Tudo ao molho e fé em Gyokeres
As Causas dos “Acasos”
Pedro Azevedo

Rui Borges finalmente deu a titularidade a Flávio Gonçalves, que mostrou bons pormenores técnicos e inteligentes movimentações nem sempre aproveitadas pelos colegas. Depois, no segundo tempo, aceitou com brio uma missão de sacrifício e que até não assentaria bem a um jogador inexperiente que não tivesse um entendimento tão grande do jogo como ele, recuando no terreno para ajudar Maxi a estancar o lado direito do ataque do Vitória. Saiu com o Sporting a ganhar por 1-0, rendido por Morita que não teve mais um dia não porque foi mesmo péssimo, desperdiçando um golo cantado (não acertou bem na bola) e dando o toque imprudente que possibilitou a reviravolta no marcador. Com a saída do Flávio, o Sporting entregou o jogo ao Vitória, aparecendo na frente só pontualmente, em transição, e deixando de impor a melhor qualidade dos seus jogadores e a superior dinâmica colectiva, jogando como equipa pequena. Uma reprise de Barcelos, mas com danos ainda maiores. Evidentemente, as lesões complicaram a nossa vida, especialmente a que vitimou o Quaresma (a saída de Ioannidis também implicou a perda de um jogador capaz de esticar o jogo). Mas o Flávio não saiu por lesão e o Simões e o Trincão também não, este último substituído pelo treinador quando já se sabia que iriam ser jogados 11 minutos adicionais de compensação. Para o seu lugar entrou o Luís Guilherme, recém-chegado, sem ritmo de jogo, conhecimento dos colegas e das dinâmicas da equipa. Estava a leste quando o Vitória entrou pelo nosso lado direito (um bar aberto) e marcou o segundo golo, tal como Alisson no lance do primeiro golo em que o Sporting permitiu um 2x1 no seu lado esquerdo. Antes, mesmo a acabar o primeiro tempo, a 2 metros da baliza e quando o bom senso aconselharia um toque suave na chicha para desviá-la do guarda-redes, o Alisson tentou assassinar o Charles, usando a bola como o móbil (e que "móbil"!!!) do crime. (Há adeptos de futebol, muito apreciadores das correrias do Alisson, que nos dias dos nossos jogos deviam ir para o Estádio Universitário bater palmas aos atletas que evoluem nas pistas de tartã.)
A ideia que tudo acontece por casualidade ou por azar, devendo-se ao aleatório ou ao mau-olhado, faz tão pouco sentido quanto o discurso deprimente (des)conexo do nosso treinador na conferência de imprensa que se seguiu ao jogo, em que não faltou uma pergunta muleta de um jornalista a dar o ar que o que correu mal deveu-se a ter de se apostar na Formação e bom mesmo seria ir ao mercado. A resposta de Rui Borges foi o único momento dessa conferência que fez sentido, mostrando a esse jornalista que não se pode ter um plantel de 40 jogadores quando se recuperarem os lesionados. Não, a casualidade (ou contingência) não tem necessariamente de acontecer, tem a ver com o livre-arbítrio do decisor e é uma construção da mente que resulta da ignorância da suas causas, como defende Leibniz. E o azar, se entendermos que a sorte é quando a oportunidade encontra a preparação correcta, então ocorre quando surge uma ameaça e não estamos suficientemente preparados para a enfrentar. Como foi o caso de ontem, com substituições essas sim feitas de modo aleatório, cujo eventual único critério foi dar minutos a jogadores e que em cascata produziram o efeito de carambolas de bolas de snooker todas a caírem no nosso saco. Nesse sentido, expressão cara a Rui Borges, fica a nota que todos os jogos que o Sporting não ganhou domesticamente ocorreram com Simões fora do campo (não jogou com Porto e Braga, entrou tarde na Luz e com o jogo já empatado, saiu em Barcelos e com o Vitória com o Sporting na frente). Será por acaso ou porque é preciso insistir em Morita e em Kochorashvili até à morte (à nossa morte, entenda-se)? Aliás, mesmo as escolhas de jogadores da B, excluindo Flávio e talvez Blopa (se este puder ser adaptado a lateral), fazem pouco ou nenhum sentido. Felicíssimo, por exemplo, esta época nunca foi chamado e talvez não perdesse a bola como Kocho num lance que desequilibrou totalmente a equipa. Rayan Lucas impressionou na pré-época, mas desde aí seguiu-se um apagão. E o Mendonça, pilar da B, simplesmente não conta, assim como o Mauro Couto, que, em vez de evoluir face ao muito bom ano anterior, está a regredir, porque demorou-se uma eternidade a chamar o Flávio à equipa principal e assim este tapou-lhe o lugar. Quem parece contar é o Romulus (e não o Muniz, nosso desde sempre), com nome de legionário do Império Romano (talvez por isso lhe pesando as botas), que fomos desencantar ao mercado. O mercado do nosso descontentamento, aquele da "Feira do Relógio" (ou das vaidades), onde não moram os Gyokeres, Hjulmands ou Maxis (ontem, excepcionalmente, com um jogo muito mau). É a nossa atração pelo abismo, mas também a vaidade e sobranceria de uma Direcção que assim vai minando tudo o que de bom anteriormente foi feito. Até ao dia em que se conclua que as boas ideias afinal não passaram dos power-points. O momento "é o que é", e não há narrativa que o possa negar. Mas podemos arrepiar caminho, reconhecer os erros próprios e dar a volta (e não a narrativa) por cima. Haverá vontade e ânimo? Ou o fantasma de Amorim já anda por aí?
Tenor "Tudo ao molho...": Quaresma (depois dele, o marasmo).







