Ontologia
Pedro Azevedo
Na apresentação de Rui Borges, Frederico Varandas revelou-se um filósofo, abordando questões metafísicas e, em particular, ontológicas. "João Pereira não pôde ser João Pereira" - disse Varandas, não deixando de referir que "Rui Borges vai poder ser Rui Borges". O facto de alguém não ter podido ser ele próprio não deixa de ser intrigante num clube em que esse alguém é posteriormente substituído por outro a quem será permitido ser igual a si próprio. Porque é que João Pereira não pôde ser João Pereira? Não se sabe, mas crê-se que temos de acreditar que Rui Borges será igual a Rui Borges, logo diferente do João Pereira que não conseguiu ser igual ao João Pereira original que seria igual ao que se espera de Rui Borges se ele puder ser igual ao Rui Borges, ou seja, que em 4 anos esteja num colosso europeu. Confusos? Não, foi só mais uma conferência de imprensa de Frederico Varandas, na sequência do Sporting não ter podido ser Sporting e assim ter despedido João Pereira no Dia de Natal. Agora, Rui Borges vai ter de ser igual a Rui Borges, ainda que Varandas lhe tenha oferecido um presente ainda mais envenenado que aquele que embrulhou para João Pereira, com Benfica, Vitória e Porto de enfiada e sem poder treinar suficientemente o seu sistema. Convenhamos que à luz disto, a maçã que a bruxa má ofereceu à Cinderela é uma estória para meninos. Mas como Rui Borges é transmontano e lá os meninos tornam-se adultos antes do tempo, teremos de acreditar que o conto de fadas é possível.
"Romeiro, Romeiro, quem és tu? - Ninguém!" - Trecho de "Frei Luis de Sousa" dedicado a D. João de Portugal (mas podia ser a outro João, o Pereira, que também não pôde ser ele), por Almeida Garrett.


