Tudo ao molho e fé em Ronaldo
Trincão deu asas ao sonho na Vespa de Jota
Pedro Azevedo
Ao contrário do que por vezes Roberto Martinez nos quer fazer crer, uma Selecção não pode ser vista como um clube mais ou menos enclauserado em estágios, na medida em que a experiência e momento de forma de um jogador provêm essencialmente da sua utilização no(s) clube(s) e não na Selecção. Só assim aliás se explica aqui a teoria da Tábula Rasa, do filósofo John Locke, que defende que o Homem nasce como uma folha em branco e todo o seu conhecimento deriva da experiência, tentativa e erro. Por isso, tanto Ronaldo, o decano nestas andanças da Selecção, como Trincão, um neófito, mostraram serem conhecedores e foram importantes no resultado final, tendo o Sportinguista sido mesmo absolutamente decisivo ao marcar dois golos e idealizado outro, servindo esta dicotomia para provar o quão errado tem estado Roberto Martinez ao excluir das primeiras opções jogadores como Pote, Gonçalo Ramos ou Quenda com o argumento de que não estiveram em alguns estágios ou têm pouca experiência na Selecção. Porque se a experiência na Selecção do Cristiano Ronaldo é equivalente a todos os tomos da Enciclopédia Luso-Brasileira, a do Trincão era até ontem igual à de uma folha de papel cavalinho ainda por preencher. O curioso é que, se Ronaldo comprovou a teoria de Locke ao falhar primeiro (tentativa-erro) para depois evoluir com dois golos (um anulado por fora de jogo milimétrico anterior de Leão) e um par de outras oportunidades negadas por boas defesas de Kasper Schmeichel, mostrando que mesmo aos 40 anos continua a adquirir um conhecimento que depois lhe permite dar a volta a situações adversas, já o Trincão não precisou do erro, pois concretizou todas as tentativas, pelo que o seu conhecimento adveio essencialmente da experiência acumulada no Sporting.
Portugal deu 1 hora de avanço à Dinamarca devido a Martinez ter mantido em campo um jogador sem compromisso como Rafael Leão em detrimento de Diogo Jota. Além da moto, Jota trouxe intensidade nos duelos ofensivos e defensivos. Enquanto Leão pedia a bola no pé e sem ela alheava-se do jogo, Jota procurou o espaço, foi buscar metros de comprimento nas costas da defesa nórdica e envolveu-se em inúmeras batalhas pela posse da bola (meão e com uma cinturinha de vespa, é incrível a luta que dá aos adversários). No dia em que Bernardo Silva (excelente exibição) realizou o seu centésimo jogo pelo seleccionado português, Gonçalo Inácio foi um dos melhores em campo, sobreponde-se mesmo a Rúben Dias (teve um erro comprometedor) como patrão da nossa defesa. Bom jogo também de Nuno Mendes, mas o destaque individual tem de ir para Trincão, que se revelou exímio na definição, quer no passe que isolou Jota no quinto golo como nos remates que primeiro nos voltaram a colocar dentro da eliminatória e depois nos puseram por cima. Tudo isto porém não teria sido possível se Diogo Costa não tem ganho tempo na Dinamarca para que Portugal, em Alvalade, pudesse dar a volta aos Vikings.
Uma nota especial para Cristiano Ronaldo: foi um verdadeiro capitão. Na Conferência de Imprensa que antecedeu o jogo, enquanto esteve em campo (exortando frequentemente o apoio das bancadas) e após ter sido substituído (estimulando sempre os colegas), continuando a fazer tábula rasa aos "haters".
Portugal não foi a única selecção a necessitar de prolongamento para carimbar a passagem à fase decisiva da Taça das Nações, pois Espanha (contra os Países Baixos) e França (face à Croácia) precisaram até de ir a penáltis, mas acabou por ser a que passou com maior margem de golos. Segue-se a Final Four, na Alemanha, com uma meia-final em que defrontaremos a equipa da casa, uma nova prova de fogo para Martinez porque não haverá uma segunda oportunidade para deixar uma boa impressão final.
Tenor "Tudo ao molho...": Trincão



