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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

02
Jan26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Modelo de Formação centrado no mercado


Pedro Azevedo

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Não se entende porque se gastam tantos recursos na Formação e se cria um modelo centrado no jogador, se depois o treinador prefere um Alisson Bolt a um Flávio Gonçalves. O paradoxo da coisa é a palavra-chave da Formação ser "centrado" e o treinador da equipa principal preterir um jovem em função de um jogador que lá para 2028 é capaz de vir a realizar um centro, tão incapaz é de entender o jogo colectivo (talvez porque não se desenvolveu na nossa Formação). Não havendo Pote, o substituto natural seria o Flávio, mas Rui Borges preferiu um velocista com pinta de cromo da Motown a um jogador de futebol e foi "compensado" com o golo do empate quando Alisson se atirou para o chão e abriu uma passadeira vermelha para um gilista marcar à vontade. 

O jogo começou logo mal com a opção de Rui Borges por dois laterais inoperantes no jogo ofensivo (Mangas ausente por lesão). Sem "carrileros" nas alas que atraíssem marcações para libertar Maxi e Trincão no jogo por dentro, o Sporting ficou totalmente dependente do seu jogo interior. Dada a enorme concentração de jogadores gilistas na faixa central, apenas um passe muito preciso poderia isolar alguém no comprimento. E isso aconteceu, quando Quaresma acionou o gps e fez a bola chegar ao destino que Suarez pretendia para a um só toque colocar a bola dentro da baliza do Gil. Como o golo aconteceu mesmo em cima do apito para o intervalo, o Sporting regressou ao balneário em vantagem no marcador. 


No segundo tempo, Suarez desperdiçou um penalty em movimento após boa movimentação de Trincão. Como Maxi não estava a ter bola, Rui Borges pensou em recuá-lo para lateral, a ver se a equipa conseguia ter comprimento e largura. Mas com isso veio o equívoco: em vez de escolher um jogador interior, Borges optou por Alisson. Se a ideia era ter espaço nas alas, a entrada do brasileiro atraiu mais um adversário para o marcar, o que significou que o corredor ficou sobredotado de jogadores, sem nenhum benefício para o jogo interior porque Maxi havia recuado no terreno. É que o futebol é tempo (execução) e espaço (destino), e a esse espaço deve chegar-se à hora certa, não antes (lá estacionado) nem depois (atrasado). Para complicar ainda mais as coisas, Inácio fez-se expulsar por défice de velocidade e a Alisson foi pedido que passasse para a direita. Com o Gil sempre a despejar bolas para o segundo poste e a tirar muitos centros da esquerda para a direita da nossa defesa, tal opção foi desastrosa, até porque já antes Fresneda (jogo péssimo) havia falhado a marcação e só por milagre Rui Silva conseguira evitar o golo. Mas, ainda assim, Rui Borges decidiu-se por esse verdadeiro hara-kiri e o resultado foi o que se viu. 

Com este tipo de opções do seu treinador, o Sporting não perde só o campeonato, perde também o futuro. Por muito que Tomaz Morais apresente modelos de Formação centrados no desenvolvimento do jogador jovem, o treinador da equipa principal vai sempre pedir uns presentes no sapatinho de Natal (que, dada a dimensão requerida, é feito sob medida nos estaleiros da Lisnave). E o presidente anui, dando a imagem para dentro (sócios e adeptos) de que deu tudo ao seu treinador para ele ganhar. Então vêm o Luís Guilherme e depois o Faye, a Formação é colocada numa gaveta ou mesmo mandada às urtigas, Frederico Pilatos lava as mãos ou assobia para o lado  e no fim do campeonato dá-se mais uma voltinha ao mercado. Para disfarçar, no defeso far-se-ão mais umas obras em Alcochete, nomeadamente com a construção de uma ladeira, do alto da qual se poderá projectar esse pedregulho chamado Formação, que na verdade não é mais do que um Castigo de Sísifo imposto aos Sportinguistas. A Centrai de Comunicação logo ecoará umas lendas&narrativas (uma "cava" de cave, que não é Alexandre Herculano quem quer) e tudo continuará na paz ido Senhor. Bater-se-ão umas palminhas, que Alcochete é uma casa bonita e com "cachet" para mostrar aos amigos, e mudar-se-á somente o essencial para que tudo fique exactamente na mesma. Como no Leopardo, do Lampedusa, ainda que nós sejamos leões. Fica tudo em família...

Nota complementar: o Barcelona tem na sua equipa principal doze jogadores sub-23 formados em La Masía já utilizados esta época em La Liga, seis deles ainda sub-18 (dois com apenas 17 anos). E não são visitas esporádicas, para "inglês ver". 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma (o melhor defesa por uma milha de diferença e o jogador que mais acções com critério realizou em todo o jogo)

05
Mai25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

A Barca da Glória aguarda na doca


Pedro Azevedo

O Leitor imagine 2 barcas ancoradas num imaginário cais do Lumiar. Numa vai o agora auto-proclamado diabo vermelho César Peixoto, a caminho do inferno. Na outra, um anjo sueco, timoneiro do trajecto para a glória. A equipa do Sporting já se encontra no cais, mas o argumento que determinará em qual barca entrará será escrito em conjunto com Gil Vicente. Nesse auto da barca do inferno, os Sportinguistas querem ver a sua equipa viajar na barca da glória, ainda que um eventual sucesso hoje não garanta que esta se faça imediatamente ao mar, devendo a embarcação permanecer pelo menos mais uma semana em doca seca, aqui alegoricamente representando o purgatório. Foi com estes cenário presente na mente dos seus atletas que a equipa do Sporting foi a jogo esta noite, não jogando só futebol mas também a vida ou, pelo menos, a possibilidade de continuar de boa saúde. 

Não foi nada fácil. Se o Gil jogasse sempre assim estaria a lutar pela Europa dos milhões. Mas se pela Europa não jogou e daí não virão milhões, causou estranheza que, nos minutos finais do jogo, em vez de ir atrás do resultado, meia equipa do Gil tenha procurado expulsar o Gyokeres, assim a jeito de quem sabe que perdeu a lotaria mas não desiste de tentar a terminação (diz o ditado que "quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem"). De qualquer forma, é de elogiar a organização dos gilistas, com dois centrais sobre o Gyokeres que mais pareciam sósias do Marcel Desailly. Do lado do Sporting houve muita precipitação no passe e um erro básico que consistiu em entregar à volatilidade do elevador de St Juste um papel central nas operações defensivas, equívoco esse que esteve na origem do golo do Gil. Verdade seja dita que Rui Borges redimiu-se com a tripla substituição que asfixiou o Gil e levou à vitória final. Nesse particular, o recém-entrado Hjulmand, sozinho, foi mais influente do que os dois médios (Debast e Morita) que o precederam, Harder esteve na origem do golo de Maxi e Quenda gerou alguns desequilíbrios, como o que resultou num livre que Trincão bateu na trave. Mas foi o patinho-feio Quaresma a sentenciar a partida. Um golo à Deco ou Pote, em folha seca e contra-luz, de refinada arte, uma vitória contra o preconceito, que Einstein dizia ser mais difícil de destruir do que a desintegração de um átomo. Mais do que um passe à baliza, um passe-social com acesso à barca da glória, para já a aguardar no purgatório.  

 

Aliviada a tensão, foi bonita a festa final, com Nuno Santos, Bragança e João Simões vestidos à civil dentro do relvado a mostrarem que o grupo está unido e se cair será de pé.  

No Sábado há derby na Luz. À hora que escrevo esta crónica. desconhecem-se ainda como estarão nesse dia as variações de tensão da eiectricidade comprada a Espanha. Não se sabe se ocorrerão picos de produção de energia alternativa e se o nosso sistema vai estar a importar nesse momento, arriscando um shut-down que leve a um apagão total. Mais do que na táctica do Borges, no Gyokeres ou no lançamento dos búzios, é nisso que devemos investir o tempo que nos resta ate lá a fim de fazermos uma previsão razoável sobre as hipotéticas movimentações à luz da vela no Marquês, que é como quem diz, voltaREN que estás perdoada (e para cúmulo aliviavam-se também as dores de cotovelo do rival). 

Tenor "Tudo ao molho...": Edu Quaresma 

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28
Fev25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Pirâmide de Maslow, nesse sentido


Pedro Azevedo

Quis o destino que o Sporting visitasse a cidade que viu nascer Gil Vicente em plena época carnavalesca. Dado o contexto duplamente favorável para uma atitude teatral, os leões cedo representaram um cansaço inexplicável para quem ainda não tinha tido tempo para sujar os calções, apresentando uma farsa durante o primeiro acto de uma peça em que Trincão foi protagonista a actuar como um presidente de câmara orgulhoso das inúmeras rotundas que deixou como obra pífia. Em 4 ocasiões, o Gil poderia ter inaugurado o marcador, mas, por acção inspirada de Rui Silva e/ou azelhice dos seus avançados, o intervalo chegou com uma igualdade. No início do segundo acto, Rui Borges lançou Gyokeres. Ainda que visivelmente condicionado, só a presença do sueco intimida, entendendo-se essa presença como física ou mera projecção cinematográfica de um holograma (uma ideia de como fazer descansar Gyokeres e ainda assim, recorrendo a efeitos especiais, apoquentar os nossos adversários). Pelo que o Gil desconfiou, tornando-se menos afoito e concentrando atenções na marcação ao nosso ponta de lança goleador. Com isso, o jogo equilibrou-se, passando o Gil a atacar a medo, com receio de no processo perder a bola e assim soltar a fera sueca, deixando de posicionar dois ou três homens entre-linhas como durante o primeiro acto. Libertado de maiores preocupações defensivas, o Debast começou a subir no terreno, iludindo vários gilistas no drible como um Maradona belga ou combinando com os avançados em acções atacantes. Até que Gyokeres o viu solto no centro do campo e o belga recepcionou orientadamente com categoria e foi feliz na deflecção do subsequente remate num defesa que tirou a bola do alcance da acção do seu guarda-redes. Como um mal nunca vem só, as Parcas do destino logo trataram de deixar o Gil reduzido a 10 quando Zé Carlos abalroou Maxi, que caminhava isolado para a baliza. Pensou-se que o jogo teria terminado aí, mas após a farsa viria o drama. Felix Correia, um ex-jogador leonino que partilha com Nuno Moreira o único senão de não ser proveniente de Salvador da Baía, bailou com pagodinho sobre a defesa do Sporting e cruzou para Rúben Fernandes encostar com a cabeça para golo. Entrou então em cena o CarnaVAR de Barcelos, e 3 minutos depois o golo seria anulado por 3 centímetros. Com esse cenário digno de uma alegria dos cemitérios pré-quaresmal, o jogo chegaria ao fim com o triunfo do Sporting, que assim se qualificou para as meias-finais da Taça de Portugal, onde defrontará, a duas mãos, o Rio Ave. Com uma onda inaudita de lesões, o Sporting de Rui Borges depara-se perante a Pirâmide de Maslow: primeiro, necessita de saciar a fome (de vitórias), depois de melhorar a segurança (defensiva), para mais tarde recuperar a interacção ou coabitação entre os sectores e aumentar a auto-estima, até que finalmente possa estimular a criatividade a fim de voltar a ter o reconhecimento dos amantes do futebol. Passo a passo, "nesse sentido" (ascendente). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Debast

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23
Dez24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O Auto da Barca do Inferno


Pedro Azevedo

Não sei em relação a vocês, mas eu não acredito em coincidências: o Big Bang não aconteceu por acaso, o meteoro que caiu na província de Yucatán, dizimou os dinossauros e criou as condições ideais para o desenvolvimento da espécie humana, idém. E se coisas tão complexas como estas que ocorreram no passado e influenciaram o mundo como o conhecemos hoje não foram coincidência, o Sporting ter encontrado ontem no Gil Vicente a barca dos infernos muito menos o foi. 

O Sporting navegava numa barca comandada por um anjo. O mar era calmo e o sol luzia, a embarcação seguia sem sobressaltos. Mas o anjo permitiu que os seus dons de timoneiro lhe subissem à cabeça e, qual Lúcifer, afrontou a vontade de Deus, logo se achou acima de todos e reclamou uma barca mais luxuosa, deixando a do Sporting à deriva em alto-mar, a naufragar num mar que logo se encrespou. Até que foi abordada por outras duas barcas que imediatamente disputaram as almas em presença, uma tripulada por um anjo não corrompido pela ambição desmedida e outra dirigida pelo diabo. Só que para muitos era tarde demais, a desidratação e falta de alimento já haviam produzido o seu efeito e na barca jaziam vários corpos, só escapando com vida os jogadores. 

Em sequência, os mortos começam a ser distribuídos pelas embarcações. O primeiro chama-se Frederico. É condenado ao inferno por soberba, preguiça e avareza. Arrogante, a sua alma reclama o Paraíso, alegando os muitos êxitos obtidos no seu mandato "fácil, fácil". O anjo recusa-o, com o argumento de que os méritos foram essencialmente de Rúben. Segue-se o próprio Rúben, previamente capturado em Manchester by the Sea pelo diabo e já condenado por ganância. Ainda tenta mudar novamente de barca e convencer o anjo a ir para o céu, mas, apesar dos seus méritos evidentes, não o consegue convencer pelos recentes prejuízos causados ao anterior clube e seus apaniguados. Também pede ao diabo que o deixe voltar a onde tudo começou (Sporting), mas é demasiado tarde para a redenção e acaba na barca do inferno. O terceiro a chegar é um ingénuo. Chama-se João. É tentado pelo diabo a entrar na barca do inferno, mas quando descobre que o seu destino é um presente envenenado vai falar com o anjo. Este, embevecido com a sua humildade e a "brilhante defesa" (do seu caso), fá-lo entrar na barca que vai para o céu. Depois, chega o que é já o fantasma de Viana, que tenta mostrar que não é deste filme. Mas o anjo não o leva, apoiado-se em tudo o que (não) fez quando não teve controlo parental. Os nomes de Bolasie, Jesé e Fernando são ecoados e imediatamente o diabo o puxa para a barca que segue para Inferno City, onde árbitros e VAR também têm lugar cativo. Finalmente, avança o Paulinho, o último a deixar a toalha cair ao chão, uma vítima inocente do despautério de outros. O diabo sente que com este não tem qualquer hipótese e logo o anjo o conforta e encaminha este verdadeiro leão para a barca que vai para o céu. 

 

Entretanto, os jogadores ficam num limbo, isto é, ainda sobrevivem, se bem que estourados física e psicologicamente, mas já não sabem se isso é real ou se estão no purgatório. E aquilo que poderia ter sido Um Cântico de Natal sobre os méritos da redenção e metamorfose do nosso Ebenezer Scrooge, virou um Auto da Barca do Inferno...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hjulmand

resumo-do-livro-Auto-da-Barca-do-Inferno-500x500.p

13
Abr24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Em terra de galos, o leão foi quem cantou cedo


Pedro Azevedo

Ontem, o Sporting jogou em Barcelos. A equipa está com uma óptima dinâmica, legiões de adeptos seguem-na para todo o lado e cheira muito a título. Mas um Sportinguista desconfia sempre e nunca está totalmente confiante antes de um jogo. Mesmo com 4-0 ao intervalo põe-se logo a pensar num cartão amarelo que resulte em suspensão ou numa expulsão. É como se os nossos jogos se escrevessem no céu e o guionista escolhido fosse especialmente trocista, começando os filmes em apoteose para que terminem em desgraça, só para que o espectador possa por momentos acalentar a expectativa de sucesso. Tem sido quase sempre assim nas últimas 4 décadas. Não foi porém  o caso de ontem à noite, ainda que muitos anos a virar frangos nos ensinem que jogos com o Gil possam sempre dar galo. Mas não, não desta vez, o Sporting foi muito superior, peyroteou cedo e em profusão foi acumulando mais golos, pelo que pôde descansar com bola no segundo tempo a fim de melhor preparar a ida a um Famalicão que se espera ter sido devidamente estafado pelo Porto esta tarde. Não sei por isso se esta equipa do Sporting improvisa com tanta categoria que dispensa guionista ou se este aproveitou o bom tempo e foi a banhos celestes, o que é certo é que pude assistir ao jogo com uma sensação que já não tinha desde os tempos em que o Paulo Bento esgotou a palavra: tranquilidade.  

Duas óptimas notícias da noite foram os reaparecimentos de Morita e de Trincão ao mais alto nível. Houve também a confirmação do Daniel Bragança (o lance em que ele recupera a bola e depois progride com ela e assiste magnificamente Trincão deveria ser mostrado em looping aos discípulos de São Tomé que insistem no preconceito e não querem perceber o óbvio). E o Quaresma regressou ao onze inicial. Sobre o Quaresma é preciso dizer que fez 15 jogos como titular a partir do momento em que jogou com o Porto. Desses 15 jogos, o Sporting venceu 12, empatou 2 e perdeu 1 (Braga, Taça da Liga), médias ligeiramente superiores às que a equipa tem esta época. E o Sporting, com ele desde o início, conseguiu 8 "clean sheets", só sofreu 8 golos no total e marcou 47, médias muito melhores que as da temporada. Ontem fez mais um jogo competente. Entretanto, o Gyokeres trocou os golos pelo bola na barra (ou no poste), o que é muito mais difícil, exige maior pontaria e deveria valer mais pontos. O homem pareceu abatido, ele que é quem geralmente abate os adversários, e o caso não é para menos e exige os maiores cuidados do nosso Departamento Médico: é que o excesso de ferro provoca hemocromatose e isso pode danificar órgãos importantes. Por falar em órgãos, eles hoje tocaram a rebate nas capelinhas do Dragão, a anunciar desastre. Ver o Porto acossado por Braga e Vitória não é bom para nós, pois obriga-o a dar tudo para ganhar ao Sporting. E nós já temos problemas de sobra: uma pessoa nem consegue desfrutar da expectativa do título com tanta notícia de vendas. A perspectiva é de ver o Amorim, o Gyokeres e o Paulinho (o técnico de equipamentos) a cantarem o "You'll never walk alone" e nós a caminharmos sozinhos. Pelo menos a avaliar pelo que os media dizem. Teremos ainda clube na segunda-feira? E, mais importante, na terça? Estou expectante e com os nervos em franja. Será que teremos 11 para Famalicão ou perderemos por falta de comparência? Irão todos para a cidade dos Beatles? Let it be? With a little help from my friends? Enfim, um desassossego...

 

Até terça! Se houver jogo. E crónica (para o caso de o cronista também ir a caminho de Liverpool)...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão

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05
Dez23

Tudo ao molho e fé em Deus

O móvel sueco que não há no IKEA


Pedro Azevedo

Caro Leitor, a passagem de Gyokeres pelo Sporting só pode ser comparada com uma epopeia. Tanto que nem sei se ele é humano. Eu vejo-o mais como um semi-deus, um futuro herói da mitologia leonina, cujos feitos serão entoados de geração em geração. É verdade(!), ele está para nós como o Hércules para os gregos, pela sua grande força física e por realizar missões à priori consideradas como humanamente impossíveis. Ou como o Ulisses, da Odisseia do Homero, esperando eu que permaneça por cá os mesmos 10 anos no seu caminho de regresso à terra natal. (Afinal, da nossa Tróia a Alcochete é só um pulinho e para a Suécia chegam 4 horas de avião.) Sim, porque não tínhamos alguém assim desde o Yazalde, que não só marcava muito como deixava igualmente tudo em campo. Pelo que se houver alguém que lhe melhore o jogo de cabeça, então estaremos mesmo na presença de um deus. Pensando bem, o Homero que me desculpe, mas 10 anos não serão suficientes. Façam-lhe mas é um contrato vitalício! Por isso, se "só" tivemos que esperar 48 anos para voltarmos a ter um jogador assim, não me venham com a história de que não há insubstituíveis. (Ontem correu quase 11 km, móveis suecos assim não há no IKEA.)

 

Ganhámos e voltámos ao primeiro lugar, isolados, mas há por aí uns Velhos do Restelo do comentário desportivo que não se cansam de anunciar tempestade, como se tivessem desencantado o espírito do Artur Albarran algures no Kuwait, país que já se sabe tem grãos de areia suficientes para pôr em qualquer engrenagem: parece que o drama, a tragédia, o horror é termos de ir jogar com o Guimarães e o Porto. Então não temos o Gyokeres? Se nós estamos preocupados, o Álvaro Pacheco já tem as barbas de molho e a boina a arder de tanto esfregar as meninges. E o Conceição deve saber que, para o "Hércules", liquidar o dragão é só mais uma tarefa, segundo a lenda a 11ª entregue por Euristeu. Ora, então, contem comigo: Vizela, Moreirense, Sturm Graz, Farense (por duas vezes), Atalanta, Arouca, Benfica, Dumiense e Gil Vicente. Pelo que o melhor é rezar a todos os santinhos para que lhe saia o Soares Dias, o Godinho ou o Pinheiro, os semi-deuses que sucederam aos deuses e heróis Guímaro, Martins dos Santos ou irmãos Calheiros no imaginário da mitologia portista. ("Chacun à sa place".)  

 

Houve um grande Gyokeres, mas o Edwards andou lá perto. Se o Gyokeres estendeu os gilistas (no campo, como no varal), o Edwards torceu-os primeiro, ambos combinando para tornar secante a vida dos de Barcelos. Fez duas assistências para dois golos anulados a Gyokeres por medidas que deixariam o John Holmes a sorrir de desprezo e participou activamente no terceiro golo leonino. E no resto do jogo não parou de agitar. Referências também para o Pote, que passou a bola com uma precisão pouco vista esta época para o terceiro do Sporting, e para o Hjulmand, que esteve no primeiro e no segundo. Sem esquecer o Nuno Santos, de cujo remate nasceu o primeiro. 

 

A crónica caminha para o fim e ainda não vos dei conta de que o Gil chegou a estar na frente. Foi numa bola parada. Não sei se ao Leitor lhe parecerá inverosímil que uma bola parada dê em golo, a mim parece. Se está parada, como se moveu? E, no entanto, como diria Galileu a propósito da Terra, moveu-se: "E pur si muove!". Pelo que parada só ficou nas redes de Adán, razão suficiente para eu preferir a bola corrida. Até porque esta coisa da bola parada parece canto de sereia para desconcentrar o nosso Ulisses, que provavelmente nesse lance se terá esquecido de tapar com cera os seus ouvidos. E assim o Gil Vicente ameaçou com o seu auto da barca do inferno (para logo depois criar um auto... golo). Tenham lá cuidado com isso da próxima vez! (No auto-golo, o gilista parecia aquele pirata que afundava o navio sempre que o sentinela, gago, alertava para a iminência da abordagem dos gauleses de Asterix e Obelix: "Os gau-gau...". É só trocar por "O Gyo-Gyo...".)

 

Esta epopeia ganha contornos semelhantes à de 20/21. As equipas conhecem-nos e estudam-nos cada vez melhor, juntam as suas linhas, fecham as nossas alas, colocam o autocarro mais ou menos atrás, agrilhoam o Gyokeres com fechaduras e cadeados, mas o resultado é quase sempre o mesmo. Ou seja, a essa aprendizagem extraordinária tem correspondido a derrota do costume. Pelo que a continuar assim o único que poderá derrotar o Sporting será o próprio Sporting. Já aconteceu uma vez, na Luz. E ficou a meio caminho, em Braga. Resta então saber se o Sporting se quererá derrotar a si próprio, sendo essa a ténue esperança que ainda une Schmidt e Conceição. A não ser assim, prevejo que os nossos competidores continuem a aprender (e perder).

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

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