Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Apocalipse Nau (ou melhor, Arca)
Pedro Azevedo
Todos os que me lêem (contra o Acordo Ortográfico, marchar marchar) sabem que eu sou um defensor da nossa Formação. Não porque ela seja parte integrante do nosso ADN, como demasiadas vezes vejo erradamente escrito por aí (não confundamos as coisas, o que está inscrito no nosso ADN é ganhar - "Tão grande como os maiores da Europa"), mas na medida em que o seu aproveitamento é uma garantia da nossa sustentabilidade. Todavia, temos infraestruturas, equipamentos, técnicos qualificados, a capacidade está instalada, mas depois não consumimos o que produzimos, gerando-se desperdício de talento (o caso Afonso Moreira, por exemplo) muitas vezes devido ao fenómeno da Obsolescência Perceptiva (o marketing e o público "exigem" novidades, e logo vem um Biel). Um exemplo claro do verdadeiro castigo de Sísifo a que está sujeita a Formação ocorreu durante o dia de ontem: de manhã, Flávio Gonçalves regressou à equipa B e marcou um golo de grande classe. Ao fim da tarde, Luís Guilherme e Faye mostraram ter muito menos critério na decisão do que o miúdo nascido em França. Mas são novidades, o treinador pediu, o presidente anuiu, o público entusiasma-se primeiro e depois tolera. Sobre o Luís Guilherme já havia escrito aqui que gosto da sua progressão vertical com bola em drible, mas na definição dos lances faz o Averell Dalton (Lucky Luke) ficar bem na fotografia. E o Faye é potente, mas um pouco trapalhão. Pelo que seria inimaginável para mim trocar o Flávio por qualquer um deles. Ainda por cima, o Flávio partilha características com o Pote que assegurariam um match perfeito com a ideia de jogo do nosso treinador, sendo igualmente muito forte na leitura do jogo e com excelentíssima dinâmica interior. E aos 18 anos já percebe muito melhor o jogo do que esses dois jogadores mais velhos que o Sporting em Janeiro foi buscar ao mercado, prova inequívoca de como falham as convicções sobre a qualidade da nossa Formação, envolvendo eu nessa falta de crença desde o treinador até à Estrutura encabeçada por Frederico Varandas.
Em dia de Apocalipse, não tanto pela chuva (incessante) mas sim porque revelador do pouco estatuto da Formação quando se trata da janela aberta do mercado de transferências, o Sporting recebia o Nacional na sua casa sita no Campo Grande. Se a aventura de chegar ao estádio já me havia deixado molhado até aos ossos, o vento que tocava a chuva e uma insistente goteira proveniente da cobertura da bancada nunca me permitiram secar a roupa e o corpo. Uma loucura, na verdade, como tantas outras coisas que fazemos por pura paixão. O jogo, igualmente cinzento, frio, também não ajudou. No primeiro tempo contei apenas duas oportunidades, uma para cada lado. E a segunda parte não foi muito melhor. De repente, o Pote marcou e escreveu mais um capítulo da Ilustre Casa dos Gonçalves onde o aprendiz Flávio ainda anda infelizmente a lavar o chão. Parecia definitivo, mas o dia não era de Diomande, ontem sempre precipitado nos duelos e assim muitas vezes apanhado fora de posição, e o Nacional empatou. Rui Silva também não ficou isento de culpas, podia ter socado a bola noutra direcção. O jogo caminhava para o fim, o empate parecia mais do que certo, mas eis que do dilúvio surge o Noé e a Arca à qual se agarrou Suárez para nos levar ao Paraíso. Depois de Arouca e de San Mamés, o Sporting salvava-se sobre o gongo, dando razão ao velho provérbio de que não há duas sem três. Haverá quatro? No Dragão poder-se-á escrever um novo adágio popular ilustrado a verde-e-branco [mas se calhar sou eu (ainda) a "meter água"].
Tenor "Tudo ao molho...": Luís Suárez (Quaresma foi preponderante no último golo, é ele que cria o desequilíbrio, e Alisson fez o cruzamento... para trás, que o colombiano com uma gama de recursos notável resolveu com o calcanhar).





