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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

16
Nov23

Garrincha, por Vinícius de Moraes


Pedro Azevedo

"A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés - um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: - Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!" - Vinícius em "O Anjo das Pernas Tortas"

garrincha brasil.jpg

16
Jun23

A Alegria do Povo


Pedro Azevedo

Mané Garrincha tinha tudo para não ser jogador de futebol. Com o joelho da perna direita valgo, a inclinar para dentro, e o joelho da perna canhota varo, com um desvio para fora, Garrincha tinha ambas as pernas a entortar para a sua esquerda, deformação exacerbada por uma prematura poliemielite mal curada que lhe reduziria para sempre em 6 cm o comprimento da perna direita e por um problema congénito na coluna vertebral. Contudo, tais membros viriam a ser lendários pelos assombrosos bailados executados nos relvados -Jô Soares brincava, dizendo que ele parado já era um drible -, nesse transe desafiando simultaneamente a anatomia e a ortopedia. Mané fintava, como se através da finta driblasse uma vida de miséria. Por isso, bastas vezes voltava atrás, como se rebobinasse a cassete para assim melhor assegurar que se afastava desse passado que o inquietava. Se para a maioria dos jogadores atacantes o objectivo do jogo é o golo, com Garrincha o futebol, e por conseguinte o drible, era pura terapia ocupacional. Mestre na arte do engano, Mané foi enganando a sua própria vida até não poder mais. Afastado dos relvados, logo tudo à sua volta se desmoronou, entre o vício descontrolado do alcool e uma pobreza extrema derivada da falta de formação que o conduziu a investimentos ruinosos. Ninguém porém jamais esquecerá as tardes de glória ao serviço do Botafogo e da Canarinha. Com esta viria a ser campeão mundial em 58, repetindo o feito em 62. Nesta última Copa, Garrincha vir-se-ia a transcender: com Pelé cedo lesionado, seria ele a pegar na batuta e a levar o Brasil ao colo até à coroação do bi-campeonato, ganhando aí uma dimensão para lá do drible que o imortalizou. Justamente apodado como "Alegria do Povo" ou "Anjo das Pernas Tortas", Garrincha traz-nos à memória a nostalgia de um tempo que não se repetirá, em que o futebol não deixava de ser "association" mas o povo essencialmente pagava para se deleitar com os grandes solistas - o Romantismo morreu. 

garrincha1.jpg

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