Tudo ao molho e fé em Ronaldo
Era uma vez na América
Pedro Azevedo

Para garantir já hoje a qualificação para o "Mundial das Américas" e não ter de andar de calculadora na mão (um "Casio" de estudo na história da nossa Selecção), Portugal necessitava de vencer a Arménia. Presente nos genes do empresário petrolífero Gulbenkian, do cantor Aznavour ou do xadrezista Kasparov, a Arménia nunca conseguiu no futebol gerar um vulto semelhante ao dos acima citados (o que mais se terá aproximado, Mkhitaryan, tinha nome de infecção fúngica por contacto, mas mesmo com ele a Arménia nunca conseguiu espalhar o pânico nos seus adversários), pelo que Portugal era amplamente favorito.
Portugal não tinha Ronaldo, com quem ganhou 5-0 a este adversário em Erevan (é bom lembrar). Em compensação, Bruno Fernandes regressava e Gonçalo Ramos ia ter a sua oportunidade. Martinez optou desta vez por extremos assimétricos, com Leão a garantir largura e profundidade (uma melhoria face a Dublin), num flanco, e Bernardo a vir para dentro, no outro, e ainda os pezinhos de bailarino de Cancelo, na esquerda, a criar os desequilíbrios que Dalot não consegue tão bem promover, compensando assim melhor a ausência de Nuno Mendes. Na sequência de um livre apontado por Bruno Fernandes, Renato Veiga inaugurou o marcador, parecendo partir da posição de fora de jogo. De pronto a Arménia empatou, numa "balda" colectiva do lado esquerdo da nossa Selecção. O jogo complicou-se, mas Ramos interpôs-se num atraso arménio ao seu guarda-redes e com maestria voltou a colocar Portugal na frente. Se a margem era escassa, o talento de João Neves é transbordante: primeiro num remate de primeira a coroar uma jogada de futebol sambado a lembrar o Brasil de 82 (Semedo, Vitinha e Bruno, todos a um toque, prepararam o terreno para o remate do craque do PSG, que assim se estreou a marcar pela Selecção), depois na execução soberba de um livre directo, Neves ampliou a liderança de Portugal no jogo para três golos de diferença. Antes do intervalo, após uma pega de cernelha a Ruben Dias no encerramento da Feira da Golegã, Bruno Fernandes, de penalty, apontou o quinto golo.
A etapa complementar serviu para lançar novos jogadores (Forbs, em estreia, Conceição, Matheus Nunes, Félix e Ruben Neves), mas João Neves e Bruno asseguraram que o ritmo continuaria alto. O médio do United conseguiu o seu hat-trick e logo Neves o imitou, recuperando assim o instinto goleador recentemente demonstrado no campeão francês. Antes do fim, Conceição apontaria ainda o nono golo.
Após o jogo, Martinez mostrou-se crítico com os críticos. Como dizia o anúncio do Restaurador Olex, um branco de carapinha ou um preto de cabeleira loira não é natural, o que é como quem diz, "chacun a sa place": o treinador treina, os comentadores comentam. A não ser que se queira que os comentadores treinem (assim como assim, a cadela Laika não precisaria de dar a volta ao espaço para qualificar este naipe de ases de trunfo que compõe o baralho de Portugal) e o Seleccionador passe a comentador. Não se perderia grande coisa e o professor Marcelo até podia dar-lhe umas dicas...
Tenor "Tudo ao molho...": João Neves









