Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Modelo de Formação centrado no mercado
Pedro Azevedo

Não se entende porque se gastam tantos recursos na Formação e se cria um modelo centrado no jogador, se depois o treinador prefere um Alisson Bolt a um Flávio Gonçalves. O paradoxo da coisa é a palavra-chave da Formação ser "centrado" e o treinador da equipa principal preterir um jovem em função de um jogador que lá para 2028 é capaz de vir a realizar um centro, tão incapaz é de entender o jogo colectivo (talvez porque não se desenvolveu na nossa Formação). Não havendo Pote, o substituto natural seria o Flávio, mas Rui Borges preferiu um velocista com pinta de cromo da Motown a um jogador de futebol e foi "compensado" com o golo do empate quando Alisson se atirou para o chão e abriu uma passadeira vermelha para um gilista marcar à vontade.
O jogo começou logo mal com a opção de Rui Borges por dois laterais inoperantes no jogo ofensivo (Mangas ausente por lesão). Sem "carrileros" nas alas que atraíssem marcações para libertar Maxi e Trincão no jogo por dentro, o Sporting ficou totalmente dependente do seu jogo interior. Dada a enorme concentração de jogadores gilistas na faixa central, apenas um passe muito preciso poderia isolar alguém no comprimento. E isso aconteceu, quando Quaresma acionou o gps e fez a bola chegar ao destino que Suarez pretendia para a um só toque colocar a bola dentro da baliza do Gil. Como o golo aconteceu mesmo em cima do apito para o intervalo, o Sporting regressou ao balneário em vantagem no marcador.
No segundo tempo, Suarez desperdiçou um penalty em movimento após boa movimentação de Trincão. Como Maxi não estava a ter bola, Rui Borges pensou em recuá-lo para lateral, a ver se a equipa conseguia ter comprimento e largura. Mas com isso veio o equívoco: em vez de escolher um jogador interior, Borges optou por Alisson. Se a ideia era ter espaço nas alas, a entrada do brasileiro atraiu mais um adversário para o marcar, o que significou que o corredor ficou sobredotado de jogadores, sem nenhum benefício para o jogo interior porque Maxi havia recuado no terreno. É que o futebol é tempo (execução) e espaço (destino), e a esse espaço deve chegar-se à hora certa, não antes (lá estacionado) nem depois (atrasado). Para complicar ainda mais as coisas, Inácio fez-se expulsar por défice de velocidade e a Alisson foi pedido que passasse para a direita. Com o Gil sempre a despejar bolas para o segundo poste e a tirar muitos centros da esquerda para a direita da nossa defesa, tal opção foi desastrosa, até porque já antes Fresneda (jogo péssimo) havia falhado a marcação e só por milagre Rui Silva conseguira evitar o golo. Mas, ainda assim, Rui Borges decidiu-se por esse verdadeiro hara-kiri e o resultado foi o que se viu.
Com este tipo de opções do seu treinador, o Sporting não perde só o campeonato, perde também o futuro. Por muito que Tomaz Morais apresente modelos de Formação centrados no desenvolvimento do jogador jovem, o treinador da equipa principal vai sempre pedir uns presentes no sapatinho de Natal (que, dada a dimensão requerida, é feito sob medida nos estaleiros da Lisnave). E o presidente anui, dando a imagem para dentro (sócios e adeptos) de que deu tudo ao seu treinador para ele ganhar. Então vêm o Luís Guilherme e depois o Faye, a Formação é colocada numa gaveta ou mesmo mandada às urtigas, Frederico Pilatos lava as mãos ou assobia para o lado e no fim do campeonato dá-se mais uma voltinha ao mercado. Para disfarçar, no defeso far-se-ão mais umas obras em Alcochete, nomeadamente com a construção de uma ladeira, do alto da qual se poderá projectar esse pedregulho chamado Formação, que na verdade não é mais do que um Castigo de Sísifo imposto aos Sportinguistas. A Centrai de Comunicação logo ecoará umas lendas&narrativas (uma "cava" de cave, que não é Alexandre Herculano quem quer) e tudo continuará na paz ido Senhor. Bater-se-ão umas palminhas, que Alcochete é uma casa bonita e com "cachet" para mostrar aos amigos, e mudar-se-á somente o essencial para que tudo fique exactamente na mesma. Como no Leopardo, do Lampedusa, ainda que nós sejamos leões. Fica tudo em família...
Nota complementar: o Barcelona tem na sua equipa principal doze jogadores sub-23 formados em La Masía já utilizados esta época em La Liga, seis deles ainda sub-18 (dois com apenas 17 anos). E não são visitas esporádicas, para "inglês ver".
Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma (o melhor defesa por uma milha de diferença e o jogador que mais acções com critério realizou em todo o jogo)









