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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

12
Dez25

A angústia da bola antes do craque


Pedro Azevedo

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Há vários dias que a bola se sentia vazia, sem ar, frouxa, à beira de ver os seus planos furados porque tratada ao pontapé e exposta aos maus tratos e tortura daqueles que com ela não sabendo lidar a magoavam mesmo sem querer. Ainda que com as orelhas a arder, caprichosa, orgulhosa, qual Mustang ela resistia ao domínio de quem a queria adestrar, nem que para isso tivesse de produzir alguns efeitos concebidos apenas para ludibriar. Até que conheceu o craque. Mal tomou contacto com ele, a bola reconheceu imediatamente o toque diferenciado de quem sabia o que estava a fazer, o trato seguro e confiante daquele que nunca mais deixou de a ter por perto, intimamente. Trocaram carícias. Nesse instante, o seu estado de alma alterou-se. Inchou de alegria com a sua nova conquista, ficou mais redondinha, tornou-se dócil e meiga. Já não precisaria mais de correr inebriadamente sem sentido ou de voar para parte incerta. Com o craque, bola e chuteira fundiram-se num só, unidos numa "ligadura funcional" onde não se percebia onde terminava o esférico e começava o pé. E viveram felizes para sempre, para gáudio dos meninos que todos os dias ensinam os mais graúdos que o essencial do futebol é a bola e os jogadores e o que está à sua volta é como uma moldura, que pode ser neutra, melhorar ou piorar a obra de arte original. 

11
Dez25

O que os ecos da Luz nos dizem


Pedro Azevedo

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Considero os ecos do jogo da Luz e nomeadamente o desagrado dos nossos adeptos com a exibição (mais do que com o resultado) como um sinal muito positivo, de exigência mas também de evolução. Empatámos na Luz, onde ontem o campeão italiano e líder do seu campeonato perdeu, e perdemos em Munique pelo mesmo resultado que o campeão do mundo Chelsea foi derrotado e contra uma equipa que já nesta edição da Liga dos Campeões havia vencido em Paris o actual detentor do troféu maior do futebol europeu. Como consequência, houve muitas críticas. Mas isso é bom, na medida em que não se vai longe pensando pequeno. Ademais, os adeptos só têm essa exigência para com a equipa porque ela já provou ser capaz de jogar um bom futebol, na minha opinião o mais elaborado tacticamente entre os clubes portugueses. E isso é também produto do muito mérito de Rui Borges, um treinador muito forte no trabalho de campo e que tem uma bela ideia de jogo, a quem só faltará uma outra conscencialização da sua própria competência (por vezes a humildade em excesso do líder, que é um valor que enobrece qualquer indivíduo, limita o colectivo que está à sua volta e a prossecução de objectivos mais ambiciosos) e a destruição de certos preconceitos com a idade dos jogadores da Formação, alguns deles a já mereceram mais oportunidades. [ Para jogar no espaço entrelinhas onde Pote é rei, Flávio Gonçalves é muito melhor opção do que Alisson porque replica muito melhor os movimentos do habitual titular da posição, enquanto Alisson é essencialmente um jogador que estica o jogo no corredor mas não compreende tão bem o jogo por dentro. A consequência de Flávio não vir eventualmente a ser testado será mais uma corrida ao mercado e um investimento de umas dezenas de milhões de euros, ficando-se sem perceber se a solução não estaria em casa.]

10
Dez25

Tudo o molho e fé em Gyokeres

Orgulho e Preconceito


Pedro Azevedo

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O Einstein, que não era propriamente desprovido de inteligência, dizia que é mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito. No Sporting, o preconceito é a Formação. Todos a elogiamos e dela nos orgulhamos quando é preciso puxar o lustro às carreiras que Cristiano Ronaldo, Luís Figo ou Paulo Futre fizeram, embora na verdade todos se tenham evidenciado muito mais fora do que dentro do clube. Mas, depois, só realmente nela apostamos sem rodeios quando não há dinheiro. Caso contrário, o adepto é comido de cebolada com a ideia de que o jovem está a crescer e ainda não está preparado, razão sine-qua-non para mais uma voltinha ao mercado. Há voltas e voltas. Por exemplo, o Phileas Fogg deu a volta ao mundo em 80 dias. No Sporting, dá-se 80 dias no Verão para dar uma voltinha às segundas divisões de Espanha e Portugal. E vem um Kochorashvili e um Alisson, que sentam o Simões e o Flávio. Entretanto, após perdido o jogo com o Porto e empatado outro contra o Braga, ambos em casa, logo se descobre que afinal o Simões por artes de magia e mestria do treinador já está preparado para a competição do mais alto nível, pelo que sai o Kocho e entra o jovem da nossa Formação e se percebe que em dois meses perdemos 60 dias e talvez o campeonato. Desatamos a ganhar os jogos todos internos, mas quando toca a ir à Luz logo o miúdo volta ao banco e concomitantemente voltamos a não vencer. Será coincidência? 

Quando esta manhã propus que o Flávio Gonçalves, um émulo de Pote, de apenas 18 anos, que cresce em Alcochete e já leva 12 golos marcados esta época, entre equipa B, Youth League e selecções jovens de Portugal, fosse titular em Munique, logo, aqui d'El Rei, houve quem mostrasse a preocupação de que o jogador poderia ficar queimado. Enfim, há quem sinta o Sporting como quem vive a Queima das Fitas, sempre em festa com nova contratação, que um jovem pode ser queimado e não tendo a certeza é melhor jogar pelo seguro, isto é, torrar antes o dinheiro no mercado. Nesses pequenos pormenores percebemos a vantagem do Estado Social e sua providência de serviços de saúde que incluem por exemplo a triagem que é feita antes da inscrição na Unidade de Queimados. No Sporting também há esse Estad(I)o Social. Noutros países, muito menos avançados que nós, as coisas acontecem de outra forma. Por exemplo, na Alemanha, mais concretamente na Baviera, há um "pequeno" clube que dá pelo nome de Bayern onde hoje entrou como titular um miúdo de 17 anos que dá pelo nome de Lennart Karl. Se fosse português, haveria a preocupação de não o queimar. Como é alemão, apesar da idade e dos seus 1,68m distribuídos por 67kg que estão longe da ideia do Adónis jogador de futebol que por cá se tornou obsessão, foi lançado para a fogueira (a nossa é de vaidades). No fim, quem se queimou foi o Sporting, porque o miúdo marcou o golo que deu vantagem aos bávaros. É caso para dizer que o Karl está em boa Kompany (treinador do Bayern)! 

Temos um treinador tacticamente muito competente, super versátil nas dinâmicas que emprega à equipa, com óptima formação humana e extremamente conhecedor do jogo, mas depois falhamos na mentalidade nos jogos grandes e na nossa permeabilidade face ao preconceito. Ora, há que destruir o preconceito antes que ele nos destrua a nós. Ou não, porque cada vez que o preconceito nos destrói logo aparece um Nuno Mendes que se impõe a um Acuña, um Inácio que destrona um Mathieu, um Matheus Nunes que senta um Battaglia ou um Quaresma (o Quaresma tem ainda de viver com um problema que ocorreu na Idade Média ou com os adeptos que ainda vivem na Idade Média e não sabem o que é o Renascimento). E renascemos. E volta o preconceito, qual trabalho de Sísifo que também é um castigo dos deuses imposto aos Sportinguistas. 

Tenor "Tudo ao molho...": João Simões (por uma milha de diferença) 

09
Dez25

Ameaça ou Oportunidade?


Pedro Azevedo

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Quando escrita em chinês, a palavra crise (lê-se "Weiji") é composta por 2 caracteres: um significa "perigo", o outro "oportunidade". Por exemplo, Pelé jogou, encantou e foi campeão do mundo pelo Brasil em 58 na sequência de uma lesão do ponta de lança titular (Mazzola, também conhecido por Altafini, que mais tarde viria a tirar uma Taça dos Campeões ao Benfica) e Zidane só assumiu a batuta da selecção francesa após os castigos ou indisponibilidade de jogadores como Ginola ou Cantona. Por isso, a ausência de um jogador, ainda que da estirpe dos grandes como Pote ou Trincão, não deve ser vista só como uma ameaça, especialmente se existirem boas alternativas a bater à porta da titularidade, como é o caso de Flávio Gonçalves, um miúdo de apenas 18 anos que vem deslumbrando na nossa equipa B, líder da Segunda Liga. Espero assim que Rui Borges crie a oportunidade para este jovem (a alternativa principal seria passar Geny para o meio, manter Alisson a vir da esquerda e lançar Salvador Blopa na direita, mas não me parece a ideal porque Catamo é essencialmente um jogador de ala que quando em zonas interiores revela dificuldade na compreensão do tempo e espaço de execução, a outra passaria por adaptar Simões numa posição mais adiantada em relação a Hjulmand e Morita). O Flávio é, na minha opinião, o maior prospecto actual da nossa Formação. Tem muita coisa do Pedro Gonçalves, na inteligência como se move em espaços curtos e na forma como remata passando à baliza. Por isso, tem de ter a sua oportunidade para crescer e mostrar o seu futebol, quem sabe poupando assim umas dezenas de milhões de euros aos cofres do clube que estavam destinadas às contratações (entretanto falhadas) de Yeremay ou de Kevin. Porque apostar na Formação é também apostar na nossa própria sustentabilidade, e o risco (perigo ou ameaça) é sempre menor quando o objecto dessa aposta é um craque em gestação como o Flávio, internacional sub-19 por Portugal e já com 12 golos marcados esta época entre clube e selecções jovens do nosso país. 

07
Dez25

Upgrade mental


Pedro Azevedo

IMG_5741.jpegmais pura das verdades sobre o ocorrido na Luz é que a inibição pelos nossos jogadores demonstrada não se deveu a questões técnicas, tácticas ou físicas. Não, esse "inconseguimento" (obrigado, Assunção) teve tudo a ver com o plano mental: anos e anos de traumas conduziram-nos a um estado de alma em que não confiamos suficientemente nas nossas capacidades e sobrevalorizamos as do adversário, um sentimento de inferioridade que tem raiz profunda no insucesso verificado após as gloriosas décadas de 40 e 50 do século passado. Nesse sentido, sem dúvida que o Sporting é o clube mais português de Portugal. É assim curioso verificar que, mesmo posteriormente aos 3 títulos de campeão nacional obtidos nos últimos 5 anos, o jogador Sportinguista, e por extensão toda a Estrutura do futebol profissional, sócios, adeptos e simpatizantes, continua a não ter total confiança no seu potencial, a duvidar de si próprio nos momentos decisivos. É aquilo a que Nelson Rodrigues se referia, a propósito do Brasil de antes de 58 (consequência do "Maracanazo" de 50), como um "Complexo de Vira-lata", que na prática se reflecte num excesso de humildade (bem patente e muito corporizado no discurso do nosso treinador, que tacticamente vejo como muito bom) que não propicia a emergência do estado de graça da equipa e inibe a fantasia, inventividade e improvisação acima da média dos nossos jogadores. Digamos que os êxitos recentes serviram para nos retirar da cave (estatuto de "Underdog", abaixo de cão) e nos elevarem para o patamar do "Complexo de Vira-lata". Falta porém ainda dar o passo assertivo que nos catapulte para o topo da cadeia alimentar na selva do futebol português, de forma a termos um leão que permanentemente ruja e não um que por vezes entrecorte esses rugidos com a emissão de uns tímidos latidos. [A barreira mental é mais difícil de ultrapassar do que a do som, por exemplo. Nesse sentido, superar o mach-1 ou 2 será sempre menos complicado do que ver emergir o mach(o)-alfa Sportinguista, dominador e plenamente confiante das suas capacidades. Mas esse passo tem de ser dado.]

05
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Mortos de sono


Pedro Azevedo

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Durante a semana puxou-se tanto o lustro aos galões de Mourinho que faltou alguém na nossa Estrutura Técnica que dissesse o óbvio ululante: o rei vai nu, vamos para cima deles que nem "tarzões". Bom, para cima deles até fomos. Durou foi pouco, mais exactamente 20 minutos, sensivelmente o tempo que demoraram os sedativos a fazer efeito. Sim, porque este derby entre o Sport Lexotan e Benfica e o Sporting Xanax de Portugal, a contar para a Primeira Liga Vallium, foi um óptimo combate... contra as insónias. Senão vejamos: tecnicamente, o jogo foi de uma pobreza franciscana, envolvendo um número apocalíptico de recepções péssimas sem pressão e de passes constantemente mal calibrados. Fisicamente, o ritmo de jogo foi digno de uma peladinha entre prisioneiros famintos de um campo de concentração nazi na II Guerra Mundial. Finalmente, do ponto de vista mental, viram-se duas equipas cheias de medo de perder. Apesar de tudo isto, o Sporting teve tudo a seu favor para ganhar o jogo: marcou cedo e o Benfica tardou a conseguir trocar dois passes sem perder a bola, tal a ansiedade revelada. Mas depois, inexplicavelmente, o Sporting começou a baixar no terreno, a não fechar as linhas de passe na saída de bola dos encarnados e sofreu um golo patético, de carambola. Tal como uma máquina de lavar roupa quando se interrompe a secagem, o Sporting, depois de deixar esfriar, não conseguiu reiniciar o programa que tinha(?) para o jogo em tempo útil, limitando-se a controlar, aquela ilusão que faz parte do jargão de futebolês de todo o treinador até levar um golo. Por acaso não aconteceu, que o remate de Rios saiu ligeiramente ao lado, mas se tivesse ocorrido castigaria o respeito em demasia que Rui Borges ontem demonstrou por Mourinho, em tempos o melhor treinador que Portugal alguma vez produziu, mas hoje um homem cansado de tantas exigentes batalhas travadas pela Europa fora e por isso um treinador (como um boxeur) conformado em ir perdendo aos pontos em vez de correr o risco de enfrentar um KO prematuro. Enfim, haveria mais a dizer, mas a sonolência como sabem é contagiosa e os bocejos no relvado tornaram-se também meus, pelo que está na hora de fechar esta crónnnniiiiccccaaaa. Zzzzzzzzzzzzzzzz...

 

"Não há dor que o sono não consiga vencer" - Honoré de Balzac

 

Tenor "Tudo ao molho...": Maxi

03
Dez25

Eficiência ou eficácia?


Pedro Azevedo

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As características distintas de Luís Suarez e de Viktor Gyokeres mostram-nos a diferença entre eficiência e eficácia, conceitos que parecem idênticos mas não o são. O colombiano é eficiente, no sentido em que tem rendimento: trabalha muito, combina bem com os colegas, a bola com ele parece mais redonda a por isso fica a sensação de que o jogo é mais bonito. Por outro lado, o sueco sempre foi eficaz, na medida em que aproveitava mais do que falhava as oportunidades de que dispunha, muitas delas criadas pelo próprio. Se o Suarez é um jardineiro, que planta as sementes, escolhe os adubos e dá à rega, o Gyokeres era um caçador. Por isso, com ele, o Sporting tinha um perdigueiro sempre à procura de abocanhar a sua presa. (Autónomo, ele era também o sol sem o qual as plantas murchariam por falta de fotossíntese e não haveria boas colheitas.) Mas, como quem não tem cão precisa de caçar com gato, Suarez tem à sua volta Pote, que na última época pouco pôde ajudar, Trincão na melhor forma da sua vida, Quenda mais desequilibrador do que nunca, um Geny ímpar no 1x1 e o leão de raça uruguaio que o Sporting foi descobrir no México (Maxi), com quem se entretém a desfiar a novelo do futebol da equipa, todos ancorados na máquina de flippers que Hjulmand transporta nas botas e no GPS que Inácio tem nos pés, os jogadores que habitualmente colocam a bola naquele espaço entrelinhas, que faz lembrar as trincheiras usadas nas Grandes Guerras, onde o Sporting estabelece a linha de (des)montagem que vai desenovelando o seu jogo. Por isso, a discussão entre Suarez e Gyokeres é também o debate entre eficiência e eficácia. Se é certo que, com Gyokeres, o Sporting foi sempre campeão, o que atesta em favor da eficácia (factos são factos, o que prevalece sobre percepções), não é menos correcto dizer-se que só contam os que cá estão (Gyokeres já foi), ou seja, que temos de depositar a fé na eficiência, esperando que ela também nos conduza ao desígnio maior do futebol doméstico (esperando que a máquina continue bem oleada no derby da Luz). Até lá, a dialéctica continuará em aberto. 

30
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

“Mas que nada”


Pedro Azevedo

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Não sei se elogio demais aqueles jogadores que fazem a diferença. Creio até que nessa abundância exaltativa sou pouco português, que por cá o que não sai de moda é elogiar ao melhor estilo do cinema mudo e insultar de megafone em punho. Vem este arrazoado a propósito de Francisco Trincão, um jogador que faz-me lembrar aquele slogan escrito pelo Fernando Pessoa para a Coca-Cola: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". Por isso, ele foi tudo menos consensual nos seus primeiros tempos em Alvalade. E confesso que chegou até a ser uma das minhas irritações de estimação (as irritações, tal como os canários, os cães ou os gatos, não só são alimentadas diariamente como nos fazem muita companhia, daí serem muito estimadas, demasiadamente até na sociedade actual), como o arquivo deste blogue inequivocamente ilustrará. Mas, depois, tal como aquelas crianças que têm um desenvolvimento tardio gerado na hipófise, ele acelerou o seu processo de crescimento enquanto outros o estabilizaram, tornando-se um dos jogadores mais influentes do plantel. Hoje, voltou a ser decisivo: os nossos dois primeiros golos foram originados nos seus pés. Não esquecendo aquele slalom curto que fez um jogador do Estrela assemelhar-se àquelas bandeiras (portas) que existem no ski e servem para delimitar o percurso, infelizmente concluído com um remate torto. Bom, mas se o Trincão não se pode queixar de falta de atenção deste blogue, hoje a noite foi de Quaresma. Que maravilha! Não foi só ter inaugurado o marcador, o que é sempre importante. Não, o Quaresma deu um festival de bem defender, rápido quanto baste para fazer face aos velozes avançados do Estrela e sempre no sítio certo, no ar ou pelo chão, para evitar sobressaltos maiores. O Quaresma é um excelente jogador, todavia carrega com ele o peso do "mas". Na boca de cada um dos adeptos Sportinguistas, mais do que a pasta medicinal Couto, a constatação da sua evidente qualidade como futebolista vem sempre acompanhada por um "mas". É um "mas" essencialmente preconceituoso, porque advém de erros próprios da juventude e cometidos no tempo em que os animais ainda falavam. Só que, como um dia disse Einstein: "É mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito". Pelo que o Quaresma há-de ser um veterano e alguém ainda recordar-lhe-á uma falha ocorrida no tempo do paleolítico inferior. Talvez tenha a ver com o seu feitio extrovertido e jeito sorridente, coisa que o português pretere a quem tenha cara de enterro (o que causa uma sensação de seriedade e por isso faz parte do personagem criado pelos burlões mais requintados), ou então faz justiça ao Oscar Wilde quando sentenciou: "A cada bela impressão que causamos, criamos um inimigo; para se ser popular é indispensável ser-se medíocre". Para mim, o Quaresma foi indiscutivelmente o melhor em campo. Brilhantismo e zero erros. 

Voltando ao jogo, o nosso segundo golo fez-me lembrar o Brasil de 82. O Trincão parecia o Zico ou o Sócrates, primeiro a procurar o apoio frontal do Suarez, depois a isolá-lo com um toque de magia. Só faltou o lance ser acompanhado na bancada pelos batuques dos Vapores do Rego para um regresso ao passado: aos ecos de Sevilha, no tal Mundial, e ao ambiente da Superior Sul, no Sporting de Allison desse mesmo tempo. Nem de propósito, logo a seguir, o Quenda teve um remate a tirar tinta ao poste que mimetizou a "patada atómica" do Éder, outra grande figura dessa "Canarinha" do Mundial de Espanha. O terceiro, porém, acabaria por chegar ainda antes do intervalo, com Fresneda a cabecear para as redes após livre marcado por Geny. Seguiu-se uma etapa complementar de serviços mínimos, que na sexta-feira há ida à Luz e havia que poupar energia e salvaguardar o registo disciplinar. Deu ainda para Suarez bisar e para Morita figurar na assistência, um regresso aos números que se saúda de quem ultimamente parecia configurar uma qualquer anomalia estatística. Ainda bem, mas na Luz espero ver o João Simões. E assim terminou um jogo do campeonato português com um clube que em si mesmo é um oximoro, ou não houvesse uma equipa Amadora num escalão iminentemente profissional. 

Venha então o Benfica, que há uma derrota amarga na Supertaça para tirar a desforra...

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma

 

P.S. Ah, será que quem desvaloriza a riqueza táctica que Rui Borges traz ao futebol do Sporting reparou naquele pormenor do Fresneda subir uma linha e encostar a um médio e ser o Geny a fechar como lateral? 

28
Nov25

Francisco Trincão


Pedro Azevedo

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Não é fácil encontrarmos o paradigma do típico jogador português, na medida em que a assimilação de várias culturas de treinadores estrangeiros que marcaram uma época em Portugal (Eriksson, Allison, Robson, Guttmann, Ivic, Szabo...) e o próprio êxodo dos nossos principais craques para os melhores campeonatos europeus tornam complicado encontrar essa identidade própria.  Mas se tivéssemos de escolher um jogador que transporta em si a carga genética de um futebol que no seu estado puro e não contaminado pelos espartilhos tácticos é feito de improviso, um herdeiro de Chalana, então esse futebolista daria pelo nome de Trincão. 

Quando Trincão dá aquela rodinha para se voltar de frente para o jogo é o vira minhoto que lhe exalta o movimento. E sempre que ousa sair da sua bolha e avançar por atalhos que nem o próprio sabe que destino terão, então é o espírito aventureiro das caravelas e dos marinheiros lusos dos Descobrimentos que o animam. Porque Trincão traz novos mundos ao futebol do Sporting, caminhos nunca antes explorados, portos exóticos onde acostar, especiarias raras. Como tantas outras expedições portuguesas no passado, as suas nem sempre terminam em glória, sendo até muitas vezes condenadas ao fracasso. Mas basta uma ser bem empreendida para logo se criar o mito. Como o da equipa gravitar toda à sua volta, uma perspectiva diferente de ver o modelo centrado no jogador. No caso, centrado num só jogador, Francisco Trincão. 

26
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Carta de Brugge


Pedro Azevedo

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Depois do jogo de ontem, em Amesterdão, a contar para a Liga dos Últimos, o futebol português regressou à Champions com a recepção do Sporting ao Club Brugge. De Brugge enviou Pedro, o das Sete Partidas e um dos vultos mais brilhantes da nossa história, uma carta ao irmão, D. Duarte, rei de Portugal. Nela, entre vários conselhos à governação sobre justiça, educação, finanças públicas e administração geral do reino, o infante advertia para a urgência da acção, que "aqueles que tarde vencem, ficam vencidos". Não sei se Rui Borges leu a Carta, mas o treinador do Sporting seguiu o princípio pouco português de que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, nesse transe praticamente carimbando o passaporte para a fase seguinte da "Liga Milionária". Para isso, na ausência dos salões faustosos da corte do tempo de Pedro, Rui escolheu o relvado do José Alvalade para dar um baile ao treinador do Brugge. Um verdadeiro banho táctico que assentou na atracção à marcação homem a homem, seguida da dissuasão que levou os defesas do Brugge para longe da sua área e abriu espaços nas suas costas para a entrada de jogadores nossos vindos de trás. Se isto é alheira(bol), como dizem os afectados snobs seus detractores (sempre hipervalorizando a forma em detrimento do conteúdo), então foi demasiado indigesta para os da Flandres, não faltando ainda o ovo a cavalo (qualificação quase garantida) e os grelos (que são verdes, a cor da esperança) em vez das batatas fritas que seriam mais do agrado dos belgas (com as "moules", que assim quem se "lixou" foi o mexilhão). 


O Sporting cedo se adiantou no marcador após uma perfuração pela direita de Geny ter sido concluída com um remate deflectido pelo guarda-redes belga para as costas de Quenda, que abriu o baile com um rodopio que fez a bola anichar-se nas redes. Pouco depois, o mesmo Geny aproveitou a desertificação do interior provocada pelo êxodo dos belgas para zonas junto às margens e com uma voltinha isolou Suarez para um golo de grande requinte técnico. Antes do intervalo, o Sporting podia ainda ter ampliado o resultado, mas uma jogada de génio de Trincão terminou com um remate que tirou a tinta ao poste. 

Na etapa complementar, o Sporting procurou essencialmente gerir a vantagem no marcador. Isso acabou por provocar alguns momentos de tensão no nosso último reduto, o que não teria acontecido caso Suarez não tivesse entrado em modo carnavalesco e enfeitado demasiadamente um lance, perdendo um golo cantado. Assim, o Brugge chegou a agigantar-se, mas uma investida de Maxi (o verdadeiro "jogador à Sporting", cheio de raça) encontrou Quenda na profundidade e este centrou para Trincão, num "pas de deux" com Maxi, bailar antes de desferir um remate indefensável. Com o 3-0, o jogo terminou ali. 

Com a vitória de hoje, o Sporting entrou para o lote de 8 primeiros classificados que têm apuramento automático para os oitavos-de-final. Mais importante, tem agora uma vantagem de 4 pontos para o vigésimo quinto classificado (o primeiro excluído) e de 6 pontos para o vigésimo sexto, quando faltam apenas 3 jornadas para terminar a primeira fase. Não estamos ainda matematicamente apurados, se não fizermos fé em Pitágourinho, treinador do nosso rival (para quem 9 pontos serão suficientes), mas demos hoje um passo de gigante para garantirmos a qualificação. E sem o mágico Pote, Ioannidis e Debast, além dos lesionados de longa duração (Nuno Santos e Bragança). 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão (Geny seria uma óptima alternativa), pelas movimentações com ou sem bola que desestabilizaram por completo os belgas. 

 

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