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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

14
Set25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

“Virgínia Plain” e cenas da (meta)física


Pedro Azevedo

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A semana desportiva ficou marcada pela ameaça do Nacional de não comparecer ao jogo no Dragão e pela oposição da velha "ilógica jesuíta" (por ser atribuída ao filósofo Jorge Jesus) à "razão iluminista" (coisa de lampiões, logo dirimida na Luz) sobre ser mais difícil para uma equipa jogar contra menos um. Sugestionado pela leitura dos jornais acerca destes dois temas e alarmado pelas mais recentes novidades sobre o reforço da enfermaria sita em Alcochete, cheguei a pensar que, com a colaboração da sempre prestimosa Unidade de Performance, um gabinete altamente científico onde se realizam experiências cujos resultados oramos que não sejam coincidentes com o título daquela biografia sobre o Jim Morrison ("Daqui ninguém sai vivo"), o Sporting iria experimentar jogar em Famalicão com apenas 10 jogadores, admitindo-se até uma falta de comparência como preferível à terrível e desvantajosa ocorrência (segundo mestre JJ) de vir a ter o elenco completo em campo. Mas tudo não passou de um pesadelo associado às notícias de que Rui Silva e Geny haviam metido baixa, juntando-se assim não só a Morita, Nuno Santos, Diomande e Bragança, mas também a Maxi, que entretanto conseguiu escapar por uma janela (de oportunidade) e chegar a Famalicão com meia hora ainda por jogar.  

De Liverpool (Everton) veio um guarda-redes que nos últimos 5 anos jogou muito pouco, tão pouco que não chegou a fazer metade dos jogos de St Juste, o que está tanto como indicador para o futebol quanto o azul de tornassol para a química. A coisa pode ser vista como negativa, no sentido de lhe faltarem rotinas. Mas há também uma vantagem: um guarda-redes assim pode ainda ser trabalhado, não vem com vícios da posição (frangos). É um "Virgínia Plain" (sem filtro), como a canção homónima dos Roxy Music, uma banda que é sabido sempre ter tido um certo "glamour". Ontem não esteve mal, mostrou-se sereno, "cool as a cucumber" (como se diz em Inglaterra). Na direita da defesa tivemos o Vagiannidis. O grego evidenciou-se bem mais composto a defender do que Fresneda (e não só devido ao superior penteado). E a atacar é melhor na ligação com a equipa por dentro e também procura mais a linha de fundo para cruzar, apenas perdendo para o espanhol no que toca a aparecer na área como homem extra a finalizar. À sua frente esteve Quenda, mais forte que Geny no jogo interior mas menos vertiginoso no ataque à profundidade. De um seu passe de ruptura por dentro viria a surgir o golo do empate, que antes o Famalicão adiantara-se no marcador após uma bola parada, uma reedição da nossa visita ao Nacional da Madeira (como se marca ou sofre um golo de uma bola que está parada continua a ser um dos sortilégios da física moderna, a par da mecânica quântica e da Teoria da Relatividade), o que é um pouco preocupante quando se quer ganhar todos os jogos. Na finalização desse nosso golo esteve Pote, que primeiro foi ardiloso na forma como fugiu ao defesa e com um toque na bola o tirou da jogada, para depois, cara a cara com o guarda-redes, batê-lo com um remate de trivela que lhe passou entre as pernas. O intervalo chegou sem que a igualdade se desfizesse, com o meio campo famalicense de Gustavo Sá e do excelente Mathias de Amorim a ser capaz de jogar olhos nos olhos com o nosso. 
 
O Famalicão já não conseguiu surgir tão afoito no segundo tempo e o jogo passou a ter uma única direcção. Kochorashvili soltou-se um pouco mais e começou a aparecer mais junto da área minhota. Uma dessas suas iniciativas foi aproveitada por Mangas para cruzar, mas Quenda acertou na trave. Até que Trincão e Pedro Gonçalves combinaram pelo centro e, após umas carambolas e tiro ao boneco, a bola regressou a Pote, que de pronto assistiu Suarez para o nosso segundo golo. Logo de seguida, Ionnidis estreou-se, mostrando um estilo de jogo contrastante com Suarez, o grego mais à semelhança de Gyokeres, usando a sua potência e explorando preferencialmente o corredor esquerdo como ponto de partida, o colombiano jogando mais em combinações com Pote e Trincão e com uma acção circunscrita ao corredor central. Maxi regressou, o que foi uma óptima notícia. Mas o melhor momento da noite para mim foi ver João Simões de volta ao nosso meio campo. Não foi preciso muito para o jovem da nossa Academia provar aquilo que pode dar de diferente à equipa, agredindo o Famalicão através de uma série de fintas com que se desembaraçou de dois oponentes e de um remate, já dentro da área, superiormente defendido pelo guarda-redes. Com a sua entrada, o Sporting passou a ter alguém capaz de transportar a bola de fora para dentro do bloco adversário, uma variação interessante face ao passe entrelinhas. A noite porém ainda traria outra surpresa agradável com a inclusão de Quaresma, chamado para garantir o sucesso nos duelos individuais, que assim uma vez mais mostrou a razão da sua utilidade. Pena foi o apito derradeiro do árbitro lhe ter cortado um lance em progressão pelo lado esquerdo que parecia promissor. Antes havia entrado o Alisson, um fetiche de um treinador como tantos outros fetiches de treinadores que ao longo dos anos nos habituámos a observar. Em doses moderadas, que não criem habituação ou dependência, é capaz de não produzir grandes danos à nossa saúde desportiva. 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

16
Mar25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Fama...lição


Pedro Azevedo

Se o Benfica é indiscutivelmente o clube de bairro mais português de Portugal e o Porto quis vender durante muitos anos a ideia de ser uma "aldeia de irredutíveis gauleses" cujo poder residia nas "poções mágicas" engendradas pelo seu druida Pintocostix (e enterrando machado e práticas antigas, sente a natural dificuldade de impôr um novo discurso e posicionamento), o Sporting é muito "british" desde a sua fundação. No nome e no trato, na fleuma mas também nos princípios e nas regras que quer trazer para o faroeste lusitano que se estende até ao Cabo da Roca e onde o que se poupa na prevenção consome-se depois em excesso de ruído de tribunais e comissões de inquérito com conclusões nas calendas gregas (ou não fosse tudo isto uma tragédia). Evidentemente, um clube assim está em contra-ciclo com o seu próprio país, pelo que não será de admirar que tantas vezes Portugal tenha sido pequenino para o Sporting, nessa pequenez diluindo a grandeza do próprio clube. Faz-me lembrar a história do Infante D. Pedro, seguramente o mais brilhante da já de si insigne Ínclita Geração e autor da famosa Carta de Bruges (destinada ao irmão, o rei D. Duarte). O Pedro das 7 Partidas, aquele sobre o qual escreveu Sophia: "Nunca choraremos bastante, nem com pranto amargo e forte, aquele que fundou glória e grandeza e recebeu em paga insulto e morte". Do gozo insultuoso, ou falta de compreensão e consideração, podemos não nos livrar, mas a morte vamos enganando época após época. Sem perdermos o nosso brilhantismo que tanto incomoda, aquele que Oscar Wilde sintetizava da seguinte forma: "A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para se ser popular é indispensável ser-se medíocre" (uma fama...lição). 

 

Tendo Amorim ou não, com ou sem aquele que mais 3 anos e estará num colosso europeu, a verdade é que o Sporting chega ao último quarto do campeonato na liderança. Um quarto que se está a antever como crescente nas exibições, na directa proporção da recuperação de influentes jogadores outrora utentes do abundante hospital de campanha sito em Alcoitão, perdão, Alcochete. Quem já voltou sem limitações foi o Gyokeres. A anunciar a depressão Laurence... nos seus adversários, que se dividem entre consultar o IPMA ou... um psicanalista. O sueco em campo é anúncio de tempestade, um vendaval a soprar de corredor em corredor. Da esquerda congeminou o primeiro golo, da direita ofereceu o terceiro, ao centro bateu o penalty do segundo. No resto do tempo arreliou, desgastou e devastou física e psicologicamente todos os que lhe tentaram fazer frente. E o que dizer do Quenda? Que craque! Muita qualidade naquele pé esquerdo... E um pormenor: aquando da recepção de bola, enquanto outros a fazem chorar convulsamente, não há ninguém em Portugal que a faça adormecer automaticamente aos seus pés como ele (se não fosse futebolista, teria uma carreira de babysitter pela frente). Depois, o Morita não pode passar ao lado desta crónica. O que é que foi aquilo que ele fez à bola no lance do penalty a nosso favor? Que sortilégio, que toque de magia! Bem também, aliás, muito bem, o Rui Silva, com duas belíssimas "paradas". O Fresneda, por outro lado, mostra a riqueza do nosso vocabulário (não é para todas as línguas) ao distinguir a diferença ontológica existente entre o "ser" e o "estar": ele é um lateral direito, mas está muito bem como um segundo avançado. Além de que como segundo avançado tem a vantagem de a única coisa de que se tem de desembaraçar ser a bola (e não um adversário), o que ele faz particularmente bem. Por fim, o Diomande: testosterona a mais, serotonina a menos? Alguém por favor lhe transmita que para "mau tempo" já bastam estes tristes dias de Março. 

 

Estamos em primeiro!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Vik "Thor" Gyokeres

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26
Out24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

La vie en rose


Pedro Azevedo

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De um Evangelista espera-se que proclame a boa nova. Assim foi com Mateus, João, Lucas ou Marcos. O Armando quis seguir-lhes os passos, mas o Gyokeres ditou-lhe um novo testamento.

 

Em Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein descreve que uma proposição é tão figurativa da realidade quanto uma maquete o é de um edifício. Ora, se o Leitor se recorda, na minha última crónica eu já havia anunciado ser impossível parar Gyokeres dentro da legalidade. Ontem voltou a provar-se que tal proposição é representativa da realidade: assim como um pai que faz girar o filho numa roda de um parque infantil, empurrando ora num sentido, ora noutro, o Gyokeres deixou um defesa fanalicense almariado. De seguida, não deu hipótese ao guarda-redes. Para o Gyokeres, é tão fácil como brincar com meninos. Estava aberto o marcador em Famalicão. Depois, o miúdo Quenda fez-se grande e tornou-se o mais jovem jogador da história do Sporting a marcar na Primeira Liga. Não querendo ficar atrás, outro produto da nossa Formação (Inácio) fechou a conta.  

Se o verde original do nosso equipamento representa a esperança, ontem em Famalicão vimos "La vie en rose": 9 jogos, 9 vitórias, primeiro lugar isolados no campeonato. E a águia nem pia(f)...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

17
Abr24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Romances de cordel escarlate


Pedro Azevedo

Caro Leitor, o drama, a tragédia, o horror é que o Gyokeres está em crise. Eu explico: o homem já não tem uma acção decisiva para golo desde as 20:35 de ontem, e essa longa espera ameaça ser capa nos jornais desportivos de hoje. Mas, para nós, adeptos, ontem foi mais um dia no escritório para o sueco: recebeu a bola de Nuno Santos, deixou-a rolar para tirar logo um adversário do caminho, atraiu outro para a bola antes de tocar para Trincão, abriu uma auto-estrada para este dar a Pote ao levar consigo um terceiro defesa para o espaço. O que queriam mais? Que o homem comprasse a totalidade da nossa dívida pública? Pelo que nas estatísticas figurará que marcou Pote e assistiu Trincão, mas o golo foi 60% do Gyokeres. 

 

Uma capa de desportivo alternativa de hoje (bastante mais possível) será o Gyokeres não peyrotear há 5 jogos. Vejo isso com muito bons olhos. Primeiro, porque, desses 5 jogos, o Sporting venceu 4+1, sendo o +1 um empate que soube a vitória (qualificação para a final da Taça). Em segundo, na medida em que arrefecerá um suposto interesse do Liverpool: depois da Sky Alemanha ter noticiado que os Reds haviam entrevistado Amorim, os media portugueses já estavam a esfregar as mãos de contentamento para informar que a Sky Azerbaijão acabara de anunciar a presença de Gyokeres (e Varandas, por inerência) em Anfield para um colóquio sobre venda(vai)s. Agora que se consolem com as notícias da Sky Nazaré sobre o famoso canhão Esgaio, se este tiver algum interesse (eu creio que não) em nos trocar para ir "vender o seu peixinho" para o cidade dos Beatles. Enfim, nesta mixórdia, razão tinham os Salada de Frutas quando cantaram: "Sky nevasse, fazia-se Sky ski".

Esta coisa das fontes é curiosa. Como o facto da Sky inglesa, tão perto do Liverpool, recorrer à sua filial alemã para dar a caixa de Amorim ter sido alegadamente entrevistado. Será que o treinador fez escala em Frankfurt para comprar umas salsichas? Ou, em alternativa, andarão os media a encher chouriços? Em todo o caso, não me pareceu nobre. Ou Nobre, tendo em atenção os artigos em questão. Pelo que nesta coisa de fontes eu só confio na Luminosa e na Pereira de Melo. E se for só para "dar troco" à malta, então escolho a de Trevi. 

Gosto tanto de ver destruir preconceitos quanto gosto de observar o Bragança jogar. Se ter pelo menos um bom pé e capacidade física são condições sine-qua-non para se ser um jogador profissional de futebol, a partir daí joga-se essencialmente com o cérebro, sendo esse o topo da pirâmide de satisfação de Maslow de como um adepto vê um jogador de futebol. Pelo que o nível que o Bragança vem exibindo não surpreende, como nunca surpreende ver a inteligência contagiar positivamente tudo o que a rodeia. O que surpreende, sim, é ver o Bragança contrariar a sentença de Einstein de que é mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito, mas o Braganca até podia ser físico nuclear, se quisesse.

 

Menos artístico na acção, mas em modo omnipresente, apresentou-se o Hjulmand. Sobre ele, Hans Christian Andersen escreveria um conto de fadas, se ainda fosse vivo. O homem é um colosso, um digno sucessor de Holger Danske, não deixando porém de mostrar uma sensibilidade no campo digna do seu compatriota Kierkegaard quando este pronunciou: "A vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando para a frente". Assim é ele, no seu vai-vem, que dá organização e vida ao jogo do Sporting. E depois há ainda que falar de Quaresma: com Diomande em modo complicativo, com passes para o hospital e falta de velocidade para segurar o flanco direito, no primeiro tempo o Chiquinho cresceu para Chicão. Até que entrou o Quaresma e o Chicão ficou assim pequenino que nem um Chiquinho. Para caber na algibeira do calção do jovem leonino. E ver-se obrigado a mudar de flanco. Uma última palavra para o Trincão, que trabalhou muito ofensiva e defensivamente (o que ele cresceu nesse aspecto) e apenas teve o senão de ter permanecido 15 minutos a mais no terreno de jogo, esgotado, provavelmente devido à desconfiança de Amorim no rendimento defensivo de Edwards. 

 

Para somar à seca de golos de Gyokeres, o Sporting não vence desde sensivelmente as 22:00 de ontem. Pelo que até ao apito do árbitro para o início da recepção ao Vitória passarão exactamente 118 horas e 30 minutos desde a última vez que o Sporting ganhou. Com tanto tempo de hiato, não se poderá chamar a isto uma crise? E o Benfica, ganhará moral, agora que o Sporting além dos golos do Gyokeres perdeu também o joker de ter um jogo a mais? Enfim, boas questões para serem desenvolvidas na imprensa da manhã (ou manha).

 

Tenor "Tudo ao molho...": Daniel Bragança

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16
Abr24

O Leão em Famalicão


Pedro Azevedo

A vida surpreende-nos quando zomba das cassandras, enquanto preenche palavras nos espaços que imaginámos como de silêncio e nos oferece reencontros com quem pensámos que não voltaríamos a ver. Assim também aconteceu em 2020/21, época em que o Sporting não era suposto ter uma palavra a dizer - ninguém dava nada por nós - e acabou por se reencontrar com o título máximo do nosso futebol, 19 anos depois do último triunfo (o primeiro campeonato ganho em ano ímpar desde 1953). "E se corre bem?" - interrogou-se Ruben Amorim quando foi apresentado em Alvalade. Este optimismo "out of the box" do nosso treinador acabou por ser providencial na nossa recuperação enquanto clube e está na origem de uma nova "remontada" leonina ocorrida nesta temporada, depois de uma época anterior nada auspiciosa. Levantado do chão parece ser o lema do Sporting de Amorim, que surge sempre mais forte quando as probabilidades estão contra si. E se no último triunfo foi a criteriosa aposta na prata da casa (Formação e jogadores que se destacaram noutros clubes no campeonato nacional) que originou o êxito, esta temporada ficará associada ao rigor das escolhas nórdicas, que trouxeram potência e poucos estados de alma, rendimento constante no alto desempenho e profissionalismo de excelência. Mas a história, bonita, desta temporada só será homericamente narrada se terminar bem. Se compararmos o campeonato a uma maratona um pouco mais curta (34 km/jogos), tudo se irá definir na última légua (5 km/jogos). E aí será diferente chegar com 7 pontos de avanço do que com 5 ou 4. Pelo que o jogo de hoje, em Famalicão, assume uma transcendente importância. Vai ser preciso ter fome, muita fome, porque com fome o leão será mais feroz. E feroz, o Rei da Selva (o que no contexto do futebol português será mais literal do que figurado). Rei, contudo, valoroso, por nunca se enlamear no pântano. 

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04
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

O jogo de uma crónica adiada


Pedro Azevedo

O período de aquecimento antes dos jogos serve o propósito de as equipas desentorpecerem os músculos. As equipas da PSP e da GNR falharam o aquecimento. Em consequência, o cassetete ("casse-tête") não trabalhou os abdominais. Sem ameaça de cassetete das autoridades a dobrar por perto, os adeptos mais radicais fizeram o seu próprio aquecimento. Nesse transe, a pedra substituiu a bola perante o delírio de uns ultras que nestas ocasiões ficam sempre de cabeça a andar à nora. Partiram-se cabeças, havendo até traumatismos cranianos a registar para desenjoar do insustentável traumatismo ucraniano causado pela ofensiva imperial russa. A polícia não entrou em campo, não luziu o seu crachá, contribuindo assim para o estado de sítio em Famalicão. Reforços provenientes do Porto foram aguardados como quem espera por Godot. Clínicos gerais e psiquiatras desdobraram-se a passar baixas médicas a agentes das forças de segurança que deveriam ter estado em Famalicão, sem que tal movesse qualquer comunicado ou inquérito por parte da Ordem dos Médicos. O MAI imitou os Trabalhadores do Comércio: "Chamem a Polícia, que eu não pago". No fim, o Sporting não jogou. Depois da greve dos árbitros no final dos anos 90, do amuo de televisão e rádios nos 80s, agora o boicote informal da polícia... (Se um dia a Associação de Adeptos do Futebol decidir por um protesto, já sabemos com quem tomarão uma posição. O mesmo será válido para stewards, apanha-bolas, etc, não sendo de descurar a possibilidade de a própria cal que limita o campo se encantar e tomar uma posição contrária aos interesses do Sporting.)

 

Entretanto, à hora marcada, enquanto colegas seus mantiveram a baixa para Famalicão, agentes de segurança estiveram em alta no Dragão para a recepção do Porto ao Rio Ave, que o respeitinho é muito bonito e até uma associação sindical que insiste em negligenciar a imagem de perda de autoridade por parte dos seus profissionais sabe que não pode ultrapassar certos limites. Ironicamente, a autoridade mostrada em campo pelos pupilos de Sérgio Conceição foi do mesmo nível da das forças da autoridade, e os vilacondenses roubaram 2 pontos aos portistas sem que ninguém os levasse presos. E assim terminou um jogo (táctico, de pressão, influência e poder) cuja crónica ficará adiada para um outro tempo, no mínimo até após o Benfica passar para primeiro à condição. (O título de "Crónica de um jogo adiado" perpassou-me as sinapses, mas não reflectiria tão bem a realidade ontem vivenciada.)

 

O estado a que isto chegou... Ou melhor, o Estado a que isto chegou...

 

Tenor "Tudo ao molho...": A Polícia Judiciária

 

P.S. O Benfica conseguiu finalmente ser líder. O PIB irá subir (mesmo em contra-ciclo) e já se poderá pagar melhor à Polícia. Tudo na santa paz do Senhor, portanto...

 

P.S.2 Já se sabia que o futebol português eram 11 contra 10 e no final ganhava o Benfica. O que não se sabia é que era também 20 contra 19 (jornadas) e no fim o líder é o... Benfica. 

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28
Ago23

Tudo ao molho e fé em Deus

Lévi-Strauss contra a tanga


Pedro Azevedo

Qual Lévi-Strauss, qual Bronislaw Malinowski, antropologia da boa é na SportTV. Pelo menos de cada vez que o professor Luis Vidigal lá vai discorrer sobre os jogos do Sporting. No episódio de ontem o tema foi a tradição dos povos. De uma forma instrutiva, o Luis foi-nos dando exemplos. Subitamente, a propósito do cartão amarelo a um tal de Topic, topa isto: "É uma questão cultural dos sérvios usar muito as mãos!". Enfim, talvez não os recomende para companheiros de viagem num Metro apinhado, mas decerto explicará porque rivalizam com os EUA no basquetebol. Mas foi com a observação que deixou sobre o Geny Catamo que se me fez luz sobre as idiossincrasias lusas: explicou-nos o Vidigal que fazia parte das "dores de crescimento" o moçambicano não se ter atirado para o chão após um adversário lhe ter soprado nas costas. E fiquei bem resolvido sobre o tema da cultura desportiva em Portugal. (Entretanto, a aculturação do Gyokeres está em progresso. Mais umas semanas e uma cotovelada como a que lhe deu o Riccieli levá-lo-á a dar um flick flack à rectaguarda à moda do Minho e o empurrão nas costas acompanhado por um puxão nos calções na área fá-lo-á mergulhar encorpadamente a pedir o penálti. O Vidigal sentenciará que o sueco é muito inteligente e tudo voltará à paz do Senhor.)

 

Em Portugal queima-se tudo. Queimam-se as fitas, os resíduos, as árvores e às vezes até os "fusíveis" dos portugueses. E, no futebol, queima-se tempo, torrando a paciência do santo de altar que é o espectador. Mas há quem defenda esse status-quo: durante toda a primeira parte o bom do Vidigal esforçou-se por contextualizar as sucessivas interrupções do jogo para entrada do médico. Os minhotos iam caindo à vez no relvado, contorcendo-se com suplicantes dores de cotovelo perante a superioridade do Sporting, mas o comentador lá ia justificando cada nova inacção com as  assimetrias entre os clubes. E nem mesmo durante o longo intervalo, quando todo o elenco famalicense teria necessitado mais da assistência de um relojoeiro do que do médico ou do próprio treinador, o comentador se descompôs. Até porque o problema maior foi o braço do Gyokeres, que ameaça ser o novo cisma para as cartilhas dos nosso rivais. Como é que o sueco pode ser responsabilizado por uso do rádio (e do úmero, cóccix, sacro, vértebras, omoplatas, clavículas, etc...), se todos os orgãos do seu corpo estão permanentemente a ser agarrados, logo controlados, pelos adversários? Só se o rádio de que falam for um de pilhas, e ele o leve à socapa escondido nos calções para assim não perder os distintos comentários do Vidigal...

 

Gostei da estreia a titular do Hjulmand. Face ao jogo de Rio Maior houve um pouco menos Gudelj e um pouco mais William, com aqueles passes rasos e verticais a quebrar linhas. E defensivamente, ainda que não um Palhinha ou mesmo um Ugarte na intensidade, esteve melhor, cobrindo competentemente as linhas de passe através de uma boa ocupação do espaço e não se encolhendo junto dos centrais. Com a sua entrada, o Morita avançou um pouco no terreno, aproximando-se com perigo da área adversária como tantas vezes lhe vimos na época passada. Assim, o Pote pôde ocupar um lugar no trio da frente. O Pedro não deslumbrou, mas melhorou o seu rendimento. E podia ter marcado em duas ocasiões. Pelo que o que me pareceu que funcionou menos bem foi a ligação dos alas com a restante equipa. Muito devido à incapacidade de ambos em desequilibrar no 1x1, precisando por isso de um espaço que não tiveram. E se ao Nuno Santos faltou alguém na esquerda que comprometesse o lateral direito do Famalicão para que ficasse liberto a fim de sacar aqueles cruzamentos cheios de veneno que lhe reconhecemos, o Esgaio perdeu espontaneidade entre cálculos diferenciais e resolução de polinómios de terceiro grau que o levam a dar toques a mais na bola antes de centrar (nesse sentido, o "elástico" de Geny, seguido de assistência para desperdício de Pote, foi como um clarão numa noite escura).  Assim, acabou por ser com a força aérea, à imagem e semelhança do lance que deu a vitória sobre o Vizela, que se resolveria este jogo contra um equipa de grande rigor defensivo, com jogadores de belíssimo recorte técnico e um óptimo guarda-redes (se o Júnior é assim, imagine-se o que não será o Luiz Sénior...). Como protagonista de novo Paulinho, o Lázaro que ressuscitou o seu faro de golo desde que guiado pelo intenso perfume que veio da Escandinávia. Uma nota final para Coates, que fez o seu melhor jogo nesta época, e para Diomande, intransponível pela terra e pelo ar, numa noite em que o Sporting estreou o novo equipamento CR7, dourado e preto, que tem sido um sucesso de vendas. E estamos na frente!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Paulinho 

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