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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

07
Jan26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

As Causas dos “Acasos”


Pedro Azevedo

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Rui Borges finalmente deu a titularidade a Flávio Gonçalves, que mostrou bons pormenores técnicos e inteligentes movimentações nem sempre aproveitadas pelos colegas. Depois, no segundo tempo, aceitou com brio uma missão de sacrifício e que até não assentaria bem a um jogador inexperiente que não tivesse um entendimento tão grande do jogo como ele, recuando no terreno para ajudar Maxi a estancar o lado direito do ataque do Vitória. Saiu com o Sporting a ganhar por 1-0, rendido por Morita que não teve mais um dia não porque foi mesmo péssimo, desperdiçando um golo cantado (não acertou bem na bola) e dando o toque imprudente que possibilitou a reviravolta no marcador. Com a saída do Flávio, o Sporting entregou o jogo ao Vitória, aparecendo na frente só pontualmente, em transição, e deixando de impor a melhor qualidade dos seus jogadores e a superior dinâmica colectiva, jogando como equipa pequena. Uma reprise de Barcelos, mas com danos ainda maiores. Evidentemente, as lesões complicaram a nossa vida, especialmente a que vitimou o Quaresma (a saída de Ioannidis também implicou a perda de um jogador capaz de esticar o jogo). Mas o Flávio não saiu por lesão e o Simões e o Trincão também não, este último substituído pelo treinador quando já se sabia que iriam ser jogados 11 minutos adicionais de compensação. Para o seu lugar entrou o Luís Guilherme, recém-chegado, sem ritmo de jogo, conhecimento dos colegas e das dinâmicas da equipa. Estava a leste quando o Vitória entrou pelo nosso lado direito (um bar aberto) e marcou o segundo golo, tal como Alisson no lance do primeiro golo em que o Sporting permitiu um 2x1 no seu lado esquerdo. Antes, mesmo a acabar o primeiro tempo, a 2 metros da baliza e quando o bom senso aconselharia um toque suave na chicha para desviá-la do guarda-redes, o Alisson tentou assassinar o Charles, usando a bola como o móbil (e que "móbil"!!!) do crime. (Há adeptos de futebol, muito apreciadores das correrias do Alisson, que nos dias dos nossos jogos deviam ir para o Estádio Universitário bater palmas aos atletas que evoluem nas pistas de tartã.)

A ideia que tudo acontece por casualidade ou por azar, devendo-se ao aleatório ou ao mau-olhado, faz tão pouco sentido quanto o discurso deprimente (des)conexo do nosso treinador na conferência de imprensa que se seguiu ao jogo, em que não faltou uma pergunta muleta de um jornalista a dar o ar que o que correu mal deveu-se a ter de se apostar na Formação e bom mesmo seria ir ao mercado. A resposta de Rui Borges foi o único momento dessa conferência que fez sentido, mostrando a esse jornalista que não se pode ter um plantel de 40 jogadores quando se recuperarem os lesionados. Não, a casualidade (ou contingência) não tem necessariamente de acontecer, tem a ver com o livre-arbítrio do decisor e é uma construção da mente que resulta da ignorância da suas causas, como defende Leibniz. E o azar, se entendermos que a sorte é quando a oportunidade encontra a preparação correcta,  então ocorre quando surge uma ameaça e não estamos suficientemente preparados para a enfrentar. Como foi o caso de ontem, com substituições essas sim feitas de modo aleatório, cujo eventual único critério foi dar minutos a jogadores e que em cascata produziram o efeito de carambolas de bolas de snooker todas a caírem no nosso saco. Nesse sentido, expressão cara a Rui Borges, fica a nota que todos os jogos que o Sporting não ganhou domesticamente ocorreram com Simões fora do campo (não jogou com Porto e Braga, entrou tarde na Luz e com o jogo já empatado, saiu em Barcelos e com o Vitória com o Sporting na frente). Será por acaso ou porque é preciso insistir em Morita e em Kochorashvili até à morte (à nossa morte, entenda-se)? Aliás, mesmo as escolhas de jogadores da B, excluindo Flávio e talvez Blopa (se este puder ser adaptado a lateral), fazem pouco ou nenhum sentido. Felicíssimo, por exemplo, esta época nunca foi chamado e talvez não perdesse a bola como Kocho num lance que desequilibrou totalmente a equipa. Rayan Lucas impressionou na pré-época, mas desde aí seguiu-se um apagão. E o Mendonça, pilar da B, simplesmente não conta, assim como o Mauro Couto, que, em vez de evoluir face ao muito bom ano anterior, está a regredir, porque demorou-se uma eternidade a chamar o Flávio à equipa principal e assim este tapou-lhe o lugar. Quem parece contar é o Romulus (e não o Muniz, nosso desde sempre), com nome de legionário do Império Romano (talvez por isso lhe pesando as botas), que fomos desencantar ao mercado. O mercado do nosso descontentamento, aquele da "Feira do Relógio" (ou das vaidades), onde não moram os Gyokeres, Hjulmands ou Maxis (ontem, excepcionalmente, com um jogo muito mau). É a nossa atração pelo abismo, mas também a vaidade e sobranceria de uma Direcção que assim vai minando tudo o que de bom anteriormente foi feito. Até ao dia em que se conclua que as boas ideias afinal não passaram dos power-points. O momento "é o que é", e não há narrativa que o possa negar. Mas podemos arrepiar caminho, reconhecer os erros próprios e dar a volta (e não a narrativa) por cima. Haverá vontade e ânimo? Ou o fantasma de Amorim já anda por aí? 

Tenor "Tudo ao molho...": Quaresma (depois dele, o marasmo). 

 

29
Out25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

A Quinta do Blopa


Pedro Azevedo

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Há poucos dias morreu Francisco Pinto Balsemão, um arauto da democracia e da liberdade da imprensa (e de expressão), valores que hoje permitem a um blogue como "A Poesia do Drible" criticar uma Taça da Liga anti-democrática, um paradoxo tuga do pós-25 de Abril que só podia ter nascido na cabeça brilhante (com brilhantina) de Pedro Proença e que consiste no absurdo de ter em excesso na Primeira Liga um conjunto de clubes que depois está em (enorme) défice na Taça da Liga (que é uma associação composta por 34 clubes e 36 equipas profissionais). Haja quem entenda isto...

 

A noite em Alvalade provou mais uma vez que Rui Borges é um treinador subvalorizado por imprensa e adeptos. Tacticamente, a variabilidade do jogo do Sporting é por demais evidente. Hoje, por exemplo, tivemos os laterais por dentro e os interiores por fora, daí resultando duas assistências de Vagiannidis e dois golos de Salvador Blopa, um miúdo de 18 anos em estreia absoluta no onze principal do Sporting. Deu também para silenciar as vozes que aqui e ali iam criticando o Ioannidis, que não só foi de um labor extraordinário como marcou um golo fabuloso. Para continuar a ser de grande utilidade, basta que a equipa mude o "chip" e o sirva em profundidade quando ele render o Suarez. Como hoje aliás fez. E depois foi muito bonito ver o Flávio, um estagiário no escritório dos Gonçalves que eu tenho como um sucedâneo de Pote em tirocínio em Alcochete, o Rodrigo Ribeiro (nova oportunidade na A), o Rayan, o Grombahi e o Muniz em acção, num jogo onde Quenda (2 golos) e Quaresma (imperial na defesa) merecem também destaque. 

Venha a Final Four desta singular competição a 8 em que nada é deixado ao acaso e tudo é feito ao detalhe para que não falhem os 4 finalistas que antecipadamente se quer ver em compita. Fosse assim tão fácil acertar nos números do Euromilhões...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Salvador Blopa (2 golos na estreia oficial pelo Sporting). 


P.S. A Quinta do Blopa: Salvador, Flávio, Rayan, Chris e João. 

12
Jan25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Faca na liga


Pedro Azevedo

Começo por escrever que tenho um desprezo pela Taça da Liga semelhante ao que possuía por aqueles antigos concursos da função pública que ao longo dos anos fomos lendo que eram formatados para favorecerem uma pessoa ou entidade específicas. Nesse sentido, a Taça da Liga é o paradigma da falta de vergonha, uma fraude. Porque de Taça nada tem, na medida em que ao longo dos anos lhe foi sendo subtraída a possibilidade de um imprevisto, sortilégio tipo "tomba gigantes" praticamente só reservado para a bisavó Taça de Portugal . Ou quase, se considerarmos que, nos actuais moldes, a Final 4 poder contemplar qualquer clube além de Sporting, Benfica, Porto e Braga seria o equivalente futebolístico à ocorrência de um terramoto em Portugal semelhante ao de 1755. E como se a extinta fase de grupos não fosse já suficientemente ultrajante, na medida em que beneficiava os acima referidos clubes com o jogo teoricamente mais difícil a ser jogado em casa, esta época optou-se por uma "inovação" - não basta à Liga o Choupana Quibir - que diminuísse ainda mais a ínfima (mas ainda assim possível, como o passado o provou) probabilidade de um Moreirense ou de um Vitória atingirem a fase decisiva: uns quartos de final disputados em casa dos 4 clubes do costume, seguindo-se a Final 4. E assim uma Liga que actualmente contempla 34 clubes (excluídos Porto B e Benfica B) nas suas duas primeiras divisões (mais 18, excluindo Sporting B e Braga B, na Liga 3) tem uma Taça disputada por 8: uma caça à receita ao arrepio das mais elementares regras de equidade e integridade das competições. Ou seja, isto não é uma Taça da Liga, isto é andar no futebol de faca na liga, que os meios hão-de justificar os fins de alimentar os cofres à Liga e de reduzir o número de jogos aos Grandes. Mas os clubes no geral parecem gostar, que depois há um mecanismo que os compensa financeiramente por fecharem os olhos a semelhante atropelo do que deveria ser uma competição, algo impensável em países que o senhor Proença diz querer seguir, como Espanha, Alemanha ou França (que extinguiram o torneio por falta de datas) ou Inglaterra, onde ainda é hoje disputada com jogos a partir dos 64 avos de final e sorteio não condicionado. Enfim, Portugal não seria Portugal sem o truquezinho, esperteza saloia que depois vendemos ao mundo como se de um grande rasgo, de um ovo de Colombo se tratasse (ainda que toda a gente saiba que Proença e Colombo não combinam nada bem)...

 

Bom, mas a competição, ainda que bizarra ou surreal, existe. E, como tal, não pode ser ignorada. Quer dizer, deveria ser ignorada, nem que fosse para que quem dirige pudesse entender que não vale tudo, mas, como não o é, A Poesia do Drible vai ter de escrever o devido sobre o que não devia. Se bem que na seguinte versão resumida: se o Quenda definisse melhor (e, fora isso, ele até jogou bem), o que seria pedir demais ou altamente improvável nas suas imberbes 17 primaveras, teríamos chegado ao fim da primeira parte com mais 3 golos, o que mitigaria o facto de o Trincão não ter jogado durante 90 minutos e só se ter dado, infelizmente, por ele na marcação de pontapés da marca de grande penalidade. Ainda assim, sem Pote nem Morita (nem mesmo o seu substituto natural, Bragança) e com menos 1 em campo desde o apito inicial do árbitro, o Sporting bateu-se meritoriamente, dedo inequívoco do seu treinador e da atitude dos seus jogadores. Pena foi que Geny pouco tenha ajudado Quaresma ou que na hora decisiva não tenhamos tido um guarda-redes perito em defender penáltis, como o Renan ou o Patrício no passado. Porque, de resto, o Benfica nunca nos foi superior. E se nem conseguiu ser melhor a jogar contra uma equipa de remendos e com um treinador que ainda nem teve tempo de treinar o sistema e as suas dinâmicas no relvado, então está finalmente descoberta a utilidade, a razão de ser desta Taça da Liga: mostrar que o "rei", "o Benfica somos todos nós", vai nu. E, como "bom português", vai continuar a invejar e a não poder ver à frente quem vista uma camisolinha lavada, no nosso caso verde-e-branca (e negra, também, que para o nosso marketing o Dia de Finados é quando o homem Sportinguista quiser). 

Tenor "Tudo ao molho...": Hjulmand 

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08
Jan25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Que grande 31!


Pedro Azevedo

Numa Liga ainda(!) presidida por um Pedro Proença que acredita que o anteriormente competitivo futebol português, que já foi capaz de vencer quatro Champions, uma Taça dos Vencedores de Taças e duas Ligas Europa, voltará em todo o seu esplendor de Choupana-Quibir num dia de nevoeiro, enquanto o Porto foi de passeio até à Pérola do Atlântico - um mistério da fé, ou não se tratasse da quadra natalícia -, o Sporting deixou a pele num duelo muito intenso na Cidade Berço. Assim, enquanto os Dragões puderam descansar e focar-se imediatamente na Taça da Liga, os Leões tiveram de ir a jogo e subsequentemente recuperar fisiologicamente os jogadores que actuaram em Guimarães, ao mesmo tempo que com rezas e mezinhas procuravam resgatar da enfermaria de Al Cochete um ou dois dos inúmeros entretanto coxos caídos em combate que por lá se vão acumulando. Dir-se-ia assim que o Sporting chegava com armas desiguais a esta semi-final com o Porto, mas os jogos não se perdem antecipadamente quando se é de uma raça que nunca se verga. E assim apresentámo-nos em Leiria. 

O Porto começou melhor, aproveitando o espaço que a linha recuada dos Leões foi cavando para o seu meio campo. Nessas entrelinhas foi-se destacando o que parece ser o clone perfeito de João Vieira Pinto, um miúdo com pinta de malabarista da bola que dá pelo nome de Rodrigo Mora, que logo se evidenciou com um toque de calcanhar seguido de passe açucarado para um remate perigoso à baliza de Israel. Em contraste de estilo, o Samu abusou da canela do meio campo até à nossa área e chegou a ameaçar rematar, mas o Fresneda interpôs-se e tudo acabou num pastel de nada. Terminadas as aproximações perigosas do Porto à nossa área, que oportunidades de golo são outra coisa, logo equilibrámos a coisa: primeiro, num slalom gigante de Gyokeres que ultrapassou portistas como se fossem bandeiras até rematar rente ao poste, depois num tiro defiectido de Quenda que quase enganava o Cláudio. Chegava o intervalo. 

Se no primeiro tempo os Leões foram ineficientes na saída para o ataque, especialmente na ala direita - numa jogada típica de bowling, o Fresneda chegou a mandar violentamente a bola contra o Geny como se este fosse um pino - , no reatamento o Sporting surgiu a atacar por todo o lado. Mas a mina estava no corredor central, mais concretamente no espaço que já no primeiro tempo se percebia existir nas imediações da meia-lua da área portista. Eis então que Geny pega na bola, tabela com Morita, recebe de volta, finta mais um, toca para Quenda, este desmarca Gyokeres no centro da área e o sueco não vacila: golo a coroar uma jogada de tiki-taka a fazer lembrar o Barcelona de Messi ou os brasileiros de 82. Foi o 31º golo de Gyokeres pelo Sporting nesta época desportiva, ele que também ontem foi um grande 31 para quem o teve de marcar. E poderia ainda ter feito mais estragos, não fora a compaixão do árbitro para com os desfavorecidos que passaram o tempo todo a agarrá-lo e a dar-lhe pontapés como se não houvesse amanhã e assim conseguiram "passar entre os pingos da chuva".

 

Este Rui Borges que pode ser Rui Borges está a sair-nos muito melhor do que o João Pereira que não pôde ser João Pereira, o que não quer dizer que se o Rui Borges não pudesse ser Rui Borges (o Rui Borges é tão camaleónico e ontem usou tantos sistemas que é difícil dizer se foi igual a si próprio ou o que é o seu "eu" próprio) a coisa corresse mal. É que há ali uma aragenzinha de sorte que o acompanha que faz com que o Rui Borges se assemelhe ao Rúben Amorim. Costuma porém dizer-se que a sorte protege os audazes e o discurso de Borges antes do terrível ciclo que está a ter pela frente foi sempre orientado pela positiva e sem desculpas. E ontem há que dizer que mexeu muito bem na equipa ao intervalo, mesmo não fazendo nenhuma substituição. Agora só lhe resta seguir as sábias palavras de Jean Cocteau: "O tacto na audácia é sabermos até onde podemos ir". Ainda que com Pote, o céu possa ser o limite...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Vik "Thor" Gyokeres

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30
Out24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O Aníbal Amorim


Pedro Azevedo

Aníbal ficou conhecido tanto pelos seus brilhantes dotes de estratega quanto pelos seus elefantes. Todavia, com o caminho aberto para o triunfo (entrada em Roma), optou por mudar de ares, decisão que ainda hoje é considerada como controversa. Em consequência, acabou derrotado. Aquilo que Amorim se propõe fazer agora é semelhante, não deixando de ser figurativamente paradigmático da sua acção que tenha afirmado o seu desejo de retirar o elefante da sala. O problema é que o elefante foi para as bancadas, e agora os Sportinguistas estão de trombas. O ambiente sombrio que se viveu ontem em Alvalade assim o demonstra. A vida de um Sportinguista é do car(t)ago !!!...

A primeira parte do jogo evidenciou um conjunto de hesitações e de desligamentos de ficha que há muito não se viam numa equipa do Sporting. O choque está a ser grande e isso reflectiu-se em menores alegria e concentração. Foi então necessário recorrer a Gyokeres. O sueco não tem estados de alma. Na sua essência, ele é um elefante que, espera-se, não venha a ser retirado das salas de espectáculo onde actue o Sporting. E logo começou a causar estragos na porcelana nacionalista. Primeiro sacando um penalty, depois destruindo "à bomba" a última resistência insular, de forma livre e directa.

 

Os próximos dias dirão se Amorim vai apanhar o avião. A fazê-lo, talvez mais tarde (Janeiro) chegue um outro avião, esse de carga, para a viagem do elefante para o mesmo destino do seu treinador/adestrador, um enredo saramaguiano que permanecerá no sub-consciente de cada Sportinguista até ao início do novo ano. 

E nós? A gente vai continuar. Que remédio !...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Vik Thor Gyokeresexit.jpg

24
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Eficiência vs Eficácia


Pedro Azevedo

Para quem se preocupa com o rendimento, o jogo de ontem do Sporting mostrou a diferença entre a eficiência e a eficácia. Quer dizer, o Sporting foi eficiente, na medida em que com os recursos disponíveis - havia jogadores importantes na dinâmica da equipa ausentes pela participação nas taças da Ásia e de África - conseguiu dominar o jogo e ter as melhores oportunidades. Mas não concretizou essas oportunidades, e nessa medida não foi eficaz. Depois, há quem analise o jogo do ponto de vista etéreo. Por exemplo, para as "viúvas" do Paulinho, a sua exclusão do onze inicial teve como consequência a derrota, ainda que tenha tido 23 minutos (mais 4 de descontos) para fazer a diferença e nem sequer se tenha dado por ele. São os mesmos que agora desenvolvem a teoria de que o Gyokeres beneficia muito da presença do Paulinho, quando o sueco tem tantos golos marcados (11) com o português em campo como fora dele (já a influência positiva de Gyokeres no rendimento de Paulinho é visível pelos 9 golos que o português marcou com o sueco em campo, contra apenas 4, dois deles com o Dumiense, sem ele presente). E, finalmente, há ainda os amantes do esoterismo, os supersticiosos: para eles, o Sporting foi também vítima da evolução do jogo, ou melhor, da evolução das infraestruturas adjacentes ao jogo: no futebol de antigamente, três pancadinhas na madeira teriam dado sorte; na era do pós-revolução industrial e dos postes metálicos, malhar três vezes no ferro produziu um manifesto azar. São os mesmíssimos que acham que os eventos do Esgaio não dar andamento pela faixa direita e lhe ter parado o cérebro no golo do Braga estão relacionados com uma tremenda falta de sorte ou com uma intervenção nefasta do bruxo Nhaga. 

 

A ideia da sorte ou azar num qualquer tipo de jogo não é totalmente descabida. Diria até que a sorte e o azar fazem parte do jogo. Todavia, aquilo a que chamamos de sorte acontece mais quando a oportunidade certa encontra a preparação adequada, e ontem mesmo os espíritos preparados não conseguiram concretizar as oportunidades que tiveram (bolas a rasar os postes, de Pote, Gyokeres e Quaresma). Pelo que as melhores oportunidades (as bolas nos postes) surgiram mais de boa preparação (remates colocados, de longe) do que de situações reais em que um jogador aparece isolado em frente ao guarda-redes. Ou seja, nessas circunstâncias, foi mais a boa preparação do jogador que criou a oportunidade e não a oportunidade criada pela dinâmica da equipa que esperou a preparação certa. E quando a dinâmica da equipa criou a oportunidade, a bola saiu ao lado. Depois, após sofrido o golo, a equipa perdeu o tino, por quebra anímica ou substituições que não produziram efeito, mostrando-se impreparada para a situação e não vendo na ameaça a oportunidade de fazer algo épico como dar a volta ao jogo. 

 

De lado ficaram também as aspirações do Sporting de vencer a Taça da Liga, falhando assim o primeiro objectivo da época. Sendo esta claramente a competição menos importante daquelas em que estamos inseridos, tal não será muito grave. Gravíssimo seria a equipa desmoralizar e os adeptos desmobilizarem, porque há ainda coisas muito importantes para ganhar esta temporada. Como o Campeonato, a Taça de Portugal e mesmo a Liga Europa, esta última uma prova que o Sporting precisa de encarar com uma ambição condizente com o lema do seu fundador. Num certo sentido, esta derrota até se poderá traduzir em algo positivo, capaz de se vir a reflectir em muitas vitórias futuras. É, todavia, imperial que se aprenda com os erros e se corrija o que está mal. Porque não podemos ter uma ala direita coxa, que não dê andamento atacante e comprometa defensivamente. Pelo que ou se vai ao mercado, ou se adapta St Juste, Quaresma ou mesmo o Afonso ali, como está é que não se pode manter (o Geny deveria ser mais uma solução como interior, ou extremo num 4-2-3-1 com, por exemplo, Quaresma a fazer de lateral). Se tal acontecer, então poder-se-á esperar sermos ainda mais eficientes, melhorando ainda mais as tarefas desempenhadas pelos recursos disponíveis ao disponibilizar melhores recursos para o processo. E sendo ainda mais eficientes, estaremos mais perto de ganhar. Porque mais oportunidades surgirão. E os golos também, por mais ou menos eficácia que haja. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma (Nuno Santos, que fez um jogo de raça, à leão, seria a minha 2ª opção). O nosso central esteve simplesmente magnífico, mostrando a sua refinada técnica (ser bom na "roleta" num jogo de sorte ou azar é sempre uma mais-valia) e impressionante velocidade. 

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24
Dez23

Tudo ao molho e fé em Deus

Le Duc


Pedro Azevedo

De Bragança a Tondela são 220 km de viagem, mas ao Daniel bastaram 17 minutos para chegar ao seu destino. Foi tudo tão rápido que só poderia ter sido produto de um overlap, com o médio a sobrepor-se aos avançados e assim aparecer isolado em frente à meta. Depois, fez a bola atravessá-la com pompa e circunstância, recorrendo para o efeito a uma acrobacia digna de qualquer um dos 2 Madjers que marcaram o futebol português (consta que o Tozé também tentou, mas ficou marreco no processo). Não ficou por aqui o Daniel: cerca de um quarto de hora depois, lá estava ele, no apoio frontal, com um toque de calcanhar delicioso que abriu caminho para o Paulinho disparar de pé direito para o segundo. Se o Gyokeres é o Rei e o Pote um Príncipe, este Bragança é um Duque, um senhor a jogar à bola! 

 

Enquanto 10 jogadores se envolviam num bonito "association" do qual resultaram dois belos golos, Trincão fazia um jogo à parte, como se com ele em campo houvesse duas bolas, uma só para ele e outra para o resto da equipa. Estaria muito bem, se ele fosse um Maradona ou Messi e lhe desse continuidade até ao fim. Assim não passa de um foção, um glutão que só vê bola e se alheia do contexto (jogo) e do meio envolvente (equipa e adversários).

 

Não gostei que o Quaresma não tivesse sido titular. Se o Rúben Amorim quer ter a certeza de que ele é capaz de fazer 2 ou 3 bons jogos consecutivos, então tem de o pôr a jogar de início e não fazê-lo entrar quando o resto da equipa já está em modo de descompressão, a trocar o jogo pela peladinha. A prová-lo, o Matheus Reis, desconcentrado e com sede a mais ao pote, querendo antecipar aquilo que só o tempo certo dá. Ora, se, pelo contrário, o Quaresma soube esperar pela oportunidade ou momento certo, estreando-se a titular contra o Porto com uma grande exibição, agora seria de dar-lhe continuidade. Ou não? 

 

Com a vitória de ontem, o Sporting apurou-se para a Final Four da Taça da Liga. Segue-se Portimão e o regresso ao Campeonato, onde é ansolutamente necessário segurar a liderança. A Taça da Liga continuará lá para o fim de Janeiro, pelo que só jogo a jogo lá chegaremos mais fortes. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Daniel Bragança, "Le Duc"

 

P.S. No fim do jogo o Tozé Marreco foi ter com o Gyokeres para dizer-lhe que nunca tinha visto um ponta de lança assim em Portugal. Ficou-lhe bem a grandeza da atitude e o desportivismo inerente. Imaginem só o alívio que terá sentido ao não ver o sueco em campo, ao contrário da tristeza nutrida pelos Sportinguistas que se deslocaram a Tondela, mas estes jogos com equipas de escalões secundários parecem destinados para Paulinho encher as estatísticas com golos. Gyokeres voltará em Portimão. 

Boas Festas!!!

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03
Nov23

Tudo ao molho e fé em Deus

Gyokeres a Gyokeres


Pedro Azevedo

O Postiga aterrou em Londres para jogar no Tottenham e cinco segundos depois já os media britânicos, sempre rápidos a carregar no gatilho do trocadilho inteligente, o baptizavam como "The Postman" (O Carteiro). Acontece que muito provavelmente o Postiga, que era uma espécie de Paulinho aditivado da época, não conhecia bem as ruas inglesas, razão pela qual a esmagadora maioria das cartas nunca chegou ao seu destino. Ou, então, terá sido por não pressionar suficientemente a campainha e assim ninguém se mostrar disponível para abrir-lhe a porta, já que também em Inglaterra é vox-populi que o carteiro toca sempre duas vezes. Em sentido inverso, a Portugal chegou o Gyokeres. Vinha da segunda divisão inglesa e muitos o olharam com desconfiança. Ninguém se atreveu a chamar-lhe carteiro. Diziam-no, isso sim, móvel, mas desses suecos já havia em stock no IKEA, o que pela lei da oferta e da procura para alguns o desvalorizava face ao preço de compra. Mais do mesmo, pensaram. Entretanto, o Gyokeres começou a trabalhar. Logo na estreia, tocou duas vezes aos vizelenses. Repetiu a dose em Faro. E ontem, de novo aos farenses, chegou até a tocar três vezes. Conclusão: nem o correio azul, que tem carteiros espanhóis, brasileiros e um persa que de tão mergulhador até é capaz de entregar correspondência em submarinos, despacha tão rápido como este verde. Sempre com selo... de golo.  Para o classificar, o melhor é recorrer a Jose Régio: Gyokeres é "um vendaval que se soltou, um átomo a mais que se animou, uma onda que se (a)levantou". Um cântico negro para os adversários, uma boa onda para todos os Sportinguistas. 

 

Se o Gyokeres já é mais carteiro do que o Postiga, o polivalente Gonçalo Inácio ainda não é tão Kaiser quanto o Franz Beckenbauer. Mas para lá caminha. Para já é o Stones do mister Rúben Amorim, o que para quem viu o recente derby de Manchester não pode deixar de soar a elogio. Outro que também se disse ter custado caro foi o Diomande, mas eu nunca acreditei. É que, já se sabe, Diomande's are forever, o que muito ajudará a amortizar o seu custo. Além disso, é rápido, bom na marcação e pelo ar, tem sentido posicional, sai a jogar como um médio. E depois nem se percebe se é destro ou canhoto, que a bola dos seus pés sai sempre redondinha. Faz lembrar o Marcel Desailly. O jogo serviu também para reconciliar Trincão com os adeptos. A magia empregue no nosso primeiro golo justificou por si só o preço do bilhete. Será ele capaz de manter a consistência no alto nível? Quem regressou aos golos foi o Nuno Santos. Aqui produziram-se dois paradoxos: porque o Nuno marcou de pé direito, mas também na medida em que andamos a ouvir desde miúdos que o seguro morreu de velho para depois vermos o Velho a dar uma franganada nada segura. 

 

Cada adepto do Sporting tem dentro de si um Abraracourcix, sempre com medo que o Céu lhe caia em cima da cabeça. Nesse transe, há sempre dramas no cotidiano leonino. O desta semana era a perspectiva de o Gyokeres estar afectado pelo cartão vermelho observado na Polónia. Como justificação, o ter ficado em branco no Bessa. Ora, eu nunca me revi nisso, primeiro porque me pareceu que o apagamento do sueco no xadrez boavisteiro se havia devido à estratégia de Amorim para esse jogo, depois porque estavam a fazer do Gyokeres uma florzinha de estufa, cheia de estados de alma à portuguesa, quando ele é um guerreiro de Odin que irá sempre perseguir a glória terrena em busca da consagração em Valhala. De forma que tomem lá um hat-trick, e fim de conversa de lamechice. Temos muito que aprender com este sueco, e seria bom que toda a equipa se deixasse contagiar pelo frenesim constante que ele traz ao(s) jogo(s), mostrando sempre respeito pelo jogo, lealdade com o adversário e solidariedade com quem veste o mesmo equipamento. 

 

O Sporting vai jogo a jogo. A vantagem desta ideia é que o passado não conta, pouco importando o que fizemos até aqui. Não, o foco está sempre no futuro próximo, no próximo jogo, no mata-mata de Scolari, como se cada jogo fosse um campeonato por si só ou de uma final de tratasse. Eu gosto desta ideia. Tal como um condutor só deve olhar circunstancialmente pelo retrovisor, sob pena de, abusando de olhar para trás, se estampar no carro da frente, também o foco do Sporting deve estar naquilo que terá pela frente. Segue-se o Estrela. E um(a) Estrela, quando polar, indicará sempre o norte (da classificação). Norte que depois, paradoxalmente, passará pela Luz. Mas isso já serão contas de um outro rosário, e note-se que o campeonato ainda nem sequer chegou a um terço. 

 

Em tempos, a imprensa relatava: o Sporting "dá vinte". E assim chegou um Gyoconde a um clube brazonado e com ele o Renascimento do Sporting. Que ele nos ilumine até ao fim... Jogo a jogo, que é como quem diz, Gyokeres a Gyokeres.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres 

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