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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

13
Ago23

Tudo ao molho e fé em Deus

Resolvido o dilema epistemológico


Pedro Azevedo

O Sporting tinha um ponta de lança associativo que não marcava golos. Como ser ponta de lança e não marcar golos parecia uma contradição nos termos, logo entre os adeptos se gerou uma discussão epistemológica com o fim de determinar o fundamento lógico da existência de um ponta de lança assim, o seu valor intrínseco (o que é uma coisa diferente do preço) e a sua importância subjectiva (o tal do "associativismo") e objectiva (golos). Tudo muito filosófico e até a roçar a metafísica, ou não fosse o Sporting um clube onde a própria razão de ser foi posta em causa quando um presidente disse preferir dois segundos lugares a uma primeira posição. Nesse impasse, a dialética sobre o que andamos a fazer por aqui acabou por sobrepor-se à própria dialética sobre a utilidade de um ponta de lança associativo. Faz sentido, porque, embora para os ingleses o futebol seja definido como "association", toda a gente no mundo sabe que o objectivo do futebol é marcar golos, sendo que não os marcar seria a negação do próprio jogo e, logo, da razão da nossa existência enquanto clube com a modalidade de futebol. Esta dialética hegeliana tornou-se tão importante para nós ao ponto de lhe termos dedicado duas épocas desportivas inteiras. A uma tese maioritária defendida pelos adeptos, contrapunha Amorim com a antítese. A ausência de resultados desportivos acabou por desnivelar a balança a favor dos adeptos e no defeso fizemos a síntese e partimos avidamente à procura de um ponta de lança que também fizesse golos. A ideia pareceu-me boa, na medida em que fez jus a opções ancestrais de aposta em guarda-redes que evitem que o adversário marque ou em defesas que efectivamente defendam. Nada como pormos as coisas em perspectiva, não é verdade? E veio o Gyokeres.

 

Se antes tínhamos um ponta de lança associativo, com o Gyokerers ganhámos um ponta de lança cumulativo. Do tipo que marca golos ao mesmo tempo, ou com poucos segundos de diferença, aos pares, conjuntamente, de pé esquerdo ou direito, com um toque de calcanhar ou uma mudança de direcção como preliminares. Estranhamente porém, teve de fazer tudo sozinho, ou seja, a equipa não foi nada associativa consigo, não o serviu uma única vez em condições, ao contrário dele que ainda teve tempo para dar um golo cantado a Bragança. Nesse particular, o Trincão, o Matheus Reis e até, imagine-se, o Pote (pior jogo que lhe vi fazer de verde e branco) exageraram. Se no caso do Matheus - eu punha-o a estudar o projecto Gertrudes de simulação de trânsito - o problema é a existência de uma diacronia crónica entre o seu cruzamento e as movimentações dos colegas mais avançados, no que diz respeito ao Trincão trata-se de uma questão de ter mais olhos do que barriga e assim insistir errada e reiteradamente na solução individual. Já o Pote eu compreendo bem. Correndo o risco todos nós de o perder antes do fecho de mercado, o Pedro sacrificou-se pelo nosso ideal e afastou de uma só penada os mesmos olheiros tipo aves agoirentas que um dia nos levaram o Matheus Nunes. 

 

O que é certo é que houve pouco Sporting além de Gyokeres. Após 25 minutos de jogo a equipa desligou para não voltar a ligar-se. A saída de Bragança também não ajudou, assim como a anunciada passagem de Pote para o meio campo a fim de termos mais uma solução atacante (Amorim dixit, conferência de imprensa anterior ao jogo). Com tanta solução atacante a engonhar (o Edwards ajudou à festa), esquecemo-nos de defender, o Morita esgotou-se de tanta transição em inferioridade numérica. O jogo partiu-se inúmeras vezes e acabámos por sofrer também nós golos aos pares. O último foi revelador da aposta na nossa Formação... pelo Vizela: assistência de Tomás Silva para golo de Nuno Miranda.

 

A partir daí deixámos de todo de jogar, optando durante mais de 20 minutos pelo chuveirinho. Reminiscência do passado recente, o Coates foi para ponta de lança, posicionando-se ao lado do Gyo e do Paulinho, que entretanto havia entrado. E acabariam por ser estes 3 a combinar para o golo salvador que evitaria um maior sobressalto: o sueco ganhou de cabeça na área, Coates saltou com um defesa e a bola espirrou para o Paulinho, que marcou com o seu pior pé. Um momento mau para a Tuna do Paulinho - certamente teria preferido que este baixasse linhas, basculasse ligeiramente, distribuísse nas alas e outras tretas próprias de cantorias dionisíacas do futebolês - , mas óptimo para os associados e adeptos do Sporting. Somámos 3 pontos e os nossos golos foram todos marcados por pontas de lança. Afinal, talvez o futebol não precise de ser reiventado. (Com esse reconfortante pensamento, adormeci num sono profundo e relaxado.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

GyokeresIMGL7214.jpg

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