Pote, o explorador do espaço
Pedro Azevedo
Primeiro o Sputnik, depois a cadela Laika, por fim um homem a estrear-se no espaço, o astronauta Yuri Gagarin. O espaço é um vácuo quase perfeito, sem ar, mas contendo muitas formas de radiação, algumas partículas de gás, poeiras e outras matérias que flutuam nesse vazio. Como explica a Teoria da Relatividade, o tempo passa mais depressa no espaço do que na Terra, formando uma entidade denominada espaço-tempo que é influenciada pela gravidade e velocidade.
Não sei se o Pote é admirador de Gagarin e dos astronautas em geral, mas nos relvados do futebol português ele é o descobridor de espaços por excelência. Motivado pelas dinâmicas criadas por Rúben Amorim, que privilegiavam um conjunto de movimentos que se destinavam a encontrar o espaço livre, Pedro Gonçalves conjuga a inteligência e a velocidade de execução perfeitas para se mover como ninguém na direcção dessa zona onde o ar é rarefeito e não há tempo a perder.
Ao contrário de João Pereira, que tem a obsessão do preenchimento prévio do espaço, Rúben Amorim sabe que o espaço não se ocupa, descobre-se, surpreendendo o adversário exactamente por o encobrir até ao último momento, como se antes o disfarçasse entre uma nuvem de poeira. Ou seja, Amorim tem a noção de que o espaço está lá, onde se esconde, e conduz as suas peças de forma a criar um engodo que afaste o oponente desse espaço. Para tal, necessita de um génio que entende a relatividade e conheça na perfeição o conceito de espaço-tempo que é tudo no futebol: Pote.
Partindo habitualmente de uma ala, Pote vai em busca do jogo interior, promovendo simultaneamente o "overlap" dos alas. Assim fica com pelo menos duas opções de passe, associando-se a um terceiro elemento para criar um jogo de triângulos que visa encontrar um espaço entre lateral e central adversários. Esse terceiro elemento pode ser o ponta de lança em apoio frontal ou um médio que entre pela esquerda (Morita ou Bragança). A qualidade da sua execução faz o resto, poupando-lhe o tempo suficiente para que o adversário não descubra o espaço livre antes que a bola aí chegue a um seu colega de equipa. É de dissuasão que falamos, e isso é bem mais eficaz do que o jogo posicional que arrasta com ele a concentração de múltiplos adversários. Ou como o modelo de Amorim gera uma dinâmica de equipa e o de João Pereira depende mais da inspiração individual de dribladores como Edwards ou Trincão. A diferença será só Pote? Não me parece, porque a ideia do João é dissuadir e concentrar no meio para libertar nas alas e a mais-valia do Pote é a exploração dos espaços interiores que só ele é capaz de vislumbrar, o que só é possível na medida em que se serve da ala para partir de frente para o jogo e não de costas para ele, mais central e demasiado perto do ponta de lança (como Edwards, actualmente).


