Tudo ao molho e fé em Gyokeres
“Virgínia Plain” e cenas da (meta)física
Pedro Azevedo

A semana desportiva ficou marcada pela ameaça do Nacional de não comparecer ao jogo no Dragão e pela oposição da velha "ilógica jesuíta" (por ser atribuída ao filósofo Jorge Jesus) à "razão iluminista" (coisa de lampiões, logo dirimida na Luz) sobre ser mais difícil para uma equipa jogar contra menos um. Sugestionado pela leitura dos jornais acerca destes dois temas e alarmado pelas mais recentes novidades sobre o reforço da enfermaria sita em Alcochete, cheguei a pensar que, com a colaboração da sempre prestimosa Unidade de Performance, um gabinete altamente científico onde se realizam experiências cujos resultados oramos que não sejam coincidentes com o título daquela biografia sobre o Jim Morrison ("Daqui ninguém sai vivo"), o Sporting iria experimentar jogar em Famalicão com apenas 10 jogadores, admitindo-se até uma falta de comparência como preferível à terrível e desvantajosa ocorrência (segundo mestre JJ) de vir a ter o elenco completo em campo. Mas tudo não passou de um pesadelo associado às notícias de que Rui Silva e Geny haviam metido baixa, juntando-se assim não só a Morita, Nuno Santos, Diomande e Bragança, mas também a Maxi, que entretanto conseguiu escapar por uma janela (de oportunidade) e chegar a Famalicão com meia hora ainda por jogar.
De Liverpool (Everton) veio um guarda-redes que nos últimos 5 anos jogou muito pouco, tão pouco que não chegou a fazer metade dos jogos de St Juste, o que está tanto como indicador para o futebol quanto o azul de tornassol para a química. A coisa pode ser vista como negativa, no sentido de lhe faltarem rotinas. Mas há também uma vantagem: um guarda-redes assim pode ainda ser trabalhado, não vem com vícios da posição (frangos). É um "Virgínia Plain" (sem filtro), como a canção homónima dos Roxy Music, uma banda que é sabido sempre ter tido um certo "glamour". Ontem não esteve mal, mostrou-se sereno, "cool as a cucumber" (como se diz em Inglaterra). Na direita da defesa tivemos o Vagiannidis. O grego evidenciou-se bem mais composto a defender do que Fresneda (e não só devido ao superior penteado). E a atacar é melhor na ligação com a equipa por dentro e também procura mais a linha de fundo para cruzar, apenas perdendo para o espanhol no que toca a aparecer na área como homem extra a finalizar. À sua frente esteve Quenda, mais forte que Geny no jogo interior mas menos vertiginoso no ataque à profundidade. De um seu passe de ruptura por dentro viria a surgir o golo do empate, que antes o Famalicão adiantara-se no marcador após uma bola parada, uma reedição da nossa visita ao Nacional da Madeira (como se marca ou sofre um golo de uma bola que está parada continua a ser um dos sortilégios da física moderna, a par da mecânica quântica e da Teoria da Relatividade), o que é um pouco preocupante quando se quer ganhar todos os jogos. Na finalização desse nosso golo esteve Pote, que primeiro foi ardiloso na forma como fugiu ao defesa e com um toque na bola o tirou da jogada, para depois, cara a cara com o guarda-redes, batê-lo com um remate de trivela que lhe passou entre as pernas. O intervalo chegou sem que a igualdade se desfizesse, com o meio campo famalicense de Gustavo Sá e do excelente Mathias de Amorim a ser capaz de jogar olhos nos olhos com o nosso.
O Famalicão já não conseguiu surgir tão afoito no segundo tempo e o jogo passou a ter uma única direcção. Kochorashvili soltou-se um pouco mais e começou a aparecer mais junto da área minhota. Uma dessas suas iniciativas foi aproveitada por Mangas para cruzar, mas Quenda acertou na trave. Até que Trincão e Pedro Gonçalves combinaram pelo centro e, após umas carambolas e tiro ao boneco, a bola regressou a Pote, que de pronto assistiu Suarez para o nosso segundo golo. Logo de seguida, Ionnidis estreou-se, mostrando um estilo de jogo contrastante com Suarez, o grego mais à semelhança de Gyokeres, usando a sua potência e explorando preferencialmente o corredor esquerdo como ponto de partida, o colombiano jogando mais em combinações com Pote e Trincão e com uma acção circunscrita ao corredor central. Maxi regressou, o que foi uma óptima notícia. Mas o melhor momento da noite para mim foi ver João Simões de volta ao nosso meio campo. Não foi preciso muito para o jovem da nossa Academia provar aquilo que pode dar de diferente à equipa, agredindo o Famalicão através de uma série de fintas com que se desembaraçou de dois oponentes e de um remate, já dentro da área, superiormente defendido pelo guarda-redes. Com a sua entrada, o Sporting passou a ter alguém capaz de transportar a bola de fora para dentro do bloco adversário, uma variação interessante face ao passe entrelinhas. A noite porém ainda traria outra surpresa agradável com a inclusão de Quaresma, chamado para garantir o sucesso nos duelos individuais, que assim uma vez mais mostrou a razão da sua utilidade. Pena foi o apito derradeiro do árbitro lhe ter cortado um lance em progressão pelo lado esquerdo que parecia promissor. Antes havia entrado o Alisson, um fetiche de um treinador como tantos outros fetiches de treinadores que ao longo dos anos nos habituámos a observar. Em doses moderadas, que não criem habituação ou dependência, é capaz de não produzir grandes danos à nossa saúde desportiva.
Tenor "Tudo ao molho...": Pote






