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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

16
Nov25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

Era uma vez na América


Pedro Azevedo

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Para garantir já hoje a qualificação para o "Mundial das Américas" e não ter de andar de calculadora na mão (um "Casio" de estudo na história da nossa Selecção), Portugal necessitava de vencer a Arménia. Presente nos genes do empresário petrolífero Gulbenkian, do cantor Aznavour ou do xadrezista Kasparov, a Arménia nunca conseguiu no futebol gerar um vulto semelhante ao dos acima citados (o que mais se terá aproximado, Mkhitaryan, tinha nome de infecção fúngica por contacto, mas mesmo com ele a Arménia nunca conseguiu espalhar o pânico nos seus adversários), pelo que Portugal era amplamente favorito.  

 

Portugal não tinha Ronaldo, com quem ganhou 5-0 a este adversário em Erevan (é bom lembrar). Em compensação, Bruno Fernandes regressava e Gonçalo Ramos ia ter a sua oportunidade. Martinez optou desta vez por extremos assimétricos, com Leão a garantir largura e profundidade (uma melhoria face a Dublin), num flanco, e Bernardo a vir para dentro, no outro, e ainda os pezinhos de bailarino de Cancelo, na esquerda, a criar os desequilíbrios que Dalot não consegue tão bem promover, compensando assim melhor a ausência de Nuno Mendes. Na sequência de um livre apontado por Bruno Fernandes, Renato Veiga inaugurou o marcador, parecendo partir da posição de fora de jogo. De pronto a Arménia empatou, numa "balda" colectiva do lado esquerdo da nossa Selecção. O jogo complicou-se, mas Ramos interpôs-se num atraso arménio ao seu guarda-redes e com maestria voltou a colocar Portugal na frente. Se a margem era escassa, o talento de João Neves é transbordante: primeiro num remate de primeira a coroar uma jogada de futebol sambado a lembrar o Brasil de 82 (Semedo, Vitinha e Bruno, todos a um toque, prepararam o terreno para o remate do craque do PSG, que assim se estreou a marcar pela Selecção), depois na execução soberba de um livre directo, Neves ampliou a liderança de Portugal no jogo para três golos de diferença. Antes do intervalo, após uma pega de cernelha a Ruben Dias no encerramento da Feira da Golegã, Bruno Fernandes, de penalty, apontou o quinto golo. 

A etapa complementar serviu para lançar novos jogadores (Forbs, em estreia, Conceição, Matheus Nunes, Félix e Ruben Neves), mas João Neves e Bruno asseguraram que o ritmo continuaria alto. O médio do United conseguiu o seu hat-trick e logo Neves o imitou, recuperando assim o instinto goleador recentemente demonstrado no campeão francês. Antes do fim, Conceição apontaria ainda o nono golo. 

Após o jogo, Martinez mostrou-se crítico com os críticos. Como dizia o anúncio do Restaurador Olex, um branco de carapinha ou um preto de cabeleira loira não é natural, o que é como quem diz, "chacun a sa place": o treinador treina, os comentadores comentam. A não ser que se queira que os comentadores treinem (assim como assim, a cadela Laika não precisaria de dar a volta ao espaço para qualificar este naipe de ases de trunfo que compõe o baralho de Portugal) e o Seleccionador passe a comentador. Não se perderia grande coisa e o professor Marcelo até podia dar-lhe umas dicas...

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Neves

13
Nov25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

Leprechons retiveram o Pote de Ouro


Pedro Azevedo

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Entre as coisas que fazem muito pouco sentido em Portugal está a escolha de Roberto Martinez para Seleccionador da equipa de futebol do nosso país: dá-se o paradoxo de termos alguns dos melhores futebolistas do mundo, que jogam no campeão europeu PSG ou em clubes de topo da Premier League e da Serie A italiana (e ainda Ronaldo, o maior goleador da história do futebol), a serem comandados por um homem que treinou o Wigan (na cidade, o clube de referência nem sequer é de futebol mas sim do Rugby League, a variante oval de 13 que se profissionalizou bem antes do mais conhecido Rugby Union, de 15) e um Everton muito longe dos seus melhores tempos. Não surpreende assim que o futebol de Portugal não tenha uma matriz própria (tem, sim, várias matrizes que se escondem sob a pomposa expressão "Versatilidade Táctica", mas cujo resultado é indecifrável para a maioria dos portugueses que são leigos em cálculo matricial), que a escalação do nosso onze seja habitualmente feita ao arrepio das características identitárias dos nossos adversários, ou que as substituições pareçam originadas nos bolinhos de sorte chineses. Ontem, num jogo contra uma equipa iminentemente física como a irlandesa, Martinez deixou Palhinha de fora em função de Ruben Neves (um dos fetiches de Roberto), menosprezando o impacto da primeira bola por alto e a intensidade, poder físico e raio de acção do médio do Tottenham. Depois, sabendo que não podia contar com Nuno Mendes e que o lateral esquerdo seria um pé direito e assim muito menos profundo, o Seleccionador escolheu para o acompanhar na ala um jogador sem rotina de corredor (João Félix), condenando o flanco esquerdo português à clandestinidade. Para complicar ainda mais a tarefa, Roberto Martinez apontou Bernardo para avançado pela direita, outro jogador com tendência para vir para dentro. Retirando à equipa uns bons 20 ou 30 metros de largura e outros tantos de profundidade, Martinez foi ao encontro das melhores características dos irlandeses, permitindo que se concentrassem no centro do campo e oferecendo-lhes combates de duelos corpo-a-corpo no miolo e rápidas transições nas costas da defesa lusa. E assim, se a reabilitação de Félix, tarefa que não se esperava fazer parte do cardápio de um Seleccionador. prossegue em bom ritmo, a da Irlanda acabou por ser de todo inesperada. Curiosamente (ou talvez não), uma coisa teve a ver com a outra, ou não tivesse nascido de uma total falta de compromisso defensivo de Félix, falhando a marcação ao jogador que de cabeça correspondeu a um canto, o primeiro golo irlandês. Não avisados por um prévio remate ao poste da nossa baliza, a Selecção ainda viria a sofrer um segundo golo irlandês antes do intervalo (má abordagem de Rúben Neves). 

No reatamento, Martinez fez uma substituição estapafúrdia e tirou o único homem (Cancelo) que estava a dar profundidade à nossa equipa. Também retirou aquele jogador que conseguia promover jogo interior sem oposição (Inácio) por troca com um Renato Veiga que, provavelmente contagiado pelo mais usual ambiente vivido no Aviva, impressionou no remate aos postes... de rugby. Como se já não fosse suficiente, de seguida o capitão Ronaldo fez-se canhestramente expulsar e o jogo terminou praticamente aí. Com tudo já perdido, então finalmente entraram o Trincão e o Leão, mais tarde ainda o Ramos, que após o intervalo se podia ter juntado a Ronaldo (o "Espalha-Brasas" Conceição desta vez não saiu do banco). 

No fim do jogo, o encantador de serpentes que também é Seleccionador de Portugal foi mais comedido na verve do que habitualmente. Não se estranhou. É que ontem a noite só deu palco a um papagaio (Parrott). 

Depois da qualificação pela segunda vez desperdiçada, vem aí o último match-point contra a Arménia. E há o espectro de ficarmos fora do Mundial. Para já, ontem, os leprechons retiveram o Pote de Ouro. 

Tenor "Tudo ao molho...": Vitinha

14
Out25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

O estatuto não ganha jogos


Pedro Azevedo

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Se o estatuto ganhasse jogos, estes seriam sempre decididos pelos presidentes dos clubes. Mas não, os presidentes não jogam, e o estatuto não devia jogar, também. Além de que confundir o estatuto com a imprescindibilidade será sempre um erro. Na Selecção, imprescindíveis são Ruben Dias, Nuno Mendes, Vitinha, João Neves, Ronaldo (apesar dos "apesares" não há ninguém com tanto faro de golo) e Diogo Costa (grandes reflexos, corre na baliza como os melhores guarda-redes, joga optimamente com os pés, continua sem resolver o problema do timing de saída aos cruzamentos por alto, mas não há melhor do que ele), observados o momento de forma e as opções alternativas existentes. Mais ninguém. Bruno e Bernardo têm estatuto e mereceram-o, mas neste momento não são imprescindíveis na Selecção e não deveriam jogar sempre, muito menos em jogos com pouquíssimo tempo de intervalo entre eles. Que o estatuto é tudo para Roberto Martinez é fácil de constatar, mas Portugal tem uma equipa tão boa que até a cadela Laika ao seu leme entraria novamente em órbita. Por isso, resiste a jogar contra um time iminentemente físico e forte no jogo aéreo sem um Palhinha para ganhar a primeira bola, expondo assim sistematicamente os defesas. Não parece haver plano de jogo porque o plano é a categoria individual dos nossos jogadores. O Trincão é decisivo contra a Irlanda, no jogo seguinte não sai do banco. O Pote tira uma licença sabática de cada vez que vai à Selecção. Com o jogo por decidir, Martinez subtrai aquele que provavelmente é o melhor jogador do mundo neste momento, o Nuno Mendes. Por cansaço? Por cansaço não seria, pelo menos observando o estado em que se encontrava Bernardo, qual Lawrence da Arábia após uma semana a deambular sem água no deserto. Também saiu Ronaldo, autor de um bis de plena oportunidade e capaz de reter 2 húngaros sempre com ele. Entrou o Ramos, para alegria de grande parte da nação. Infelizmente, tratou-se de uma alegria dos cemitérios, que o homem voltou a chegar atrasado ao seu destino. O do golo, mas também o da titularidade - dizem eles, os do costume. Também foi a jogo o Félix, dizem alguns, embora só se tenha alegadamente visto num cabeceamento. Félix que sempre foi um daqueles protegidos de Martinez, tantas vezes em detrimento do injustiçado Jota, aquele que agora o Seleccionador evoca à laia de aggiornamento. Não há volta a dar, com Martinez vai ser sempre isto. Com falinhas mansas e um discurso sempre politicamente correcto, continuará preso a cumplicidades que no seu imaginário lhe garantem o equilíbrio no balneário. O problema é que os jogos ganham-se essencialmente no relvado. E será pelo que acontecerá no relvado, pelos resultados, que no fim Martinez será julgado. Se ganhar, o Mundial, como venceu a Liga das Nações, será incensado. Se perder, será recordado como um Seleccionador situacionista e incapaz de um rasgo, destruidor de umas gerações cruzadas de talento indiscutível, incompreensível nas suas opções e, pior, nas concomitantes explicações. Hoje, até a atirar uns dardos ao calhas, qualquer português teria escolhido um melhor onze e certamente produzido melhores substituições. Porque jogador que actue em Portugal não tem estatuto para Martinez. Mas se amanhã for para o estrangeiro, logo será titular. É uma pena que Martinez não vá também para o estrangeiro, se bem que o seu estrangeiro seja Portugal, o país que lhe deu a redenção após ter perdido uma geração de talento único na Bélgica, selecção com que chegou a cometer a proeza de não ultrapassar a fase de grupos no último Mundial.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Cristiano Ronaldo

11
Out25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

O omnipresente Marcelo e o sempre presente Jota


Pedro Azevedo

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Marcelo deu todo um novo significado à função de presidente da República. Houve um tempo até em que a República se confundiu com a "Repúbica" (Ré Púbica?), com o presidente a deixar-se entrevistar em calção de banho entre 2 mergulhos na Praia da Conceição. Depois há as suas aparições nos jogos de Portugal, cá ou no estrangeiro, que incluem comentários aos jogos e prognósticos antes deles, de microfone na mão e atitude de cheerleader. Aí é o presidente da Fé Pública. Hoje, estava o melhor em campo. Francisco Trincão, a ser entrevistado para a SportTV quando a realização do canal mudou a emissão para o local onde estava Luís Marcelo Freitas Rebello de Sousa Lobo, que de pronto comentou o jogo com a mesma propriedade com que há uns tempos atrás gabou o bife com ovo a cavalo que foi o seu jantar. Nota 20. No fundo, Marcelo é um presidente (bem ou mal "passado", consoante as simpatias) com um comentarista a cavalo. Se Marcelo é omnipresente, o espírito de Jota está sempre presente: no início da campanha para o Mundial, Portugal marcou no minuto 21, hoje o actual portador da sua camisola 21, Ruben Neves, que tem Diogo Jota tatuado numa perna, decidiu o nosso jogo contra a Irlanda. Há coisas que não acontecem por acaso, embora excedam largamente a nossa compreensão, mostrando-nos que é muito mais o que desconhecemos do que aquilo que conhecemos (excepto se nos chamarmos Marcelo, claro). Dá para meditar, ou não fosse hoje um dia de reflexão (para as eleições autárquicas). Tudo está então alinhado: temos o profeta (Crist...iano) Ronaldo, portador da boa nova do futebol português, o deus Marcelo e o espírito de Jota, uma santíssima trindade que só pode terminar com o troféu de campeão do mundo. 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão (arrancou um penalty e fez a assistência para o golo solitário do encontro). 

10
Set25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

O Inversor


Pedro Azevedo

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Galileu aperfeiçoou o telescópio de Lippershey (a "Luneta") e Bell patenteou o telefone. Edison concebeu a lâmpada e Rontgen descobriu o Raio-X. Benz urdiu o automóvel movido a gasolina e Jobs teve a visão do iPod, iPad e iPhone. E depois apareceu Roberto Martinez. Ao contrário dos outros, o senhor Martinez não é bem um inventor, embora lhe possam ser imputados alguns inventos. Na verdade, ele é mais um inversor do que um inventor. Eu explico: desde o princípio do futebol que conhecemos o conceito de médio centro ou médio central, mas inovadora foi a ideia do central médio, uma inversão dos termos. Como todos os inventos implicam experiências prévias e experiências necessitam de cobaias, a fava hoje calhou ao Ruben Neves, um bom jogador e de resto um excelente homem, por tudo o que se tem visto e ouvido no "post mortem" do nosso "eterno" Diogo Jota. A ideia de Martinez é que a inversão da frase (ou palavra-composta) não lhe mudasse o sentido, como uma anástrofe ou hipérbato, ou seja. que no relvado o Ruben fosse um médio central quando se tratasse de construir. O problema é que se esqueceu da bola, ou melhor, do que ocorreria quando Portugal não tivesse a bola. Num rigoroso exclusivo mundial, "A Poesia do Drible" teve acesso à reunião da equipa técnica onde ficou definida a táctica para o jogo. Aqui fica um breve resumo: estando todos presentes, logo Roberto Martinez comunicou a sua ideia de lançar Ruben Neves como central. Um dos seus adjuntos de pronto inquiriu: "Oh Roberto, e quando não tivermos bola?" Martinez não se fez rogado: "Como não termos bola? Não vês que há sempre uma bola em campo?" A equipa técnica anuiu como um todo, embevecida com a sabedoria do seu líder. Estavam já de saída, quando outro adjunto se lembrou de perguntar: "E se a bola não estiver em campo? Se, por exemplo, sair pelas linhas laterais ou finais?" "Bom, se a bola não estiver em campo, então o adversário não nos pode agredir!" - respondeu Martinez. Os adjuntos não precisaram de se entreolhar para concluírem estarem na presença de um génio, e entoando o kumbaya logo chamaram os jogadores para lhes comunicarem a decisão sobre o Onze. Mais tarde, no campo, provar-se-ia faltarem-nos centímetros no centro da área para defendermos nas alturas os gigantes húngaros. E assim sofremos 2 golos quase a papel químico (o que já se sabe ter um negativo), pelo que só uma acção decisiva de Cancelo evitou que por estas horas de lágrimas os olhos de Martinez estivessem cheios (o que também é uma anástrofe de "os olhos de Martinez estivessem cheios de lágrimas"). O resto foi o costume: Vitinha e o Neves João coincidiram, o que é bom, e Silva Bernardo e Fernandes Bruno também, o que é mau, chegaria bem só um deles. Ronaldo Cristiano marcou e em branco ficou Ramos Gonçalo, para dos "haters" desespero. Nada de novo também aí (mas eles não desistem). Neto Pedro correu e correu e Mendes Nuno usou e usou a cabeça. A novidade, que já não é tão nova depois da Arménia, foi a maturidade demonstrada por Félix João, provável consequência de com Ronaldo a conviver ter passado (há que manter o hipérbato até ao fim). No fim, a qualidade individual dos nossos jogadores impediu que uma vitória por 3-2 tivesse sido uma derrota. Mas isso não seria uma inversão, mas sim uma invenção. À Edison, porque não haveria um Professar Pardal sem um Lampadinha. Pelo menos foi o que nós aprendemos desde pequeninos com o Disney, esse sim um inventor no ramo da animação. Ramo da animação de onde tambem veio "Bob, o Construtor" (isto anda tudo ligado). Animemo-nos, então. Afinal, ganhámos, não é verdade? E já cá canta uma Liga das Nações (alguém me tire a dúvida se foi real ou desenho animado).. 

Tenor "Tudo ao molho...": João Cancelo 

06
Set25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

Uma Vitória das Arábias


Pedro Azevedo

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Na "125 Azul", os Trovante cantavam que "Deus leva os que mais ama", indicando simultaneamente uma crença no destino e uma aceitação de que tudo o que nos acontece obedece a um plano maior, que  contém planos mais pequenos para cada um de nós, dispensando-se assim outras explicações. Jota seria, sem dúvida, um desses que Deus mais ama - percebe-se que o que sobre ele foi dito por amigos e conhecidos aquando da sua morte extravasou em muito os habituais elogios fúnebres, que tinha uma boa alma - e, em sequência, Deus levou-o para perto de Si. Em suma, nada acontece por acaso, por isso o Diogo Jota deu hoje um sinal de que espiritualmente está com o grupo, fazendo-o não por acaso através do capitão e maior figura da Selecção (e deus do futebol mundial), Cristiano Ronaldo, que marcou ao minuto 21, o número da camisola das quinas que o Diogo vestiu. Mas esse foi já o nosso segundo golo, porque antes a qualidade de tutoria de Ronaldo evidenciou-se logo através de um golo de João Félix. Ainda antes do intervalo, João Cancelo carimbou o terceiro numa parábola do que a versatilidade do futebol moderno exige: um golo de pé esquerdo de um lateral direito. 

A etapa complementar começou com um excelente golo de fora da área de Ronaldo, o número 140 da sua carreira na "Equipa de todos nós", como um dia Ricardo Ornellas a baptizou. O jogo não acabaria sem um daqueles toques de malabarista de Félix que habitualmente enchem mais os olhos que a barriga, que de falta de consistência frequentemente é acusado. Mas os ares de Riad e as boas companhias estão a transformar o seu calcanhar de Aquiles (uma debilidade) numa vantagem, e num dia de sinais profundos, o seu golo foi uma alegoria disso mesmo. Tempo ainda houve para um dos patinhos feios de Roberto Martinez, Pote, dar um ar, aliás um bico, da sua graça, mas um golpe de rins do guarda-redes da Arménia negou-lhe o golo, o que voltaria a acontecer logo de seguida, quando a inteligência de posicionamento do pequeno-grande jogador não foi devidamente acompanhada pela colocação do seu remate. 

No fim, uma vitória das Arábias, ou não tivesse a autoria da mão-cheia de golos uma assinatura saudita: Cristiano Ronaldo (2, Al Nassr), João Félix (2, Al Nassr) e João Cancelo (1, Al Hilal). Talvez para nos lembrar, entre tantos sinais e metáforas que o jogo nos trouxe e num momento de tanta crispação étnica, que por essas latitudes também há um Deus como o nosso que ama e quer a concórdia entre os Homens, ainda que se chame Alá. 

27
Ago25

O Céu é o limite

Neemias "intratável" no EuroBasket 2025


Pedro Azevedo

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Portugal estreou-se no EuroBasket 2025 com uma vitória, a sua primeira em 18 anos na competição. Como antecipadamente se esperava, a grande figura da partida com a Chéquia, disputada em Riga (Letónia), foi o poste Neemias Queta, que realizou um jogo monstruoso , com 23 pontos, 18 ressaltos, 4 blocos, 2 roubos de bola e 1 assistência, números que só encontram paralelo no histórico do certame em craques como Sabonis, Shengelia ou Nowitzki. Na próxima jornada, Portugal defrontará a super-favorita Sérvia, aguardando-se com expectativa o duelo entre "Neemy" e Jokic, já eleito MVP de época na NBA.  

08
Jun25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

Mais uma noite na “Padaria da Brites”


Pedro Azevedo

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Quando, no longínquo ano de 1385, corria o tempo de El Rei D. João I, as tropas portuguesas enfrentaram o exército de João de Castela, em Aljubarrota, a bola do jogo estava então longe da forma redonda que hoje lhe conhecemos, antes possuía a geometria rectangular de uma pá, aliás tecnicamente manejada com brilhantismo pela padeira Brites, o nosso Cristiano Ronaldo da época. [A presença da dita Padeira no contexto da batalha é uma questão do for(n)o interno português, que ainda hoje permanece envolta em algum mistério.] Todavia, a comandar as tropas, já havia um treinador (D. Nuno Álvares Pereira), por sinal bem português, ou não tivesse sido essa batalha uma resposta às pretensões castelhanas de influenciar as decisões estratégicas lusas através do Conde de Andeiro. O Conde acabou defenestrado no Paço e o Condestável avançou para Aljubarrota com um esboço da Táctica do Quadrado a faiscar nas sinapses do seu cérebro. O resultado foi o que se viu. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (como escreveu o Camões e cantou o Zé Mário Branco): não só o nosso herói dos tempos modernos alinha agora pelos árabes (Al Nassr) como quis o destino que, 640 anos depois, Portugal viesse a defrontar a Espanha na final da Liga das Nações de futebol com um espanhol no banco a entoar tão efusivamente o nosso hino que nem um patriota tuga nascido e criado no bairro de Xabregas, freguesia do Beato. Creio que é a isto que os mais cinicos denominam de Globalização. 

A qualidade dos nossos jogadores foi sempre tão grande que Portugal chegou até a dar-se bem no tempo em que em vez do Santo Condestável havíamos sido dirigidos pelo (Fernando) "Santos Contestável", pelo que a realidade de o Roberto ser tão contestado nas vésperas de defrontarmos a Espanha não poderia ser um dado determinante no desfecho do encontro. Muda-se o ser, muda-se a confiança e a bem da verdade havia que pesar também nos pratos da balança o grande conhecimento que os nossos internacionais tinham de "Nuestros Hermanos" e da sua forma de jogar inspirada em Cruijff e nos seus discípulos: Nelson Semedo e Trincão foram jogadores do Barcelona, Ruben Dias e Bernardo Silva são treinados por Guardiola já há alguns anos, Nuno Mendes, João Neves, Vitinha e Gonçalo Ramos haviam acabado de atingir o pináculo da consagração europeia com Luís Enrique e Cristiano Ronaldo foi o grande ícone do Real Madrid e o areal inteiro na engrenagem que impediu que a hegemonia catalã nessa fase tivesse sido total. Havia também o facto de o nosso Seleccionador ser espanhol, embora a sua predilecção pela flexibilidade táctica, também conhecida por experimentalismo, o aproximasse mais da linha de pensamento de alguns cineastas portugueses do que da escola de futebol do país vizinho, não constituindo assim  uma vantagem tão evidente para nós. 

Todo o mundo é composto de mudança. Enquanto Martinez contava a táctica aos seus jogadores, na impossibilidade física de D. João I estar presente, a dupla de M&Ms da República, Marcelo e Montenegro, de megafone ao punho e postura de cheerleading no Beergarden de Munique, arregimentava os foliões lusos que previamente ao jogo aí se concentravam. Marcelo avançou logo com um prognóstico de 3-0, arrancando alguns sorrisos e mostrando-se assim particularmente identificado com a Funzone onde se encontrava. Não se sabe se igualmente foi transmitir a mensagem ao balneário, mas o doping emocional aos adeptos ficou logo ali dado. [Não são só os jogadores, os adeptos também têm direito ao seu aquecimento, e se umas cervejas ajudam a inflamar o corpo e a alma, depois o presidente faz o resto.] 

Tomando sempre novas qualidades, Portugal foi sempre melhorando ao longo do jogo. Após um início sobre o fraco, penalizado com o primeiro golo da Espanha, a Selecção chegou ao empate numa grande arrancada de Nuno Mendes. Antes do jogo, os media espanhóis haviam projectado o jogo como um duelo geracional entre Lamine Yamal e Cristiano Ronaldo, mas esqueceram-se daquela assoalhada sita na algibeira do calção de Nuno Mendes onde Yamal morou durante todo o tempo em que esteve em jogo. Em cima do intervalo, a Espanha voltou a adiantar-se no marcador. Portugal entrou a perder no segundo tempo, mas Nuno Mendes não se conformou e cedo voltou a promover um desequilíbrio pela esquerda. A bola enroscou na perna de um adversário e aos 40 anos Cristiano Ronaldo compreendeu melhor o ponto de queda da bola que Cucurella e empatou o jogo. Com a entrada de Leão, sempre muito apoiado por Nuno Mendes, Portugal então superiorizou-se, efeito que se estendeu à primeira parte do prolongamento. Mas o que parece tão fácil nos pés de Ronaldo, e por isso é desvalorizado, foi difícil para Nelson Semedo e os demais, que não aproveitaram novas solicitações de Nuno Mendes, ontem em modo Bola de Ouro da France Football. Mas a justiça não foi feita ali, a segunda parte do prolongamento foi inconclusiva e tivemos de ir a penáltis. Aí Portugal não falhou nenhuma penalidade e Diogo Costa defendeu a de Morata. Seis anos depois, Portugal voltava a vencer a Liga das Nações, com o balzaquiano Ronaldo ainda e sempre parte do elenco. Um dia de festa portanto para uma grande maioria de portugueses mas também para os farmacêuticos do nosso país: o stock de Rennie e Kompensan esgotou, um facto nada insólito numa nação onde as poucas soluções são muitas vezes vistas como os grandes problemas. 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Mendes

05
Jun25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

O jogo do gato e do rato


Pedro Azevedo

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Imaginem os jogadores alemães como uns carvalhos: altos, largos, duros e resistentes. Frondosos, também, pelo menos a avaliar pela "juba" de Woltemade. Dir-se-ia então, antes do jogo, que no plano físico eles estariam em vantagem. Todavia, nem tudo seriam más notícias: uma das características conhecidas da madeira (Madeira?) que se extrai deste tipo de árvore é a sua maleabilidade, o que para variar traduzir-se-ia numa vantagem para os portugueses, se porventura conseguissem levar o jogo para o plano dos duelos individuais onde poderiam manobrar uns adversários muito duros (de rins), mas ainda assim gigantes com pés de barro. Mas Portugal passou cerca de 1 hora a jogar um outro jogo, a tentar apanhar os alemães desprevenidos nas costas, com Nuno Mendes como o artífice preferencial do passe de ruptura em contra-ataque. Uma opção estratégica de Roberto Martinez pela entrega da posse que a pouca inspiração de Pedro Neto na hora da definição fez fracassar. Até que sofremos um golo à conta da brincadeira e teve de entrar o Vitinha, que logo começou a querer a bola para a esconder dos teutónicos, organizando o jogo e desenhando suaves traços de geometria que não tardaram a unir toda a equipa num carrossel que pôs à roda a cabeça dos pupilos de Nagelsmann. Por outro lado, com Conceição, Portugal ganhou o Speedy Gonzalez ideal para complementar esse jogo do gato e do rato. Sem um Sylvester do lado de lá que lhe desse luta, a Alemanha ainda tentou com o "gato" Félix (também têm um), mas, ainda que "na mecha" (Nmecha), este entrou só no fim e já não foi a tempo de evitar o sorriso na boca dos portugueses. Pelo que, sem oposição, o Conceição foi por ali fora até que se decidiu por um corte na bola para o qual Ter Stegen não teve remendo. E se o Nuno Mendes já havia sido importante na transição ofensiva, voltou a brilhar em ataque organizado: primeiro dando uma bola de golo a Ronaldo numa bandeja de prata que este deixou cair no chão, depois recebendo de costas e tabelando com Bruno Fernandes para ir buscar à frente e entregar novamente um presente a Ronaldo, que, à falta de um madeireiro que abatesse os carvalhos, foi na ocasião o madeirense que não se fez rogado. Uma vitória que poderia ainda assim ter sido mais ampla, se Conceição e Diogo Jota (outro rato atómico, entretanto entrado em jogo) tivessem aproveitado as várias oportunidades que existiram.  Valeu a classe de Ter Stegen aos alemães. 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Mendes 

21
Abr25

A Clubite


Pedro Azevedo

Entre as moléstias estomacais dos adeptos da bola em Portugal, nenhuma é tão infecciosa, invasiva e transbordante como a azia provocada pela clubite. A clubite consiste numa inflamação nervosa altamente contagiante que tem o epicentro no estômago e rapidamente se propaga para a boca e dedos. Tanto se pode apanhar num estádio de futebol,  como no sofá e transmite-se oralmente ou por via de um teclado com acesso às redes sociais. Pior, não tem cura, ou a sua cura implicaria transladar todos os infectados para uma qualquer clínica de reabilitação de cultura desportiva sita em Inglaterra, um devaneio insular para tratar o que mais parece uma insolação que afecta a moleirinha dos contaminados. O custo seria incomportável para todos os outros contribuintes que desconhecem que a bola é redonda.

 

Não se nasce em Portugal com clubite, mas o meio ambiente e o contexto cedo (na adolescência) criam o caldo cultural para que ela se entranhe no indivíduo e nunca mais o abandone. Ao contrário das borbulhas, não há Clearasil que lhe acuda. O alvo principal da clubite é o árbitro, o que explica a razão porque durante muito tempo este só se vestiu de preto, como se assim fizesse o luto. Na mira estão também os dirigentes dos clubes adversários e às vezes até do próprio clube, especialmente quando a bola, que era suposto entrar, insiste em embater no poste. 

 

O adepto infectado com clubite odeia pelo menos tanto o(s) clube(s) concorrente(s) quanto ama o seu clube. É como se o amor ao clube do seu coração não lhe desse energia eléctrica suficiente para manter acesa a chama da paixão e precisasse do combustível fóssil do ódio para se sentir umas octanazinhas mais aconchegadito, um "yin" e um "yang" que celularmente estão simultaneamente presentes no diagnóstico da clubite. 

 

Ninguém vai à bola em Portugal por gostar de futebol, o que é como quem diz, ninguém em Portugal "vai à bola" com o futebol. Para isso escolhem-se países "bárbaros" como a Inglaterra, que fazem uma festa para nós inexplicável à volta do jogo. Não, em Portugal gosta-se do clube, ponto. Aliás, 3 pontos, jornada a jornada, porque a clubite alimenta-se das vitórias. E das derrotas, dos nossos adversários (esse também é um ponto, ainda que paradoxalmente signifique zero pontos). E de sofrer. O jogo em si pouco importa, os jogadores idém, o importante é o penalty que não foi e o que foi e o malandro do árbitro não marcou. É o ruído que alimenta a paixão, não é a paixão pelo jogo que sustenta o amor ao clube. Assim, uma época de futebol não é uma temporada feliz, antes sim tormentosa. O masoquismo subordinado a uma forma redonda. Felicidade só mesmo no fim, no Marquês ou Aliados, se o nosso clube ganhar o campeonato. Aí, sim, vem a comunhão e sentimo-nos parte de algo muito superior à nossa própria existência. Celebramos com os nossos e por um dia suspendemos a clubite. No dia seguinte, no escritório ou no barbeiro, voltamos à primeira forma, que a hora é de achincalhar o adversário perdedor. Porque a vingança é um prato que se serve frio, e neste nosso futebol não há honra para os vencidos. Por isso, a história do jogo em Portugal é (re)escrita pelos vencedores e só ganhar importa. Além não há nada, muito menos futebol. 

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