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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

30
Ago24

Trocar o cântaro pelo Pote


Pedro Azevedo

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"Bob, o Construtor" finalmente constatou o óbvio, que de tão claro e inequívoco se diria ululante. Vai daí, depois de reflexão pós-Europeu, o senhor concluiu que há cântaros que de tantas vezes que vão à fonte acabam por partir-se, preterindo-os agora em função de um bem mais maneirinho Pote, que anteriormente esteve à bica, à bica do (pedregulho no) sapato. Como não há fome que não dê em fartura, com o Pote vão também o Trincão e, pasme-se(!), o Quenda (chamada merecida da revelação desta temporada). Só faltou o Quaresma, mas, como a prioridade agora é o ritmo de jogo - razão pela qual Cancelo ou Matheus Nunes ficaram de fora - , avançou o António Silva. Para momento de humor só ficou a faltar o Vasco Santana. Juntos fariam uma dupla imbatível. 

03
Jul24

Estranha forma de vida


Pedro Azevedo

Escrevo esta crónica sob a forma de um apelo, o de que os jogadores da nossa Selecção se unam, ponham o ego de lado e ofereçam o caneco ao povo português e... a Ronaldo. Sim, a Ronaldo, da mesma forma que os argentinos deram o Campeonato do Mundo a Messi. Sejamos claros, Ronaldo tem a justa ambição de passar à história com um estatuto semelhante a Messi. Durante mais de uma década isso nem se discutiu, a rivalidade entre ambos catapultou-os para o Olimpo dos deuses onde não havia lugar para mais ninguém. Mas a estrela de Ronaldo empalideceu na última década, período em que Messi conseguiu juntar uma Copa América ao título de campeão do mundo. Destacando-se. Ora, o que eu vi nesse torneio mundial foi uma equipa unida em torno de Messi, com um craque como Di Maria, campeão em Portugal, Espanha e França e ganhador da Champions, perfeitamente alinhado nesse propósito. É aqui que a porca torce o rabo, porque eu não vejo esse alinhamento em Portugal. O que vejo é uma imprensa que desdenha do jogador e que criou o mito de que há uma Selecção apesar de Ronaldo ou que com pesar ainda há Ronaldo na Selecção. E isso estimula a desagregação, gera ansiedade de querer mostrar demais, dá espaço à ambição porventura desmedida de jovens lobos já não tão jovens assim como Bruno Fernandes que se veem como líderes sem trono. Porém, é preciso dizer que, apesar de excelente jogador, Bruno, ao contrário de Di Maria, não tem um currículo preenchido de títulos, nunca venceu um campeonato nacional ou uma Champions, não esteve no Europeu que Portugal conquistou. O que quer dizer que não obstante a sua indiscutida qualidade individual, que no entanto nunca o aproximou de uma Bola de Ouro, não contribuiu decisivamente para o sucesso colectivo. Aconselha-se por isso mais humildade e uma maior noção do ridículo. Pelo que há que arrepiar caminho e promover o aggiornamento. Que não passa por querer à força promover Gonçalo Ramos - apenas 14 golos num contexto gaulês em que o PSG é marcadamente hegemónico - em detrimento de Cristiano Ronaldo. Evidentemente, Ronaldo é hoje um jogador diferente, já não tem a explosão de outros tempos em que levava a equipa nacional às costas, é hoje dependente de outros colegas. Mas com ele a Selecção não perdeu uma única fase final de um certame internacional de relevo e venceu todos os jogos da última qualificação europeia, com ele como máximo goleador. E foi providencial no Europeu ganho, com 2 golos à Hungria que permitiram um apuramento rés-vés Campo de Ourique para o mata-mata e 1 golo e uma assistência que nos puseram na final. Assim como foi determinante nos 3 golos da vitória sobre a Suiça que nos deram a possibilidade de discutir a final da Liga das Nações que vencemos. Merece por isso, mas não só, todo o nosso respeito. E não só, porque quando se fala de um Ronaldo obcecada por recordes individuais de golos e Bolas de Ouro estamos a olvidar que colectivamente contribuiu para 4 títulos de campeão do mundo de clubes (por 2 clubes diferentes), 5 Champions (2 clubes), 3 campeonatos ingleses, 2 campeonatos espanhóis, 2 campeonatos italianos, 14 taças e supertaças domésticas e europeias, uma Taça dos Campeões Árabes e o Euro e a Liga das Nações pelo nosso país. Ora, só isto deveria fazer-nos pensar que não há "apesar de Ronaldo" e sim "com Ronaldo". Agora o que é preciso é aliviar-lhe a pressão, pô-lo naquele estado "soltinho" em que se apresentou naquele jogo de preparação com a Irlanda. Pressão aliás que Bruno e Bernardo, os seus delfins, também têm estado a sentir, talvez porque o foco de todos eles não esteja no essencial, a vitória de Portugal. E, sim, Ronaldo tem um estatuto especial. Como Messi o tem na Argentina, onde ninguém o ousa contestar. Qual é o problema? Não fez por isso? Então, saibamos ganhar com ele, haja um treinador que indique que nem todos os livres (especialmente aqueles na zona da meia-lua) deverão ser da sua autoria e aproveitemos a nosso favor algumas das características que Ronaldo ainda não perdeu e que ainda inspiram temeridade nos adversários. Em vez de andarmos a ver problemas onde um qualquer estrangeiro só observaria soluções. Estranha forma de vida esta de ser português...

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30
Out23

Azar foi o dos Távoras (se fosse Cântaro...)


Pedro Azevedo

Azar foi o dos Távoras, o caso do Pedro Gonçalves é só o de um bom jogador de futebol cujo moral foi progressivamente corroído pelos anterior e actual seleccionadores nacionais, que sucessivamente o ostracizaram quando se encontrava num grande momento de forma (ao contrário de outros, que quando estão em baixo são convocados para que ganhem motivação e não caiam no esquecimento), até que abalado pela não relevância da meritocracia no seu caso desceu de produção. Talvez por ser Pote. Se fosse Cântaro, tantas vezes iria à fonte que um dia lá deixaria uma asa (a agarrar o lugar).

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12
Set23

Estranha forma de ser


Pedro Azevedo

Nas horas seguintes à retumbante vitória (9-0) de Portugal sobre o Luxemburgo, Selecção que já há algum tempo deixou de ser um verbo de encher (golos) do futebol mundial, voltámos a mostrar a pior característica do nosso povo. Em Portugal uma vitória lusa nunca acontece per si, tem de ser contra alguém, preferencialmente até contra outros portugueses. Ou seja, um momento de exortação nacional é imediatamente usado para dividir-nos. Ou porque alguns percebem mas não concordam legitimamente com a lógica das convocatórias do senhor Martinez e é preciso ser revanchista com eles e esfregar-lhes um resultado na cara, ou porque o Ronaldo não jogou e assim até parece mal os invejosos não aproveitarem a oportunidade para lhe dar um empurrãozinho na direção da porta de serventia. Esta capacidade de tornar estatisticamente relevante amostras com muito poucas observações também é um detalhe muito português: para quê equacionar as mais de 200 internacionalizações do melhor jogador de todos os tempos, se temos mesmo aqui à mão as suas ausências contra a Suíça e o Luxemburgo? Claro que quem o faz olvida a derrota contra Marrocos, onde Ronaldo esteve ausente de início e já entrou com a equipa a perder, da mesma forma que se esquece da sua contribuição para uma vitória num Europeu e outra numa Liga das Nações, entre segundos, terceiros e quartos lugares igualmente relevantes em grandes competições europeias e mundiais. Portugal que nunca falhou uma fase final de Europeu ou Mundial desde que Ronaldo é internacional, indicador (esse sim!) que revela consistência. Ora, o que me parece é que os filhos não convidam habitualmente os pais para "raves" e outras festas. E muitas vezes até gostam de mostrar publicamente as diferenças que os separam dos progenitores. Só que com o excesso muitas vezes vem a ressaca (no caso, jogo com Marrocos) e com a maturidade chega-se à conclusão de que quem viveu mais do que nós tem um conhecimento e uma experiência que serão sempre boas conselheiras, além do respeito que os anos já fizeram por inspirar. Sigamos então em frente, e por uma vez sem ser contra ninguém. Principalmente quando o "alguém" é a personalidade portuguesa mais conhecida no mundo. 

01
Set23

A convocatória de Martinez


Pedro Azevedo

A convocatória de Roberto Martinez para a jornada dupla com a Eslováquia e o Luxemburgo é polémica. Pior, as explicações do Seleccionador fazem pouco ou nenhum sentido. Como quando afirma ser a Selecção um espaço para recuperar e apoiar jogadores, o que, na ausência de um clube que o faça, deveria ser o papel da entourage pessoal de cada um deles e nunca da "Equipa de Todos Nós". (Os clubes promovem jogadores para a Selecção, pensar-se que cabe à Selecção promover jogadores para os clubes é uma ideia perigosíssima.) Mais tarde, a propósito da ausência de Paulinho, afirmou ser necessária consistência, o que apesar de fazer sentido colide com a inconsistência de chamar quem não tem minutos. Nota ainda para a vitamina dada à alcateia de Lobos, "Wolfpack", representada por José Sá, Nélson Semedo, Toti Gomes e Pedro Neto, representantes de uma equipa com uma prestação modesta na Premier League. Curiosamente, aquele que era destacadamente o melhor jogador do Wolverhampton, Matheus Nunes, novo reforço do Manchester City, ficou de fora. Entretanto, um jogador como Beto, com uma história de vida em que ninguém lhe deu nada de borla e tudo teve de ser conquistado com muito suor (muito similar à de Matheus), continua a não merecer uma oportunidade. Não esquecendo a aberrante exclusão de Nuno Santos, dada a ausência de Mário Rui, Nuno Mendes e Raphael Guerreiro, preterido em função de jogadores que não são laterais/alas esquerdos de raiz. 

 

PS: Uma coisa é a ideia de criar na Selecção um núcleo duro de jogadores semelhante à realidade de um clube, pensamento que fez escola com Scolari. Outra, bem diferente, é a utilização do espaço da Selecção Nacional para apoiar anjos caídos em desgraça ou promover jogadores. Pode isso coexistir numa Selecção que deve estar sempre representada pelos jogadores que ofereçam mais garantias em cada momento? 

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