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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

23
Set25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Génio à solta em Alvalade


Pedro Azevedo

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Sobre Rui Borges justo será  dizer-se que é um paizão que tem os filhos (jogadores) indiscutivelmente com ele (vê-se nos "beijinhos e abracinhos" e também na alegria estampado no rosto dos jogadores que estão no banco), a sua equipa apresenta uma dinâmica ofensiva e uma variabilidade táctica super interessantes e a atitude (do treinador) perante o jogo evoluiu bastante, querendo agora sempre mais golos após colocar-se em vantagem. Mas tem um problema: quer demasiadamente ter razão, isto é, quer provar que os jogadores contratados neste mercado foram uma boa escolha. É natural e humano que se queira ter razão, mas quando essa razão não serve um bem colectivo, das duas uma: ou não se tem assim tanta razão (o momento pontual do jogador não ser o melhor, jogar numa posição desajustada para ele ou ainda não conhecer bem as movimentações da equipa, para dar alguns exemplos), ou essa razão não serve para nada. Vem este arrazoado a propósito da preferência ad-nauseam por Kochorashvili no meio campo, que, não deixando de ser um jogador interessante e uma razoável alternativa para a posição 6, como 8 não só não dá aproximação à área adversária como entra nos terrenos de Hjulmand e lhe retira protagonismo. Valha a verdade que apesar disso podíamos ter chegado ao intervalo a ganhar por 2 ou 3, o número aproximado de oportunidades que o Luís Suarez perdeu na cara do golo. Suarez que combinou bem, lutou imenso (uma das suas finalizações resultou de um desarme que fez a um defesa), mas não marcou durante a primeira parte, um período onde se pôde observar que Vagiannidis é mais rápido e defende bem melhor do que Fresneda. 

Na segunda parte, a equipa teve alguma dificuldade no primeiro quarto de hora. Mas depois o Maxi rendeu o Mangas e o Morita o Kocho, e o nosso jogo melhorou substancialmente. O japonês está longe da sua melhor forma (por azar chegou até a impedir um golo de Pote), mas só o facto de se posicionar à frente e não a par de Hjulmand já ajuda a melhorar o colectivo. E depois a dinâmica da trindade formada por Pote, Trincão e Quenda faz o resto, dinâmica essa que gera um carrossel que constitui um pesadelo para qualquer adversário. E há ainda Suarez e Maxi, ambos sempre em movimento - o colombiano por dentro e o uruguaio tanto por dentro como por fora -, e em combinações sistemáticas com os colegas, que se juntam a este tridente, Hjulmand e Morita a funcionarem como caixas de ritmos e os "Quarterbacks" (Debast e Inácio) a porem as bolas milimetricamente entrelinhas, todos juntos a operarem em órbitas como os 9 círculos do inferno (como Dante os via) para qualquer adversário. Então, as oportunidades foram-se sucedendo, Pote igualou Suarez nos golos desperdiçados (muito mérito do guarda-redes) e Maxi concluiu um grande detalhe individual com um remate a rasar o poste, até que Trincão pegou na bola e dentro de duas caixas de fósforos acendeu o rastilho de dois penáltis, que Suarez e Pote (o colombiano já havia saído) converteram. Refrescando consecutivamente a equipa, Rui Borges veria ainda Alisson explorar inteligentemente o espaço e servir o grego Ioannidis para o primeiro golo de leão ao peito. É verdade, o Alisson esteve muito bem nesse lance, com processos simples e eficazes. E o Leitor dirá: "Então, Pedro, ainda pensa que o brasileiro é poucochinho?" Sem problema, embora ainda tenha algumas dúvidas, nomeadamente acerca da sua qualidade no 1x1, não faço questão de ter razão. Melhor, prefiro não a ter e ela assistir inteiramente ao nosso Sporting. Como deve ser. Como faz todo o sentido. E o Simões? Nessa não me convencem: "Ó Mister, meta o Simões para sermos tricampeões" (acredito piamente que com ele de início não teríamos perdido com o Porto). Rima e tudo. [Seja como for, o Sporting hoje produziu um "statement" que deve ter deixado Mourinho (e Farioli) com a pulga atrás da orelha. Temos campeonato.]

Como diria o Sérgio (Godinho), que por acaso até é Sportinguista, hoje soube-me a pouco (podiam ter sido 8!!!), contra uma equipa ainda por cima muito bem arrumada no campo e com princípios muito interessantes montados por Vasco Botelho da Costa, um treinador muito promissor. 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão

19
Abr25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O (In)sustentável Peso de Gyokeres


Pedro Azevedo

O peso corporal de cada indivíduo varia consoante a sua altura, género e etnia, mas o peso da alma de um ser humano foi calculado por Duncan MacDougall em 21 gramas. Se, quantitativamente, as almas pesam todas o mesmo, qualitativamente expressam-se de forma diferente. Por exemplo, cada grama de alma até almeida (desconheço o equivalente em sueco) de Gyokeres confere um rendimento desportivo cuja ponta do icebergue traduz-se em 4,29 golos do Sporting. É muito golo, algo com que os nossos adversários não se conformam. Para eles seria melhor termos um ponta de lança que fosse uma alma penada. Em vez disso, saiu-lhes um com uma alma pesada (de golos). O peso de Gyokeres na equipa e no campeonato português é impressionante. Ontem marcou 3 golos e deu outros a marcar a Geny e Trincão para estes os desperdiçarem ingloriamente. A diferença entre ele e os colegas do trio atacante é abissal, o que leva a pensar que com um melhor entorno ele poderia terminar uma temporada em Portugal com perto de 100 golos. Mas se o peso de Gyokeres na produção atacante e classificação do Sporting é grande, o que dizer sobre o seu impacto no futebol português? Basta observar a tabela dos melhores marcadores do campeonato. E o que se vê? Que Gyokeres tem mais do dobro dos golos marcados pelo segundo classificado (Samu) e um número superior à soma dos golos obtidos por Samu e Pavlidis, os pontas de lança titulares de, respectivamente, Porto e Benfica. É justo por isso dizer que Gyokeres tem mais peso do que os pontas de lança de Porto e Benfica juntos.  E isto só em função dos golos, porque se considerarmos também a participação no jogo ofensivo de cada equipa essa diferença ainda é maior. Não admira assim que para os nossos adversários esse peso seja insustentável. Por isso falam em penaltis assinalados a nosso  favor e um dia destes começarão também a perorar sobre o número anormal de livres directos e, quiçá até, de pontapés de baliza. No fundo, tudo aquilo que se possa traduzir na bola chegar aos pés do sueco. Porque para eles é batota haver um jogador assim tão desequilibrador dos pratos da balança. Já para nós, o peso de Gyokeres é sustentável. Que remédio(!), ele é o nosso abono de família, um ponta de lança que na nossa história só encontra comparação em Yazalde (50 golos, em 73/74), Jardel (55 golos, em 2001/02) e Peyroteo (58 golos, em 40/41). Com a vantagem de precisar muito pouco da equipa para fazer golos. Como ontem voltou a provar-se: primeiro e segundo golos aproveitando bolas perdidas na área, terceiro golo, de livre, após falta cometida sobre si próprio. Alguém pode achar que isto não é sustentável para um Sportinguista? Insustentável, sim, será perdê-lo na próxima temporada. 

Entretanto, a alegria voltou a Alvalade com o regresso de Pedro Gonçalves. Se no Gyokeres falamos de alma, no Pote discorremos sobre massa encefálica: o cérebro de Pote é anormalmente pesado para o contexto do futebol português. Um cérebro made-in Portugal, nascido em Vidago, que não andará longe do peso do de Deco, um sobredotado português com o carimbo do SEF e do Ministério da Administração Interna. Ver este tipo raro de inteligência à solta num relvado em Portugal não é comum, por isso demos graças a Deus por estes momentos exclusivos. É que durante 5 meses a inteligência muito acima da média de Pote esteve escondida em Alcochete e não visível aos olhos de todos nós. Aproveitemos, então. 


Se no ataque o Gyokeres resolve tudo e agora até vai ter a companhia de Pote para que nem tudo dependa dele, do meio-campo para trás as coisas estão finalmente a compor-se com o regresso dos lesionados. É certo que Simões já não voltará esta época e Morita ainda não está ok, mas Hjulmand exibe-se agora a um nível muito próximo do seu melhor e Debast desvenda cada vez melhor os mistérios do círculo central. Depois, os alas Maxi e Quenda vão para cima deles e os seus suplentes (Matheus e Fresneda) descrevem diagonais que são uma forma alternativa e complementar de jogar. Finalmente, temos centrais para dar e vender. Com o excesso, "vendemos" o Debast ao sector de meio campo e o Matheus à ala esquerda. Sobraram o Quaresma, o Diomande e o Inácio. E o St Juste, para nos lembrar que a vida é como os elevadores: umas vezes para cima, outras para baixo, com uma ou outra avaria pelo meio. No final, o que espero é que também eie possa uma vez mais subir no elevador da glória (Glória?), com o povo leonino à bica (Bica?) nas ruas que vão dar ao Marquês. 

Tenor "Tudo ao molho...": Vik "Thor" (Who else?)

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05
Dez24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O passado, o presente e o futuro


Pedro Azevedo

Em "O Leopardo" (Il Gattopardo"), Don Fabrizio, príncipe de Salina, afirma que é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique exactamente igual. Em jogo estava a sobrevivência, algo que para um felino (literal e metaforicamente) desperta sempre o instinto de preservação. Sendo certo que o Leão partilha com o Leopardo o mesmo étimo comum, ambos pertencendo ao género Panthera, no actual reino do Leão as circunstâncias são diferentes, isto é, não se quis mudar, as circunstâncias é que assim o obrigaram. No entanto, o pretendido é o mesmo: que tudo fique igual. Para que tudo ficasse na mesma, Frederico Varandas escolheu um treinador da Academia com predileção pelo sistema 3-4-3. Como Amorim havia adoptado esse sistema desde a sua chegada a Alvalade, Frederico quis acreditar que tudo ficaria igual. Logo o comunicou à massa associativa e adeptos, valendo-se do tirocínio de 3 anos que João Pereira já tinha de Alcochete para dar credibilidade à sua mensagem dirigida aos Sportinguistas. Esqueceu-se porém de um pormenor: a ideia da continuidade iria confrontar mais o presente com o passado, com os resultados como fiel da balança do tribunal do povo Sportinguista. Outras soluções exigiriam tempo, e tempo é algo que os Sportinguistas estão habituados a ter de dar, ou não tivessem tido de esperar por vitórias em 2 longos períodos de 18 e 19 anos, respectivamente, mas a ideia da continuidade criou a ilusão de que não haveria que esperar. Seria pois tudo igual, que o futebol é fácil, fácil, e normal é ganhar o Euromilhões duas vezes seguidas. Só que os resultados iniciais não foram animadores e logo houve quem pegasse no Orwell e se lembrasse de que os animais (e, por conseguinte, os homens) são todos iguais, mas há uns mais iguais do que os outros (e, logicamente, outros menos iguais, como adiante se verá). Inevitavelmente, ou não, tendo o nosso povo essa tradição, com as dúvidas apareceu o sebastianismo, mostrando-se os Sportinguistas órfãos de Amorim, o que é mais legítimo, maduro e fácil de entender do que sentir a falta de quem por uma bravata perdeu simultaneamente a vida e a soberania do reino português. Porém, esse sentimento de orfandade quando se pretende andar para a frente é semelhante àquele automobilista que conduz a sua viatura só a olhar para o espelho retrovisor. Resultado: estampa-se ao primeiro obstáculo que apanha pela frente. Haveria por isso que erradicar esse sentimento e agarrarmo-nos ao que temos e João Pereira percebeu isso muito bem. Como tal, em conferência de imprensa, alertou que o treinador antigo não voltará, assim como quem diz: foquem-se no presente que o passado já lá vai, ultrapassou-nos pela direita com um terço da estrada percorrida e foi por um atalho tratar do seu futuro para Manchester. Tudo estaria bem se os Sportinguistas não desconfiassem de que o futuro não será igual ao passado recente, tomando como referência o presente. E o que é o presente? Por um lado temos um presidente que nos diz que o novo treinador está a ser preparado há 3 anos, por outro há um treinador que nos transmite que não pode replicar o que não sabe, que há comportamentos e nuances introduzidas por Amorim que desconhece, o que cria a dúvida sobre que preparação específica foi feita e obriga a mudar a fórmula de sucesso que nos foi dita que permaneceria igual. Afinal, tal como em "O Leopardo", seria preciso mudar para tudo ficar igual (os resultados), com o Sporting na liderança. Ora, mudar o que deu certo e com um protagonista ao leme diferente daquele que já tinha provas dadas é coisa para a qual os Sportinguistas não estavam preparados, daí a perplexidade e imediata insegurança que se apoderou de nós, potenciadas pela derrota de goleada com o Arsenal e o inédito desaire caseiro com o Santa Clara. Foi com estes sentimentos no subconsciente dos Sportinguistas que chegou o jogo de Moreira de Cónegos: lançaria ele água na fervura ou mais achas para a fogueira? (Para achas na fogueira já nos chegava mais uma das nossas idiossincrasias, a insólita existência de um bombeiro "incendiário", um oxímoro leonino.)

 

Não se sabe o que João Pereira vale, mas é sabido que não bale (como a Dolly), que clonagem por enquanto ainda é coisa para ovelhas. Ainda assim, hoje João Pereira quis aproximar-se dos princípios de jogo de Ruben Amorim, pelo menos no que respeita ao ponto de partida dos interiores, lançados de fora para dentro e facilitando o "overlap" dos alas. Só que a equipa revelou falta de paciência, abandonando precocemente o tricô no centro e não resistindo ao "cruzabol" a partir dos flancos. Além de que, no primeiro tempo, o jogo esteve de novo sub-virado à esquerda, um tipo de "marxismo-leoninismo" já observado em igual período com o Santa Clara. Todavia, Gyokeres conseguiu ganhar um penalty na área e o Sporting adiantou-se no marcador. Parecia que o mais difícil estava feito, mas se a organização ofensiva requer afinação, a organização e transição defensivas entregaram o jogo. Tudo começou numa bola parada em que a zona não funcionou. Porém, o cabeceamento foi executado ainda longe da baliza, o que oferecia boas possibilidades de defesa ao nosso guarda-redes. Mas este denota falta de escola, não corre debaixo dos postes, atira-se de onde está como se fosse um nadador a esperar pelo tiro de partida para mergulhar dos blocos. Resultado: faltou-lhe largura e altura na estirada, mostrando uma flagrante falta de elasticidade para um guardião com quase 2m de altura. Se as coisas já estavam menos bem, pior ficaram quando Geny cometeu um erro de principiante e enviou a bola num arremesso para o centro do terreno. Na sequência, Schettine chutou à baliza. O remate foi efectuado de fora de área, mas Kovacevic voltou a não chegar a tempo. Sem muito fazer por isso, o Moreirense ia para o descanso em vantagem. 

Muito se fala de nuances tácticas quando não se resiste a comparar o Ruben com o João. Essa análise porém é redutora porque nos esquecemos da estrelinha. O Ruben tinha avisado para isso e o segundo tempo confirmou que a João Pereira tem também faltado sorte: 2 remates à barra. A equipa reentrou bem e fez uns bons 15 minutos. Mas depois cedeu ao nervosismo, começou a lançar a bola na frente à toa em vez de jogar de ouvido como antigamente. Faltou um grito para dentro do campo e as coisas complicaram-se ainda mais. Nesse particular, Trincão teve uma noite desinspirada e estragou quase todos os lances em que entrou. Nesse transe, ele e Bragança ignoraram, em duas ocasiões distintas, Matheus Reis isolado pela esquerda. E quando Braganca saiu, a equipa deixou de ter cérebro e passou só a viver da emoção. Bem lutou Gyokeres para evitar o nosso fado, mas a equipa não o ajudou rigorosamente nada. Pelo que nem mesmo as substituições que desta vez João Pereira não adiou, mudaram fosse o que fosse para melhor. Não, a equipa perdeu-se emocionalmente no relvado. 

Em 2 semanas o Sporting vê-se na iminência de ser apanhado na liderança pelo Porto (e potencialmente ultrapassado pelo Benfica). Acabou-se assim a almofada confortável que amortecia a chegada de um novo treinador. Frederico Varandas bem que pode ser um vidente e ter visto na bola de cristal da Alcina Lameiras em João Pereira o futuro do Sporting com 4 anos de antecedência, mas bastaram 9 dias para que o Sporting perdesse por 3 vezes e 1 dia para que perdesse 6 elementos da equipa técnica. As coisas no futebol mudam muito depressa, dizia Amorim, que foi conseguindo adiar essa mudança antes de ele próprio mudar para Manchester e deixar os jogadores que em si acreditaram órfãos com dois terços da época por completar. Nessa recriação de Amorim do célebre ditame de Pimenta Machado de que no futebol o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira, Varandas até pode estar certo e o amanhã provar que a presente desconfiança de sócios e adeptos é mentira. Mas é preciso cuidar de que haja amanhã, e isso trata-se no presente, que a natureza tem horror ao vazio e logo surgem ervas daninhas. Ou então, o presente trata de nós, um presente que certamente nenhum Sportinguista desejará em época natalícia.  

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

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20
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

Arrasador !!!


Pedro Azevedo

Ontem à noite, vi o jogo na SportTV. O Sporting foi arrasador, como se os Leões tivessem montado uma rede assente entre as laterais do rectângulo de jogo e aquela equipa das camisolas esquisitas fosse constituída por um conjunto de mesatenistas que viam a bola permanentemente embater nela e ser devolvida. Nesse transe, cedo o Frimping-pong atirou a bola contra o Morita, para ela depois ricochetear para dentro da sua própria baliza. Enquanto o VAR analisava o lance, o Rui Orlando pareceu querer limitar os danos, ignorando durante todo o tempo que a bola havia batido primeiramente na mão do neerlandês e depois afanosamente apontando à tese do auto-golo, como se de um auto-golo fosse de esperar menos golo do que um golo marcado de outro modo, no que constituiu um raro momento de niilismo televisivo, que o pobre do Carlos Brito ainda procurou refrear, caracterizado por uma visão céptica e pessimista em relação à realidade como (quase) todos a vimos. [Pensando bem, se o estilhaço de uma explosão cósmica levou 100 milhões de anos até atingir a Terra (Yucatán) e extinguir os dinossauros, por que não pode o Rui Orlando demorar 90 minutos a perceber o que é um ricochete? Pode, claro.] 

 

O jogo também me marcou pela novidade de o ter visto na companhia de um amigo benfiquista. Tratou-se de uma experiência única e enriquecedora, na medida em que me trouxe outro ponto de vista sobre o jogo. Passo a explicar: enquanto eu procurava a acção no campo, o meu amigo entretinha-se com uma espécie de "Onde está o Wally?", tentando identificar o Boaventura no túnel, numa esquina, junto ao balneário, enfim um pouco por todo o lado, manifestando-se por fim muito surpreendido e triste pelo facto de não ter conseguido ver um filantropo assim em Moreira de Cónegos. Em contraste, estava eu centrado no meu ponto de vista quando o Geny foi por ali fora e soltou para o Trincão no tempo certo. Este deixou correr a bola até à linha e depois fê-la filantropicamente bolinar na direcção do Pote. Seguiu-se o habitual passe à baliza e estava feito o dois a zero. [Brincadeirinha minha, que o meu amigo é um tipo às direitas.]

 

Se Amorim é grande adepto de Guardiola, as semelhanças do futebol do Sporting com as ideias de Klopp não deixam de ser reais. No Gegenpressing (Gyokeres, Morita, Hjulmand e Nuno Santos foram extraordinários), na transição rápida, na energia contagiante com que os jogadores estão em campo, como se a equipa fosse uma banda de heavy-metal itenerante. Todavia, por contraste, já se sabe que dos metaleiros se podem esperar as mais belas baladas, pelo que nos são dadas a ver nuances da mais pura filigrana. Como as que apresenta o Kaiser Quaresma, um defesa com pés de bailarino clássico, destreza de ilusionista e espírito de aventureiro, novamente em destaque em Moreira de Cónegos. Para não falar em Pote e na sua delicada execução do já famoso passe à baliza, Art-Deco do melhor que já se viu por cá. Pensei nisto tudo enquanto decorria o intervalo... No segundo tempo, o Sporting manteve a pressão sobre o Moreirense. Embora menos concludente no que fazer com ela, a equipa soube não conceder espaços aos minhotos. De tal forma que a única oportunidade de golo do Moreirense ocorreu já nos descontos, um ar de graça final depois de um jogo inteiro de privações. Como o último suspiro de um moribundo. [Seguimos jogo a jogo, se a Polícia deixar.]

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

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03
Dez23

Há qualidade em Moreira


Pedro Azevedo

O Moreirense vem sendo a sensação deste Campeonato. Muito já se tem falado de Alanzinho, Franco ou André Luiz como referências da equipa. Mas, hoje, com o Benfica, destaco mais 3 nomes: o ala Madson, o guarda-redes Kewin e, principalmente, o médio Ruben Ismael. Este, praticamente desconhecido de tão pouco utilizado - teve a primeira titularidade na competição -, mostrou muito à vontade a sair com a bola da zona de pressão e fechou bem os espaços à entrada da área moreirense. Sem dúvida um jogador a rever, ele que enfrenta a forte concorrência de Ofori, o habitual titular da posição. Uma palavra também para os laterais Fabiano e Pedro Amador, muito seguros e incisivos em todas as suas acções. 

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18
Set23

Tudo ao molho e fé em Deus

Um búfalo à solta em prado verde


Pedro Azevedo

Não sei se ouviram o alerta da Protecção Civil, mas andou um Búfalo à solta ontem à noite em Lisboa. Para evitar o alarme social que uma notícia tipo Correio da Manhã poderá causar no público em geral, aviso desde já que esse Búfalo é humano, o que à partida parecerá uma contradição nos termos e desgostará certamente aqueles que já se viam a caminhar para Sete Rios, na expectativa de que entretanto o "animal" fosse direccionado para o Jardim Zoológico e aí pudesse ser domesticado e observado em meio controlado. Não, este Búfalo não só é humano como joga futebol, no Sporting, e a única relação que tem com o Zoo é ser um alvo preferencial da "bicharada" que pulula no futebol português. Pelo que se o quiserem ver em acção têm de se deslocar ao José Alvalade ou, em alternativa, itinerantemente onde o Sporting jogar. Então vê-lo-ão no seu estado selvagem, ainda não contaminado pelo ambiente em seu redor. Indomável na sua natureza, leal no seu carácter, o Gyokeres é a grande atração do Sporting e do circo do futebol português para a temporada 2023/24. E o que eu posso dizer é que desde o Matheus Nunes não desfrutava tanto de ver um jogador em campo! O mesmo não dirão os adversários, esfalfados, estafados, esbugalhados, sem ar, como se expostos 90 minutos a uma sauna sueca (+de 100 ºC). Quem diria que, depois de uma unha encravada de um Eskilsson, a Suécia enconderia um tesouro assim? Ontem, quase sozinho, destruiu o Moreirense. Eu bem dizia que ele me fazia lembrar o Elkjaer...

 

Das últimas fornadas da Formação, o Sporting foi a jogo com o internacional Inácio, em subida vertiginosa de cotação. O "late bloomer" Geny começou no banco, assim como o Bragança. O Essugo de lá não saiu. Dos afluentes faltaram o Rodrigo Ribeiro, a rodar na B, e o Afonso Moreira de Cónegos(?), provavelmente de fora porque o jogo era com o Moreirense. Ou então porque convocado à porta de casa do St Juste, para o ajudar a rodar a maçaneta, não fosse o holandês torcer um braço (ou mesmo o baço). Dos outros, de África veio um Diomande em bruto e do Uruguai a Vitamina C (Coates) para evitar o escorbuto. No meio, um dueto improvável de guerreiros constituído por um Samurai (Morita) e um Viking (Hjulmand), uma transposição do medieval "For Honor" da Playstation para os relvados onde vamos lutar. Nas alas, o Esgaio e o Nuno Santos, indiferentes ao 1x1, o nazareno mais de comedimento, o "ranhoso" mestre na arte do cruzamento. E para fazer companhia a um motor de explosão (Gyokeres), dois dieseis, um (Pote) mais aditivado do que o outro (Edwards). Na baliza, como habitualmente, o Adán, que cometeu o pecado original de roer a maçã que a Eva lhe deu e assim provar da nova obrigatoriedade dos guarda-redes saberem dar um chuto na bola.  


Os primeiros 15 minutos foram de adaptação: ao Moreirense, ousado na pressão, e ao critério do árbitro, exigente com o Inácio e condescendente com o Fabiano. (Já se sabe que a melhor fita do Manuel Oliveira é o Aniki-Bóbó, cuja acção se desenrola no Porto.)

 

De adaptação em adaptação, de seguida o Sporting começou a adaptar-se aos postes. Primeiro pelo Morita, depois pelo Hjulmand (mais tarde, no travessão, cortesia do Paulinho). Pelo meio o Manuel Oliveira ignorou uma falta na meia-lua (sobre o Pote), o que viria a repetir-se no segundo tempo (com Gyokeres). E outros lances polémicos houve, inclusive na área do Moreirense, ainda que o telescópio Hobby-Eberly habitualmente ao serviço da SportTV desta vez estivesse desligado e assim não podermos ser definitivos. Apesar de tudo, no segundo tempo o Gyokeres levou tudo à frente, isto é, nas canelas, no pé, na cara, em suma em qualquer parte frontal do seu corpo onde fosse possível bater-lhe... Contudo, não se intimidou, estando no primeiro golo, assistindo involuntariamente para um tiro raso de Hjulmand que contou com vários jogadores moreirenses a tapar a visão do seu guarda-redes (quando vi o guarda-redes levantar o braço temi uma interpretação tuga da regra do fora de jogo mais tarde explicada às massas pelo Duarte Gomes), e marcando o segundo, este com um movimento que fez escola em Portugal através do Jardel: um pasito adelante; un, dos, tres pasitos pa' atrás (como cantava o Ricky Martin). O terceiro veio de uma bola de canto de Geny(o), que apanhou a cabeça do Diomande ao segundo poste, um lance repetido de outro (laboratório), no primeiro tempo, em que Morita chutou e a bola esbarrou no poste. 

 

No fim, três golos, três bolas nos ferros, três defesas excepcionais do guarda-redes do Moreirense (Kewin), um golo anulado por 5 cm e uma exibição arrasadora de Gyokeres, um viking de meter medo a qualquer defesa da Primeira Liga. E estamos em primeiro! (Mas, atenção, vi no editorial de A Bola o José Manuel Delgado fazer uma cava com um ponta de lança chamado Chopin - seriam violinos?- , rendas de bilros e um futebol champanhe dos nossos vizinhos da 2ª Circular.) 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres, 1 golo, 1 assistência, 4 passes para remate à baliza, 9 faltas sofridas, 3 amarelos arrancados e (uff!!!) 11 km percorridos - "Diz-me como treinas, dir-te-ei como Gyokeres" (adaptação livre do poema célebre de Paulo Bento.)

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