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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

19
Fev26

O ausente omnipresente


Pedro Azevedo

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Embora qualquer referência ao seu nome tenha estado ausente na generalidade dos comentários da imprensa desportiva, a semana futebolística ficou marcada pela omnipresença de Fernando Madureira. Sim, esse mesmo: Fernando Madureira, o líder dos Super Dragões. Surpreendidos? Eu explico. Na terça feira, na Luz, o Prestianni alegadamente confundiu o Vinícius com o Madureira e a medo denunciou qualquer coisa que fez o árbitro accionar o protocolo (anti-pretoriano) com tanta rapidez e eficácia que até o primeiro-ministro, presente na Tribuna do estádio, ficou com vontade de o convidar para presidir ao SIRESP. A omnipresença do Fernando na Luz foi um autentico "Vini (Jr, no original Veni), Vidi, Vici". Nem o Júlio César ao passar o Rubicão, só mesmo o Fernando ao sair da prisão ... (A Comunicação do Benfica bem podia ter prestado este esclarecimento em vez de explicações tão débeis que mais soaram a falecimento por vontade própria.)

 

A semana também foi de bate-boca entre Porto e Sporting. Motivo: também Villas-Boas sentiu no Dragão a pressão do regresso de Madureira. Vai daí, logo recuperou aquelas velhas práticas rupestres da instituição que fazem as delícias dos adeptos mais radicais das claques do futebol. Paradoxalmente, um clube que já foi a bandeira da descentralização é hoje o clube da centralização: do vídeo, do ar condicionado, das bolas de futebol... Sempre com a Lei de Lavoisier no pensamento: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Exemplo: na baliza do Sporting já não entram bolas impulsionadas por apanha-bolas (que agora as escondem). Em compensação, da baliza do Sporting saem uns atoalhados manhosos que caem que nem um luva num daqueles WCs ambulantes que o Porto disponibiliza para a malta das obras, que obra é um adepto prestar-se a ser visita no Estádio do Dragão. É a natureza a transformar-se, o que encontra o hospedeiro ideal naquele princípio liberal de "laissez-faire la nature" que caracteriza os supervisores do futebol português. O problema é que sem regras (ou regras lassas) logo surgem as ervas daninhas e trabalho adicional emerge para quem só joga na relva...

13
Fev26

I see u later, alligator…


Pedro Azevedo

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As práticas atribuídas na CS ao Porto de Villas-Boas são uma combinação infeliz entre a Lei de Lavoisier - "Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" - e o cinismo expresso por Lampedusa em "O Leopardo", quando, no contexto da unificação italiana protagonizada por Garibaldi, Tancredi Falconeri diz ao seu tio, o Príncipe de Salina, que para perpetuar a nobreza siciliana "É preciso mudar alguma coisa, de forma a que tudo fique igual". Bill Haley cantava "I see you later, alligator; in a while, crocodile". Depois de "O Velho Crocodilo", dêem as boas graças ao "Jacaré" Villas-Boas...

14
Ago25

(Ex)citações (22)


Pedro Azevedo

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Bob Paisley foi tricampeão europeu pelo Liverpool. Um dia estreou no "onze" um jovem proveniente do Newcastle. Alan Kennedy era o seu nome, e a première não poderia ter corrido pior. Quando, no final do jogo, Paisley foi inquirido pelos jornalistas sobre o que havia dito ao seu pupilo acerca da sua exibição, não esteve com meias medidas: "Vou ser honesto contigo, mataram o Kennedy errado", afirmou. A verdade é que Alan Kennedy viria a ser posteriormente instrumental em duas conquistas europeias do Liverpool: na Taça dos Campeões de 80/81, marcando o golo solitário com que os "reds" bateram o Real Madrid; na mesma competição, mas em 83/84, transformando a última penalidade com que o Liverpool venceu a Roma, num jogo com um nó tão apertado que nem o prolongamento desatou. Foi o fecho de um ciclo para Paisley, ele que garantira a primeira das suas vitórias na Taça dos Campeões precisamente em Roma (1977), numa final em que a equipa de Merseyside derrotara o Borussia de Moenchengladbach. A esse propósito, Paisley não se fez rogado em afirmar: "É a segunda vez que derroto os alemães aqui. Na primeira vim de tanque, quando os aliados libertaram a cidade durante a Segunda Guerra Mundial". Que grande personagem! 

22
Jul25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Ser diferente ou fazer a diferença?


Pedro Azevedo

Coco Chanel um dia afirmou que para se ser insubstituível é imperativo ser-se diferente. Mas ser diferente não é necessariamente igual a fazer a diferença, e Rui Borges percebeu isso muito bem quando meteu para já o 4-3-3 no congelador, ressuscitando o 3-4-3 no jogo de ontem à noite, contra o Sunderland, com Quaresma, Debast e Gonçalo Inácio como centrais e Quenda e Matheus Reis investidos de alas. [Chamo a atenção do Leitor que na TVI(nácio) disseram que jogámos em 4-2-3-1, mas é sabido que o (ontem comentador) Augusto Inácio tem a fama de ver jogos pirateados.]

 

Se não inovou em termos de sistema ofensivo, Rui Borges criou algo de novo em termos defensivos, alternando o 3-5-2 com o 4-4-2, o primeiro ainda pouco trabalhado e razão que justificou os espaços nas franjas dos nossos centrais de lado que o Sunderland tanto procurou durante o primeiro tempo, valendo então a serena excelência de Rui Silva para que o resultado não descambasse a nosso desfavor. Até que Debast lançou Harder nas costas dos ingleses e este assistiu Trincão para o único golo da noite. 

Com os jogadores ainda muito presos de movimentos dada a elevada carga de trabalho de pré-época, o jogo valeu essencialmente pelos aspectos tácticos. O resto foi desolador: Pote passou o jogo quase todo com um piano amarrado às costas, trocando-o no fim por uma tábua de engomar, não resistindo assim à tentação de passar um inglês a ferro; Quaresma deixou o cérebro no hotel e decerto só o recuperará depois de fazer um ó-ó retemperador. Tudo produto do cansaço extremo que nos traz à evidência que Rui Borges e a sua equipa técnica não brincam em serviço e a carga física neste estágio em Lagos tem sido intensa. Seguir-se-á o jogo dos Cinco Violinos, contra os espanhóis do Villareal, e depois o desejável desanuviar da extrema intensidade de treinos que nos permitirá chegar ao jogo da Supertaça com o corpo a obedecer à cabeça e esta a pensar melhor. 

Tenor "Tudo ao molho...": Zeno Debast

 

PS: Para esta equipa do Sporting, o 4-3-3 (em vez do 3-4-3) é como uma sopinha de gaspacho: sabe bem e é refrescante em tempos de Verão, mas o futebol é um desporto de Inverno e nesse período é aconselhável algo mais quente e aconchegante para o corpo. 

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10
Jul25

Bandemónio Vermelho


Pedro Azevedo

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Antes eram os Diabos Vermelhos, agora, Rui Costa, no seu anúncio de candidatura à presidência do Benfica, referiu que é preciso "fazer o que ainda não foi feito", recuperando assim o tema (e lema) de uma velha canção de Pedro Abrunhosa e dos Bandemónio. Pelo andar da carruagem, temo que com o ardor típico das campanhas eleitorais se siga o "não posso mais viver assim, olhar para ti sem te ter perto de mim" (dedicado ao João Félix), até que alguém se lembre do "talvez...". 

26
Dez24

Ontologia


Pedro Azevedo

Na apresentação de Rui Borges, Frederico Varandas revelou-se um filósofo, abordando questões metafísicas e, em particular, ontológicas. "João Pereira não pôde ser João Pereira" - disse Varandas, não deixando de referir que "Rui Borges vai poder ser Rui Borges". O facto de alguém não ter podido ser ele próprio não deixa de ser intrigante num clube em que esse alguém é posteriormente substituído por outro a quem será permitido ser igual a si próprio. Porque é que João Pereira não pôde ser João Pereira? Não se sabe, mas crê-se que temos de acreditar que Rui Borges será igual a Rui Borges, logo diferente do João Pereira que não conseguiu ser igual ao João Pereira original que seria igual ao que se espera de Rui Borges se ele puder ser igual ao Rui Borges, ou seja, que em 4 anos esteja num colosso europeu. Confusos? Não, foi só mais uma conferência de imprensa de Frederico Varandas, na sequência do Sporting não ter podido ser Sporting e assim ter despedido João Pereira no Dia de Natal. Agora, Rui Borges vai ter de ser igual a Rui Borges, ainda que Varandas lhe tenha oferecido um presente ainda mais envenenado que aquele que embrulhou para João Pereira, com Benfica, Vitória e Porto de enfiada e sem poder treinar suficientemente o seu sistema. Convenhamos que à luz disto, a maçã que a bruxa má ofereceu à Cinderela é uma estória para meninos. Mas como Rui Borges é transmontano e lá os meninos tornam-se adultos antes do tempo, teremos de acreditar que o conto de fadas é possível. 

"Romeiro, Romeiro, quem és tu?  - Ninguém!" - Trecho de "Frei Luis de Sousa" dedicado a D. João de Portugal (mas podia ser a outro João, o Pereira, que também não pôde ser ele), por Almeida Garrett. 

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20
Nov23

Tudo ao molho e fé em Deus

A desconfiar se vai ao longe


Pedro Azevedo

O português é um ser desconfiado por natureza. Duvida um pouco de si próprio e muito dos seus compatriotas. E desconfia de bons arranques, temendo que isso despolete futuramente a ira de Deus (para os monoteístas), dos deuses (para os politeístas) ou da Autoridade Tributária (para os ateus e os agnósticos, estes mais flexíveis, que é coisa que a AT não gosta). Por isso, quando lhe perguntam como se sente, a resposta é quase sempre um "mais ou menos", não vá o "mais" apanhar São Pedro em horas extraordinárias antes do tempo previsto para a abertura das portas do Céu a cada um (ou provoque uma convocatória para a repartição de Finanças mais próxima). No futebol, essa desconfiança portuguesa traduz-se no uso compulsivo da máquina de calcular. Creio até que a máquina de calcular foi inventada por um senhor (Pascal) tão à frente do seu tempo que no Século XVII previu as dificuldades que Portugal teria nas fases de qualificação dos grandes torneios internacionais e pressentiu que o frágil ábaco nas mãos dos portugueses não iria resistir aos múltiplos cálculos diferenciais (de golos). Resolveu assim o (nosso) vácuo e deu-nos um instrumento para lidarmos com a pressão (não é à toa que esta se mede em Pascal, que por acaso até rima com Portugal).

 

Ora, na antecâmara deste jogo já sabíamos que estávamos qualificados para o Europeu. Se isto não é para desconfiar... Mais, se ganhássemos à Islândia terminaríamos com 100% de vitórias, sucesso só comparável na história de Portugal aos Descobrimentos. A ver pelo que foi a descolonização, a menção aos Descobrimentos aqui foi tudo menos inocente, pelo que está visto que será entre rezas, mas também figas, alhos, macumbas e outros rituais do género, que tentaremos enfrentar o que aí virá. É que ainda me lembro de uma outra fase de qualificação muito boa, em que eliminámos irlandeses e holandeses, que terminou em tragédia na Coreia. Lá está, eu sou português. E desconfio.  

 

Depois deste intrólito que apenas serviu o propósito de encher a crónica a toda a sela, retomemos então o que era a actualidade, que consistia na recepção de Portugal à Islândia, tendo como palco o nosso José Alvalade. Estive para ir ao estádio. Um amigo meu, que tinha os bilhetes, convidou-me. Mas, por fim, acabou retido num "monte" em Évora que por acaso fica num vale e a ideia de ida ao estádio resultou em semelhante antítese. Conformei-me assim em ver pela televisão. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o nome dos islandeses: os 11 acabavam em "son". Consultada uma homóloga da Drª Edite Estrela que mora no Google, concluí que os apelidos islandeses correspondem ao nome próprio do pai acrescido de "son" (filho de). Por exemplo, o Cristiano Ronaldo, se fosse islandês, chamar-se-ia Dinisson. (Apercebendo-se disto, há esperança de que os nossos árbitros emigrem e se naturalizem islandeses para evitar que a mãe seja tão mencionada nas bancadas.)

 

A táctica islandesa consistia em ter 11 Retrancasons atrás da bola. Portugal respondeu com 4(+1) Joões, coisa que não seria inesperada para o Mané Garrincha que dá o rosto por este blogue. Cumpriam-se 10 anos desde o célebre hat-trick de Cristiano Ronaldo a outros nórdicos (Suécia) numa qualificação para um Mundial (Brasil) de má memória (lá está...) e cedo o GOAT procurou comemorar a efeméride com um golo. Só que não era o dia, nesta altura do ano na Islândia é quase sempre noite, e a coisa ficou adiada para a janela de Março ou mesmo para o Europeu. Pelo que viria a ser Bruno Fernandes, o melhor português nesta fase de qualificação, a abrir as portas da vitória com um remate forte e colocado, após um toque abrasileirado de Bernardo Silva. Bruno e Bernardo que fazem uma dupla BB como a gasosa, ou não sejam eles quem dá gás a esta Selecção do meio campo para a frente. Atrás, o Palhinha espraiava os tentáculos por todo o lado e o Otávio deliciava a jogar de primeira a toda a extensão do relvado. O Cancelo, que desta vez começou na esquerda, vinha para o meio como um interior, reforçando a nossa superioridade no meio-campo. Pelo que a primeira parte viria a ser de sentido único, apenas não fazendo qualquer sentido a escassa vantagem que se registava ao intervalo.

 

Os islandeses surgiram mais afoitos na etapa complementar. Mas o Inácio não lhes deu qualquer hipótese. De forma que Portugal continuou a ser mais perigoso e marcou. Foi o recém-entrado Horta o autor da proeza, recargando uma recarga de Ronaldo, em lance em que as carambolas começaram em Félix. Até ao fim, pouco houve a registar. O Guerreiro, que entrou para fazer o mesmo papel do Cancelo, ainda teve um momento à João Pinto (Porto), evitando conceder um pontapé de canto ao cabecear contra o travessão da sua baliza, mas o jogo terminou quase ali.

 

E não é que chegámos ao fim da fase de qualificação com 10 em 10? Dá para desconfiar, não é? Estou certo porém que arranjaremos qualquer coisa para reforçar o providencial pessimismo que nos guindou a campeões da Europa. Já não temos Fernando Santos e com ele aquela alegria dos cemitérios que seria sempre uma garantia nesse sentido - os polacos, muito mais confiantes que nós, talvez por isso permanentemente invadidos por alemães e russos, nunca o conseguiram entender -, pelo que temos de nos concentrar no menos bom registo de Roberto Martinez pela Bélgica nas fases finais das grandes competições. De forma a chegarmos à Alemanha como "outsiders". Depois, de empate a empate, prolongamentos e penáltis, criaremos a desconfiança nos outros (que não estão habituados e não sabem lidar com a desconfiança), nesse transe trazendo o caneco para Portugal.  Dá para acreditar?

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Palhinha

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