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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

03
Dez24

Pote, o explorador do espaço


Pedro Azevedo

Primeiro o Sputnik, depois a cadela Laika, por fim um homem a estrear-se no espaço, o astronauta Yuri Gagarin. O espaço é um vácuo quase perfeito, sem ar, mas contendo muitas formas de radiação, algumas partículas de gás, poeiras e outras matérias que flutuam nesse vazio. Como explica a Teoria da Relatividade, o tempo passa mais depressa no espaço do que na Terra, formando uma entidade denominada espaço-tempo que é influenciada pela gravidade e velocidade. 

 

Não sei se o Pote é admirador de Gagarin e dos astronautas em geral, mas nos relvados do futebol português ele é o descobridor de espaços por excelência. Motivado pelas dinâmicas criadas por Rúben Amorim, que privilegiavam um conjunto de movimentos que se destinavam a encontrar o espaço livre, Pedro Gonçalves conjuga a inteligência e a velocidade de execução perfeitas para se mover como ninguém na direcção dessa zona onde o ar é rarefeito e não há tempo a perder. 

 

Ao contrário de João Pereira, que tem a obsessão do preenchimento prévio do espaço, Rúben Amorim sabe que o espaço não se ocupa, descobre-se, surpreendendo o adversário exactamente por o encobrir até ao último momento, como se antes o disfarçasse entre uma nuvem de poeira. Ou seja, Amorim tem a noção de que o espaço está lá, onde se esconde, e conduz as suas peças de forma a criar um engodo que afaste o oponente desse espaço. Para tal, necessita de um génio que entende a relatividade e conheça na perfeição o conceito de espaço-tempo que é tudo no futebol: Pote. 

 

Partindo habitualmente de uma ala, Pote vai em busca do jogo interior, promovendo simultaneamente o "overlap" dos alas. Assim fica com pelo menos duas opções de passe, associando-se a um terceiro elemento para criar um jogo de triângulos que visa encontrar um espaço entre lateral e central adversários. Esse terceiro elemento pode ser o ponta de lança em apoio frontal ou um médio que entre pela esquerda (Morita ou Bragança). A qualidade da sua execução faz o resto, poupando-lhe o tempo suficiente para que o adversário não descubra o espaço livre antes que a bola aí chegue a um seu colega de equipa. É de dissuasão que falamos, e isso é bem mais eficaz do que o jogo posicional que arrasta com ele a concentração de múltiplos adversários. Ou como o modelo de Amorim gera uma dinâmica de equipa e o de João Pereira depende mais da inspiração individual de dribladores como Edwards ou Trincão. A diferença será só Pote? Não me parece, porque a ideia do João é dissuadir e concentrar no meio para libertar nas alas e a mais-valia do Pote é a exploração dos espaços interiores que só ele é capaz de vislumbrar, o que só é possível na medida em que se serve da ala para partir de frente para o jogo e não de costas para ele, mais central e demasiado perto do ponta de lança (como Edwards, actualmente).

pote de ouro.jpg

23
Dez23

O Explorador dos Espaços


Pedro Azevedo

O norueguês Roald Amunsdsen liderou a primeira expedição a atingir o Polo Sul. E muitos séculos antes, ainda no tempo dos Vikings, o seu compatriota Leif Eriksson havia sido o primeiro europeu a chegar à América do Norte (Canadá). Há um gene de aventureirismo e de exploração do desconhecido nos nórdicos, algo que aliás partilham com os intrépidos marinheiros portugueses dos nossos Descobrimentos. Por isso, a chegada de Viktor Gyokeres à pátria de Gama, Cabral ou Magalhães proporcionou o contexto perfeito para uma epopeia à antiga. Porque Gyokeres é também ele um explorador, de espaços. Se o futebol é essencialmente tempo e espaço, então Viktor distingue-se pela quantidade enorme de trabalho que consegue realizar por unidade de tempo. Chama-se a isso potência, que também pode ser definida como o produto da força multiplicada pela velocidade. Ora, essa potência é aplicada maioritariamente na exploração do espaço livre no relvado, em comprimento (aquilo que agora se designa de "profundidade", como se das 20.000 Léguas Submarinas se tratasse) mas também em largura. É com a recorrente procura desse espaço que Gyokeres leva até à exaustão os seus adversários para depois melhor os desequilibrar, nesse transe mais parecendo uma jibóia que, mais do que morder instantaneamente como outras serpentes, vai progressivamente asfixiando a sua presa, sendo esse o seu "veneno". Não é à toa que desses confrontos resultem ressaltos todos eles ganhos pelo sueco. Tal fica a dever-se à sua envergadura e superior condição física, que permitem que o seu corpo consiga suportar inúmeras acelerações e mesmo forças contrárias (choques) durante um jogo de futebol, sem nunca se descompôr. Levando isso ao extremo, o que no futebol significa até à baliza adversária, quando, sem desalinhar um fio do seu cabelo no processo, finaliza com a reconhecida frieza nórdica cada uma das suas intrépidas correrias. Sempre cool, qual James Bond que vem expiar (remir) os nossos pecados do passadoComo o super-herói que efectivamente é. 

Viktor Gyokeres, a Licence to Kill!!!

gyokeres porto2.jpg

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