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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

21
Mai24

Bob, o desconstrutor de critérios

O Albergue Espanhol


Pedro Azevedo

A primeira observação que me merece a convocatória do senhor Martinez para o Europeu é que o critério é não haver qualquer critério. É, por isso, uma convocatória ad-hoc. Querem exemplos? O Chico Conceição é um joker, um jogador que pode dar coisas diferentes, mas o Matheus Nunes, com um perfil de transporte de bola a quebrar linhas que não existe na Selecção não foi chamado. Depois, o estágio de Março foi muito importante para a decisão final, mas Matheus Nunes (novamente), que jogou e marcou, ficou de fora. Podia estar relacionado com ser suplente no Manchester City, que aliás sagrou-se campeão de Inglaterra, mas Felix não é titular do Barcelona e foi chamado. O Pote e o Trincão tiveram azar com o estágio de Março, mas o verdadeiro azar de Pote foi nunca ter sido convocado, ele que é só o jogador mais regular da Primeira Liga nos últimos 4 anos. A razão não se entende. Enquanto Pedro Neto tem 82 jogos na Premier em 4 anos (8 golos e 16 assistências), Pote leva 124 encontros na Primeira Liga no mesmo período (57 golos e 35 assistências). E ainda há a questão do ritmo competitivo, que pelos vistos não é relevante para não levar Otávio e Rúben Neves (Ronaldo é um caso à parte), mas serve de motivo de exclusão para jogadores suplentes em equipas que dominam o mundo do futebol (Matheus Nunes, Manchester City). Ah, e só levamos um lateral esquerdo de raiz, que tem um histórico de recorrentes lesões musculares. Nuno Santos poderia ser uma boa opção, mais a mais sabendo-se que Martinez gosta por vezes de jogar com 3 centrais, mas também teve azar. Muito azar. Agora espera-se que a Selecção venha a ter sorte. Muita sorte. Senão acontece-lhe como a Bélgica, que conseguiu desperdiçar uma das melhores gerações da sua história sem nenhum feito efectivamente relevante. (Neste autêntico albergue espanhol coexistem jogadores que passaram a época lesionados com outros que jogaram sempre, uns a gozarem a pré-reforma com outros que estão no pico da forma física, titulares indiscutíveis e suplentes crónicos, jogadores com provas dadas no terreno e craques só nas letras de jornais.)

 

Nota: últimos 4 anos (campeonato) - Diogo Jota 41G, 11A; Rafael Leão 40G, 33A; João Felix 23G, 10A, Pedro Neto 8G, 16A; Pote 57G, 35A.

bob o construtor.jpg

20
Nov23

Tudo ao molho e fé em Deus

A desconfiar se vai ao longe


Pedro Azevedo

O português é um ser desconfiado por natureza. Duvida um pouco de si próprio e muito dos seus compatriotas. E desconfia de bons arranques, temendo que isso despolete futuramente a ira de Deus (para os monoteístas), dos deuses (para os politeístas) ou da Autoridade Tributária (para os ateus e os agnósticos, estes mais flexíveis, que é coisa que a AT não gosta). Por isso, quando lhe perguntam como se sente, a resposta é quase sempre um "mais ou menos", não vá o "mais" apanhar São Pedro em horas extraordinárias antes do tempo previsto para a abertura das portas do Céu a cada um (ou provoque uma convocatória para a repartição de Finanças mais próxima). No futebol, essa desconfiança portuguesa traduz-se no uso compulsivo da máquina de calcular. Creio até que a máquina de calcular foi inventada por um senhor (Pascal) tão à frente do seu tempo que no Século XVII previu as dificuldades que Portugal teria nas fases de qualificação dos grandes torneios internacionais e pressentiu que o frágil ábaco nas mãos dos portugueses não iria resistir aos múltiplos cálculos diferenciais (de golos). Resolveu assim o (nosso) vácuo e deu-nos um instrumento para lidarmos com a pressão (não é à toa que esta se mede em Pascal, que por acaso até rima com Portugal).

 

Ora, na antecâmara deste jogo já sabíamos que estávamos qualificados para o Europeu. Se isto não é para desconfiar... Mais, se ganhássemos à Islândia terminaríamos com 100% de vitórias, sucesso só comparável na história de Portugal aos Descobrimentos. A ver pelo que foi a descolonização, a menção aos Descobrimentos aqui foi tudo menos inocente, pelo que está visto que será entre rezas, mas também figas, alhos, macumbas e outros rituais do género, que tentaremos enfrentar o que aí virá. É que ainda me lembro de uma outra fase de qualificação muito boa, em que eliminámos irlandeses e holandeses, que terminou em tragédia na Coreia. Lá está, eu sou português. E desconfio.  

 

Depois deste intrólito que apenas serviu o propósito de encher a crónica a toda a sela, retomemos então o que era a actualidade, que consistia na recepção de Portugal à Islândia, tendo como palco o nosso José Alvalade. Estive para ir ao estádio. Um amigo meu, que tinha os bilhetes, convidou-me. Mas, por fim, acabou retido num "monte" em Évora que por acaso fica num vale e a ideia de ida ao estádio resultou em semelhante antítese. Conformei-me assim em ver pela televisão. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o nome dos islandeses: os 11 acabavam em "son". Consultada uma homóloga da Drª Edite Estrela que mora no Google, concluí que os apelidos islandeses correspondem ao nome próprio do pai acrescido de "son" (filho de). Por exemplo, o Cristiano Ronaldo, se fosse islandês, chamar-se-ia Dinisson. (Apercebendo-se disto, há esperança de que os nossos árbitros emigrem e se naturalizem islandeses para evitar que a mãe seja tão mencionada nas bancadas.)

 

A táctica islandesa consistia em ter 11 Retrancasons atrás da bola. Portugal respondeu com 4(+1) Joões, coisa que não seria inesperada para o Mané Garrincha que dá o rosto por este blogue. Cumpriam-se 10 anos desde o célebre hat-trick de Cristiano Ronaldo a outros nórdicos (Suécia) numa qualificação para um Mundial (Brasil) de má memória (lá está...) e cedo o GOAT procurou comemorar a efeméride com um golo. Só que não era o dia, nesta altura do ano na Islândia é quase sempre noite, e a coisa ficou adiada para a janela de Março ou mesmo para o Europeu. Pelo que viria a ser Bruno Fernandes, o melhor português nesta fase de qualificação, a abrir as portas da vitória com um remate forte e colocado, após um toque abrasileirado de Bernardo Silva. Bruno e Bernardo que fazem uma dupla BB como a gasosa, ou não sejam eles quem dá gás a esta Selecção do meio campo para a frente. Atrás, o Palhinha espraiava os tentáculos por todo o lado e o Otávio deliciava a jogar de primeira a toda a extensão do relvado. O Cancelo, que desta vez começou na esquerda, vinha para o meio como um interior, reforçando a nossa superioridade no meio-campo. Pelo que a primeira parte viria a ser de sentido único, apenas não fazendo qualquer sentido a escassa vantagem que se registava ao intervalo.

 

Os islandeses surgiram mais afoitos na etapa complementar. Mas o Inácio não lhes deu qualquer hipótese. De forma que Portugal continuou a ser mais perigoso e marcou. Foi o recém-entrado Horta o autor da proeza, recargando uma recarga de Ronaldo, em lance em que as carambolas começaram em Félix. Até ao fim, pouco houve a registar. O Guerreiro, que entrou para fazer o mesmo papel do Cancelo, ainda teve um momento à João Pinto (Porto), evitando conceder um pontapé de canto ao cabecear contra o travessão da sua baliza, mas o jogo terminou quase ali.

 

E não é que chegámos ao fim da fase de qualificação com 10 em 10? Dá para desconfiar, não é? Estou certo porém que arranjaremos qualquer coisa para reforçar o providencial pessimismo que nos guindou a campeões da Europa. Já não temos Fernando Santos e com ele aquela alegria dos cemitérios que seria sempre uma garantia nesse sentido - os polacos, muito mais confiantes que nós, talvez por isso permanentemente invadidos por alemães e russos, nunca o conseguiram entender -, pelo que temos de nos concentrar no menos bom registo de Roberto Martinez pela Bélgica nas fases finais das grandes competições. De forma a chegarmos à Alemanha como "outsiders". Depois, de empate a empate, prolongamentos e penáltis, criaremos a desconfiança nos outros (que não estão habituados e não sabem lidar com a desconfiança), nesse transe trazendo o caneco para Portugal.  Dá para acreditar?

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Palhinha

joao palhinha portugal.jpg

17
Nov23

Atacar pior com mais


Pedro Azevedo

Portugal ontem apareceu num 3-3-4 ofensivo (3-3-2-2), com uma espécie de Táctica do Quadrado na frente que na prática não foi mais do que uma homenagem ao nome da humilde crónica que Vos trago aqui periodicamente. Defrontando o fraco Liechtenstein, o 200º do ranking FIFA, Portugal cedeu à tentação de tentar matar uma mosca com tiros de canhão. Nesse tudo ao molho e fé em Deus, Félix várias vezes tropeçou em Diogo Jota, confundindo-se a cavalaria da Ala dos Namorados com os ataques de infantaria pelo eixo. Do jogo tirámos a lição de que não é com avançados a mais que se marcam mais golos. Desde logo porque faltaram os espaços por onde entrar, ocupados que estavam por demasiados jogadores de ambas as equipas, não havendo ninguém para vir de trás explorar um hipotético espaço livre (Bruno Fernandes tinha a bola, logo não se podia desmarcar sem ela, e o resto eram centrais). Salvou-nos ainda assim o do costume, aquele que só em Portugal podia ser contestado, o rei artilheiro Ronaldo, que primeiro venceu o combate corpo-a-corpo com 2 adversários e depois fuzilou para desbloquear o impasse. Foi o seu centésimo vigésimo oitavo golo pela "Equipa de Todos Nós", a que se somam setecentos e trinta e sete golos por clubes enquanto sénior, o que totaliza 865 golos de carreira profissional. São números impressionantes, excepto para alguns seres tão pouco impressionáveis que paradoxalmente ocupam o seu tempo nas redes sociais só para disseminarem o ódio, no caso ao capitão da nossa Selecção.

ronaldo liechtenstein.jpg

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