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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

24
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Eficiência vs Eficácia


Pedro Azevedo

Para quem se preocupa com o rendimento, o jogo de ontem do Sporting mostrou a diferença entre a eficiência e a eficácia. Quer dizer, o Sporting foi eficiente, na medida em que com os recursos disponíveis - havia jogadores importantes na dinâmica da equipa ausentes pela participação nas taças da Ásia e de África - conseguiu dominar o jogo e ter as melhores oportunidades. Mas não concretizou essas oportunidades, e nessa medida não foi eficaz. Depois, há quem analise o jogo do ponto de vista etéreo. Por exemplo, para as "viúvas" do Paulinho, a sua exclusão do onze inicial teve como consequência a derrota, ainda que tenha tido 23 minutos (mais 4 de descontos) para fazer a diferença e nem sequer se tenha dado por ele. São os mesmos que agora desenvolvem a teoria de que o Gyokeres beneficia muito da presença do Paulinho, quando o sueco tem tantos golos marcados (11) com o português em campo como fora dele (já a influência positiva de Gyokeres no rendimento de Paulinho é visível pelos 9 golos que o português marcou com o sueco em campo, contra apenas 4, dois deles com o Dumiense, sem ele presente). E, finalmente, há ainda os amantes do esoterismo, os supersticiosos: para eles, o Sporting foi também vítima da evolução do jogo, ou melhor, da evolução das infraestruturas adjacentes ao jogo: no futebol de antigamente, três pancadinhas na madeira teriam dado sorte; na era do pós-revolução industrial e dos postes metálicos, malhar três vezes no ferro produziu um manifesto azar. São os mesmíssimos que acham que os eventos do Esgaio não dar andamento pela faixa direita e lhe ter parado o cérebro no golo do Braga estão relacionados com uma tremenda falta de sorte ou com uma intervenção nefasta do bruxo Nhaga. 

 

A ideia da sorte ou azar num qualquer tipo de jogo não é totalmente descabida. Diria até que a sorte e o azar fazem parte do jogo. Todavia, aquilo a que chamamos de sorte acontece mais quando a oportunidade certa encontra a preparação adequada, e ontem mesmo os espíritos preparados não conseguiram concretizar as oportunidades que tiveram (bolas a rasar os postes, de Pote, Gyokeres e Quaresma). Pelo que as melhores oportunidades (as bolas nos postes) surgiram mais de boa preparação (remates colocados, de longe) do que de situações reais em que um jogador aparece isolado em frente ao guarda-redes. Ou seja, nessas circunstâncias, foi mais a boa preparação do jogador que criou a oportunidade e não a oportunidade criada pela dinâmica da equipa que esperou a preparação certa. E quando a dinâmica da equipa criou a oportunidade, a bola saiu ao lado. Depois, após sofrido o golo, a equipa perdeu o tino, por quebra anímica ou substituições que não produziram efeito, mostrando-se impreparada para a situação e não vendo na ameaça a oportunidade de fazer algo épico como dar a volta ao jogo. 

 

De lado ficaram também as aspirações do Sporting de vencer a Taça da Liga, falhando assim o primeiro objectivo da época. Sendo esta claramente a competição menos importante daquelas em que estamos inseridos, tal não será muito grave. Gravíssimo seria a equipa desmoralizar e os adeptos desmobilizarem, porque há ainda coisas muito importantes para ganhar esta temporada. Como o Campeonato, a Taça de Portugal e mesmo a Liga Europa, esta última uma prova que o Sporting precisa de encarar com uma ambição condizente com o lema do seu fundador. Num certo sentido, esta derrota até se poderá traduzir em algo positivo, capaz de se vir a reflectir em muitas vitórias futuras. É, todavia, imperial que se aprenda com os erros e se corrija o que está mal. Porque não podemos ter uma ala direita coxa, que não dê andamento atacante e comprometa defensivamente. Pelo que ou se vai ao mercado, ou se adapta St Juste, Quaresma ou mesmo o Afonso ali, como está é que não se pode manter (o Geny deveria ser mais uma solução como interior, ou extremo num 4-2-3-1 com, por exemplo, Quaresma a fazer de lateral). Se tal acontecer, então poder-se-á esperar sermos ainda mais eficientes, melhorando ainda mais as tarefas desempenhadas pelos recursos disponíveis ao disponibilizar melhores recursos para o processo. E sendo ainda mais eficientes, estaremos mais perto de ganhar. Porque mais oportunidades surgirão. E os golos também, por mais ou menos eficácia que haja. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma (Nuno Santos, que fez um jogo de raça, à leão, seria a minha 2ª opção). O nosso central esteve simplesmente magnífico, mostrando a sua refinada técnica (ser bom na "roleta" num jogo de sorte ou azar é sempre uma mais-valia) e impressionante velocidade. 

nuno santos braga.jpg

28
Nov23

Tudo ao molho e fé em Deus

Relembrar o passado em Alvalade


Pedro Azevedo

De tão raro nos dias de hoje, um jogo de Domingo à tarde em Alvalade traz-nos inevitavelmente à memória aquele tempo em que os glúteos se acondicionavam na "almofadinha para a bola", o estômago se acomodava entre um rajá e um nougat - havia também quem, corajosamente, deglutisse o mítico courato e sobrevivesse para relatar a experiência - e a moleirinha se protegia do sol com um chapéu em tricórnio feito de papel de jornal. Nos muitos carros, estacionados em redor do estádio, as senhoras também improvisavam, recorendo ao tricô ou ao crochê como forma de matarem o tempo de espera dos maridos. Como se vê, não era perfeito: a pedra da bancada chegava a ser muito inóspita no Inverno, fria e bastas vezes molhada, e as adeptas do sexo feminino dispunham-se pelo estádio em quantidade muito reduzida. Mas havia um grande número de jovens sempre presente, um castiço apoio organizado ao som de batuque&pandeireta e traje de chapéu de palha (Vapores do Rêgo) e um ambiente geral onde o civismo e o genuíno entusiasmo popular coexistiam em sã camaradagem, ocasionalmente entrecortado com momentos de pancadaria um-para-um rapidamente resolvidos, quase sempre causados pela escassez de sangue no álcool que resultava da ingestão importante para a produção nacional de 5l de vinho de um garrafãozinho ali à mão de tinto a martelo. [Sim, este tipo de objectos potencialmente contundentes (para o fígado) eram permitidos no interior dos estádios.] Lembrei-me disso tudo a propósito da visita do Dumiense...

 

O Dumiense, epíteto de São Martinho de Dume, conversor dos suevos que reinaram no território mais tarde português, no século VI, milita no quarto escalão do futebol português. Em último lugar. Pelo que a tarefa do Sporting nestes dezasseis-avos-de-final da Taça de Portugal não se afigurava difícil. Talvez por isso, os leões entraram a passo, subiram para trote no início do segundo tempo e só mudaram para galope quando Gyokeres entrou para instantaneamente deixar a sua marca na partida. Marcámos cedo, por Neto. Um golo prematuro do ancião Neto não constitui só uma antítese, é também toda uma efeméride. Porque o Neto, que na verdade é avô de todos os outros, não marcava desde o zénite da sua carreira. (De São Petersburgo para São Martinho foram 10 anos de viagem em sobressalto da bola, com esta a chorar a todos os santos.) Todavia, um prémio justo para alguém que joga melhor discursivamente do que com os pés, é muito profissional e tem uma influência bem positiva no balneário. Depois, o Nuno Santos, que já assistira de canto para o primeiro golo, marcou um outro que foi desviado pelo Matheus Reis para a entrada da pequena área onde apareceu o Coates a chutar contra o poste. Na recarga, o Paulinho voltou a mostrar a sua boa relação com o golo... nas Taças. 

 

No segundo tempo, o Sporting entrou com outro ritmo e logo marcou por Trincão. Na assistência, de calcanhar, o Paulinho. De seguida, mais um canto do Nuno Santos e o Coates, que igualava Polga como o jogador estrangeiro com mais presenças em jogos pelo Sporting (e, possivelmente, mais auto-golos, também), a elevar-se e a marcar de cabeça. Depois, cruzamento do Hjulmand e o nosso avançado centro a cabecear para golo. Entrou então o Gyokeres, e com ele a Cavalgada das Valquírias começou: assistência para o hat-trick de Paulinho, recepção de um passe de Nuno Santos (outra vez!!!) e finta ao guarda-redes que terminou em penálti e iniciativa a solo que acabou em golo. Tudo num intervalo de 12 minutos que já contempla os festejos intercalares dos golos. 

 

Foi um Domingo de Taça, com muita gente de Dume (distrito de Braga) a colorir as bancadas e a transmitir a nostalgia dos tempos em que o futebol era encarado como uma festa e não uma batalha. E houve goleada, das antigas também, tónico que se espera inspirador aquando da deslocação a Bérgamo para defrontar a Atalanta, equipa que nos traz à memória o início da nossa única gesta gloriosa nas competições europeias. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Paulinho. Nuno Santos seria uma excelente alternativa e Gyokeres fez muito em muito pouco tempo.

dumiense.jpg

17
Ago23

Primeiro estranha-se, depois entranha-se


Pedro Azevedo

Quem o viu a vir do outro lado da Segunda Circular primeiro estranhou. Entende-se porquê, ele é um "ranhoso", como um dia com autenticidade o classificou o nosso Rúben. Por tal entenda-se quem está sempre a falar, quando não a refilar, no relvado (ou balneário). Com o árbitro, os jogadores e o público adversários, até com os próprios colegas de equipa. Mas, depois, olha-se melhor para ele e vemos alguém que não se rende, não gosta de perder nem a feijões, entrega ao jogo a sua garra, sua a camisola, luta até ao fim, tem um compromisso indelével com a sua equipa e o seu clube. Além de que cruza bem e, volta não volta, nos surpreende com um número artístico. E cai-nos no goto. Para sempre. Parabéns pela renovação, Nuno Santos. Nós gostamos muito de o ter por cá. (Nuno Santos renovou contrato até 2027, mantendo-se a sua cláusula de rescisão nos 60M€.)

nuno santos2.jpg

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