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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

20
Jan26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Suarez contra o saco de dinheiro


Pedro Azevedo

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Numa perfeita recuperação da alegoria de David e Golias, Suarez desferiu duas fisgadas no saco de dinheiro dos qataris patrões do todo poderoso PSG, campeão europeu em título. Com esses dois golpes, o saco rompeu-se, pareceu subitamente haver uma redistribuição da riqueza e o jogo democratizou-se, recordando-nos nostalgicamente a Europa de futebol do final dos anos 70, início dos 80, com os "underdogs" Forest, Anderlecht ou Aberdeen, onde até não faltaram (há sempre exageros próprios de uma época) as permanentes de cabelo "à Grease" do Mangas. 

 

Cruijff, um génio do futebol mundial (como jogador e treinador), disse uma vez que nunca tinha visto um saco de dinheiro ganhar um jogo. As equipas podem ter orçamentos exponencialmente diferentes, mas dentro do campo são 11 contra 11 e num jogo tão democrático como o futebol tudo pode acontecer (inclusive uma equipa com um Kocho vencer). E aconteceu, ontem, em Alvalade. 

 

O saco de dinheiro, apesar de muito pesado, revelou-se muito móvel, obrigando os jogadores do Sporting a correrem para trás e para a frente e da esquerda para a direita (e vice-versa) a fim de o acompanharem. A manobrá-lo no "joystick", um português: Vitinha, o homem da PlayStation do jogo do Monopólio (do PSG). O Sporting tentou durante todo o tempo ligar o jogo com Suarez. Quando o elástico não se partia pelo caminho, a bola chegava lá, mas durante o primeiro tempo faltou quase sempre o desdobramento nas costas do colombiano, papel que estaria destinado essencialmente a Geny (mais explosivo que Maxi e Trincão, estes mais organizadores), que foi sempre muito bem marcado pelo "nosso" Nuno Mendes. 

Suarez é astuto como uma raposa e sabe posicionar-se muito bem nas bolas paradas, sempre furtivamente em busca de espaços desocupados. Ontem, dessa forma, assaltou em duas ocasiões o galinheiro francês. Na primeira, beneficiando de uma bola de ressaca deflectida em Vagiannidis, de seguida numa recarga após defesa do guarda-redes gaulês a um remate de Trincão. Se após o primeiro golo, os parisienses tremeram (mas Kvaratskhelia serenou-os), o segundo produziu-lhes um efeito de "knock-out" semelhante ao que Marques Mendes experenciou quando tomado de assalto por Gouveia e Melo. Como resultado, até ficaram a ver estrelas (no Céu). Não descobrindo a Polar, jamais voltariam a encontrar o norte. 

Rui Borges mostrou de novo à saciedade aquilo que não nos cansamos aqui de referir: tacticamente é um treinador brilhante. Falta o resto: um melhor aproveitamento dos diamantes lapidados em Alcochete em detrimento da aposta em zircónio comprado na Feira do Relógio do futebol europeu. Ontem, vários desses diamantes estavam lá, no banco, metaforicamente mostrando-nos que a aposta neles é dinheiro no banco. E, bem geridos, um saco bem gordo de dinheiro. Como nos mostram os Ronaldo, Figo, Nani, Simão, Quaresma, Viana e Quenda, mas também Simões, um miúdo de 18 anos que joga como gente grande, embora, para jogar assim nos grandes palcos, primeiro tenha tido que se mostrar nos terrenos baldios e quintais das nossas provas domésticas, oportunidade que Flávio Gonçalves e os demais ainda aguardam por acontecer e já deveria ter ocorrido consistentemente em tantos jogos antecipada ou prematuramente ganhos. É por isso uma pena que Rui Borges ainda não tenha dado esse passo, que também seria um passo em frente na nossa sustentabilidade, porque de resto é um treinador de enormíssima qualidade, que imprime às suas equipas dinâmicas difíceis de contrariar até para um campeão europeu. Sem Diomande (ou Quaresma), Hjulmand, Quenda ou Pote, é bom relembrar. Para não falar em Nuno Santos, "O Desejado", raça de leão num émulo de D. Sebastião que numa manhã de nevoeiro esperamos voltar a ver em Alvalade (o jogo até deverá ser antecipado festivamente para uma hora matinal e tudo). 

Com esta vitória, o Sporting garantiu o apuramento para a próxima fase da Liga dos Campeões. E pode até apurar-se directamente para os oitavos de final da prova milionária, assim vença em Bilbau, o que nos leva à pergunta: iremos lá vestir o traje de gala ou quedar-nos-emos em "pelota" (basca)?

 

Tenor "Tudo ao molho...": o "cafetero" Suarez 

07
Jan26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

As Causas dos “Acasos”


Pedro Azevedo

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Rui Borges finalmente deu a titularidade a Flávio Gonçalves, que mostrou bons pormenores técnicos e inteligentes movimentações nem sempre aproveitadas pelos colegas. Depois, no segundo tempo, aceitou com brio uma missão de sacrifício e que até não assentaria bem a um jogador inexperiente que não tivesse um entendimento tão grande do jogo como ele, recuando no terreno para ajudar Maxi a estancar o lado direito do ataque do Vitória. Saiu com o Sporting a ganhar por 1-0, rendido por Morita que não teve mais um dia não porque foi mesmo péssimo, desperdiçando um golo cantado (não acertou bem na bola) e dando o toque imprudente que possibilitou a reviravolta no marcador. Com a saída do Flávio, o Sporting entregou o jogo ao Vitória, aparecendo na frente só pontualmente, em transição, e deixando de impor a melhor qualidade dos seus jogadores e a superior dinâmica colectiva, jogando como equipa pequena. Uma reprise de Barcelos, mas com danos ainda maiores. Evidentemente, as lesões complicaram a nossa vida, especialmente a que vitimou o Quaresma (a saída de Ioannidis também implicou a perda de um jogador capaz de esticar o jogo). Mas o Flávio não saiu por lesão e o Simões e o Trincão também não, este último substituído pelo treinador quando já se sabia que iriam ser jogados 11 minutos adicionais de compensação. Para o seu lugar entrou o Luís Guilherme, recém-chegado, sem ritmo de jogo, conhecimento dos colegas e das dinâmicas da equipa. Estava a leste quando o Vitória entrou pelo nosso lado direito (um bar aberto) e marcou o segundo golo, tal como Alisson no lance do primeiro golo em que o Sporting permitiu um 2x1 no seu lado esquerdo. Antes, mesmo a acabar o primeiro tempo, a 2 metros da baliza e quando o bom senso aconselharia um toque suave na chicha para desviá-la do guarda-redes, o Alisson tentou assassinar o Charles, usando a bola como o móbil (e que "móbil"!!!) do crime. (Há adeptos de futebol, muito apreciadores das correrias do Alisson, que nos dias dos nossos jogos deviam ir para o Estádio Universitário bater palmas aos atletas que evoluem nas pistas de tartã.)

A ideia que tudo acontece por casualidade ou por azar, devendo-se ao aleatório ou ao mau-olhado, faz tão pouco sentido quanto o discurso deprimente (des)conexo do nosso treinador na conferência de imprensa que se seguiu ao jogo, em que não faltou uma pergunta muleta de um jornalista a dar o ar que o que correu mal deveu-se a ter de se apostar na Formação e bom mesmo seria ir ao mercado. A resposta de Rui Borges foi o único momento dessa conferência que fez sentido, mostrando a esse jornalista que não se pode ter um plantel de 40 jogadores quando se recuperarem os lesionados. Não, a casualidade (ou contingência) não tem necessariamente de acontecer, tem a ver com o livre-arbítrio do decisor e é uma construção da mente que resulta da ignorância da suas causas, como defende Leibniz. E o azar, se entendermos que a sorte é quando a oportunidade encontra a preparação correcta,  então ocorre quando surge uma ameaça e não estamos suficientemente preparados para a enfrentar. Como foi o caso de ontem, com substituições essas sim feitas de modo aleatório, cujo eventual único critério foi dar minutos a jogadores e que em cascata produziram o efeito de carambolas de bolas de snooker todas a caírem no nosso saco. Nesse sentido, expressão cara a Rui Borges, fica a nota que todos os jogos que o Sporting não ganhou domesticamente ocorreram com Simões fora do campo (não jogou com Porto e Braga, entrou tarde na Luz e com o jogo já empatado, saiu em Barcelos e com o Vitória com o Sporting na frente). Será por acaso ou porque é preciso insistir em Morita e em Kochorashvili até à morte (à nossa morte, entenda-se)? Aliás, mesmo as escolhas de jogadores da B, excluindo Flávio e talvez Blopa (se este puder ser adaptado a lateral), fazem pouco ou nenhum sentido. Felicíssimo, por exemplo, esta época nunca foi chamado e talvez não perdesse a bola como Kocho num lance que desequilibrou totalmente a equipa. Rayan Lucas impressionou na pré-época, mas desde aí seguiu-se um apagão. E o Mendonça, pilar da B, simplesmente não conta, assim como o Mauro Couto, que, em vez de evoluir face ao muito bom ano anterior, está a regredir, porque demorou-se uma eternidade a chamar o Flávio à equipa principal e assim este tapou-lhe o lugar. Quem parece contar é o Romulus (e não o Muniz, nosso desde sempre), com nome de legionário do Império Romano (talvez por isso lhe pesando as botas), que fomos desencantar ao mercado. O mercado do nosso descontentamento, aquele da "Feira do Relógio" (ou das vaidades), onde não moram os Gyokeres, Hjulmands ou Maxis (ontem, excepcionalmente, com um jogo muito mau). É a nossa atração pelo abismo, mas também a vaidade e sobranceria de uma Direcção que assim vai minando tudo o que de bom anteriormente foi feito. Até ao dia em que se conclua que as boas ideias afinal não passaram dos power-points. O momento "é o que é", e não há narrativa que o possa negar. Mas podemos arrepiar caminho, reconhecer os erros próprios e dar a volta (e não a narrativa) por cima. Haverá vontade e ânimo? Ou o fantasma de Amorim já anda por aí? 

Tenor "Tudo ao molho...": Quaresma (depois dele, o marasmo). 

 

02
Jan26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Modelo de Formação centrado no mercado


Pedro Azevedo

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Não se entende porque se gastam tantos recursos na Formação e se cria um modelo centrado no jogador, se depois o treinador prefere um Alisson Bolt a um Flávio Gonçalves. O paradoxo da coisa é a palavra-chave da Formação ser "centrado" e o treinador da equipa principal preterir um jovem em função de um jogador que lá para 2028 é capaz de vir a realizar um centro, tão incapaz é de entender o jogo colectivo (talvez porque não se desenvolveu na nossa Formação). Não havendo Pote, o substituto natural seria o Flávio, mas Rui Borges preferiu um velocista com pinta de cromo da Motown a um jogador de futebol e foi "compensado" com o golo do empate quando Alisson se atirou para o chão e abriu uma passadeira vermelha para um gilista marcar à vontade. 

O jogo começou logo mal com a opção de Rui Borges por dois laterais inoperantes no jogo ofensivo (Mangas ausente por lesão). Sem "carrileros" nas alas que atraíssem marcações para libertar Maxi e Trincão no jogo por dentro, o Sporting ficou totalmente dependente do seu jogo interior. Dada a enorme concentração de jogadores gilistas na faixa central, apenas um passe muito preciso poderia isolar alguém no comprimento. E isso aconteceu, quando Quaresma acionou o gps e fez a bola chegar ao destino que Suarez pretendia para a um só toque colocar a bola dentro da baliza do Gil. Como o golo aconteceu mesmo em cima do apito para o intervalo, o Sporting regressou ao balneário em vantagem no marcador. 


No segundo tempo, Suarez desperdiçou um penalty em movimento após boa movimentação de Trincão. Como Maxi não estava a ter bola, Rui Borges pensou em recuá-lo para lateral, a ver se a equipa conseguia ter comprimento e largura. Mas com isso veio o equívoco: em vez de escolher um jogador interior, Borges optou por Alisson. Se a ideia era ter espaço nas alas, a entrada do brasileiro atraiu mais um adversário para o marcar, o que significou que o corredor ficou sobredotado de jogadores, sem nenhum benefício para o jogo interior porque Maxi havia recuado no terreno. É que o futebol é tempo (execução) e espaço (destino), e a esse espaço deve chegar-se à hora certa, não antes (lá estacionado) nem depois (atrasado). Para complicar ainda mais as coisas, Inácio fez-se expulsar por défice de velocidade e a Alisson foi pedido que passasse para a direita. Com o Gil sempre a despejar bolas para o segundo poste e a tirar muitos centros da esquerda para a direita da nossa defesa, tal opção foi desastrosa, até porque já antes Fresneda (jogo péssimo) havia falhado a marcação e só por milagre Rui Silva conseguira evitar o golo. Mas, ainda assim, Rui Borges decidiu-se por esse verdadeiro hara-kiri e o resultado foi o que se viu. 

Com este tipo de opções do seu treinador, o Sporting não perde só o campeonato, perde também o futuro. Por muito que Tomaz Morais apresente modelos de Formação centrados no desenvolvimento do jogador jovem, o treinador da equipa principal vai sempre pedir uns presentes no sapatinho de Natal (que, dada a dimensão requerida, é feito sob medida nos estaleiros da Lisnave). E o presidente anui, dando a imagem para dentro (sócios e adeptos) de que deu tudo ao seu treinador para ele ganhar. Então vêm o Luís Guilherme e depois o Faye, a Formação é colocada numa gaveta ou mesmo mandada às urtigas, Frederico Pilatos lava as mãos ou assobia para o lado  e no fim do campeonato dá-se mais uma voltinha ao mercado. Para disfarçar, no defeso far-se-ão mais umas obras em Alcochete, nomeadamente com a construção de uma ladeira, do alto da qual se poderá projectar esse pedregulho chamado Formação, que na verdade não é mais do que um Castigo de Sísifo imposto aos Sportinguistas. A Centrai de Comunicação logo ecoará umas lendas&narrativas (uma "cava" de cave, que não é Alexandre Herculano quem quer) e tudo continuará na paz ido Senhor. Bater-se-ão umas palminhas, que Alcochete é uma casa bonita e com "cachet" para mostrar aos amigos, e mudar-se-á somente o essencial para que tudo fique exactamente na mesma. Como no Leopardo, do Lampedusa, ainda que nós sejamos leões. Fica tudo em família...

Nota complementar: o Barcelona tem na sua equipa principal doze jogadores sub-23 formados em La Masía já utilizados esta época em La Liga, seis deles ainda sub-18 (dois com apenas 17 anos). E não são visitas esporádicas, para "inglês ver". 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma (o melhor defesa por uma milha de diferença e o jogador que mais acções com critério realizou em todo o jogo)

24
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Vertigens


Pedro Azevedo

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Depois da ameaça de participações à FIFA, UEFA, ONU, Comissão Europeia, Instituto de Socorros a Náufragos, Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (organismo responsável pela protecção da Águia-Real), que teve continuidade numas quantas visitas de Rui Costa ao Muro das Lamentações - tudo embrulhado na emissão ininterrupta de quantidades de CO2 ("COMUNICADOS") suficientes para poluir inapelavelmente o ambiente desportivo nacional -, o clube da Luz recebeu de presente um penalty com a assinatura do Pai Natal do VAR.  Um ponto (ou melhor, três) a favor de Rui Costa, que fiel ao ditado de que "Quem não chora, não mama" foi capaz de deixar todos os funcionários do seu clube à sua espera para jantar enquanto ele via, com a habitual gula comunicativa, um jogo do rival Sporting. Chorassem! [Para estimular o apetite do Rui, um Comunicado duas vezes ao dia produz-lhe o efeito placebo equivalente à toma de Complexo B(enfica) Forte.] 

 

Confesso que esta coisa de ter o Rui Costa com binóculos de infra-vermelhos em punho sempre a espreitar para nossa casa me incomoda um bocadinho. Desde logo porque se associa muito o Benfica a vouchers mas não tanto a voyeurs (se excluirmos as solícitas "Toupeiras", claro). Por isso, a ideia de sentir o presidente das águias do outro lado da Segunda Circular a fazer-nos vigilância, enquanto fuma dois maços de Marlboro encarnado e rói uns torresmos bem durinhos que o Mourinho lhe preparou num Tupperware para as vigílias nocturnas, faz-me lembrar umas cenas do "Vertigo", do Hithcock, com um Rui Costa muito obcecado e cheio de medo (e de vertigens) do patamar alto em que o Sporting tem estado neste último triénio. 

Para continuar em alta, o Sporting precisava de entrar no Natal com uma vitória em Guimarães. Sem Pote e com Rui Borges renitente em apostar num jogador com características semelhantes (Flávio Gonçalves), preferindo assim mudar a forma de jogar da equipa (inclusão de mais um ponta de lança) enquanto espera também ele por um presente do Pai Natal Var...andas que objectivamente será um castigo de Sísifo aplicado ao trabalho da Formação. 

Como bom grego que é, Ioannidis não é homem para se pensar que não parte um prato. Pelo contrário, se o deixarem, quebra mesmo a louça toda. Dizem que dá sorte! Vai daí, esteve em 3 golos do Sporting, mostrando que não é só um jogador de procura de "profundidade" (o Júlio Verne e as suas 20.000 Léguas Submarinas são uma inspiração para o jornalismo desportivo, também ele à míngua de um Capitão Nemo que o salve do naufrágio) mas também tem técnica e visão de jogo para actuar atrás do ponta de lança. Além de que há anos que não tínhamos um ponta de lança tão bom de cabeça, o que é uma valência que acumula com uma frieza na hora da finalização que não tem comparação com a de Suarez (enquanto a baliza para o grego é o Rossio, ao colombiano, em tudo o resto um bom jogador, assemelha-se à Rua da Betesga).

 

Com Rui Borges mais uma vez a surpreender através de uma dinâmica nova, com Maxi mais por dentro e Mangas como "cavalo à solta a galopar contra a ternura" (Ary dos Santos) em todo o corredor esquerdo, o Sporting conseguiu uma superioridade numérica no meio campo através do uruguaio e de Simões, Trincão e Ioannidis, havendo sempre um homem livre a encontrar espaço dentro do bloco do Vitória. Isso, associado ao bar aberto que constituiu o lado direito da defesa do Vitória, esteve na origem da vitória gorda do Sporting, que, quando parecia que tudo estava na paz dos céus, chegou a ser ameaçada por um Arcanjo dissidente e com um nome (Telmo) que nem consta na Bíblia, certamente por não ser portador de boas notícias. Também não ajudou ao Sporting o facto de Rui Silva ter aberto a capoeira... 

 

Esta coisa de um Arcanjo desavindo pôr em causa a vontade de Deus deu logo azo à aplicação da Lei do Talião: olho por olho, frango por frango, a punição ao Vitória surgiu através de uma punição exactamente proporcional ao dano a nós causado. Um caso de Justiça Retributiva, mas sem a participação da AT. Tempo ainda houve para Maxi colocar o 4-1 final no marcador, num jogo em que o mago Trincão encantou no esplendor de toda a sua fantasia.  

Entretanto, na Luz, sozinho no seu gabinete e de televisor já arrancado intempestivamente da ficha, por entre sinais de fumo enviados a Mourinho a pedir explicações para os 11 golos de diferença face ao rival lisboeta (estas coisas fazem-se em código), Rui Costa prepara a redação de mais um Comunicado para a noite de Consoada. Para consumir com o bacalhau (mas já sem o Brás para lhe fazer companhia)...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão 

19
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

A Modernidade Líquida de Bauman


Pedro Azevedo

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Sob o impulso de uma cabeça brilhante (Pedro Proença), o Renascimento Tuga voltou ontem a dar ao mundo um glorioso exemplo de como por cá brotam em catarse as ideias mais inovadoras: nos Açores, a Taça de Portugal ganhou um toque de modernidade com a introdução mundial dos três prolongamentos (em bom rigor, um "varlongamento" a anteceder dois prolongamentos). A concorrer para essa novidade esteve uma unha (en)cravada de um jogador do Santa Clara no pescoço sensível do Hjulmand. Dada a proximidade com a carótida esquerda do dinamarquês, dizem as más línguas que a delicada operação terá sido entregue à precisão do bisturi de um reputado cirurgião, mas "A Poesia do Drible" está em condições de garantir ao Leitor que a intervenção foi tão só conduzida por uma manicure de Ovar, o que justificará os 15 minutos de tagarelice perdidos e a coscuvilhice que se lhe seguirá durante semanas, com o clube da mão de Vata, da Taça da Carica, dos vouchers, Mala Ciao e das toupeiras logo a emitir um comunicado onde se queixou da desventura (e não Boaventura) e aquele italiano que fala "ingalês" em Portugal (é sempre curioso ouvir um italiano a falar "ingalês" em qualquer parte do mundo) a dar uma alfinetada na Modernidade Líquida de Bauman, em que a ciência e a técnica se sobrepõem à incessante busca da verdade consubstanciada em ancestrais tradições como as do "Golden Whistle", sendo esta um último resquício da Modernidade Sólida que em Portugal perdurou até ao primeiro lustro do novo milénio (em Portugal há tradições que demoram sempre mais um bocadinho a serem erradicadas).  

Todos aqui sabem que sou um grande defensor do trabalho do nosso treinador, mas ontem Rui Borges fez quase tudo o que estava ao seu alcance para perder o jogo. Comecemos pelo fim (para variar): nas últimas semanas, vários adeptos do nosso clube vêm-me sugerindo que lançar o Flávio de início seria queimar o jogador, que o mais recomendado seria pô-lo em campo só quando os jogos já estivessem resolvidos a nosso favor, de preferência após as torres de iluminação se apagarem e tudo (acrescento eu). Pois bem, depois de desperdiçar mais de uma hora com aquele electrizante sósia do James Brown que desconhece por completo a razão pela qual os ingleses (que criaram o jogo) designam o futebol pelo termo "association" (é mais um réu do solo do que um rei do soul) e de ter perdido o controlo do jogo com a troca de Simões por Kochorashvili, Borges decidiu finalmente mandar o Flávio para o relvado como o salvador da pátria, aos 90 minutos e com a equipa em desvantagem no marcador. Não foi um queimanço qualquer, mas sim um crematório inteiro, o que demonstra como todos os considerandos sobre o tema partiram de um pressuposto errado, que na verdade a gestão de Rui Borges obedece a uma burocrática pirâmide vertical de múltiplas hierarquias onde na base se encontra a Formação (foi preciso perdermos 7 pontos no campeonato para o Simões ser indiscutível para o treinador). Contudo, como a verdade é tal qual o algodão, o jovem logo se destacou com 2 passes açucarados para golo, um evitado in-extremis por um açoriano, outro ingloriamente desperdiçado pelo Ponytailshvili, entre outras combinações interessantes com o Ioannidis (com o Mangas não há combinações possíveis, apenas arranjos ou remendos, que ele só obedece a estímulos como o da lebre mecânica nas corridas de galgos). 

Mas não foi só o Borges que esteve em dia não. O Inácio, por exemplo, entrou em campo com uma bomba relógio no lugar do GPS, ameaçando fazer-se explodir (e tudo à sua volta) de cada vez que a bola se acercava de si. Pelo que o Quaresma teve de ser um Ministro da Defesa actuante, que liderou pelo exemplo, saindo do gabinete para no terreno tratar de desmontar a maioria das múltiplas minas e armadilhas que o Inácio lhe colocou pelo caminho. Com o Trincão a evidenciar toda a sua classe... turística, a nossa esperança residia ainda assim no Maxi, só que este viu-se obrigado a jogar fora da sua posição, produto de um arranjo táctico de Rui Borges que privilegiou que o Alisson mantivesse a sua posição na esquerda (não admira que a esquerda esteja como todos sabemos). 

Do jogo retira-se de positivo um grande golo de Simões, numa acção de "campião" (campeão já ele é) em que primeiro amorteceu a bola e depois inverteu o seu movimento para rodar no sentido dos ponteiros do relógio e meter a bola à hora certa dentro da baliza do Santa Clara. E depois houve a confirmação de Ioannidis como temível goleador de cabeça, marcando o golo que nos deu a passagem à próxima eliminatória. O resto expôs à saciedade a razão pela qual um brilhante táctico como Rui Borges ainda não é consensual, qual general preso no seu próprio labirinto de hierarquias com que procura manter o balneário satisfeito (e a Formação na cave). 

Tenor "Tudo ao molho...": João Simões 

14
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O melhor do mundo e de Mirandela


Pedro Azevedo

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Se um treinador se medisse só pelo seu modelo de jogo e qualidade das dinâmicas nele empregues, o Rui Borges seria provavelmente o melhor treinador do mundo e arredores e também de Mirandela (o pleonasmo aqui usado foi só para que a Sofia Oliveira não se chateasse, que ela tem o preconceito de que atrás dos montes há um micro-cosmos onde só existem tabernas e uma obsessão com a imagem do Rui Borges à mesa a escrevinhar tácticas em toalhas de papel manhoso enquanto manda abaixo uns penáltis... de verde). Sendo isso o essencial, não é tudo. Há depois que fazer correctas escolhas de jogadores (o elenco para a época e para cada jogo), manter a personalidade da equipa independentemente da adversidade (ou adversário, ou currículo do treinador adversário) e saber comunicar para dentro e fora [no caso do Sporting implica ser muitas vezes treinador-presidente, as mesmas em que o presidente se ausenta para tratar da fisiatria dos portugueses ou para servir o país, na Junta de Freguesia, em Kandahar ou simplesmente jogando à sueca (fomento das relações bilaterais entre 2 países).]


Durante a semana acalentei a esperança de que o Flávio Gonçalves ocupasse o lugar do Pote. Fi--lo não olhando ao bilhete de identidade, mas tão somente à semelhança de características que unem o Flávio ao Pedro e às boas prestações recentes do primeiro na B, Youth League e selecções jovens de Portugal. Mas o Rui Borges não me fez a vontade (raramente a faz quando se trata de jovens) e apresentou Mangas de entrada. Ora, toda a gente sabe que Mangas nem para entrada, nem para prato principal, só mesmo para sobremesa, pelo que logo aí se percebeu que a escolha foi bizarra. Não contente, o Rui lançou mais tarde aquele rapaz que fomos desencantar à "(Mo)town" de Leiria, o desconcertante Alisson, que, pelo razoável desconhecimento do jogo e simultaneamente forma electrizante como se entrega ao mesmo, a gente vê mais a entoar o "What's Going On?" do Marvin Gaye ou a fazer de duplo do James Brown no frenético "Night Train" do que efetivamente a jogar à bola. E assim, num jogo que dava para tudo, desperdiçou-se a oportunidade de também dar mais minutos ao Salvador. O Kochorashvili também jogou. Se o futebol para Javier Marías é a recuperação semanal da infância, a utilização do georgiano serve o propósito de nos recordar semanalmente porque perdemos 5 pontos contra o Porto e o Braga. Não é mau jogador, claro, mas ou evolui muito ou será sempre curto para o Sporting, qual Kocho amputado do "rashvili" (só sobrou o rabo de cavalo). 

 

Quando não lhe esfregam durante uma semana o currículo do Mourinho na cara, o Rui Borges pode concentrar-se naquilo que é muito bom: aprimorar o seu formidável modelo  de jogo e preparar a próximo encontro. Foi o que aconteceu antes da recepção ao AVS, um clube com um nome em forma de assim, que em forma de assim também é um campeonato em que o Casa Pia joga em Rio Maior e onde um nome sem clube lá dentro (B SAD) jogou durante anos no Estádio Nacional, assim mesmo, Nacional, para que o paradoxo da situação fosse inequivocamente bem português. E assim, contra um clube com um nome feito na hora, à hora de jogo já o seu desfecho estava mais do que feito. Na verdade até antes, que os primeiros golos vieram em trio, como nas corridas de touros, com um picanço inicial sob a forma de tércio de varas, seguido por um tércio de bandarilhas, para terminar num tércio de capa e espada. Tudo em acelerado, que, como consequência, o AVS morreu na arena (relvado) em 5 minutos. A coisa poderia ter ficado por aí, mas quando se tem um jogador como Maxi Araújo todos os jogos são para serem levados a sério, não há tempo para brincadeiras. (O uruguaio por vezes parece um bebé com raivinha nos dentes, num desassossego permanente, nesse transe não deixando dormir quem esteja à sua volta.) Suarez, Maxi e Catamo marcaram na primeira parte e voltaram a fazê-lo no segundo tempo, ao jeito de uma peladinha que muda aos três e acaba em meia-dúzia. E mais não foram porque Rúben Semedo, outro produto da nossa Formação, não permitiu, deixando-nos a amarga sensação do seu presente (em Aves) não ser mais aquilo que o passado chegou a augurar para o seu futuro. Por falta de cabeça, como outros com igual ou até superior talento. 

Tenor "Tudo ao molho...": Maxi Araújo 

10
Dez25

Tudo o molho e fé em Gyokeres

Orgulho e Preconceito


Pedro Azevedo

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O Einstein, que não era propriamente desprovido de inteligência, dizia que é mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito. No Sporting, o preconceito é a Formação. Todos a elogiamos e dela nos orgulhamos quando é preciso puxar o lustro às carreiras que Cristiano Ronaldo, Luís Figo ou Paulo Futre fizeram, embora na verdade todos se tenham evidenciado muito mais fora do que dentro do clube. Mas, depois, só realmente nela apostamos sem rodeios quando não há dinheiro. Caso contrário, o adepto é comido de cebolada com a ideia de que o jovem está a crescer e ainda não está preparado, razão sine-qua-non para mais uma voltinha ao mercado. Há voltas e voltas. Por exemplo, o Phileas Fogg deu a volta ao mundo em 80 dias. No Sporting, dá-se 80 dias no Verão para dar uma voltinha às segundas divisões de Espanha e Portugal. E vem um Kochorashvili e um Alisson, que sentam o Simões e o Flávio. Entretanto, após perdido o jogo com o Porto e empatado outro contra o Braga, ambos em casa, logo se descobre que afinal o Simões por artes de magia e mestria do treinador já está preparado para a competição do mais alto nível, pelo que sai o Kocho e entra o jovem da nossa Formação e se percebe que em dois meses perdemos 60 dias e talvez o campeonato. Desatamos a ganhar os jogos todos internos, mas quando toca a ir à Luz logo o miúdo volta ao banco e concomitantemente voltamos a não vencer. Será coincidência? 

Quando esta manhã propus que o Flávio Gonçalves, um émulo de Pote, de apenas 18 anos, que cresce em Alcochete e já leva 12 golos marcados esta época, entre equipa B, Youth League e selecções jovens de Portugal, fosse titular em Munique, logo, aqui d'El Rei, houve quem mostrasse a preocupação de que o jogador poderia ficar queimado. Enfim, há quem sinta o Sporting como quem vive a Queima das Fitas, sempre em festa com nova contratação, que um jovem pode ser queimado e não tendo a certeza é melhor jogar pelo seguro, isto é, torrar antes o dinheiro no mercado. Nesses pequenos pormenores percebemos a vantagem do Estado Social e sua providência de serviços de saúde que incluem por exemplo a triagem que é feita antes da inscrição na Unidade de Queimados. No Sporting também há esse Estad(I)o Social. Noutros países, muito menos avançados que nós, as coisas acontecem de outra forma. Por exemplo, na Alemanha, mais concretamente na Baviera, há um "pequeno" clube que dá pelo nome de Bayern onde hoje entrou como titular um miúdo de 17 anos que dá pelo nome de Lennart Karl. Se fosse português, haveria a preocupação de não o queimar. Como é alemão, apesar da idade e dos seus 1,68m distribuídos por 67kg que estão longe da ideia do Adónis jogador de futebol que por cá se tornou obsessão, foi lançado para a fogueira (a nossa é de vaidades). No fim, quem se queimou foi o Sporting, porque o miúdo marcou o golo que deu vantagem aos bávaros. É caso para dizer que o Karl está em boa Kompany (treinador do Bayern)! 

Temos um treinador tacticamente muito competente, super versátil nas dinâmicas que emprega à equipa, com óptima formação humana e extremamente conhecedor do jogo, mas depois falhamos na mentalidade nos jogos grandes e na nossa permeabilidade face ao preconceito. Ora, há que destruir o preconceito antes que ele nos destrua a nós. Ou não, porque cada vez que o preconceito nos destrói logo aparece um Nuno Mendes que se impõe a um Acuña, um Inácio que destrona um Mathieu, um Matheus Nunes que senta um Battaglia ou um Quaresma (o Quaresma tem ainda de viver com um problema que ocorreu na Idade Média ou com os adeptos que ainda vivem na Idade Média e não sabem o que é o Renascimento). E renascemos. E volta o preconceito, qual trabalho de Sísifo que também é um castigo dos deuses imposto aos Sportinguistas. 

Tenor "Tudo ao molho...": João Simões (por uma milha de diferença) 

05
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Mortos de sono


Pedro Azevedo

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Durante a semana puxou-se tanto o lustro aos galões de Mourinho que faltou alguém na nossa Estrutura Técnica que dissesse o óbvio ululante: o rei vai nu, vamos para cima deles que nem "tarzões". Bom, para cima deles até fomos. Durou foi pouco, mais exactamente 20 minutos, sensivelmente o tempo que demoraram os sedativos a fazer efeito. Sim, porque este derby entre o Sport Lexotan e Benfica e o Sporting Xanax de Portugal, a contar para a Primeira Liga Vallium, foi um óptimo combate... contra as insónias. Senão vejamos: tecnicamente, o jogo foi de uma pobreza franciscana, envolvendo um número apocalíptico de recepções péssimas sem pressão e de passes constantemente mal calibrados. Fisicamente, o ritmo de jogo foi digno de uma peladinha entre prisioneiros famintos de um campo de concentração nazi na II Guerra Mundial. Finalmente, do ponto de vista mental, viram-se duas equipas cheias de medo de perder. Apesar de tudo isto, o Sporting teve tudo a seu favor para ganhar o jogo: marcou cedo e o Benfica tardou a conseguir trocar dois passes sem perder a bola, tal a ansiedade revelada. Mas depois, inexplicavelmente, o Sporting começou a baixar no terreno, a não fechar as linhas de passe na saída de bola dos encarnados e sofreu um golo patético, de carambola. Tal como uma máquina de lavar roupa quando se interrompe a secagem, o Sporting, depois de deixar esfriar, não conseguiu reiniciar o programa que tinha(?) para o jogo em tempo útil, limitando-se a controlar, aquela ilusão que faz parte do jargão de futebolês de todo o treinador até levar um golo. Por acaso não aconteceu, que o remate de Rios saiu ligeiramente ao lado, mas se tivesse ocorrido castigaria o respeito em demasia que Rui Borges ontem demonstrou por Mourinho, em tempos o melhor treinador que Portugal alguma vez produziu, mas hoje um homem cansado de tantas exigentes batalhas travadas pela Europa fora e por isso um treinador (como um boxeur) conformado em ir perdendo aos pontos em vez de correr o risco de enfrentar um KO prematuro. Enfim, haveria mais a dizer, mas a sonolência como sabem é contagiosa e os bocejos no relvado tornaram-se também meus, pelo que está na hora de fechar esta crónnnniiiiccccaaaa. Zzzzzzzzzzzzzzzz...

 

"Não há dor que o sono não consiga vencer" - Honoré de Balzac

 

Tenor "Tudo ao molho...": Maxi

30
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

“Mas que nada”


Pedro Azevedo

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Não sei se elogio demais aqueles jogadores que fazem a diferença. Creio até que nessa abundância exaltativa sou pouco português, que por cá o que não sai de moda é elogiar ao melhor estilo do cinema mudo e insultar de megafone em punho. Vem este arrazoado a propósito de Francisco Trincão, um jogador que faz-me lembrar aquele slogan escrito pelo Fernando Pessoa para a Coca-Cola: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". Por isso, ele foi tudo menos consensual nos seus primeiros tempos em Alvalade. E confesso que chegou até a ser uma das minhas irritações de estimação (as irritações, tal como os canários, os cães ou os gatos, não só são alimentadas diariamente como nos fazem muita companhia, daí serem muito estimadas, demasiadamente até na sociedade actual), como o arquivo deste blogue inequivocamente ilustrará. Mas, depois, tal como aquelas crianças que têm um desenvolvimento tardio gerado na hipófise, ele acelerou o seu processo de crescimento enquanto outros o estabilizaram, tornando-se um dos jogadores mais influentes do plantel. Hoje, voltou a ser decisivo: os nossos dois primeiros golos foram originados nos seus pés. Não esquecendo aquele slalom curto que fez um jogador do Estrela assemelhar-se àquelas bandeiras (portas) que existem no ski e servem para delimitar o percurso, infelizmente concluído com um remate torto. Bom, mas se o Trincão não se pode queixar de falta de atenção deste blogue, hoje a noite foi de Quaresma. Que maravilha! Não foi só ter inaugurado o marcador, o que é sempre importante. Não, o Quaresma deu um festival de bem defender, rápido quanto baste para fazer face aos velozes avançados do Estrela e sempre no sítio certo, no ar ou pelo chão, para evitar sobressaltos maiores. O Quaresma é um excelente jogador, todavia carrega com ele o peso do "mas". Na boca de cada um dos adeptos Sportinguistas, mais do que a pasta medicinal Couto, a constatação da sua evidente qualidade como futebolista vem sempre acompanhada por um "mas". É um "mas" essencialmente preconceituoso, porque advém de erros próprios da juventude e cometidos no tempo em que os animais ainda falavam. Só que, como um dia disse Einstein: "É mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito". Pelo que o Quaresma há-de ser um veterano e alguém ainda recordar-lhe-á uma falha ocorrida no tempo do paleolítico inferior. Talvez tenha a ver com o seu feitio extrovertido e jeito sorridente, coisa que o português pretere a quem tenha cara de enterro (o que causa uma sensação de seriedade e por isso faz parte do personagem criado pelos burlões mais requintados), ou então faz justiça ao Oscar Wilde quando sentenciou: "A cada bela impressão que causamos, criamos um inimigo; para se ser popular é indispensável ser-se medíocre". Para mim, o Quaresma foi indiscutivelmente o melhor em campo. Brilhantismo e zero erros. 

Voltando ao jogo, o nosso segundo golo fez-me lembrar o Brasil de 82. O Trincão parecia o Zico ou o Sócrates, primeiro a procurar o apoio frontal do Suarez, depois a isolá-lo com um toque de magia. Só faltou o lance ser acompanhado na bancada pelos batuques dos Vapores do Rego para um regresso ao passado: aos ecos de Sevilha, no tal Mundial, e ao ambiente da Superior Sul, no Sporting de Allison desse mesmo tempo. Nem de propósito, logo a seguir, o Quenda teve um remate a tirar tinta ao poste que mimetizou a "patada atómica" do Éder, outra grande figura dessa "Canarinha" do Mundial de Espanha. O terceiro, porém, acabaria por chegar ainda antes do intervalo, com Fresneda a cabecear para as redes após livre marcado por Geny. Seguiu-se uma etapa complementar de serviços mínimos, que na sexta-feira há ida à Luz e havia que poupar energia e salvaguardar o registo disciplinar. Deu ainda para Suarez bisar e para Morita figurar na assistência, um regresso aos números que se saúda de quem ultimamente parecia configurar uma qualquer anomalia estatística. Ainda bem, mas na Luz espero ver o João Simões. E assim terminou um jogo do campeonato português com um clube que em si mesmo é um oximoro, ou não houvesse uma equipa Amadora num escalão iminentemente profissional. 

Venha então o Benfica, que há uma derrota amarga na Supertaça para tirar a desforra...

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma

 

P.S. Ah, será que quem desvaloriza a riqueza táctica que Rui Borges traz ao futebol do Sporting reparou naquele pormenor do Fresneda subir uma linha e encostar a um médio e ser o Geny a fechar como lateral? 

26
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Carta de Brugge


Pedro Azevedo

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Depois do jogo de ontem, em Amesterdão, a contar para a Liga dos Últimos, o futebol português regressou à Champions com a recepção do Sporting ao Club Brugge. De Brugge enviou Pedro, o das Sete Partidas e um dos vultos mais brilhantes da nossa história, uma carta ao irmão, D. Duarte, rei de Portugal. Nela, entre vários conselhos à governação sobre justiça, educação, finanças públicas e administração geral do reino, o infante advertia para a urgência da acção, que "aqueles que tarde vencem, ficam vencidos". Não sei se Rui Borges leu a Carta, mas o treinador do Sporting seguiu o princípio pouco português de que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, nesse transe praticamente carimbando o passaporte para a fase seguinte da "Liga Milionária". Para isso, na ausência dos salões faustosos da corte do tempo de Pedro, Rui escolheu o relvado do José Alvalade para dar um baile ao treinador do Brugge. Um verdadeiro banho táctico que assentou na atracção à marcação homem a homem, seguida da dissuasão que levou os defesas do Brugge para longe da sua área e abriu espaços nas suas costas para a entrada de jogadores nossos vindos de trás. Se isto é alheira(bol), como dizem os afectados snobs seus detractores (sempre hipervalorizando a forma em detrimento do conteúdo), então foi demasiado indigesta para os da Flandres, não faltando ainda o ovo a cavalo (qualificação quase garantida) e os grelos (que são verdes, a cor da esperança) em vez das batatas fritas que seriam mais do agrado dos belgas (com as "moules", que assim quem se "lixou" foi o mexilhão). 


O Sporting cedo se adiantou no marcador após uma perfuração pela direita de Geny ter sido concluída com um remate deflectido pelo guarda-redes belga para as costas de Quenda, que abriu o baile com um rodopio que fez a bola anichar-se nas redes. Pouco depois, o mesmo Geny aproveitou a desertificação do interior provocada pelo êxodo dos belgas para zonas junto às margens e com uma voltinha isolou Suarez para um golo de grande requinte técnico. Antes do intervalo, o Sporting podia ainda ter ampliado o resultado, mas uma jogada de génio de Trincão terminou com um remate que tirou a tinta ao poste. 

Na etapa complementar, o Sporting procurou essencialmente gerir a vantagem no marcador. Isso acabou por provocar alguns momentos de tensão no nosso último reduto, o que não teria acontecido caso Suarez não tivesse entrado em modo carnavalesco e enfeitado demasiadamente um lance, perdendo um golo cantado. Assim, o Brugge chegou a agigantar-se, mas uma investida de Maxi (o verdadeiro "jogador à Sporting", cheio de raça) encontrou Quenda na profundidade e este centrou para Trincão, num "pas de deux" com Maxi, bailar antes de desferir um remate indefensável. Com o 3-0, o jogo terminou ali. 

Com a vitória de hoje, o Sporting entrou para o lote de 8 primeiros classificados que têm apuramento automático para os oitavos-de-final. Mais importante, tem agora uma vantagem de 4 pontos para o vigésimo quinto classificado (o primeiro excluído) e de 6 pontos para o vigésimo sexto, quando faltam apenas 3 jornadas para terminar a primeira fase. Não estamos ainda matematicamente apurados, se não fizermos fé em Pitágourinho, treinador do nosso rival (para quem 9 pontos serão suficientes), mas demos hoje um passo de gigante para garantirmos a qualificação. E sem o mágico Pote, Ioannidis e Debast, além dos lesionados de longa duração (Nuno Santos e Bragança). 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão (Geny seria uma óptima alternativa), pelas movimentações com ou sem bola que desestabilizaram por completo os belgas. 

 

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