Mané Garrincha tinha tudo para não ser jogador de futebol. Com o joelho da perna direita valgo, a inclinar para dentro, e o joelho da perna canhota varo, com um desvio para fora, Garrincha tinha ambas as pernas a entortar para a sua esquerda, deformação exacerbada por uma prematura poliemielite mal curada que lhe reduziria para sempre em 6 cm o comprimento da perna direita e por um problema congénito na coluna vertebral. Contudo, tais membros viriam a ser lendários pelos assombrosos bailados executados nos relvados -Jô Soares brincava, dizendo que ele parado já era um drible -, nesse transe desafiando simultaneamente a anatomia e a ortopedia. Mané fintava, como se através da finta driblasse uma vida de miséria. Por isso, bastas vezes voltava atrás, como se rebobinasse a cassete para assim melhor assegurar que se afastava desse passado que o inquietava. Se para a maioria dos jogadores atacantes o objectivo do jogo é o golo, com Garrincha o futebol, e por conseguinte o drible, era pura terapia ocupacional. Mestre na arte do engano, Mané foi enganando a sua própria vida até não poder mais. Afastado dos relvados, logo tudo à sua volta se desmoronou, entre o vício descontrolado do alcool e uma pobreza extrema derivada da falta de formação que o conduziu a investimentos ruinosos. Ninguém porém jamais esquecerá as tardes de glória ao serviço do Botafogo e da Canarinha. Com esta viria a ser campeão mundial em 58, repetindo o feito em 62. Nesta última Copa, Garrincha vir-se-ia a transcender: com Pelé cedo lesionado, seria ele a pegar na batuta e a levar o Brasil ao colo até à coroação do bi-campeonato, ganhando aí uma dimensão para lá do drible que o imortalizou. Justamente apodado como "Alegria do Povo" ou "Anjo das Pernas Tortas", Garrincha traz-nos à memória a nostalgia de um tempo que não se repetirá, em que o futebol não deixava de ser "association" mas o povo essencialmente pagava para se deleitar com os grandes solistas - o Romantismo morreu.
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