Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

30
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

“Mas que nada”


Pedro Azevedo

IMG_5728.jpeg

Não sei se elogio demais aqueles jogadores que fazem a diferença. Creio até que nessa abundância exaltativa sou pouco português, que por cá o que não sai de moda é elogiar ao melhor estilo do cinema mudo e insultar de megafone em punho. Vem este arrazoado a propósito de Francisco Trincão, um jogador que faz-me lembrar aquele slogan escrito pelo Fernando Pessoa para a Coca-Cola: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". Por isso, ele foi tudo menos consensual nos seus primeiros tempos em Alvalade. E confesso que chegou até a ser uma das minhas irritações de estimação (as irritações, tal como os canários, os cães ou os gatos, não só são alimentadas diariamente como nos fazem muita companhia, daí serem muito estimadas, demasiadamente até na sociedade actual), como o arquivo deste blogue inequivocamente ilustrará. Mas, depois, tal como aquelas crianças que têm um desenvolvimento tardio gerado na hipófise, ele acelerou o seu processo de crescimento enquanto outros o estabilizaram, tornando-se um dos jogadores mais influentes do plantel. Hoje, voltou a ser decisivo: os nossos dois primeiros golos foram originados nos seus pés. Não esquecendo aquele slalom curto que fez um jogador do Estrela assemelhar-se àquelas bandeiras (portas) que existem no ski e servem para delimitar o percurso, infelizmente concluído com um remate torto. Bom, mas se o Trincão não se pode queixar de falta de atenção deste blogue, hoje a noite foi de Quaresma. Que maravilha! Não foi só ter inaugurado o marcador, o que é sempre importante. Não, o Quaresma deu um festival de bem defender, rápido quanto baste para fazer face aos velozes avançados do Estrela e sempre no sítio certo, no ar ou pelo chão, para evitar sobressaltos maiores. O Quaresma é um excelente jogador, todavia carrega com ele o peso do "mas". Na boca de cada um dos adeptos Sportinguistas, mais do que a pasta medicinal Couto, a constatação da sua evidente qualidade como futebolista vem sempre acompanhada por um "mas". É um "mas" essencialmente preconceituoso, porque advém de erros próprios da juventude e cometidos no tempo em que os animais ainda falavam. Só que, como um dia disse Einstein: "É mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito". Pelo que o Quaresma há-de ser um veterano e alguém ainda recordar-lhe-á uma falha ocorrida no tempo do paleolítico inferior. Talvez tenha a ver com o seu feitio extrovertido e jeito sorridente, coisa que o português pretere a quem tenha cara de enterro (o que causa uma sensação de seriedade e por isso faz parte do personagem criado pelos burlões mais requintados), ou então faz justiça ao Oscar Wilde quando sentenciou: "A cada bela impressão que causamos, criamos um inimigo; para se ser popular é indispensável ser-se medíocre". Para mim, o Quaresma foi indiscutivelmente o melhor em campo. Brilhantismo e zero erros. 

Voltando ao jogo, o nosso segundo golo fez-me lembrar o Brasil de 82. O Trincão parecia o Zico ou o Sócrates, primeiro a procurar o apoio frontal do Suarez, depois a isolá-lo com um toque de magia. Só faltou o lance ser acompanhado na bancada pelos batuques dos Vapores do Rego para um regresso ao passado: aos ecos de Sevilha, no tal Mundial, e ao ambiente da Superior Sul, no Sporting de Allison desse mesmo tempo. Nem de propósito, logo a seguir, o Quenda teve um remate a tirar tinta ao poste que mimetizou a "patada atómica" do Éder, outra grande figura dessa "Canarinha" do Mundial de Espanha. O terceiro, porém, acabaria por chegar ainda antes do intervalo, com Fresneda a cabecear para as redes após livre marcado por Geny. Seguiu-se uma etapa complementar de serviços mínimos, que na sexta-feira há ida à Luz e havia que poupar energia e salvaguardar o registo disciplinar. Deu ainda para Suarez bisar e para Morita figurar na assistência, um regresso aos números que se saúda de quem ultimamente parecia configurar uma qualquer anomalia estatística. Ainda bem, mas na Luz espero ver o João Simões. E assim terminou um jogo do campeonato português com um clube que em si mesmo é um oximoro, ou não houvesse uma equipa Amadora num escalão iminentemente profissional. 

Venha então o Benfica, que há uma derrota amarga na Supertaça para tirar a desforra...

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma

 

P.S. Ah, será que quem desvaloriza a riqueza táctica que Rui Borges traz ao futebol do Sporting reparou naquele pormenor do Fresneda subir uma linha e encostar a um médio e ser o Geny a fechar como lateral? 

29
Mar25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Não há Estrela(s) no Céu


Pedro Azevedo

Rúben Amorim trouxe o sistema de 3-4-3 para Alvalade. Os laterais (Porro e Nuno Mendes) tornaram-se alas, ofensivamente incorporando-se no meio campo. Pontualmente, recordo-me da recepção ao Gil Vicente, era necessário ainda mais balanço atacante nos minutos finais dos jogos e a equipa chegou mesmo a jogar em 3-2-5, ressuscitando o WM que Herbert Chapman criou para o seu Arsenal, o sistema dos Cinco Violinos que com Cândido de Oliveira ganhou nuances de 4-2-4 com o recuo de Travassos para organizar o jogo (e a descida de um médio para o sector defensivo), a forma aliás como a Hungria, de Puskas, Kocsis e Hidegkuti, surpreendeu a Inglaterra, em Wembley, naquele que foi considerado o Jogo do Século (3-6). Na sua última época, Amorim evoluiu o seu sistema, usando alas que eram no fundo extremos, aproximando a equipa ofensivamente do tal 3-2-5 (WM). Mas o Rúben saiu, a tentativa de João Pereira de introduzir um losango no meio campo revelou-se um paradoxo trágico-geométrico e Rui Borges chegou com o seu 4-3-3, que tinha Trincão como terceiro médio e até entusiasmou quando o Sporting deslocou-se a Vila do Conde. Só que se o plantel já era curto para dois médios, com três mais curto ficou. Com a erosão causada pela falta de rotatividade, um a um, os médios foram caindo em combate, pelo que foi necessário criar um novo sistema. E é aqui que as opiniões divergem: enquanto para uns regressámos ao 3-4-3, para o Carlos Freitas jogamos em VG (as iniciais de Viktor Gyokeres). Eu estou mais com a segunda opinião. A razão é simples: o Gyokeres, sozinho, resolve uma série de problemas que o colectivo não consegue quando não há Hjulmand e Morita. Pontualmente tendo a companhia de um ou outro jogador (hoje foi o Quenda, amanhã será o Trincão, num sebastiânico dia envolto em névoa pela Unidade de Underperformance poderá ser o Pote). Esta ideia é também acompanhada por inúmeros benfiquistas e portistas. Mas aqui tenho uma divergência com eles, na medida em que para os nossos adversários é como se o Sporting cometesse alguma ilegalidade ao utilizar o sueco. Tipo "assim não vale", como nos jogos de rua em que um miúdo desequilibrava tanto a balança que era obrigado a ir à baliza ao fim de um certo tempo. Só que o Gyokeres tem contrato com o Sporting, logo o Sporting utiliza-o. Tudo normal, como quando Eusébio jogou no Benfica ou Madjer e Futre formavam o par de ases com que o Porto de Artur Jorge especulava com os adversários antes de os esmagar com um póquer. Hoje, o Gyokeres voltou a ser providencial num dos piores jogos do Sporting de que tenho memória. Uma partida que fez jus ao título desta crónica, que aquilo andava tudo ao molho na fezada que o sueco resolvesse. Ainda assim, o nosso primeiro golo teve a acção decisiva de uma vítima que costuma ser réu. Ver um leão como Diomande vestir a pele de cordeiro não deixa de ser irónico, e não pude deixar de sorrir quando o árbitro assinalou penalty. Lembrei-me logo do jogo das Aves. Depois, o Gyokeres levou dois defesas para longe da área e deu no Quenda. O que este fez a seguir, o primeiro toque (finta) que deu na bola, não deve ter sido visto por Roberto Martinez porque não aconteceu num dos estágios da Selecção. Seguiu-se a simulação de passe para Geny, engodo que criou o espaço para o remate fatal. O Quenda é ouro, embora o Roberto ache que ouro é pô-lo no banco a conviver com as estrelas Bernardo e Ronaldo. Não a servi-las numa bandeja de ouro, como seria admissível, mas a vê-las do banco. Realmente, a ser traumatizado nas minhas expectativas de cada vez que fosse à Selecção , um ser humano normal como eu até ficaria a "ver estrelas", mas o Quenda é um fenómeno tambem de resiliência mental e hoje voltou a mostrá-lo. É craque!!! O Estrela ainda reduziu, mas o VAR também reduziu as suas expectativas ao anular-lhe o golo. Estas linhas do nosso VAR estão para as linhas com que se cose o VAR da Champions (ou Premier) como o esoterismo está para a ciência. São linhas Maginot, como aquelas que os franceses achavam que nunca seriam violadas pelos nazis. Tem-se fé naquilo com o mesmo estado de espírito que se vai vendo o desfilar do baralho de cartas do tarot após uma noite de copos: parece-nos tudo enviesado. Enfim, a verdade é que o Sporting continuou a ser banal até ao momento em que a bola chegava aos pés de Gyokeres, que a partir daí a música passava a ser outra, no caso requiem para os estrelistas. E assim, logo o sueco tratou de encomendar a missa fúnebre aos da Amadora, ganhando e finalizando um penalty que pôs fim a um jogo de triste memória que contudo teve o condão de nos manter na liderança. (Este foi o jogo que eu vi, se perguntarem ao Rui Borges ele dir-vos-á que o Geny fez uma grande exibição, uma realidade tão alternativa como a de sonhar ver um muito bom ala puro a brilhar como mediocre interior.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Vik Thor Gyokeres

quenda.jpg

(Foto: A Bola)

02
Nov24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Do Póquer ao Black Jack (21)


Pedro Azevedo

IMG_3506.jpeg

Bem sei que houve um Tratado de Windsor que nos uniu, mas estou cansado de alianças com ingleses que inevitavelmente terminam com eles a levarem o nosso ouro. Foi assim nas invasões francesas, com o Ronaldo, Nani, Viana, Bruno ou Matheus, assim será também com o Ruben Amorim. Apesar de tudo, o acordo não foi mau: o Ruben viajará no dia de São Martinho, mas as castanhas e a jeropiga ficarão cá, escondidas que foram da curiosidade inglesa. E o Gyokeres, também, para já. Mais do que de castanhas e jeropiga, ele agarra-se à chicha, uma notícia que no passado fez manchete do Correio da Manhã. À chicha bola, bem entendido. Resultado: ao intervalo já tinha marcado 3 golos. E, se, na antecâmara do jogo, o treinador do Estreia havia-se gabado de o Gyokeres nunca ter marcado ao seu clube, no fim caiu de quatro. É que para quem se propunha parar a locomotiva Gyokeres, o Estreia mostrou alguma falta de ferro (ou Ferro). Assim, na sequência de uma cava de roleta que fez um dia Varandas trazer o Amorim para Alvalade, o Gyokeres começou no póquer e acabou no Black Jack (21). É isso, com os 4 de ontem, são já 21 os golos que o sueco marcou esta época pelo Sporting !!! [Em abono do Estrela e do seu treinador (José Faria), diga-se que a equipa dividiu o jogo com o Sporting durante a primeira parte, tendo-se equivalido em remates à baliza.] 

 

O jogo serviu de aperitivo, de "amouse-bouche", para o prato-forte da noite: a conferência de imprensa onde Ruben Amorim iria explicar as razões para a sua saída para Manchester. Nao se tratou sequer de substituir o jogo jogado pelo jogo falado, foi mais trocar o jogo jogado pela rescisão falada. Ora, não é normal que um jogo fique em segundo plano e que os adeptos o queiram ansiosamente despachar em função de uma conferência de imprensa. Seja como for, se os adeptos o queriam, o Gyokeres tratou de lhes fazer a vontade rapidamente, e então abriram-se alas para Amorim entrar no auditório Artur Agostinho. Soube-se então que o treinador já havia anunciado ao presidente que o seu ciclo no Sporting terminaria no final desta época desportiva e que o interesse do Man Utd apenas antecipou esse fim, que ainda tentou que o contrato em Inglaterra só entrasse em vigor na próxima temporada, mas o United não aceitou. Uma alma mais cinica poderia ver aqui alguma falta de convicção do clube inglês, porque se o interesse é de longo prazo não seriam 7 meses que poderiam ser preenchidos por um interino a fazerem uma grande diferença. Seja como for, o que parece certo é que o United se quis antecipar a um eventual interesse do rival City, agora que se sabe que Viana ingressará no clube de Maine Road e Guardiola ainda não decidiu renovar. Com isso, repetiu o folhetim Ronaldo, cobiçado pelo City e contratado pelo United. Um folhetim que não acabou bem. Bom, mas isso já são contas de um outro rosário. Nós por cá só queremos que o ciclo de Amorim no Sporting termine em grande, fazendo assim jus a um trabalho excepcional desenvolvido em 5 anos que mudaram a sorte do nosso clube. Depois, venha o João Pereira e o bicampeonato.

 

Se no fim da época passada o tema era a aeronave, esta semana foi essencialmente boa para a promoção da CP, tantas foram as vezes em que se falou em comboios. De apanhar o comboio e também de comboios que não passam duas vezes. Infelizmente para os adeptos Sportinguistas, o Amorim trocou a gare de origem por um apeadeiro. Agora só se espera que não vá de carrinho (de Manchester)... 

 

Tenor "Tudo ao molho.": Vik Thor Gyokeres. Menção honrosa: Franco Israel.  

30
Mar24

Tudo ao molho e fé em Deus

A (mito)mania de falhar de cabeça


Pedro Azevedo

Se até Aquiles tinha um ponto fraco, não admira que Gyokeres, igualmente um herói da mitologia (neste caso, leonina), também o tenha. O "calcanhar de aquiles" do sueco é o jogo de cabeça. E não se manifesta só na área do adversário, onde porventura dará mais nas vistas, mas igualmente na nossa área: por duas vezes o Estrela colocou a bola na sua zona de acção, por duas vezes criou perigo. Uma deu golo, outra motivou uma boa defesa de Israel. Não é a primeira vez que acontece - assim de memória recordo-me, entre outros, de um golo do Gil Vicente em Alvalade e de outro do Portimonense em sua casa, ambos na sequência de bola parada - e deve ser urgentemente corrigido. Amorim, sem nomear jogadores, chamou a atenção para esse erro na conferência de imprensa e fê-lo bem, até porque de outro modo só ficaria na retina do adepto a saída fora de tempo do guarda-redes do Sporting. (Esclareço que não se trata só da forma como Gyokeres coloca a cabeça à bola, tem mais a ver com a falta de confiança neste gesto que o faz não antecipar os lances e atacar atempadamente a bola.)

Quer este arrazoado em cima pôr em causa o Gyokeres? Não, o sueco está tão ligado à nossa redenção e, quiçá, salvação (após um quarto lugar no campeonato que valeu a não presença na Champions desta temporada) que deve ser visto como um mito soteriológico: os 36 golos e 14 assistências, que o tornam o jogador na Europa com mais participações directas em golos, assim o demonstram. Ontem, Sexta-feira Santa, simplesmente absteve-se de comer de cebolada a carne toda picadinha do costume, mas o mais certo é ter guardado o apetite para a jornada dupla com o Benfica. A avaliar pelo estado em que fica após cada jejum, eu diria que estará em ponto de rebuçado nesse momento. Que então a fera se solte em todo o seu esplendor!...

 

Não é que a estrela de Gyokeres tenha empalidecido, simplesmente não esteve ao seu nível. Ou ao nível altíssimo a que nos habituou (mal, para o nosso bem), fazendo apenas um jogo satisfatório. Pelo que a vedeta de ontem foi o Trincão, uma espécie de Lázaro ressuscitado por contacto com o deus Gyokeres. Explorando inteligentemente tanto o espaço entre-linhas como o existente nas costas dos defesas do Estrela, o Trincão fez um grande jogo. A que só faltou um golo da sua parte, que até poderia ter acontecido num par de ocasiões. E se numa o guarda-redes adiou momentaneamente os seus intentos (Nuno Santos marcou na recarga), na outra teve tudo para facturar quando o Kialonda Gaspar preferiu apostar as fichas todas na sua possibilidade de falhar face à inevitabilidade de golo que resultaria de lhe fechar o espaço interior e permitir-lhe a cedência de bola a um desmarcado Gyokeres - uma questão típica de uma cadeira de cálculo de probabilidades.

Outros jogadores em destaque foram Daniel Bragança e Hidemasa Morita. Muita qualidade de passe têm estes dois, que descobriram inúmeras vezes colegas entre-linhas. Jogando muitas vezes de primeira, não se deixando encurralar pela pressão da linha média do Estrela, sempre uns décimos de segundo atrasada face à velocidade de pensamento e de execução do meio campo do Sporting. Na mesma onda verde, Inácio, entrado para o segundo tempo, foi outro jogador que procurou jogadores soltos no espaço interior, criando perigo para o Estrela. Bem também estiveram os centrais, com a rapidez de St Juste a sobrepor-se a alguns "passes para o hospital" (conhece como ninguém o caminho) que fez e deveria evitar a fim de que males maiores possam emergir como no golo do Estrela. Nuno Santos também esteve ao seu nível, mais regular do que Geny. E Paulinho marcou um golo numa bela execução de cabeça, além de ter procurado sempre que possível ser opção para a ligação de jogo com o ataque. 

Não tínhamos necessidade de sofrer tanto, mas Sporting sem sofrimento seria paradoxal e desafiaria todo o conhecimento que os Sportinguistas foram adquirindo ao longo de seis décadas de estudos epistemológicos baseados na verdade e no nosso sistema de crenças. Por falar em crenças, a de que seremos campeões vai crescendo jogo a jogo. Depois de ontem, ficaram a faltar oito. Mas só precisamos de ganhar sete. Ou seis, desde que vençamos o derby. Bom, mas isso será para depois, porque na terça teremos Taça. Na Luz. Haveria melhor palco para uma equipa tão eminentemente renascentista? Então, que o eminente seja iminente e a nossa fluidez de jogo ilumine o rectângulo de jogo sito em Carnide!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão 

ir.png

06
Nov23

Tudo ao molho e fé em Deus

Edwards contra a ditadura do controlo


Pedro Azevedo

Um jogo de futebol não é xadrez. Se fosse xadrez, os soviéticos teriam ganho quase sempre os campeonatos do mundo e haveria um Amorinov ou Amorinovskiy lá do burgo celebrado como o melhor treinador da história, algo que nunca aconteceu em 93 anos de Mundiais. O futebol também não é póquer, embora por vezes se especule demasiado com o jogo. Não, o futebol não se joga sentado, de cadeirinha, estaticamente de pé, ainda que o cérebro continue a ser indispensável. Sem a dinâmica de movimento, o futebol seria um jogo de matraquilhos. 

 

O Sporting entrou a "controlar o jogo", a passo. Se ganhar, logo marcar golos, é o objectivo, o controlo de um jogo é uma daquelas figuras da mitologia do futebolês, um jargão ditatorial e difícil de explicar do ponto de vista da concepção e prática do jogo. Uma acção artificial, precária, fruto de convenções e lendas do antenho, provavelmente impingida por um Melquíades de ocasião num daqueles cursos de (de)formação de treinadores e vendida como a cura do cancro do futebol. No fundo, uma noção criada por pessoas que não conhecemos ou demos liberdade para influenciar as nossas vidas ou a vida dos nossos clubes. Uma "banha da cobra", mas que serve de desculpa perfeita para cada vez que tomamos um golo - Ah, e tal, estávamos a controlar o jogo, quando... - , pelo que importa libertar-nos dessas amarras,  voltar a escolher livremente o nosso modo de agir e recuperarmos o que de melhor o futebol tem: o golo. Não há catarse com controlo - bom, talvez com Control (ou Durex) -, mas sim na celebração colectiva, na comunhão que existe quando os nossos metem um golo. 

Às tantas o Gyokeres fartou-se de tanto controlo, uma vantagem de ainda não ter absorvido totalmente a cultura deste nosso futebol em que não é pedido aos jogadores que mantenham sempre um alto ritmo de jogo, o que depois se nota quando defrontamos outros clubes europeus. Então, o sueco foi por ali fora num turbilhão, ganhou a linha de fundo, contemporizou (este, sim, um jargão aceitável do futebol, que de tempo e espaço se faz um bom "association") e cruzou com precisão de relojoeiro para a entrada da área onde estava Bragança para finalizar à bala: 1-0 no marcador, que de Bragança a Lisboa (Amadora) havia 1 golo de distância ao intervalo. Aos Xutos&Pontapés.

No segundo tempo continuámos a controlar. O problema da ditadura do controlo é que encontra sempre resistências. Subversivamente, o Estrela, em três ocasiões, já havia tentado sobrevoar a nossa linha de defesa, mas nem isso nos havia feito sair da letargia. Até que sem se dar muita conta disso, apanhámo-nos a perder. Com a acção da sabotagem amadorense, o controlo descontrolou-se e agora havia que jogar à bola: entraram jogadores mais rápidos. Já se sabe que nestes momentos em que uma ditadura cai de podre, há logo um excesso de liberdades individuais. Vai daí, o Edwards pegou na bola e foi sozinho por ali fora, mandando às malvas tácticas, sistemas e ecossistemas, fintando um (duas vezes), dois, três, quatro jogadores, até visar a baliza. Um golo Maradoniano, ele também um rebelde que se revoltava contra ditaduras e tiranias. Um golo de futebol de rua, futebol no mais elevado estado de pureza. Motivado, o Edwards não ficou por aí, logo descobrindo o Paulinho isolado para um golo com (a) cabeça que nos punha de novo em vantagem. Até ao fim o Estrela não "piou" mais, embora o António Filipe tenha mostrado perceber os pássaros (como diria o Tê) num vôo a recordar o saudoso Vitor Damas. Sem dúvida um guarda-redes eclético, ou minutos depois não tivesse emulado uma centopeia e negado um golo cantado ao Trincão.

 

No fim, vencemos, mas de agora em diante façam o favor de controlar o jogo só quando estiver quatro a zero no marcador. Vamos à frente. Segue-se a Luz, com o pensamento de que nem sempre a luz que mais brilha é aquela que se vê. Assim haja alma. Spooooortiiiiing!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Edwards

edwards estrela.jpg

Mais sobre mim

Facebook

Apoesiadodrible

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub