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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

18
Ago25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O Inferno de Dante


Pedro Azevedo

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O inferno de Dante começou quando apanhou Geny pela frente. Entre reviengas para dentro, engodos por fora, túneis escavados por entre as pernas e "cabritos", o pobre do Dante reviveu a visão do inferno de Alighieri, formado por nove círculos (tantos quantas as voltas que deu sobre si próprio), três vales (em termos de maus momentos, depois de Geny, ainda teve de levar com Quenda e Vagiannidis), dez fossos (nem as obras no estádio esconderam a sua depressão profunda) e quatro esferas (aproveitando uma promoção especial, num pequeno desvio ao enredo original, as esferas foram na verdade 6, o equivalente em bolas redondinhas de golo). E se o Sporting ameaçou pela direita, acabou por ser pela esquerda que ficou em vantagem, através de Mangas. Depois. um jogador do Arouca, com os pitões em riste, usou as costas do Inácio como a ranhura de um TPA por onde se introduz o cartão de multibanco e, como débito, além de expulso, deu um penalty ao Sporting que Suarez logo converteu. Não tardaria muito até que Trincão, recebendo um passe de Inácio, marcasse o terceiro. Veio o intervalo, naquele jeito de muda aos 3 e acaba aos 6, e no recomeço o Vagiannidis apareceu no lugar do Fresneda. Os ganhos foram automáticos, no corte de cabelo e na qualidade do cruzamento. Então, mal tocou na bola, o grego aproveitou o facto do Dante estar a pôr 3 leões em jogo e proporcionou a Mangas o quarto da noite em formato de assistência, termo que no dicionário do Fresneda vem descrito como algo equivalente aos 12 Trabalhos de Hércules (Héracles), que por acaso também era grego (isto anda tudo ligado...).. 
Depois, o Quenda pegou na bola pelo meio e serviu no espaço o Suarez. Aquilo que se lhe seguiu poderia ser melhor explicado por praticantes de caça, tal o poder de coice da Browning que o Suarez tem escondida no seu pé esquerdo. O Suarez (é fixe!!!) tem uma espingarda no seu pé esquerdo e o Hjulmand uma máquina de flippers nos seus dois pés, sempre pronta a fazer "tilt" (que jogador!!!). O Harder entrou, e quando o dinamarquês pisa pela primeira vez o relvado a sensação é semelhante à de um touro a entrar numa arena. A vontade é muita, a falta de discernimento também. Por isso, não só perdeu um golo cantado como também não viu o Kocho desmarcado (pelo menos o Kocho não caiu, como naquela anedota com o fanhoso). Bom, mas eu havia-vos dito que isto mudava aos 3 e acabava aos 6, pelo que devem estar à espera do último golo. E ele existiu, às 3 tabelas, cortesia do Trincão , porque se com o Suarez é à lei da bala (já com a cabeça identifica-se muito com o Gyokeres) e com o Hjulmand há flippers, então o Trincão tem todo o direito a usar o taco de bilhar. 

Tenor "Tudo ao molho...": Ricardo Mangas. Hesitei entre ele, o Trincão e o Suarez, mas escolhi o olhanense porque, na comparação com os outros 2, cada golo seu é o equivalente ao preço de um café num jantar de marisco no Gambrinus. 

P.S. Suarez é fixe!!! Assinado: MASG (Movimento de Apoio Suarez a Goleador).

25
Jul25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Onze Rabecas (ou talvez não)


Pedro Azevedo

O William Blake dizia que há o conhecido, o desconhecido e no meio estão as portas da percepção. Mas a percepção é só isso: uma percepção. Pode não ser real, aliás no mundo em que vivemos é cada vez menos real, tal o nível de intoxicação a que somos todos sujeitos por políticos, media e spin-doctors de comunicação. Olhando as parangonas dos jornais, Porto e Benfica discutirão o título e o Sporting terá de lutar com o Braga para atingir o terceiro lugar no campeonato, o pináculo do para nós tangível esta época. Nesse transe, o Troféu 5 Violinos dever-se-ia talvez denominar de "11 Rabecas", o que ratifica a escolha do "Submarino Amarelo" (Villareal) como companhia mais do que adequada para condizer com as previsões de que só esporadicamente andaremos à tona de água. Na verdade, há aqui uma reincidência: as pré-épocas vêm sempre acompanhadas do anúncio da boa-nova do Benfica campeão, com os Três Reis Magos da imprensa escrita (Bola, Record e Jogo) dando-nos a entender que o que virá depois será somente um pró-forma escarlate (o Estádio da Luz já era uma casa de Red-Pass, agora o Benfica almeja que seja o Red Light District por inteiro) . Mas o ano passado foi necessário animar as hostes portistas, agora com um novo presidente e processos mais "católicos" (ainda que já sem a bula ou gula papal), pelo que o andor foi partilhado entre Benfica e Porto. Nesse sentido, as contratações no Dragão motivaram muitas loas. Por exemplo, quem tivesse aterrado em Portugal nessa altura ficaria convencido de que o Otávio Ataíde era a reencarnação do Franz Beckenbauer ocorrida por milagre num bairro de São Paulo. E o Nehuen Perez tinha uma qualidade de saída de bola que nem o Franco Baresi. O Samu também ia arrasar e logo houve quem se atrevesse a considerá-lo mais completo do que o Gyokeres. Parece mentira, mas não é. E torna-se talvez importante recuperar isto para contextualizar o momento em que vivemos, até porque as cassandras desse endeusamento desapareceram para parte incerta ou comeram o queijo suficiente para garantirem que se esqueceriam de tão infelizes profecias, voltando agora à carga sem memória ou vergonha e com renovada imprudência. 

Foi assim, com expectativas baixas, que o Sporting se apresentou hoje à noite no Estádio Nacional, que o José Alvalade está em obras de fecho do fosso porque leão que se preze ruge livremente e sem agrilhões mais próprios de um zoo. Cedo marcou, por Hjulmand, de penalty, e no primeiro tempo até se desenharam bonitas jogadas no terreno. Com um 3-4-3 ofensivo, com os alas bem projectados, Fresneda como central pela direita (recuperando uma ideia de Amorim), Diomande de regresso no centro e Inácio a central pela esquerda, o Sporting superiorizou-se aos espanhóis durante a maior parte do tempo, com Geny em especial evidência na criação de desequilíbrios. 

O reatamento trouxe de volta o 4-2-3-1 que Rui Borges parece querer implementar. Fresneda derivou para a lateral, Debast entrou para fazer parelha com Inácio, Matheus manteve-se à esquerda. Mas a alteração do sistema táctico não surtiu efeito e o Sporting perdeu o controlo do jogo. O espaço outrora encontrado com facilidade na direita desapareceu, o nosso jogo tornou-se lento e previsível, com uma única solução: mandar a bola para a frente a ver se Harder lhe dava continuidade. Não deu. Com alguma sorte à mistura, o jogo arrastou-se sem que o Villareal conseguisse o empate. O Troféu ficou em casa. 

A pré-época é isto mesmo, um período de experiências. Campeão de pré-época em Portugal só o Benfica (e o Porto, na época passada e nesta), um "título" que ainda (para já) não garante a presença na Champions. Somos o campeão, aliás bicampeão, mas entramos na nova época como o "underdog". É um sentimento estranho. Ninguém acredita em nós, nem mesmo muitos Sportinguistas. "Ah! Perdemos o Gyokeres" - dizem muitos, esquecendo-se que já fomos campeões nesta década sem ele. Eu olho para isto tudo e noto o seguinte: mantivemos a estrutura base da equipa enquanto os outros não deixaram pedra sobre pedra. E temos uma equipa madura, enquanto o Porto, por exemplo, investiu em três ou quatro jovens sub-21, bons jogadores mas que não é certo que não abanem quando a coisa se complicar, até por ausência de pilares de balneário, com experiência e autoridade, que outrora passavam o testemunho entre si no Dragão. Por isso acredito que a nossa luta será com o Benfica, que tem em Rios um excelente jogador e talvez aquele médio que nos faz falta para quebrarmos linhas e aproximarmos o meio campo dos avançados. Um Matheus Nunes vestido de vermelho, mais Lobo Mau do que Capuchinho. Mas nada está perdido. Como poderia algo estar perdido antes de começar? Então, que role a bola. Quem sabe se no fim o presente não será mais o que o passado reclamava para o futuro (como cantava o Oswaldo Montenegro), antes será muito melhor? 

Tenor "Tudo ao molho...": Geny

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10
Jul25

Bandemónio Vermelho


Pedro Azevedo

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Antes eram os Diabos Vermelhos, agora, Rui Costa, no seu anúncio de candidatura à presidência do Benfica, referiu que é preciso "fazer o que ainda não foi feito", recuperando assim o tema (e lema) de uma velha canção de Pedro Abrunhosa e dos Bandemónio. Pelo andar da carruagem, temo que com o ardor típico das campanhas eleitorais se siga o "não posso mais viver assim, olhar para ti sem te ter perto de mim" (dedicado ao João Félix), até que alguém se lembre do "talvez...". 

03
Abr24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

As confissões de Schmidt


Pedro Azevedo

O futebol português tem várias tradições. Entre as que motivam um maior culto, destacam-se os xitos, quinhentinhos, cafés com leite, fruta e até mesmo as cavas em túneis. Outra tradição igualmente muito estimada, e do amplo conhecimento do seu treinador, é a de o Benfica, na hora do aperto, jogar contra 10. Ontem voltou a acontecer. O inusitado é que por uma vez tal não ocorreu por influência dos homens do apito. Não, foi mesmo o Sporting que foi a jogo com menos 1. Ou melhor, o Trincão autoexcluiu-se: enquanto os restantes 21 jogadores andavam à volta de uma bola, o Trincão andou aos toques em outra. Tal como o magala na tropa, sempre de passo trocado, sem nunca suspeitar que era o único que levava a bola errada. Por isso, não concordei com o Ruben Amorim quando no fim disse  que não tivemos jogo entre-linhas. Porque a bola chegou lá, a esse espaço, o problema é que tivemos um Trincão que voltou a ligar o complicómetro de 2023, que tudo aferrolhou, agrilhoou, fechou a cadeado. Em suma, foi um trincão, sim. Mas das Chaves do Areeiro. Ainda assim, o Amorim manteve-o 90 minutos em campo. Não por não ter visto o que todos vimos, mas por um "statement": como clube conservador que somos, connosco as tradições são para manter. E se não há uma "ajudazinha" dos árbitros ao rival, então dá-se um retoque do tipo Restaurador Olex, ou seja, uma bola só para o Trincão, para ele pôr os olhos no chão, não a passar a ninguém e acabar inevitavelmente por a perder, e finge-se que se joga naturalmente com 11. No fim, o orgulho: jogámos 90 minutos em inferioridade numérica na casa do rival, contra o melhor Benfica da temporada, e ainda assim sacámos um empate que valeu uma qualificação para o Jamor. Haveria melhor "mind game" ou factor mais desmoralizador para o adversário na antecâmara do match-point de Sábado? Claro que não. Mas, atenção: no Sábado temos de jogar com 11. Onze onde se pode incluir o Trincão. O de 2024, bem entendido, não o que ontem foi reviver o passado ao Estádio da Luz.

 

Por cada Trincão que cair, um Bragança se levantará. Foi com este mote, recriado do filósofo António Oliveira, que o Sporting se adaptou ao jogo e graças e ele não ficou apeado no intenso tráfego que se fez sentir ontem à noite na Segunda Circular. Porque foi o Daniel que assegurou os mínimos de circulação que evitaram a nossa morte por asfixia. Fornecendo o oxigénio que permitiu à equipa respirar e até ousar cortar a respiração ao adversário. Como no lance do segundo golo, quando encontrou Geny para o 1x1 contra Aursnes. Bem acompanhado pelo Hjulmand, que marcou um golo de bandeira e soube atrair a pressão nem sempre eficaz do Benfica para libertar companheiros sem oposição. Pelo que o problema surgiu a partir daí e não devido aos nossos meio-campistas. 

Se a solução tantas vezes testada a aprovada é pôr a bola em Gyokeres (viram como ele não ataca a bola por alto quando na defesa?), não se entende porque deixámos tantas vezes o nosso melhor jogador sem bola. Mas com um interior adaptado como Paulinho, mais eficaz em tabelinhas perto da área, e outro, de espectro mais largo, completamente "fora dela", o sueco só apareceu na sequência de bolas perdidas a meio-campo ou de passes de longa distância como aquele em que St Juste o visou e acabou em golo. Ainda assim, na retina ficou aquela arrancada em que deixou dois pelo caminho e terminou com uma paulada na bola que a esta hora ainda deve estar a abanar o poste da baliza do Trubin. 

Não creio que as alterações ao intervalo tenham tido uma influência significativa na melhoria da nossa exibição ou sequer que a nossa exibição tenha melhorado por aí além. Até porque onde se deveria mexer não se mexeu, talvez por falta de confiança no Edwards actual (o de Bérgamo). E é preciso não esquecer que do outro lado não estavam 11 bidões. Não, havia um Rafa, um Di Maria, um Aursnes e, principalmente, um super João Neves. E o Schmidt, qual Egas Moniz, com o (em)baraço na garganta, confessou os seus pecados anteriores e desta vez ajudou a sua equipa. Pelo que o resultado do jogo, que não o da eliminatória, acabou por ser lisonjeiro, para tal contribuindo a elasticidade de Israel entre os postes, guarda-redes que curiosamente se sente melhor como um prisioneiro em solitária, enquadrado apenas por dois postes e uma barra, do que em cada saída precária. 


Quanto a Roger Schmidt, a Taça já se acabou, pelo que entre o campeonato e a Liga Europa que seja esta última a dar-lhe o balão de oxigénio de que precisa para ainda respirar. Assim saibamos nós ser competentes.

Tenor "Tudo ao molho...": Daniel Bragança

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14
Mar24

Tudo ao molho e fé em Deus

Extraído o apêndice


Pedro Azevedo

Caro Leitor, a boa notícia que emerge da noite é que estamos quase-quase a concentrar-nos exclusivamente no campeonato nacional. Assim, o apêndice da Liga Europa já foi cortado ontem a fim de evitar uma peritriunfite (inflamação generalizada de vitorias) e as amígdalas da Taça não deverão resistir ao bisturi da Luz, pelo que Ruben Amorim poderá por fim cumprir o seu sonho de só ter de pensar na bicha solitária da Liga. É isso(!), se com o Mourinho aprendemos o que é a periodização táctica, agora com o Amorim percebemos o conceito de priorização tácita. Graças a este brilhante pensamento, o Sporting continuará a posicionar-se num bloco médio baixo no que à tabela periódica (para nós, uma constante) dos clubes europeus mais significativos diz respeito, vendo-se assim obrigado todos os anos a vender os seus melhores jogadores, enquanto os seus rivais com melhor ranking continuarão a ganhar valores milionários pela simples presença no Mundial de clubes. Não se preocupe porém o Leitor, porque para o ano há mais. Isto é, para a época que vem podemos continuar a fingir que ligamos à Europa. Sugiro até que antes dos jogos europeus se troque "O Mundo sabe que..." pelo irónico "Portugal na CEE", dos GNR, e o símbolo do leão por um pedregulho (de Sísifo), só para que não nos esqueçamos que lidamos com a Europa com o mesmo empenho que os nossos governantes tiveram o trabalho de lidar com as nossas agricultura e pescas no passado. 

 

Geralmente, depois de um jogo perdido, quem treine o Sporting vê-se na necessidade de conceder a derrota. Mas ontem não, foi a vitória de Ruben Amorim e da priorização tácita. E dos adeptos que ficam em êxtase quando veem o Sporting libertar-se de competições, o que leva à interrogação se nos querem sequer ver nesses certames. Será que podemos não nos inscrever? É proibido desistir a meio, se a coisa estiver a dar muito trabalho? A quem nos podemos queixar em caso de bullying? A ideia de fundo que estes entusiastas da derrota passam é que o plantel é curto para tanta competição. Nesse caso, um burro pensaria que a solução seria aumentar o plantel. Felizmente, temos inteligências raras em Alvalade que privilegiam planteis curtos para ser mais fácil gerir o balneário. Assim, ficamos com um balneário são... e zero títulos, Como na época passada, o que cumpre mais ou menos com o último lema conhecido do fundador, encontrado aqui há dias na etiqueta de um velho frasco de lixívia numa escavação ali ao pé do Lumiar: "Tão bons como os melhores balneários da Europa". Parabéns então ao Amorim por esta retumbante vitória. Com uma especial dedicatória ao Edwards e ao Paulinho, que tudo fizeram para  que este... êxito se confirmasse. (O St Juste ficou ligado aos 2 golos do adversário.)


É tal o desprezo que damos à Europa que nem se percebe o ênfase em sermos conhecidos internacionalmente como Sporting Clube de Portugal. Eu acho que até disfarçava se nos chamassem Sporting de Lisboa. Ou só Sporting, que podia ser confundido com o de Gijón (Astúrias) ou de Charleroi (Bélgica). Assim, como está, é que não, é impossível escondermo-nos. Sessenta anos após Alexandre Baptista (que recentemente nos deixou) e outros briosos leões terem trazido para Portugal a Taça dos Vencedores das Taças. Ultrapassando a Atalanta pelo meio (desta vez. quatro tentativas não foram suficientes para conseguirmos uma vitória). 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres. Ele e Hjulmand estão a anos-luz de todos os outros no poder físico e qualidade e constância da decisão. Menção honrosa para Franco Israel. Os restantes largaram a letargia a partir dos 10 minutos finais, o que significa que perderam 80 minutos num ritmo muito baixo para o padrão europeu. 

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11
Mar24

Tudo ao molho e fé em Deus

Agricultura desportiva


Pedro Azevedo

Tenho-me batido neste blogue por uma sã cultura desportiva e como a sua existência em Portugal poderia catapultar o nosso futebol para outro patamar, o que nada nem ninguém me preparou foi para o tema da agricultura desportiva. Ainda assim, procurarei em diante estar em conformidade com o que ocorreu ontem no campo das cebolas de Arouca, cidade onde o Sporting plantou as sementes do que se espera ser o título de campeão nacional. Tratando-se de um campo de cebolas, a colheita será lá para Maio, restando perceber se ao descascá-las vamos chorar de tristeza ou de alegria. Eu acredito na aleg(o)ria. E em comê-los (aos rivais) de cebolada. 

Na antecâmara do jogo só dava Arouca. Nas televisões falava-se de um trio, de ataque ou de cozinha (descasca da cebola), temível. De Jason, Mugica e até de Cristo, o que sem dúvida era coisa para meter muito respeito. Ademais, ter Cristo do lado de lá, sem já haver Jesus deste lado para empatar, deixava em aberto a possibilidade de um milagre arouquense de multiplicação dos golos. Enfim, segundo os sábios, a perspectiva para o Sporting não se afigurava nada católica. 


Consultado o Borda d'Agua, constatei ser Março o mês ideal para semear cebolas, o que contrariava a ideia original de que seria mau deslocar-nos agora a Arouca. O Amorim também olhou para o famoso almanaque e forneceu logo as sementes. Ora, se o objectivo com as cebolas é sacar-lhes o bolbo, no futebol a nossa meta é libertar a potência do nosso Volvo. A cavalo da tecnologia sueca, pois claro, ou não tivesse o Gyokeres nascido na pátria dos ABBA. Como o Gyokeres é o sol, com ele as culturas desenvolvem-se viçosas. Vai daí, começámos logo a facturar. 


Com o campo muito pesado, o Quaresma não podia usar a sua óptima progressão com bola e arriscava-se a perdê-la algumas vezes. Inteligente, o Amorim substituiu-o pelo Inácio. Assim começou o segundo tempo, período em que tivemos melhor controlo do jogo. Mas como o controlo é ilusório e o tempo caminhava para o fim, o receio de levarmos com uma batata, plantada ao acaso num campo de cebolas, avolumou-se. Eis então senão quando o Catamo esfregou a lâmpada e soltou o Geny(o). Com o 2-0, pudemos por fim respirar de alívio. Quer dizer, pudemos todos menos os nossos Vikings, que ainda agora estariam a semear se não os tivessem tirado do campo a tempo. Em consequência, o Hjulmand roubou uma bola, o Gyokeres a dividida e o esférico voltou ao dinamarquês para acabar dentro da baliza do Arouca. Mesmo a tempo do anúncio do furacão Chega, que virou tudo à direita (espero que a "desVentura" não prejudique as colheitas). Cá por mim, pedia já um subsídio (afinal, é de agricultura que falamos, não é verdade?). 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

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07
Mar24

Tudo ao molho e fé em Deus

A Xerazade que nos acuda


Pedro Azevedo

Em teoria, o Sporting olha para as competições de futebol em que participa como um homem muçulmano para as 4 mulheres com que pode casar. O Islão permite que um homem se case com até 4 mulheres, mediante algumas condições, nada obstando porém a que se case só com uma. Para o Sporting, as "mulheres" também são 4. Chamam-se elas Primeira Liga, Taça de Portugal, Taça da Liga e Liga Europa, o que em teoria configura relações potencialmente polígamas e com forte envolvência de ligas ("comme il faut") entre as competições em que participamos. Porém, na prática, Amorim tem uma ideia diferente e aposta as fichas quase todas na monogamia, consequência da priorização que faz da Primeira Liga (ou será Primeira Dama?). O anúncio surgiu na véspera do jogo com a Atalanta e logo me deixou perante uma questão na cabeça: se a Liga Europa não é prioritária, por que é que o descobrimos agora, após 8 jogos anteriores em que desgastámos os jogadores, quando o número de jogos de que presentemente necessitamos para vencer a competição é menor do que os que disputámos até ao momento? Seria como um homem namorar 8 anos uma mulher e depois, à medida que o casal começa a discutir o casamento, ele descobrir que afinal prioriza outra - porque deveria um muçulmano priorizar uma mulher, podendo ter quatro? Não faz sentido, pois não? Se é para "matar" todas as competições menos a Primeira Liga, por que razão nos inscrevemos nesses certames? É como se Amorim fosse o Rei Shariar e Xerazade a única hipótese de salvação da nossa presença na Europa League. Caso contrário, andaremos sempre nesta coisa de casamentos por conveniência, para que depois cada competição vá sendo eliminada em nome da nossa potencial vitória na Primeira Liga. 

Foi com este pensamento que ontem me sentei em frente do televisor para ver o jogo. Embora também me interessasse ver o dia de campanha eleitoral, o Sporting sempre terá a minha prioridade de agenda não-familiar, ainda que para o Sporting nem todas as competições em que entre sejam uma prioridade. O que me induziu novo pensamento e algumas questões a mim próprio: faz sentido o que é uma prioridade para mim, não priorizar competições onde intervém? Ou seja, devo priorizar quem não prioriza o que me é dado ver, o objecto da minha paixão? O que será o jantar? A resposta às 2 primeiras questões foi sim, que a paixão não se discute ou se subordina à reciprocidade. Quanto à terceira pergunta, ela não teve propriamente resposta imediata. Foi só um momento de associação de sinapses (o Paulinho acabara de inaugurar o marcador), em que a propósito do Islão me lembrei de Maomé e da sua aversão ao porco, assim a modos como uma garantia de que o repasto não seria composto por lombinhos, escalopes ou medalhões, podendo ser essa a suprema ironia de uma priorização pessoal minha em colisão com a priorização que metaforicamente criei para o meu clube. Perceberam? Eu também não (ao Amorim). 

Caro Leitor, a primeira parte também não foi prioritária para o Sporting. Como consequência, levámos 1 golo, duas bolas no ferro e o nosso guarda-redes defendeu três bolas muito difíceis. Estava eu a pensar nisso quando me lembrei que esta crónica acabara de entrar no clássico da geopolítica, na medida em que teria de compatibilizar Israel com a metáfora do homem islamita e não permitir que de algum desconchavo entre personagens surgisse uma Faixa de Gaza para onde os Leitores se refugiassem desta crónica. Regresso assim ao Israel para dizer que uma das suas paradas de ontem só tem comparação na defesa de Banks perante Pelé ou no milagre que Damas fez perante a Inglaterra em plena "catedral" de Wembley (Defesa do Século). É que defender uma bola que nos vai a fugir e, para mais, bate no chão pouco antes da linha de golo, é tarefa só ao alcance de alguns predestinados. Pelo que se o Israel deixar de ter hesitações a sair da baliza, como se fosse um condenado e esse caminho o levasse ao Corredor da Morte, então o que mostra entre os postes e a jogar com os pés é mais do que suficiente para vos dizer que temos homem. Se o afirmo com alegria em relação ao Israel, é com pesar que o comunico em relação ao Gyokeres. É que termos homem não nos basta, nomeadamente quando antes nos convencemos de ter um deus. Só que o sueco ontem mostrou um traço de humanidade. Cansou-se. Esgotou-se. E nós não estávamos habituados (ou estávamos simplesmente mal-habituados). 

No segundo tempo voltámos a não conseguir impor o nosso jogo. Os inúmeros passes perdidos não permitiram que atingíssemos o ritmo certo a que estamos acostumados. O cansaço físico e mental de alguns jogadores limitou as linhas de passe, e sem desmarcações muitas bolas se perderam por falta de opções. Melhorámos porém na contabilidade do ferro, empatando 1-1. E até poderíamos ter ganho o jogo, o que não seria de todo justo, caso Geny tivesse levantado a cabeça e visto Gyokeres liberto ao segundo poste. Mas isso teria sido um cenário das mil e uma noites e, apesar de estarmos em Al Valade, a Xerazade não mora aqui.

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma - à direita, à esquerda, a dobrar ao centro, a actuação de Quaresma foi uma parábola das melhores virtudes de cada partido que compõe o nosso espectro político quando se aproxima o tempo de reflexão após renhida campanha eleitoral. 

P.S. Morreu o Alexandre Baptista, nosso central e "magriço" em 66. Por um daqueles sortilégios que a vida nos dá, tive a sorte de um dia coincidir com ele num restaurante em Algés. Falei-lhe do meu pai, que trabalhou na Federação nesse tempo, mostrei-lhe algumas fotografias que tenho no meu telemóvel tiradas nos estágios da Selecção e honrou-me ao vir até à minha mesa. Falámos durante cerca de 1 hora. Pude comprovar o que o meu pai já me havia dito, o Alexandre Baptista era um senhor. E tinha um apurado sentido de humor. Que descanse em paz! 

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04
Mar24

Tudo ao molho e fé em Deus

Um Domingo qualquer


Pedro Azevedo

Se há clube a quem o José Mota vende cara a derrota é o Sporting. Confesso que demorei anos a perceber a razão porque sistematicamente nos fazia a vida negra em Paços - o Rafael, que connosco pintava sempre a manta e curiosamente só teve sucesso por lá, ainda hoje me provoca suores frios -, mas um dia prestei atenção ao boné com que se apresentava em conferências de imprensa e fez-se-me luz, estava lá escarrapachada a resposta: a JCA Electrodomésticos deu-lhe de patrocínio uma varinha mágica. Só pode... No Leixões, substituiu o boné pela pinta de Beto (nosso antigo guarda-redes) e assim, fingindo-se um de nós, veio ganhar-nos a Alvalade. Em Setúbal já não foi Beto, mas sim Diego (o pai do Callai), o guardião. Resultado: perdemos de novo. E no Aves brindou-nos com uma versão sua de um romance do Camilo: o (J)amor de Perdição. Em troca, guardou a Taça para si. 

 

Com antecedentes assim, a que se podem somar as muitas dificuldades sentidas pela nossa equipa na primeira volta em Faro, é natural que eu tivesse pensado entrar para o jogo de ontem com um pé atrás. Quarenta e cinco minutos depois, enquanto ainda esperava pelo reboque que me levaria a viatura para a oficina, concluí que afinal entraria mesmo com os dois pés atrás(ados). Menos mal, o Flashscore dizia que estávamos a ganhar por 2-1... Sorri e fui à boleia ver o resto do jogo. A vantagem de certas contrariedades na nossa vida é que nos permitem relativizar as coisas. Por isso não sofri demasiado quando o Farense empatou ou o Paulinho entrou, embora este último seja a razão pela qual eu tenho uma fixação por mesas pé de galo, através das quais contacto com antepassados Sportinguistas que me falam do Peyroteo, do Vasques, do Martins, do Figueiredo ou do Yazalde. Ou contactava, porque agora o Gyokeres tira-me a ansiedade. [Sendo de Barcelos, aposto que o Paulinho sabe o que é um(a) pé (esquerdo) de galo.]

 

Na minha teoria da relatividade da bola, não era preciso ser um Einstein para perceber que a massa do Esgaio se deslocava a uma velocidade que estava nos antípodas do quadrado da luz, o que como é óbvio transmitia uma energia muito abaixo do esperado, que não atraía o resto da equipa nem os nossos adeptos. Eis senão quando ele recebeu um passe do Edwards, avançou e deu de bandeja para o Pote, no que foi o golo da vitória. Dando razão a Auguste Comte quando dizia: "Na vida tudo é relativo, e esse é o único valor absoluto". E assim, aquele que muitas vezes ficou aquém, ontem foi além. Transcendeu-se. 


Se o jogo com o Farense já me tinha deixado intranquilo, o final de Domingo confirmou o mau momento de forma do nosso Sporting. O canário na mina do carvão que nos deu esse sinal foi o Benfica, que, apenas 3 dias após ter perdido connosco pela margem mínima, levou uma lição de mão-cheia no Dragão. Nada disto ocorreu por acaso, não se deixam acasos ao acaso numa instituição que move tantos apoios nos corredores do poder e suscita o interesse de tantos filantropos. Não, o intuito do Benfica foi desmoralizar-nos, dar-nos a entender que somos uns fracotes. Minando-nos por dentro, fazendo-nos dúvidar do nosso potencial. Para depois largarem a pele de cordeiro e mostrarem as garras de águia. Então o lateral esquerdo será lateral esquerdo e não central, o ponta de lança será ponta de lança e não ala e o Herr Schmidt será um treinador e não um tipo de investidor que deixa 40 milhões parados no banco. É claro que o "mastermind" disto tudo é o "regista" Rui Costa, um homem do Renascimento, ou não tivesse ele passado longos anos em Florença e outros tantos com o Vieira, este último um período de que não se lembra quase nada (o que já em si é como nascer de novo para a vida). Agora finalmente sem o homem dos pneus, não obstante não deixar de querer um Good Year. (Não lhe chamem pneumático, que o homem deixa logo de ser fleumático.) 

 

E é neste tom carregado, caro Leitor, que me preparo para terminar esta crónica. Porque esta coisa de ir à frente faz sempre um Sportinguista desconfiar. Sim, um Sportinguista tem medo de ser feliz, assumamos. E depois apanha-se com um ponto, que podem ser quatro, à frente, vê o Adán com a capoeira fechada e começa a achar que isto não pode ser real. Belisca-se, debate-se com a realidade nua e crua. Pelo que para reduzir a ansiedade eu pedia já para antecipar a ida ao Dragão para a próxima jornada. Para irmos jogar para o zero a zero, com humildade. Ou então para perdermos por menos de 5. Só assim conseguiremos desenvencilhar-nos da armadilha em que o Benfica nos meteu e fazê-los provar do seu próprio veneno. Uma e outra e uma outra vez. Até que o ninho da águia abane e de lá caia um ovo em quem se possa totalmente confiar como parceiro deste peculiar negócio chamado futebol português. Sporting!!!

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

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