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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

31
Out23

Tudo ao molho e fé em Deus

Amorim e o Ovo de Colombo


Pedro Azevedo

Caro Leitor, o obreiro do triunfo de ontem foi Rúben Amorim, o qual engendrou um Ovo de Colombo que permitiu a Geny Catamo temperar com massala, guardamungo e pimenta preta o nosso jogo atacante. Liberto de funções defensivas, entregues a um Diomande que fechou o flanco direito como lateral numa defesa a 4, o moçambicano pôde por fim jogar junto de Edwards, Pote e Gyokeres, o que proporcionou ao Sporting colocar 4 unidades ofensivas em campo. Assim, defensivamente o Sporting posicionou-se num 4-3-3 (pressão alta) que se transformava num 4-5-1 quando o Boavista superava a nossa primeira zona de pressão, enquanto ofensivamente oscilámos entre um 3-4-2-1 e mesmo um 3-3-3-1, com Geny muitas vezes metido na mesma linha de Pote (esquerda) e Edwards (centro), e Matheus Reis mais cauteloso, em parelha com os 2 médios centro (um flectia mais para a direita para compensar), a fim de mais facilmente poder recuperar a sua posição para a linha de 4 defesas assim que perdíamos a bola. Com esta inovação, Amorim absolutamente surpreendeu Petit, assegurando ao Sporting uma primeira parte de amplo domínio de jogo. Sendo certo que o Boavista até teve a primeira oportunidade, a grande sensação de golo surgiu dos pés de Geny, com a bola a abanar as redes pelo lado de fora da baliza confiada a João Gonçalves, um guarda-redes jovem que já é uma certeza. Depois, foi Pote a atirar por cima. Não tardou porém o nosso primeiro golo: Morita primeiro encontrou inteligentemente o espaço livre, de seguida executou uma recepção brilhante e depois colocou a bola redondinha nos pés de Matheus. Este cruzou bem (finalmente!!!), indo a bola encontrar Geny ao segundo poste, que encostou à matador. Um show de bola! (E Morita a mostrar que o mais importante no futebol são o tempo e o espaço, o tempo que ele poupou em recepção e passe imaculados e o espaço que só ele descobriu.)

 

No segundo tempo o jogo foi mais equilibrado, mas sempre com o Sporting mais ameaçador. Até que houve demasiadas substituições na defesa e a equipa desconjuntou-se por breves instantes, indefinida entre defender numa linha de 4 ou de 5, sabendo-se que Inácio (apesar de também ter sido lateral esquerdo na Formação) não tem a mesma propensão (e velocidade) de fechar no flanco que Diomande mostra no lado oposto. Isso, mais a entrada da némesis Bruno Lourenço, foram o suficiente para o Boavista empatar, o que podia injustamente ter borrado a bonita pintura que Amorim havia esboçado para o jogo não fora o eslovaco Bozenik estar deslocado vinte e tal centímetros (com Inácio e Nuno Santos a ficarem encostados um ao outro, o espaço para Diomande tornou-se tão grande que permitiu ao eslovaco aí antecipar-se à defesa leonina). Entretanto, já haviam sido perdoadas duas expulsões ao Boavista, uma a Tiago Morais por carga idêntica (sobre Diomande) à cometida por Gyokeres na Polónia, outra por segundo amarelo a Chidozie, que impediu um contra-ataque promissor. Tudo passado em claro e na santa paz do Senhor, que enquanto o jogo decorria a SportTV nem a lebre levantou (mais tarde, o mesmo árbitro marcou uma falta sobre Hjulmand na nossa área que até deu vontade de rir, à semelhança de uma outra apontada a Geny nas imediações da área boavisteira). Até que um dos substitutos que Amorim colocou em campo, Ricardo Esgaio, recebeu um passe de Gyokeres e cruzou para Pote ter um momento genial, um daqueles que se tivesse nascido dos pés de um jogador a quem o Senhor Martinez precisasse de dar carinho já estaria a correr mundo à boleia da máquina de propaganda. Art-Deco foi o que foi, ou o Pote não me fizesse tanto lembrar, na subtileza das suas acções, o ex-jogador do Porto e da Selecção Nacional. Não, senhor Martinez, não é azar nenhum ser assim tão dotado. Quanto muito é Hazard (dos bons tempos), que o senhor tão bem conhece. 

 

O Sporting ganhou e lidera com 3 pontos de vantagem sobre Benfica e Porto. E ontem os assistentes para golo até foram dois patinhos feios: Esgaio e Matheus. É o futebol a dar razão a Pimenta Machado quando este dizia que o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira. Na Quinta-feira logo se verá... 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

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09
Out23

Tudo ao molho e fé em Deus

Um filho de uma grandessíssima APAF


Pedro Azevedo

Um ou outro jogo desta época havia-me deixado com sentimentos contraditórios. Eu explico: qualquer Sportinguista que se preze está habituado a ser um utente da FAVA - Federação de Apoio à Vítima do Apito -, pelo que a estima recente que eu vinha sentindo pela excelsa APAF só poderia ser proveniente de um Síndrome de Estocolmo provavelmente trazido para Portugal pela mão do Viktor Gyokeres. Ontem, felizmente, tudo voltou à normalidade, cortesia de um nobre filho de uma grandessíssima APAF que nos visitou no José Alvalade. Quem também nos veio ver foi o homem que lançou um tal de Cristiano Ronaldo no futebol profisional, Monsieur Boloni, cujas visitas são sempre uma boa surpresa, a quem me vou socorrer a propósito de um seu comentário a uma arbitragem de um jogo que envolveu o Antuérpia (antigo clube): "Si j'exprime mes sentiments, je vais utiliser un langage que je n'aime pas". Nada melhor então do que enterrar o assunto arbitral, até porque no fim ganhámos e "Je suis content, parce que je suis très content". Ganda campeão, Lazlo!!!

 

À hora em que Portugal já encantava em oval na cidade de ToWin, outrora conhecida como Toulouse, o Sporting entrou em campo para defrontar o Arouca, clube que a muito custo havia conseguido terminar o seu jogo no Dragão na janela das 72h de recuperação para a deslocação a Lisboa. Já se sabe, Sporting e Arouca são clubes que se desentendem até por sinais de fumo e os seus confrontos envolvem números de Circo Cardinali em que não faltam as cambalhotas do Vidigal mais novo. Isto, associado a um jogo europeu que nos correra mal, trouxe-me maus pressentimentos. Se para a azia há o Kompensan, para compensar os maus aúgurios toma-se 1 ou 2 Gyokeres e o assunto fica arrumado. E assim, à meia-hora de jogo, lá tomei a pastilha. Só que, mesmo a terminar a primeira parte, o árbitro pôs a correr o marfim como se de um Diomande em bruto se tratasse, e ficámos a jogar com menos 1. Sussurrei "Oh Trezza! - aonde é que eu já vi isto? -, e fiquei até a gaguejar. (Entretanto, à falta do Vidigal mais pequeno, o Trezza rebolava pelo chão em consequência de uma corrente de ar.)

 

A expulsão do Diomande não valera só por si, tivera também o ónus de perdermos o Edwards, que estava num dia absolutamente sim. Quando o inglês está nesse encantamento, o Sporting entra em piloto automático e o adepto ganha a sensação de que nada pode correr mal. Mas ele saiu e logo o Arouca empatou. O golo dos arouquenses foi um manual de bem descompensar toda sela: o Inácio veio ao limite da área, pelo lado direito, evitar um 2x1 e o Morita ficou para a dobra por dentro, mas o Hjulmand, sem ninguém para marcar num raio de 30m, não recuou para defender a entrada de um dos avançados ao primeiro poste e o Coates teve de deslocar-se para lá, deixando o primeiro avançado nas suas costas. De seguida, o Matheus Reis ficou a marcar o segundo e não dobrou o Coates, o que provavelmente teria acontecido se o Nuno Santos tem fechado ao meio, coberto o segundo avançado e permitido ao Matheus Reis ajudar o Coates. No fim, o Adán levou com a bola por cima da cabeça. Fui logo tomar um (des)Kompensan!  

 

Com menos 1, sem o Edwards e já empatados, o sentimento não era muito positivo. Mas aí jogou a nossa favor o efeito Gyokeres. Com a sua potência, ao pé dele os arouquenses até pareciam ter barriga de freira. E com o melindre, começaram a fazer roscas. (O que uma pessoa não é obrigada a fazer para promover a doçaria regional de Arouca...)  Tantos olhos puseram nele que deixaram o Morita solto para receber um passe adocicado (lá está...) do Pote, que entretanto havia trocado o tino a 2 defesas que giraram como piões. E o nosso Tsubasa não perdoou: 2-1!

 

Com a vitória de ontem, continuamos em primeiro. Depois, lá para o fim do mês, é possível que nos mandem à FAVA, no Bessa. Antes, porém, ainda teremos de ir aos Olivais. Ou Moscavide. Sem esquecer uma saída roscofe, na Liga Europa. De forma que só voltaremos ao José Alvalade no dia 2 de Novembro, para a Faca na Liga, que é aquela competição em que à partida já se sabe quem serão os semi-finalistas e o sorteio está feito à sua medida para tudo aquilo ser um passeio dos alegres a bem da competitividade que o Pedro Proença apregoa, naturalmente (é o que dá ter as meninges impregnadas por 3 camadas de gel, que uma coisa é ser brilhante, outra a brilhantina). Seguem-se mais 2 jogos em casa, um para o campeonato (Estrela), outra para a Liga Europa (Rakow), como tirocínio para o Benfica. Haverá melhor palco para um iluminista como Gyokeres do que o Estádio da Luz? Assim prevaleça a razão (que nos assiste). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

gyokeres arouca.jpeg

01
Out23

Tudo ao molho e fé em Deus

Gyokeres, Hjulmand, Godinho & os Filhos do Papá


Pedro Azevedo

Luis Godinho apresentou-se insolitamente ao mundo do futebol a correr de costas e sem retrovisor em Moreira de Cónegos. A coisa prometia ser uma metáfora de quem por falta de condições (não) veria a sua carreira andar para trás, mas estamos em Portugal, país onde a meritocracia é tantas vezes atirada às couves e a incompetência natural pode ser um bilhete premiado. Logo o senhor Godinho chegou a internacional, que uma mediocridade assim convém ser exportada sob pena de, não o sendo, não caber nos limites deste cantinho à beira mar plantado. O reverso da medalha: ser condição sine-qua-non para apitar lá fora ter de continuar a arbitrar por cá. Como se o mundo fosse solidário com a nossa dor, mas ainda assim não o suficiente para que não assumamos também a nossa quota da asneira. Assim, Luis Godinho esteve ontem à noite em Faro. 

 

O saldo da actuação do árbitro foi demolidoramente deficitário. Se a expulsão do jogador farense associada ao claríssimo penalty é duvidosa - pode haver o argumento de que o guarda-redes estava em condições de defender a bola e assim não colher o caso de evidência de golo - , a não expulsão (segundo amarelo) de Hjulmand é inexplicável. De seguida, o livre marcado ao Sporting na sequência de um pontapé de bicicleta de Nuno Santos é ridículo, assim como o outro penalty que nos deu a vitória (o amperímetro que mede a intensidade de uma carga em Portugal é demasiado sensível). Sem esquecer o segundo amarelo a Mattheus Oliveira que ficou no bolso e um conjunto significativo de admoestações que seriam desnecessárias se o apitador reunisse os mínimos de autoridade e de bom senso. Entre perdas e benefícios, parece claro que o Sporting ficou a ganhar. Ora, esse é um paradigma historicamente tão estranho para um Sportinguista que até podíamos enfiar a cabeça na areia como os adeptos dos nossos rivais fazem quase todos os fins de semana nas mesmíssimas condições, porém com muito menor risco da nossa parte de sufoco. Mas não, por um lado porque tal não seria digno de um Sportinguista, por outro porque, se o árbitro é infelizmente um caso perdido, ainda há esperança de que no Sporting se tirem as devidas ilações do que correu menos bem e permitiu a uma equipa de muito menor cotação do que a nossa entrar no jogo, depois de estar a perder por dois golos e em inferioridade numerica. 

 

E o que correu mal? Em primeiro lugar, já tinha falado aqui aquando da sua contratação que Hjulmand arriscava muito nos cortes de carrinho. Eu sei, são vistosos e entram naqueles vídeos de apresentação quando o timing de entrada à bola é bom, mas podem ser altamente prejudiciais, tanto do ponto de vista técnico (fica fora da jogada) como disciplinar, se o tempo de reacção não for o melhor. Pior, a mim parece-me que essa urgência de ir logo ao choque - o dinamarquês perdeu a bola após uma má recepção e no momento seguinte optou por não fazer contenção - prende-se com alguma falta de pernas vista por exemplo aquando do golo do Sturm Graz ou da falta de que resultou o primeiro do Farense. O problema é que o Hjulmand nos faz falta com a bola nos pés, porque simplifica e acalma o jogo e encontra espaços entre-linhas por onde dar azo ao nosso jogo interior. E isso viu-se no segundo tempo, período em que a equipa também por influência de Amorim trocou o jogo interior pelas alas. Além do dinamarquês, também a ausência de Gyokeres foi sentida. Não porque tivesse saído, mas sim na medida em que deixou de ser solicitado como na primeira parte. Ora, o sueco havia estado na origem do golo inaugural e de outras cavalgadas semelhantes pela banda esquerda que semearam o pânico no último reduto dos algarvios, pelo que esta opção foi inexplicável. Acresce que Nuno Santos, Esgaio ou Geny Catamo jamais souberam aproveitar o espaço nos corredores, o Nuno porque não ajudado por ninguém (o Paulinho ia sistematicamente para dentro; alguém deveria explicar ao Matheus Reis que não é falta passar do meio campo), o Ricardo e o Geny, mesmo contando com a ajuda do Edwards, porque ou não sabem mais ou calçaram as botas trocadas. Tanto cruzamento estéril abriu a porta a transições dos farenses. Valeu-nos então a compostura de Morita, Diomande e Inácio para que esses contra-ataques não fossem concluídos. A entrada de Bragança também não ajudou, não esclarecendo o jogo e voltando a ocasionar desnecessários livres perto da sua área com pisões a adversários. Ainda assim, todas essas ineficiências cairiam no esquecimento se do outro lado não houvesse um inspiradíssimo Mattheus Oliveira (se alguma vez tivesse jogado assim de verde e branco não teria sido dispensado), um dos membros de um triunvirato de filhos de papá ilustre que ilumina este Farense. É verdade, além do Mattheus (filho do Bebeto), no onze dos algarvios estiveram o Belloumi (filho da antiga estrela do futebol argelino, com o mesmo nome, que em conjunto com Madjer dinamitou a Alemanha em 82) e o Fabrício Isidoro (filho do Paulo Isidoro, o 12º jogador do equipaço de Telé Santana no Mundial de Espanha). Todos bons de bola, ainda que aquém dos progenitores. E, claro, também não teríamos sofrido se o Adán soubesse colocar correctamente a barreira e posicionar-se bem entre os postes para a recepção do remate, não sofrendo golos pelo meio da baliza (primeiro) nem se deixando bater pelo lado que deveria estar automaticamente coberto (segundo). Enfim, faz parte das dores de crescimento de quem é jovem e da Formação. [Ah, espera(!), isso não é aqui.]

 

Com Gyokeres a continuar a dar à equipa muito mais do que esta lhe dá a ele, o Sporting isolou-se no primeiro lugar do campeonato. O que quer dizer que, mesmo considerando todos os erros e contradições do nosso jogo, não há melhor em Portugal, o que diz muito sobre os restantes competidores. Se bem que este Sporting me parece que persiste em resolver individualmente aquilo que competiria ao colectivo fazer. Não deixa de ser estranho quando se tem no plantel gente com a qualidade de Diomande, Inácio, Nuno Santos, Morita, Pote, Gyokeres ou Edwards e se dá ao luxo de deixar no banco de início três jogadores que custaram cada um mais de 10 milhões de euros (Paulinho por 70%, Trincão por 50% e Fresneda pela totalidade dos direitos económicos, considerando comissão e objectivos). Há que jogar mais. E melhor, com lealdade, sem as fitas e encenações tão comuns nos jogos em Portugal. Ponham os olhos em Gyokeres, e aproveitem algo da sua passagem por cá que não tenha só a ver com o seu (alto) rendimento. (O sueco, na sua ética profissional, assemelha-se mais a um jogador de rugby do que a um futebolista.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres. Menções honrosas para Pote (mais um golo de grande inteligência), Diomande e Inácio.

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26
Set23

Tudo ao molho e fé em Deus

O Tsubasa a tabelar com o Kierkegaard


Pedro Azevedo

Caro Leitor, o Morita é bom demais! Tão, tão bom que justifica o epíteto de Tsubasa, ou não parecesse ele saído dos desenhos animados. À técnica soberba, notória em recepções imaculadas e numa qualidade de passe que o faz com um coice na bola descobrir um colega a 10 metros por entre uma floresta de pernas, ele alia a dinâmica que torna tão pequeno um campo de futebol que até parece caber num quadradinho de uma manga japonesa. E se BD é anime, eu não podia ter maior animação ao ver um jogador assim. Ontem deu uma assistência a Paulinho que este não podia falhar.

 

Outro craque em evidência foi o Edwards. A quem só falta consistência. O inglês tem dias em que me faz lembrar o Philosophy Football, o brilhante sketch dos seus compatriotas Monty Python que nos propõe um jogo de futebol entre pensadores alemães e gregos onde o alheamento da bola é total e a letargia só é interrompida quando Arquimedes exclama "Eureka!" ou Karl Marx aquece junto à linha lateral envergando um apertado fato de treino vermelho a contrastar com uma larga barba grisalha. Eu olho para o Edwards e vejo um existencialista, um ser a maior parte do tempo angustiado e à procura de respostas sobre o significado, propósito e valor da existência humana. Uma espécie de Soren Kierkegaard (terá escapado ao nosso Scouting?) do Sporting, mas com menos nome de jogador que este "ponta de lança" nascido no mesmo reino de Hjulmand. Mas quando se liberta dessa carga e só pensa em jogar futebol, o Edwards é um conto de fadas, a resposta sobre o significado, propósito e valor da existência de um jogo de futebol. Como provou ontem com um golo do outro mundo. Não deixa de ser um caso curioso. 

 

O jogo? Uma primeira parte a todo o gás e uma segunda cheia de "conservativos", que houve Europa a meio da semana e isso no gíria dos treinadores significa controlo mal a casa do vizinho é arrombada. (Uma pergunta: será preciso a nossa ser arrombada para o Trincão ficar à porta?)  

 

Estamos em primeiro!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa Morita

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18
Set23

Tudo ao molho e fé em Deus

Um búfalo à solta em prado verde


Pedro Azevedo

Não sei se ouviram o alerta da Protecção Civil, mas andou um Búfalo à solta ontem à noite em Lisboa. Para evitar o alarme social que uma notícia tipo Correio da Manhã poderá causar no público em geral, aviso desde já que esse Búfalo é humano, o que à partida parecerá uma contradição nos termos e desgostará certamente aqueles que já se viam a caminhar para Sete Rios, na expectativa de que entretanto o "animal" fosse direccionado para o Jardim Zoológico e aí pudesse ser domesticado e observado em meio controlado. Não, este Búfalo não só é humano como joga futebol, no Sporting, e a única relação que tem com o Zoo é ser um alvo preferencial da "bicharada" que pulula no futebol português. Pelo que se o quiserem ver em acção têm de se deslocar ao José Alvalade ou, em alternativa, itinerantemente onde o Sporting jogar. Então vê-lo-ão no seu estado selvagem, ainda não contaminado pelo ambiente em seu redor. Indomável na sua natureza, leal no seu carácter, o Gyokeres é a grande atração do Sporting e do circo do futebol português para a temporada 2023/24. E o que eu posso dizer é que desde o Matheus Nunes não desfrutava tanto de ver um jogador em campo! O mesmo não dirão os adversários, esfalfados, estafados, esbugalhados, sem ar, como se expostos 90 minutos a uma sauna sueca (+de 100 ºC). Quem diria que, depois de uma unha encravada de um Eskilsson, a Suécia enconderia um tesouro assim? Ontem, quase sozinho, destruiu o Moreirense. Eu bem dizia que ele me fazia lembrar o Elkjaer...

 

Das últimas fornadas da Formação, o Sporting foi a jogo com o internacional Inácio, em subida vertiginosa de cotação. O "late bloomer" Geny começou no banco, assim como o Bragança. O Essugo de lá não saiu. Dos afluentes faltaram o Rodrigo Ribeiro, a rodar na B, e o Afonso Moreira de Cónegos(?), provavelmente de fora porque o jogo era com o Moreirense. Ou então porque convocado à porta de casa do St Juste, para o ajudar a rodar a maçaneta, não fosse o holandês torcer um braço (ou mesmo o baço). Dos outros, de África veio um Diomande em bruto e do Uruguai a Vitamina C (Coates) para evitar o escorbuto. No meio, um dueto improvável de guerreiros constituído por um Samurai (Morita) e um Viking (Hjulmand), uma transposição do medieval "For Honor" da Playstation para os relvados onde vamos lutar. Nas alas, o Esgaio e o Nuno Santos, indiferentes ao 1x1, o nazareno mais de comedimento, o "ranhoso" mestre na arte do cruzamento. E para fazer companhia a um motor de explosão (Gyokeres), dois dieseis, um (Pote) mais aditivado do que o outro (Edwards). Na baliza, como habitualmente, o Adán, que cometeu o pecado original de roer a maçã que a Eva lhe deu e assim provar da nova obrigatoriedade dos guarda-redes saberem dar um chuto na bola.  


Os primeiros 15 minutos foram de adaptação: ao Moreirense, ousado na pressão, e ao critério do árbitro, exigente com o Inácio e condescendente com o Fabiano. (Já se sabe que a melhor fita do Manuel Oliveira é o Aniki-Bóbó, cuja acção se desenrola no Porto.)

 

De adaptação em adaptação, de seguida o Sporting começou a adaptar-se aos postes. Primeiro pelo Morita, depois pelo Hjulmand (mais tarde, no travessão, cortesia do Paulinho). Pelo meio o Manuel Oliveira ignorou uma falta na meia-lua (sobre o Pote), o que viria a repetir-se no segundo tempo (com Gyokeres). E outros lances polémicos houve, inclusive na área do Moreirense, ainda que o telescópio Hobby-Eberly habitualmente ao serviço da SportTV desta vez estivesse desligado e assim não podermos ser definitivos. Apesar de tudo, no segundo tempo o Gyokeres levou tudo à frente, isto é, nas canelas, no pé, na cara, em suma em qualquer parte frontal do seu corpo onde fosse possível bater-lhe... Contudo, não se intimidou, estando no primeiro golo, assistindo involuntariamente para um tiro raso de Hjulmand que contou com vários jogadores moreirenses a tapar a visão do seu guarda-redes (quando vi o guarda-redes levantar o braço temi uma interpretação tuga da regra do fora de jogo mais tarde explicada às massas pelo Duarte Gomes), e marcando o segundo, este com um movimento que fez escola em Portugal através do Jardel: um pasito adelante; un, dos, tres pasitos pa' atrás (como cantava o Ricky Martin). O terceiro veio de uma bola de canto de Geny(o), que apanhou a cabeça do Diomande ao segundo poste, um lance repetido de outro (laboratório), no primeiro tempo, em que Morita chutou e a bola esbarrou no poste. 

 

No fim, três golos, três bolas nos ferros, três defesas excepcionais do guarda-redes do Moreirense (Kewin), um golo anulado por 5 cm e uma exibição arrasadora de Gyokeres, um viking de meter medo a qualquer defesa da Primeira Liga. E estamos em primeiro! (Mas, atenção, vi no editorial de A Bola o José Manuel Delgado fazer uma cava com um ponta de lança chamado Chopin - seriam violinos?- , rendas de bilros e um futebol champanhe dos nossos vizinhos da 2ª Circular.) 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres, 1 golo, 1 assistência, 4 passes para remate à baliza, 9 faltas sofridas, 3 amarelos arrancados e (uff!!!) 11 km percorridos - "Diz-me como treinas, dir-te-ei como Gyokeres" (adaptação livre do poema célebre de Paulo Bento.)

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04
Set23

Tudo ao molho e fé em Deus

Caça Grossa no Dragão e Pedreira


Pedro Azevedo

Começo a escrever esta crónica enquanto aguardo pelo desenlace do jogo no Dragão, confronto que só se iniciou há precisamente 19 horas e 25 minutos, pelo que é muito provável que entretanto o Porto venha a marcar através do 37º penálti assinalado a seu favor na sequência de mais um mergulho do Taremi ou, caso o Arruabarrena continue obstinadamente a não estar pelos ajustes, por via de lance com claro fora de jogo e interferência activa por parte do infractor, assim ultrapassando Sporting e Boavista e isolando-se na liderança do campeonato. A razão do atraso nesta publicação deveu-se a um problema técnico na bateria no meu computador, aVARiada, que afectou a comunicação com os Leitores. Sempre na vanguarda da verdade desportiva, procurei contornar a situação através do uso do telemóvel, mas temi o Vosso protesto devido às partidas que o corrector ortográfico do meu iPhone me costuma inflingir, coisas do género de trocar o farsi (do Taremi) pela farsa. Assim, na esperança de não ter de repetir esta crónica, aqui vai finalmente o meu testemunho sobre Caça Grossa, o safári da moda em que a presa é o Gyokeres, ontem em exibição na Pedreira:

 

Diga-se em abono da verdade que o guia Niakité nos procurou proporcionar belas imagens, cutucando o "Búfalo" no fito de assim suscitar a sua ferocidade. Só que o bom do Gyokeres, mais preocupado com uma bola que andava por ali, não lhe ligou nenhuma, ainda que o Niakité lhe tenha tentado despertar a atenção com malabarismos circenses do género de enrolar-se no chão com ou sem bola como se de uma foca se tratasse e o palco fosse o Zoomarine. Entretanto, aproveitando os radares apontados ao Gyokeres, o Diomande foi progredindo sem marcação pela savana bracarense até encontrar o Pote. O que aconteceu a seguir foi mais um momento de pura magia de um génio a quem um dia talvez venha a ser concedido o privilégio de vestir a mesma camisola das quinas que essa estrela do firmamento futebolístico que dá pelo nome de Toti Gomes, habitual suplente do Wolves, usa. Residem porém dúvidas sobre a legitimidade do lance, na medida em que o Matheus se interpôs com a baliza. Como procurou, mas não conseguiu, evitar a marcha da bola, só podia estar claramente em fora de jogo posicional... De seguida, marcámos o segundo. Foi do Hjulmand, em tiro raso e sem hipóteses. Mas o VAR apontou baterias (uma novidade!!!) à anulação. Justificação: um fora de jogo passivo, o que, dada a jurisprudência do Dragão, ficámos a saber ser bem mais grave do que um fora de jogo activo. Alegadamente, o Matheus não viu a bola partir. Eu diria que nem a viu chegar, tal a potência do disparo. Mas, enfim, aceitar-se-ia em termos absolutos, que não relativos (Dragão). E como uma competição se joga em vários campos... (Sobre o ângulo de visão do guarda-redes talvez não fosse má ideia os árbitros do CA fazerem uma reciclagem com os pilotos de F1, que têm de conduzir com um halo que tem um veio à frente dos seus olhos. Se não aprendessem nada, pelo menos sempre seriam despachados a grande velocidade.)

 

O jogo estava a correr-nos de feição. Ora, quando algo parece bom demais para ser verdade, nós tendemos a complicar. E foi isso que mais uma vez aconteceu. Perdendo-se inúmeras transições com o Braga perfeitamente à nossa mercê. Ligando o complicómetro, com os inefáveis Edwards e Trincão mostrando a sua total inconsequência. E com Amorim a ajudar, nas substituições. Como quando lançou Bragança no relvado. Quer dizer, é impossível não gostar do toque refinado do Daniel, ideal num 4-3-3. Mas nós jogamos só com dois médios centro, razão pela qual se pede físico e intensidade a esses jogadores. O Bragança não os tem e procura compensar esse défice com alma. Já se sabe, a alma faz falta, e o Daniel é useiro em fazê-las, algumas delas à entrada da nossa área. Não é um dado novo. Ontem, de uma delas resultou o golo do Braga. Marcado pelo Álvaro Djaló, que curiosamente entrou mais ou menos ao mesmo tempo que o Trincão, que substituiu o Pote para executar um livre idêntico: concentradíssimo, ajeitou a melena para a esquerda e para a direita num momento Pantene que deixou os Sportinguistas pelos cabelos,  disparando para a bancada. Pelo que o momento do jogo foi o minuto 72, em que o Braga mexeu bem e o Sporting mal a partir do banco. 

 

O CA fez um novo Comunicado. Novamente 3 pontos nesse Comunicado, que a juntar a outros 3 de um jogo do Sporting dão um total de 6. A manter esta média (1,5 pontos/jogo) é natural que não desça de divisão, que é como quem diz de categoria, o que será uma lástima para o futebol português. Depois do Casa Pia, agora o Casa (ou caso) Pilha. Assim vai o futebol português. [No Dragão, o CA esclarece que não havia corrente eléctrica na única tomada acessível na área de revisão do árbitro e o gerador (UPS) não tinha bateria.]

 

Tenor "Tudo ao molho...": Diomande

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28
Ago23

Tudo ao molho e fé em Deus

Lévi-Strauss contra a tanga


Pedro Azevedo

Qual Lévi-Strauss, qual Bronislaw Malinowski, antropologia da boa é na SportTV. Pelo menos de cada vez que o professor Luis Vidigal lá vai discorrer sobre os jogos do Sporting. No episódio de ontem o tema foi a tradição dos povos. De uma forma instrutiva, o Luis foi-nos dando exemplos. Subitamente, a propósito do cartão amarelo a um tal de Topic, topa isto: "É uma questão cultural dos sérvios usar muito as mãos!". Enfim, talvez não os recomende para companheiros de viagem num Metro apinhado, mas decerto explicará porque rivalizam com os EUA no basquetebol. Mas foi com a observação que deixou sobre o Geny Catamo que se me fez luz sobre as idiossincrasias lusas: explicou-nos o Vidigal que fazia parte das "dores de crescimento" o moçambicano não se ter atirado para o chão após um adversário lhe ter soprado nas costas. E fiquei bem resolvido sobre o tema da cultura desportiva em Portugal. (Entretanto, a aculturação do Gyokeres está em progresso. Mais umas semanas e uma cotovelada como a que lhe deu o Riccieli levá-lo-á a dar um flick flack à rectaguarda à moda do Minho e o empurrão nas costas acompanhado por um puxão nos calções na área fá-lo-á mergulhar encorpadamente a pedir o penálti. O Vidigal sentenciará que o sueco é muito inteligente e tudo voltará à paz do Senhor.)

 

Em Portugal queima-se tudo. Queimam-se as fitas, os resíduos, as árvores e às vezes até os "fusíveis" dos portugueses. E, no futebol, queima-se tempo, torrando a paciência do santo de altar que é o espectador. Mas há quem defenda esse status-quo: durante toda a primeira parte o bom do Vidigal esforçou-se por contextualizar as sucessivas interrupções do jogo para entrada do médico. Os minhotos iam caindo à vez no relvado, contorcendo-se com suplicantes dores de cotovelo perante a superioridade do Sporting, mas o comentador lá ia justificando cada nova inacção com as  assimetrias entre os clubes. E nem mesmo durante o longo intervalo, quando todo o elenco famalicense teria necessitado mais da assistência de um relojoeiro do que do médico ou do próprio treinador, o comentador se descompôs. Até porque o problema maior foi o braço do Gyokeres, que ameaça ser o novo cisma para as cartilhas dos nosso rivais. Como é que o sueco pode ser responsabilizado por uso do rádio (e do úmero, cóccix, sacro, vértebras, omoplatas, clavículas, etc...), se todos os orgãos do seu corpo estão permanentemente a ser agarrados, logo controlados, pelos adversários? Só se o rádio de que falam for um de pilhas, e ele o leve à socapa escondido nos calções para assim não perder os distintos comentários do Vidigal...

 

Gostei da estreia a titular do Hjulmand. Face ao jogo de Rio Maior houve um pouco menos Gudelj e um pouco mais William, com aqueles passes rasos e verticais a quebrar linhas. E defensivamente, ainda que não um Palhinha ou mesmo um Ugarte na intensidade, esteve melhor, cobrindo competentemente as linhas de passe através de uma boa ocupação do espaço e não se encolhendo junto dos centrais. Com a sua entrada, o Morita avançou um pouco no terreno, aproximando-se com perigo da área adversária como tantas vezes lhe vimos na época passada. Assim, o Pote pôde ocupar um lugar no trio da frente. O Pedro não deslumbrou, mas melhorou o seu rendimento. E podia ter marcado em duas ocasiões. Pelo que o que me pareceu que funcionou menos bem foi a ligação dos alas com a restante equipa. Muito devido à incapacidade de ambos em desequilibrar no 1x1, precisando por isso de um espaço que não tiveram. E se ao Nuno Santos faltou alguém na esquerda que comprometesse o lateral direito do Famalicão para que ficasse liberto a fim de sacar aqueles cruzamentos cheios de veneno que lhe reconhecemos, o Esgaio perdeu espontaneidade entre cálculos diferenciais e resolução de polinómios de terceiro grau que o levam a dar toques a mais na bola antes de centrar (nesse sentido, o "elástico" de Geny, seguido de assistência para desperdício de Pote, foi como um clarão numa noite escura).  Assim, acabou por ser com a força aérea, à imagem e semelhança do lance que deu a vitória sobre o Vizela, que se resolveria este jogo contra um equipa de grande rigor defensivo, com jogadores de belíssimo recorte técnico e um óptimo guarda-redes (se o Júnior é assim, imagine-se o que não será o Luiz Sénior...). Como protagonista de novo Paulinho, o Lázaro que ressuscitou o seu faro de golo desde que guiado pelo intenso perfume que veio da Escandinávia. Uma nota final para Coates, que fez o seu melhor jogo nesta época, e para Diomande, intransponível pela terra e pelo ar, numa noite em que o Sporting estreou o novo equipamento CR7, dourado e preto, que tem sido um sucesso de vendas. E estamos na frente!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Paulinho 

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19
Ago23

Tudo ao molho e fé em Deus

Odin, cernelhas e o fado da arbitragem


Pedro Azevedo

A Oeste nada de novo...

 

A noite foi contraditória para Gyokeres: conscientes da sua influência na dinâmica do Sporting, os casapianos imprimiram o nome Valhala nas suas camisolas, recordando-lhe a mitologia do seu povo, na esperança de que assim aliciado fosse levado pelas valquírias para ir viver com Odin, a aspiração máxima de qualquer guerreiro viking nobre e destemido como ele. Para o ajudar, puxaram, empuraram e pontapearam-no sem piedade durante os 90 minutos do prélio, seguros de que morreria em batalha, a condição sine-qua-non para o ingresso nesse salão que funciona como um olimpo para os nórdicos. No entanto, um erro foi cometido pelo seu capitão: ao expô-lo à tão portuguesa arte taurina, nomeadamente na sua versão pega de cernelha, acabou por fazer florescer no sueco a curiosidade sobre as nossas ancestrais tradições e um apego à terra lusitana que o mantiveram vivo e afastado do seu presumível destino. Até quando conseguirá sobreviver não sabemos, sendo certo que, pelo menos a avaliar por aquilo que se observou no Oeste, não deve esperar grande protecção destes juízes que trocam o martelo pelo apito para acabarem a apitar a martelo (do VAR de ontem falaremos no fim). Enfim, faz tudo parte do processo de aculturação a Portugal... (Sugere-se como requisito básico para o Gyokeres dar troco aos seus oponentes, e assim também poder fazer corpo sem que os árbitros considerem tal comportamento como faltoso ou digno de admoestação, o ingresso no Grupo de Forcados do Aposento do Barrete Verde. Além de verdes, também ficam em Alcochete, poupando-se na deslocação e podendo assim o sueco realizar uns moderníssimos treinos integrados.)

 

Se há ideia que aos olhos dos adeptos parece consolidada é a de que Paulinho rende muito mais com Gyokeres como ponta de lança em campo, podendo assim adicionar golos e dividir as tarefas de associativismo, multiplicando a sua influência no jogo e diminuindo a ansiedade dos adeptos. Em suma, tornando-se um avançado algebricamente indiscutível. Já a parceria Morita+Pote está longe do recomendável, abrindo ontem auto-estradas do Oeste por onde transitaram frequentemente as motos casapianas. E, se não há pressão sobre o portador da bola, as linhas de passe não são bem fechadas por deficiente posicionamento e existe tempo e espaço para a bola ser endereçada com critério, então corremos real perigo. A catástrofe segue-se quando a restante defesa não respeita a linha de fora de jogo definida pelo central do meio - noutro aspecto desastrado no passe à distância (tal como Inácio) -, e deixa um adversário isolado perante Adán. A solução poderá ser a entrada de Hjulmand. Porém, os sinais de ontem foram pouco animadores: muito metido entre os centrais, houve momentos em que nos recordou o Gudelj do tempo de Peseiro, embora sem o rabo de cavalo. Ademais, não antecipou a maioria dos lances, parecendo reactivo mais do que activo, pelo que, irónicamente, acabou por impressionar mais pela sua postura articulada com bola. Porém, não esqueçamos que acabou de chegar e não conhece nem colegas nem rotinas de jogo, pelo que se espera que possa vir a render bem mais no futuro. 

 

C'um Catamo(!), com o Edwards e o Trincão totalmente "fora dela", pergunto-me por que razão o Geny não tem uma oportunidade como interior. Assim não me faria aflição vê-lo a jogar de pé trocado na defesa. Seja como for, ontem o rapaz justificou mais oportunidades. Se as tiver e fizer por continuar a merecê-las, então comercialmente haverá um mundo de oportunidades. É que não sou só eu a torcer por ele, há toda uma nação (Moçambique) pronta a ir para a rua para o celebrar. 

 

Uma nota final mais séria que muito teria gostado de não fazer: deixei para o fim a análise ao erro do VAR que validou o nosso primeiro golo. Considero-o inaceitável e revelador da ausência de um zelo mínimo exigível, desde logo porque o recurso à tecnologia, embora ainda sujeito a intervenção manual - o que torna o processo necessariamente moroso a fim de ser fiável -, visa exactamente eliminar o erro humano, pelo que a bem da credibilidade deste instrumento tão importante à verdade desportiva o responsável directo pelo erro de ontem deverá imediatamente ser objecto de um processo disciplinar que vise a exoneração das suas funções. [Acresce a esta intolerável suspeição que, na minha opinião, já no passado o senhor e o próprio Conselho de Arbitragem não foram cuidadosos o suficiente ao não considerarem aquilo que eu penso ter sido uma flagrante incompatibilidade, não prevenindo conflito de interesses e permitindo a Hugo Miguel dirigir jogos do Sporting e de outras equipas cujos equipamentos eram à época de uma marca para a qual o árbitro, hoje VAR, (foi tornado público que) trabalhava. Não é que eu pense que o Sporting tenha sido beneficiado, pelo contrário recordo-me sim de termos sido afastados quase definitivamente do título de 21/22 por uma sua decisão de acatar uma chamada de atenção do VAR em lance pouco ou nada claro, de interpretação, e que portanto deveria ter ficado fora do protocolo. Lembro a todos que o Sporting vencia o Braga, em casa, por 1-0 e que dessa decisão resultou um penálti que permitiu aos arsenalistas empatarem o jogo (viriam a ganhá-lo por 1-2). Simplesmente, à mulher de César não basta ser séria, deve também parecê-lo, e nada dessa vez foi feito para defender esse princípio e as boas práticas de gestão. Assim, espero que nesta ocasião se tomem as decisões correctas que se impõem.] Não está em causa a honorabilidade do senhor Hugo Miguel (ao contrário do julgamento sobre a sua competência para a função), e quero deixá-lo bem claro, mas sim a credibilidade da ferramenta do VAR, do Conselho de Arbitragem e do próprio futebol português. Siga-se então o bem maior, por muito que nos custe o afastamento de alguém, que há erros que podem fazer desabar conquistas importantes em nome da integridade das competições e da eliminação de ruído que não contribui para a promoção do produto futebol português.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Paulinho

 

P.S. O peso que o Paulinho tem carregado aos ombros ao longo destes 3 anos é tão grande que não admira que o Hugo Miguel tenha posto aí as linhas...

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13
Ago23

Tudo ao molho e fé em Deus

Resolvido o dilema epistemológico


Pedro Azevedo

O Sporting tinha um ponta de lança associativo que não marcava golos. Como ser ponta de lança e não marcar golos parecia uma contradição nos termos, logo entre os adeptos se gerou uma discussão epistemológica com o fim de determinar o fundamento lógico da existência de um ponta de lança assim, o seu valor intrínseco (o que é uma coisa diferente do preço) e a sua importância subjectiva (o tal do "associativismo") e objectiva (golos). Tudo muito filosófico e até a roçar a metafísica, ou não fosse o Sporting um clube onde a própria razão de ser foi posta em causa quando um presidente disse preferir dois segundos lugares a uma primeira posição. Nesse impasse, a dialética sobre o que andamos a fazer por aqui acabou por sobrepor-se à própria dialética sobre a utilidade de um ponta de lança associativo. Faz sentido, porque, embora para os ingleses o futebol seja definido como "association", toda a gente no mundo sabe que o objectivo do futebol é marcar golos, sendo que não os marcar seria a negação do próprio jogo e, logo, da razão da nossa existência enquanto clube com a modalidade de futebol. Esta dialética hegeliana tornou-se tão importante para nós ao ponto de lhe termos dedicado duas épocas desportivas inteiras. A uma tese maioritária defendida pelos adeptos, contrapunha Amorim com a antítese. A ausência de resultados desportivos acabou por desnivelar a balança a favor dos adeptos e no defeso fizemos a síntese e partimos avidamente à procura de um ponta de lança que também fizesse golos. A ideia pareceu-me boa, na medida em que fez jus a opções ancestrais de aposta em guarda-redes que evitem que o adversário marque ou em defesas que efectivamente defendam. Nada como pormos as coisas em perspectiva, não é verdade? E veio o Gyokeres.

 

Se antes tínhamos um ponta de lança associativo, com o Gyokerers ganhámos um ponta de lança cumulativo. Do tipo que marca golos ao mesmo tempo, ou com poucos segundos de diferença, aos pares, conjuntamente, de pé esquerdo ou direito, com um toque de calcanhar ou uma mudança de direcção como preliminares. Estranhamente porém, teve de fazer tudo sozinho, ou seja, a equipa não foi nada associativa consigo, não o serviu uma única vez em condições, ao contrário dele que ainda teve tempo para dar um golo cantado a Bragança. Nesse particular, o Trincão, o Matheus Reis e até, imagine-se, o Pote (pior jogo que lhe vi fazer de verde e branco) exageraram. Se no caso do Matheus - eu punha-o a estudar o projecto Gertrudes de simulação de trânsito - o problema é a existência de uma diacronia crónica entre o seu cruzamento e as movimentações dos colegas mais avançados, no que diz respeito ao Trincão trata-se de uma questão de ter mais olhos do que barriga e assim insistir errada e reiteradamente na solução individual. Já o Pote eu compreendo bem. Correndo o risco todos nós de o perder antes do fecho de mercado, o Pedro sacrificou-se pelo nosso ideal e afastou de uma só penada os mesmos olheiros tipo aves agoirentas que um dia nos levaram o Matheus Nunes. 

 

O que é certo é que houve pouco Sporting além de Gyokeres. Após 25 minutos de jogo a equipa desligou para não voltar a ligar-se. A saída de Bragança também não ajudou, assim como a anunciada passagem de Pote para o meio campo a fim de termos mais uma solução atacante (Amorim dixit, conferência de imprensa anterior ao jogo). Com tanta solução atacante a engonhar (o Edwards ajudou à festa), esquecemo-nos de defender, o Morita esgotou-se de tanta transição em inferioridade numérica. O jogo partiu-se inúmeras vezes e acabámos por sofrer também nós golos aos pares. O último foi revelador da aposta na nossa Formação... pelo Vizela: assistência de Tomás Silva para golo de Nuno Miranda.

 

A partir daí deixámos de todo de jogar, optando durante mais de 20 minutos pelo chuveirinho. Reminiscência do passado recente, o Coates foi para ponta de lança, posicionando-se ao lado do Gyo e do Paulinho, que entretanto havia entrado. E acabariam por ser estes 3 a combinar para o golo salvador que evitaria um maior sobressalto: o sueco ganhou de cabeça na área, Coates saltou com um defesa e a bola espirrou para o Paulinho, que marcou com o seu pior pé. Um momento mau para a Tuna do Paulinho - certamente teria preferido que este baixasse linhas, basculasse ligeiramente, distribuísse nas alas e outras tretas próprias de cantorias dionisíacas do futebolês - , mas óptimo para os associados e adeptos do Sporting. Somámos 3 pontos e os nossos golos foram todos marcados por pontas de lança. Afinal, talvez o futebol não precise de ser reiventado. (Com esse reconfortante pensamento, adormeci num sono profundo e relaxado.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

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