Todos na roda e fé em João Almeida
Pogacar no topo e o João a subir
Pedro Azevedo

Auguste Comte, fundador da corrente (tem tudo a ver com bicicletas) do Positivismo, disse um dia que tudo na vida é relativo, sendo esse o único valor absoluto. Percebo a ideia: um colaborador de uma empresa fica satisfeito com o bónus que recebeu no final do ano, mas após tomar conhecimento de que um colega auferiu um prémio maior logo o sentimento muda radicalmente. Mas há excepções: por exemplo, os princípios e valores comportamentais são absolutos. Adicionalmente, os mercados financeiros ensinam-nos que o relativo pode ser uma serpente envenenada se não cuidarmos de saber o valor absoluto dos activos. E depois surge o ciclismo enquanto parábola desportiva do equilíbrio entre o relativo e o absoluto. Quer dizer, na maioria das vezes os ciclistas estão a pedalar uns contra os outros, mas depois chega aquele dia em que pedalam sozinhos contra o asfalto e o tempo e têm de impor um ritmo de acordo com as suas capacidades e não em função de outrem. A essa prova, dita da Verdade (existe algo de metafísico, no sentido do conhecimento do ser e da sua essência e capacidade de sacrifício, no conceito de pôr o Homem em cima de uma bicicleta durante horas, dia sim, dia sim, subindo e descendo montanhas), chama-se contra-relógio. Hoje foi dia de contra-relógio no Tour de France.
À partida, o grande favorito era Remco Evenepoel, com capacete de Hermes e bicicleta dourados e camisola arco-íris, símbolos de campeão olímpico e mundial na especialidade. Depois surgiam Pogacar e Vingegaard, os outros grandes candidatos à camisola amarela em Paris. E, de seguida, os especialistas e os "wanna be" à geral, estes últimos representados à cabeça pelo nosso João Almeida. No fim, não houve grandes surpresas: Evenepoel ganhou, Pogacar foi segundo e Almeida não esteve bem nem mal, esteve ao seu nível (oitavo no c/r e quarto entre os pretendentes à geral). Surpresas, pela positiva, foram Vauquelin (quinto) e Lipowitz (sexto), e pela negativa o Vingegaard (apenas décimo terceiro). O perfil plano não ajudou os ciclistas mais leves, ainda por cima estando o vento pela frente, o que justifica em parte a má prestação do dinamarquês. Na geral, Pogacar é agora o camisola amarela e Evenepoel é o segundo. A sensação Vauquelin completa o pódio, à frente dos Vismas Vingegaard e Jorgenson, e o João subiu para sétimo, uma posição abaixo do que eu aqui prognosticara, à frente do candidato Roglic e dos competentes Lipowitz, Skjelmose, Onley e Mas, candidatos ao Top 10 final. Seguem-se mais umas etapas estilo Clássica, um novo c/r (décima terceira etapa) com um perfil diferente (escalada) e depois o pináculo da coisa, Alpes e Pirinéus, a prova dos 9 que tudo clarificará.
Vai bom o Tour, emocionante. E o João continua lá, entre os melhores, sempre vindo de menos a mais (no c/r foi vigésimo no primeiro ponto intermédio, décimo quinto no segundo, décimo segundo no terceiro e oitavo no fim), que no final, em Paris, pode significar um pódio. Aguardemos...
