Eduardo Mãos na Taça
Pedro Azevedo

Começo por fazer uma declaração de interesses: eu sou um grandíssimo fã do Eduardo Quaresma. Da forma como joga, mas também da sua genuinidade. A sua técnica é subtil. Vê-se na arte com que desarma limpo junto à relva e no jeito como baila perante os adversários na saída de bola. Com os pés que tem, dir-se-ia até que serIa um desperdício jogar tão atrás, ele que bem poderia ser um médio de eleição. Mas, enfim, Franz Beckenbauer fez uma carreira como defesa central e não consta que tenha tido razões para arrependimento. Ele é cada vez melhor defesa, quase impenetrável ao drible, mas é com a bola nos pés que faz acelerar o coração dos Sportinguistas. Se Inácio ou Debast são bons no passe à distância, com Quaresma o Sporting ganha um elemento capaz de queimar linhas e assim dinamitar a zona de pressão do oponente, um pouco à semelhança do que antigamente Matheus Nunes fazia um pouco mais à frente. O seu golo ao Gil Vicente bem pode ser considerado o Golo do Campeonato. Pelo timing em que ocorreu e por ter permitido ao Sporting deslocar-se à Luz em vantagem na classificação. Mas foi também dele que partiu o desequilíbrio que permitiu a Pote finalizar uma jogada colectiva de grande nível que nos colocou à frente no jogo do título. Dono de uma jovialidade desarmante, genuíno e nada cinico, talvez falte ao Eduardo a pose com que muitos se defendem perante o mundo que os rodeia. Não para mim, que o gosto assim, exactamente como ele é, desde que na hora da verdade continue a ser fiel ao "call of duty". Sem esquecer que em três épocas de sénior (esteve duas temporadas emprestado pelo meio) foi sempre campeão nacional. Um pormenor para alguns, um "pormaior" para quem o vê dentro de campo e ouve os ecos do seu impacto no balneário. Injustiçado por Martinez, tal como Pote, Eduardo está em plena afirmação. O céu é o limite para este defesa dotado de uma capacidade técnica invulgar, capaz de resistir ao chutão para a frente em prol da arte de bem jogar futebol. Como aconteceu às 22:45 daquele jogo com o Gil Vicente, quando afagou a bola com doçura à entrada da área dos galos e na hora do remate optou por um corte em folha seca na bola em vez de um petardo, iludindo o pobre guarda-redes de Barcelos que nada mais pôde fazer além de acompanhar a sua trajectória com os olhos. Um golo extraordinário de um homem cuja serena extravagância daria um bom personagem do Tim Burton.
