Tudo ao molho e fé em Gyokeres
A Modernidade Líquida de Bauman
Pedro Azevedo

Sob o impulso de uma cabeça brilhante (Pedro Proença), o Renascimento Tuga voltou ontem a dar ao mundo um glorioso exemplo de como por cá brotam em catarse as ideias mais inovadoras: nos Açores, a Taça de Portugal ganhou um toque de modernidade com a introdução mundial dos três prolongamentos (em bom rigor, um "varlongamento" a anteceder dois prolongamentos). A concorrer para essa novidade esteve uma unha (en)cravada de um jogador do Santa Clara no pescoço sensível do Hjulmand. Dada a proximidade com a carótida esquerda do dinamarquês, dizem as más línguas que a delicada operação terá sido entregue à precisão do bisturi de um reputado cirurgião, mas "A Poesia do Drible" está em condições de garantir ao Leitor que a intervenção foi tão só conduzida por uma manicure de Ovar, o que justificará os 15 minutos de tagarelice perdidos e a coscuvilhice que se lhe seguirá durante semanas, com o clube da mão de Vata, da Taça da Carica, dos vouchers, Mala Ciao e das toupeiras logo a emitir um comunicado onde se queixou da desventura (e não Boaventura) e aquele italiano que fala "ingalês" em Portugal (é sempre curioso ouvir um italiano a falar "ingalês" em qualquer parte do mundo) a dar uma alfinetada na Modernidade Líquida de Bauman, em que a ciência e a técnica se sobrepõem à incessante busca da verdade consubstanciada em ancestrais tradições como as do "Golden Whistle", sendo esta um último resquício da Modernidade Sólida que em Portugal perdurou até ao primeiro lustro do novo milénio (em Portugal há tradições que demoram sempre mais um bocadinho a serem erradicadas).
Todos aqui sabem que sou um grande defensor do trabalho do nosso treinador, mas ontem Rui Borges fez quase tudo o que estava ao seu alcance para perder o jogo. Comecemos pelo fim (para variar): nas últimas semanas, vários adeptos do nosso clube vêm-me sugerindo que lançar o Flávio de início seria queimar o jogador, que o mais recomendado seria pô-lo em campo só quando os jogos já estivessem resolvidos a nosso favor, de preferência após as torres de iluminação se apagarem e tudo (acrescento eu). Pois bem, depois de desperdiçar mais de uma hora com aquele electrizante sósia do James Brown que desconhece por completo a razão pela qual os ingleses (que criaram o jogo) designam o futebol pelo termo "association" (é mais um réu do solo do que um rei do soul) e de ter perdido o controlo do jogo com a troca de Simões por Kochorashvili, Borges decidiu finalmente mandar o Flávio para o relvado como o salvador da pátria, aos 90 minutos e com a equipa em desvantagem no marcador. Não foi um queimanço qualquer, mas sim um crematório inteiro, o que demonstra como todos os considerandos sobre o tema partiram de um pressuposto errado, que na verdade a gestão de Rui Borges obedece a uma burocrática pirâmide vertical de múltiplas hierarquias onde na base se encontra a Formação (foi preciso perdermos 7 pontos no campeonato para o Simões ser indiscutível para o treinador). Contudo, como a verdade é tal qual o algodão, o jovem logo se destacou com 2 passes açucarados para golo, um evitado in-extremis por um açoriano, outro ingloriamente desperdiçado pelo Ponytailshvili, entre outras combinações interessantes com o Ioannidis (com o Mangas não há combinações possíveis, apenas arranjos ou remendos, que ele só obedece a estímulos como o da lebre mecânica nas corridas de galgos).
Mas não foi só o Borges que esteve em dia não. O Inácio, por exemplo, entrou em campo com uma bomba relógio no lugar do GPS, ameaçando fazer-se explodir (e tudo à sua volta) de cada vez que a bola se acercava de si. Pelo que o Quaresma teve de ser um Ministro da Defesa actuante, que liderou pelo exemplo, saindo do gabinete para no terreno tratar de desmontar a maioria das múltiplas minas e armadilhas que o Inácio lhe colocou pelo caminho. Com o Trincão a evidenciar toda a sua classe... turística, a nossa esperança residia ainda assim no Maxi, só que este viu-se obrigado a jogar fora da sua posição, produto de um arranjo táctico de Rui Borges que privilegiou que o Alisson mantivesse a sua posição na esquerda (não admira que a esquerda esteja como todos sabemos).
Do jogo retira-se de positivo um grande golo de Simões, numa acção de "campião" (campeão já ele é) em que primeiro amorteceu a bola e depois inverteu o seu movimento para rodar no sentido dos ponteiros do relógio e meter a bola à hora certa dentro da baliza do Santa Clara. E depois houve a confirmação de Ioannidis como temível goleador de cabeça, marcando o golo que nos deu a passagem à próxima eliminatória. O resto expôs à saciedade a razão pela qual um brilhante táctico como Rui Borges ainda não é consensual, qual general preso no seu próprio labirinto de hierarquias com que procura manter o balneário satisfeito (e a Formação na cave).
Tenor "Tudo ao molho...": João Simões









