e o labor que puseram em campo. Faria bem por isso Amorim assumir as culpas na globalidade, e não tanto no que concerne a Inácio. (Se de cada vez que um jogador influente apanhar um cartão amarelo o seu  treinador o tirar do campo, então o medo de perder uma peça suplantará a vantagem de a ter em campo na mentalidade desse treinador.)

 

Uma pena perdermos um jogo assim, quando durante uma segunda parte inteira em inferioridade numérica conseguimos jogar com mais critério do que o nosso adversário (mérito da repetição de treino, que é uma competência do treinador Amorim), o qual se foi mantendo ligado à vida quase exclusivamente pelas acções de João Neves e de Aursnes. Frustrante, porque 6 pontos de avanço na tabela classificativa a 2 minutos do fim viraram igualdade pontual no fim da contenda. Como se não bastasse, a sempre aparente, falaciosa e errónea ideia do controlo do jogo, ontem (novamente) reiterada em conferência de imprensa por Amorim. Mas será que não se aprende que um jogo só está devidamente controlado quando a vantagem no marcador é de tal forma expressiva que assim o recomenda? Ou, pelo menos, quando a bola está na nossa posse? Custa perder assim, mas a maior derrota foi abdicarmos das nossas ideias para nos tentarmos adaptar às ideias dos outros, borrando assim uma pintura digna de um Mestre. Mesmo no finalzinho do jogo.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

Gyokeres benfica.jpg

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