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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

05
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Mortos de sono


Pedro Azevedo

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Durante a semana puxou-se tanto o lustro aos galões de Mourinho que faltou alguém na nossa Estrutura Técnica que dissesse o óbvio ululante: o rei vai nu, vamos para cima deles que nem "tarzões". Bom, para cima deles até fomos. Durou foi pouco, mais exactamente 20 minutos, sensivelmente o tempo que demoraram os sedativos a fazer efeito. Sim, porque este derby entre o Sport Lexotan e Benfica e o Sporting Xanax de Portugal, a contar para a Primeira Liga Vallium, foi um óptimo combate... contra as insónias. Senão vejamos: tecnicamente, o jogo foi de uma pobreza franciscana, envolvendo um número apocalíptico de recepções péssimas sem pressão e de passes constantemente mal calibrados. Fisicamente, o ritmo de jogo foi digno de uma peladinha entre prisioneiros famintos de um campo de concentração nazi na II Guerra Mundial. Finalmente, do ponto de vista mental, viram-se duas equipas cheias de medo de perder. Apesar de tudo isto, o Sporting teve tudo a seu favor para ganhar o jogo: marcou cedo e o Benfica tardou a conseguir trocar dois passes sem perder a bola, tal a ansiedade revelada. Mas depois, inexplicavelmente, o Sporting começou a baixar no terreno, a não fechar as linhas de passe na saída de bola dos encarnados e sofreu um golo patético, de carambola. Tal como uma máquina de lavar roupa quando se interrompe a secagem, o Sporting, depois de deixar esfriar, não conseguiu reiniciar o programa que tinha(?) para o jogo em tempo útil, limitando-se a controlar, aquela ilusão que faz parte do jargão de futebolês de todo o treinador até levar um golo. Por acaso não aconteceu, que o remate de Rios saiu ligeiramente ao lado, mas se tivesse ocorrido castigaria o respeito em demasia que Rui Borges ontem demonstrou por Mourinho, em tempos o melhor treinador que Portugal alguma vez produziu, mas hoje um homem cansado de tantas exigentes batalhas travadas pela Europa fora e por isso um treinador (como um boxeur) conformado em ir perdendo aos pontos em vez de correr o risco de enfrentar um KO prematuro. Enfim, haveria mais a dizer, mas a sonolência como sabem é contagiosa e os bocejos no relvado tornaram-se também meus, pelo que está na hora de fechar esta crónnnniiiiccccaaaa. Zzzzzzzzzzzzzzzz...

 

"Não há dor que o sono não consiga vencer" - Honoré de Balzac

 

Tenor "Tudo ao molho...": Maxi

25
Jul25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Onze Rabecas (ou talvez não)


Pedro Azevedo

O William Blake dizia que há o conhecido, o desconhecido e no meio estão as portas da percepção. Mas a percepção é só isso: uma percepção. Pode não ser real, aliás no mundo em que vivemos é cada vez menos real, tal o nível de intoxicação a que somos todos sujeitos por políticos, media e spin-doctors de comunicação. Olhando as parangonas dos jornais, Porto e Benfica discutirão o título e o Sporting terá de lutar com o Braga para atingir o terceiro lugar no campeonato, o pináculo do para nós tangível esta época. Nesse transe, o Troféu 5 Violinos dever-se-ia talvez denominar de "11 Rabecas", o que ratifica a escolha do "Submarino Amarelo" (Villareal) como companhia mais do que adequada para condizer com as previsões de que só esporadicamente andaremos à tona de água. Na verdade, há aqui uma reincidência: as pré-épocas vêm sempre acompanhadas do anúncio da boa-nova do Benfica campeão, com os Três Reis Magos da imprensa escrita (Bola, Record e Jogo) dando-nos a entender que o que virá depois será somente um pró-forma escarlate (o Estádio da Luz já era uma casa de Red-Pass, agora o Benfica almeja que seja o Red Light District por inteiro) . Mas o ano passado foi necessário animar as hostes portistas, agora com um novo presidente e processos mais "católicos" (ainda que já sem a bula ou gula papal), pelo que o andor foi partilhado entre Benfica e Porto. Nesse sentido, as contratações no Dragão motivaram muitas loas. Por exemplo, quem tivesse aterrado em Portugal nessa altura ficaria convencido de que o Otávio Ataíde era a reencarnação do Franz Beckenbauer ocorrida por milagre num bairro de São Paulo. E o Nehuen Perez tinha uma qualidade de saída de bola que nem o Franco Baresi. O Samu também ia arrasar e logo houve quem se atrevesse a considerá-lo mais completo do que o Gyokeres. Parece mentira, mas não é. E torna-se talvez importante recuperar isto para contextualizar o momento em que vivemos, até porque as cassandras desse endeusamento desapareceram para parte incerta ou comeram o queijo suficiente para garantirem que se esqueceriam de tão infelizes profecias, voltando agora à carga sem memória ou vergonha e com renovada imprudência. 

Foi assim, com expectativas baixas, que o Sporting se apresentou hoje à noite no Estádio Nacional, que o José Alvalade está em obras de fecho do fosso porque leão que se preze ruge livremente e sem agrilhões mais próprios de um zoo. Cedo marcou, por Hjulmand, de penalty, e no primeiro tempo até se desenharam bonitas jogadas no terreno. Com um 3-4-3 ofensivo, com os alas bem projectados, Fresneda como central pela direita (recuperando uma ideia de Amorim), Diomande de regresso no centro e Inácio a central pela esquerda, o Sporting superiorizou-se aos espanhóis durante a maior parte do tempo, com Geny em especial evidência na criação de desequilíbrios. 

O reatamento trouxe de volta o 4-2-3-1 que Rui Borges parece querer implementar. Fresneda derivou para a lateral, Debast entrou para fazer parelha com Inácio, Matheus manteve-se à esquerda. Mas a alteração do sistema táctico não surtiu efeito e o Sporting perdeu o controlo do jogo. O espaço outrora encontrado com facilidade na direita desapareceu, o nosso jogo tornou-se lento e previsível, com uma única solução: mandar a bola para a frente a ver se Harder lhe dava continuidade. Não deu. Com alguma sorte à mistura, o jogo arrastou-se sem que o Villareal conseguisse o empate. O Troféu ficou em casa. 

A pré-época é isto mesmo, um período de experiências. Campeão de pré-época em Portugal só o Benfica (e o Porto, na época passada e nesta), um "título" que ainda (para já) não garante a presença na Champions. Somos o campeão, aliás bicampeão, mas entramos na nova época como o "underdog". É um sentimento estranho. Ninguém acredita em nós, nem mesmo muitos Sportinguistas. "Ah! Perdemos o Gyokeres" - dizem muitos, esquecendo-se que já fomos campeões nesta década sem ele. Eu olho para isto tudo e noto o seguinte: mantivemos a estrutura base da equipa enquanto os outros não deixaram pedra sobre pedra. E temos uma equipa madura, enquanto o Porto, por exemplo, investiu em três ou quatro jovens sub-21, bons jogadores mas que não é certo que não abanem quando a coisa se complicar, até por ausência de pilares de balneário, com experiência e autoridade, que outrora passavam o testemunho entre si no Dragão. Por isso acredito que a nossa luta será com o Benfica, que tem em Rios um excelente jogador e talvez aquele médio que nos faz falta para quebrarmos linhas e aproximarmos o meio campo dos avançados. Um Matheus Nunes vestido de vermelho, mais Lobo Mau do que Capuchinho. Mas nada está perdido. Como poderia algo estar perdido antes de começar? Então, que role a bola. Quem sabe se no fim o presente não será mais o que o passado reclamava para o futuro (como cantava o Oswaldo Montenegro), antes será muito melhor? 

Tenor "Tudo ao molho...": Geny

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22
Jul25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Ser diferente ou fazer a diferença?


Pedro Azevedo

Coco Chanel um dia afirmou que para se ser insubstituível é imperativo ser-se diferente. Mas ser diferente não é necessariamente igual a fazer a diferença, e Rui Borges percebeu isso muito bem quando meteu para já o 4-3-3 no congelador, ressuscitando o 3-4-3 no jogo de ontem à noite, contra o Sunderland, com Quaresma, Debast e Gonçalo Inácio como centrais e Quenda e Matheus Reis investidos de alas. [Chamo a atenção do Leitor que na TVI(nácio) disseram que jogámos em 4-2-3-1, mas é sabido que o (ontem comentador) Augusto Inácio tem a fama de ver jogos pirateados.]

 

Se não inovou em termos de sistema ofensivo, Rui Borges criou algo de novo em termos defensivos, alternando o 3-5-2 com o 4-4-2, o primeiro ainda pouco trabalhado e razão que justificou os espaços nas franjas dos nossos centrais de lado que o Sunderland tanto procurou durante o primeiro tempo, valendo então a serena excelência de Rui Silva para que o resultado não descambasse a nosso desfavor. Até que Debast lançou Harder nas costas dos ingleses e este assistiu Trincão para o único golo da noite. 

Com os jogadores ainda muito presos de movimentos dada a elevada carga de trabalho de pré-época, o jogo valeu essencialmente pelos aspectos tácticos. O resto foi desolador: Pote passou o jogo quase todo com um piano amarrado às costas, trocando-o no fim por uma tábua de engomar, não resistindo assim à tentação de passar um inglês a ferro; Quaresma deixou o cérebro no hotel e decerto só o recuperará depois de fazer um ó-ó retemperador. Tudo produto do cansaço extremo que nos traz à evidência que Rui Borges e a sua equipa técnica não brincam em serviço e a carga física neste estágio em Lagos tem sido intensa. Seguir-se-á o jogo dos Cinco Violinos, contra os espanhóis do Villareal, e depois o desejável desanuviar da extrema intensidade de treinos que nos permitirá chegar ao jogo da Supertaça com o corpo a obedecer à cabeça e esta a pensar melhor. 

Tenor "Tudo ao molho...": Zeno Debast

 

PS: Para esta equipa do Sporting, o 4-3-3 (em vez do 3-4-3) é como uma sopinha de gaspacho: sabe bem e é refrescante em tempos de Verão, mas o futebol é um desporto de Inverno e nesse período é aconselhável algo mais quente e aconchegante para o corpo. 

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12
Fev25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

UPs!…


Pedro Azevedo

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O jogo com o Borussia Dortmund acentuou os méritos do Centro de Medicina de Recuperação, vulgo Unidade de Performance, sito em Alcoitão, perdão, Alcochete (juro solenemente a partir de hoje exortar a nossa UP tantas vezes quantas o Rui Borges usa a muleta "nesse sentido"). Nesse sentido, o que pode por vezes não fazer sentido nenhum, o plano correu na perfeição: o Gyokeres e o Morita conseguiram jogar sem canadianas (um tipo diferente de muleta) e não cair para o lado, e o Trincão ainda respirava no fim do jogo segundo informações não-oficiais. Miúdos novos, como o Quenda a o Simões abandonaram o terreno de jogo com débeis, porém encorajadores, sinais vitais, o mesmo ocorrendo com o Bragança. O Pote, qual antigo presidente soviético, voltou a ser avistado na Tribuna para desmentir rumores e assegurar a todos que ainda se encontra entre nós. Pelo que ninguém se aleijou ou faleceu, logo, prova superada.

Desconfio, porém, que a famosa UP não seria tão realçada se um dia o nosso presidente não tivesse descoberto em João Pereira um treinador que em 4 anos estaria num colosso europeu. É que à hecatombe de resultados seguiu-se o massacre das lesões, e esse é um aspecto que vejo menorizado na análise a esse período singular na nossa história recente. Terá havida uma evolução colossal nos métodos de trabalho e agora estaremos a pagar as favas? Ou será que, pelo contrário, estarei a ser injusto porque o planeamento de início da época não contemplou o excesso de jogos para a Champions nesta fase e consequente erosão física dos nossos jogadores mais utilizados? Seja como for, em consequência, sem mãos a medir, logo a UP montou um colossal hospital de campanha, prática habitual em bombardeamentos em tempos de guerra (experiência afegã) ou ataques terroristas em larga escala como o que o Manchester United operou em Alvalade. Desengane-se o Leitor que pensar que um hospital de campanha é uma coisa má. Nada disso, no nosso caso deve ser encarado como um reforço da Estrutura (muito abalada após a saída de quem um dia fez entrar Bolasie, Jesé e Fernando em Alvalade),, termo tantas vezes usado pelo nosso presidente quanto o "nesse sentido" do nosso treinador ou, simplesmente, "nesse sentido" usado pelo nosso presidente, se é que isso para Vós faz algum sentido. Eu, cá, sinto muito. 

Enquanto a bola de cristal da Alcina Lameiras, a dedução do Detective Correia, a boia de salvação do Instituto de Socorros a Náufragos e a sabedoria milenar do almanaque Borda d'Água combinam esforços para debelar a lesão muscular de Pote em 4 meses e reaver os ligamentos de Nuno Santos em.quem sabe, 4 anos, o pobre do adepto chora a inação no mercado de inverno. Dizem-me que a versão oficial é a de que não precisamos de reforços porque os reforços estão cá dentro, a recuperar..A ideia, não sendo original, tem os seus méritos. O problema é o tempo de recuperação. Por exemplo, se esses reforços estiverem recuperados aquando do início do campeonato do mundo de clubes, competição da qual o Sporting se auto-excluiu e continuará no futuro a excluir-se por má interpretação do lema do seu fundador, então esses reforços não nos serão úteis para a época ainda em vigor, o que poderá pôr em causa o campeonato nacional. Mais preocupantemente, enquanto os jogadores, um a um, vão caindo que nem tordos, o que é uma coisa que nunca se espera de um leão (nós sabemos que "por cada leão que cair, outro se levantará", mas nada nos disseram sobre como isso se processa com os tordos), ninguém sabe ao certo de que maleitas padecem. Todavia, como das ameaças podemos fazer oportunidades, quem sabe se não estará aqui uma fonte futura de receitas. Eu explico: emitiam-se umas rifas entre todos os Sportinguistas, convidava-se a participar o sindicato dessa classe ávida por saber novidades como é a dos jornalistas e por um valor X todos podiam tentar acertar na lesão dos jogadores Y, Z e por aí adiante. Essa espécie de loto poderia depois ser incrementada com um quiz semanal em que os apostadores identificariam quem seria o próximo jogador a tombar, a ir para o estaleiro. O prémio para o melhor palpite, a atribuir no final da época, seria uma semana de férias na famosa Unidade de Performance, departamento certificado pelo Instituto de Medicina Legal. Estou certo de que arrecadaríamos uma maquia que dispensaria a venda futura dos nossos melhores jogadores, no caso de eles conseguirem chegar a esse futuro que agora parece tão longínquo (aviso ao vencedor: neste verão, durante as tais férias, se passar pelo Auditório Artur Agostinho e aí encontrar o nosso Rui Borges ainda a perorar sobre "O Viktor..." não fique incomodado, lembre-se de que é sinal de que o caro vencedor sobreviveu aos tratamentos da nossa UP). 

Ah, já quase me esquecia que houve um jogo. Ou um mini-jogo, na medida em que teve a duração de 45 minutos...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Maxi Araújo 

22
Jan25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

A Leste nada de novo


Pedro Azevedo

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Ainda sou do tempo em que em Leipzig havia um clube com o nome de Lokomotiv. Mas depois o Muro caiu, os grandes clubes da RDA (Lokomotiv, Carl Zeiss Jena e o Magdeburgo do nosso descontentamento, que nos eliminou com muita sorte à mistura naquela meia final da Taça das Taças que terminou na véspera da Revolução de Abril) empalideceram com a migração de jogadores para o "el-dorado" Oeste (também há quem diga que o laboratório da Alemanha de Leste que fabricou atletas fabulosos como a Marita Koch abusava de aditivos hormonais, que o importante era promover a qualquer preço um regime que ia já remendado ou mesmo nu) e mais tarde apareceu o Red Bull, que como se sabe "dá-te asas" e portanto não é compatível com locomotivas que não voam, ou só voam se o observador estiver sob influência daqueles cogumelos que não são venenosos mas alucinam um bocadinho. Red Bull que logo estabeleceu uma linha de produção em Salzburgo para depois montar o produto final em Leipzig, produto esse que agora exporta na Europa. Foi nesse contexto que o Sporting visitou hoje a Alemanha. 

O Sporting entrou assim-assim, embora o Harder cedo tenha demonstrado estar com raivinha nos dentes. Só que, após uma bola perdida a meio campo, os centrais recuaram porque a bola estava descoberta mas o Fresneda foi de arranca-e-pára até ao estampanço final: 1-0 para o Red Bull. (Os Monty Python diziam que ninguém pára a Inquisição Esoanhola, mas o Leitor aguarde que pior ainda viria a ser o Canhão da Nazaré.)


O Fresneda voltou a falhar, mas desta vez o Sporting foi salvo pelo VAR que detectou um fora de jogo posicional de um jogador que depois acabou por ter interferência no lance. O Sporting começou a atacar mais e Harder, Fresneda e Debast viram bolas que iam a caminho da baliza dos alemães serem deflectidas. O intervalo chegou. 

O início do segundo tempo foi de pesadelo. Mas era preciso resistir o suficiente até que o Gyokeres pudesse entrar. A hora a que o Gyokeres pode entrar é uma coisa que tem a ver com a Unidade de Performance, uma entente criada do cruzamento feliz entre a Alcina Lameiras, o Detective Correia, o Instituto de Socorro a Náufragos e o Borda d'Água, também capaz de planear a sementeira para Janeiro e de prever as colheitas de Maio, prognosticar ventos e marés e resgatar moribundos. além de realizar investigações ao domicílio (Alcochete). O certo é que o Gyokeres lá entrou e cedo marcou, como seria de esperar de um jogador que, se faz a diferença para os adversários, está uma milha à frente de qualquer outro jogador do Sporting (exceptuando talvez o Pote). Com o golo, a qualificação estava encaminhada. Mas havia ainda a possibilidade de ficarmos nos 8 primeiros da Liga dos Campeões, desiderato para o qual seria imperioso vencer já hoje e posteriormente contra o Bolonha. Só que o Inácio encheu-se de salamaleques e não despachou uma bola que andou a ressaltar de cabeça em cabeça, de pé em pé, até que encontrou a canela do Esgaio, que é da Nazaré mas não é de todo O Nazareno, nosso salvador. Se bem que com ele o nosso caminho se tenha tornado uma Via Crúcis. Nada porém que desencoraje um Sportinguista, habituados que estamos a resistir a cataclismos que não estão descritos na Bíblia. 


A Leste nada de novo: o Gyokeres é o Gyokeres, assim como o Fresneda é o Fresneda e o Esgaio é o Esgaio, embora à laia de Prozac gostemos de pensar que os últimos 2 são o Cafu. 

Tenor "Tudo ao molho...": Vik Thor Gyokeres (Who else?) 

05
Dez24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O passado, o presente e o futuro


Pedro Azevedo

Em "O Leopardo" (Il Gattopardo"), Don Fabrizio, príncipe de Salina, afirma que é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique exactamente igual. Em jogo estava a sobrevivência, algo que para um felino (literal e metaforicamente) desperta sempre o instinto de preservação. Sendo certo que o Leão partilha com o Leopardo o mesmo étimo comum, ambos pertencendo ao género Panthera, no actual reino do Leão as circunstâncias são diferentes, isto é, não se quis mudar, as circunstâncias é que assim o obrigaram. No entanto, o pretendido é o mesmo: que tudo fique igual. Para que tudo ficasse na mesma, Frederico Varandas escolheu um treinador da Academia com predileção pelo sistema 3-4-3. Como Amorim havia adoptado esse sistema desde a sua chegada a Alvalade, Frederico quis acreditar que tudo ficaria igual. Logo o comunicou à massa associativa e adeptos, valendo-se do tirocínio de 3 anos que João Pereira já tinha de Alcochete para dar credibilidade à sua mensagem dirigida aos Sportinguistas. Esqueceu-se porém de um pormenor: a ideia da continuidade iria confrontar mais o presente com o passado, com os resultados como fiel da balança do tribunal do povo Sportinguista. Outras soluções exigiriam tempo, e tempo é algo que os Sportinguistas estão habituados a ter de dar, ou não tivessem tido de esperar por vitórias em 2 longos períodos de 18 e 19 anos, respectivamente, mas a ideia da continuidade criou a ilusão de que não haveria que esperar. Seria pois tudo igual, que o futebol é fácil, fácil, e normal é ganhar o Euromilhões duas vezes seguidas. Só que os resultados iniciais não foram animadores e logo houve quem pegasse no Orwell e se lembrasse de que os animais (e, por conseguinte, os homens) são todos iguais, mas há uns mais iguais do que os outros (e, logicamente, outros menos iguais, como adiante se verá). Inevitavelmente, ou não, tendo o nosso povo essa tradição, com as dúvidas apareceu o sebastianismo, mostrando-se os Sportinguistas órfãos de Amorim, o que é mais legítimo, maduro e fácil de entender do que sentir a falta de quem por uma bravata perdeu simultaneamente a vida e a soberania do reino português. Porém, esse sentimento de orfandade quando se pretende andar para a frente é semelhante àquele automobilista que conduz a sua viatura só a olhar para o espelho retrovisor. Resultado: estampa-se ao primeiro obstáculo que apanha pela frente. Haveria por isso que erradicar esse sentimento e agarrarmo-nos ao que temos e João Pereira percebeu isso muito bem. Como tal, em conferência de imprensa, alertou que o treinador antigo não voltará, assim como quem diz: foquem-se no presente que o passado já lá vai, ultrapassou-nos pela direita com um terço da estrada percorrida e foi por um atalho tratar do seu futuro para Manchester. Tudo estaria bem se os Sportinguistas não desconfiassem de que o futuro não será igual ao passado recente, tomando como referência o presente. E o que é o presente? Por um lado temos um presidente que nos diz que o novo treinador está a ser preparado há 3 anos, por outro há um treinador que nos transmite que não pode replicar o que não sabe, que há comportamentos e nuances introduzidas por Amorim que desconhece, o que cria a dúvida sobre que preparação específica foi feita e obriga a mudar a fórmula de sucesso que nos foi dita que permaneceria igual. Afinal, tal como em "O Leopardo", seria preciso mudar para tudo ficar igual (os resultados), com o Sporting na liderança. Ora, mudar o que deu certo e com um protagonista ao leme diferente daquele que já tinha provas dadas é coisa para a qual os Sportinguistas não estavam preparados, daí a perplexidade e imediata insegurança que se apoderou de nós, potenciadas pela derrota de goleada com o Arsenal e o inédito desaire caseiro com o Santa Clara. Foi com estes sentimentos no subconsciente dos Sportinguistas que chegou o jogo de Moreira de Cónegos: lançaria ele água na fervura ou mais achas para a fogueira? (Para achas na fogueira já nos chegava mais uma das nossas idiossincrasias, a insólita existência de um bombeiro "incendiário", um oxímoro leonino.)

 

Não se sabe o que João Pereira vale, mas é sabido que não bale (como a Dolly), que clonagem por enquanto ainda é coisa para ovelhas. Ainda assim, hoje João Pereira quis aproximar-se dos princípios de jogo de Ruben Amorim, pelo menos no que respeita ao ponto de partida dos interiores, lançados de fora para dentro e facilitando o "overlap" dos alas. Só que a equipa revelou falta de paciência, abandonando precocemente o tricô no centro e não resistindo ao "cruzabol" a partir dos flancos. Além de que, no primeiro tempo, o jogo esteve de novo sub-virado à esquerda, um tipo de "marxismo-leoninismo" já observado em igual período com o Santa Clara. Todavia, Gyokeres conseguiu ganhar um penalty na área e o Sporting adiantou-se no marcador. Parecia que o mais difícil estava feito, mas se a organização ofensiva requer afinação, a organização e transição defensivas entregaram o jogo. Tudo começou numa bola parada em que a zona não funcionou. Porém, o cabeceamento foi executado ainda longe da baliza, o que oferecia boas possibilidades de defesa ao nosso guarda-redes. Mas este denota falta de escola, não corre debaixo dos postes, atira-se de onde está como se fosse um nadador a esperar pelo tiro de partida para mergulhar dos blocos. Resultado: faltou-lhe largura e altura na estirada, mostrando uma flagrante falta de elasticidade para um guardião com quase 2m de altura. Se as coisas já estavam menos bem, pior ficaram quando Geny cometeu um erro de principiante e enviou a bola num arremesso para o centro do terreno. Na sequência, Schettine chutou à baliza. O remate foi efectuado de fora de área, mas Kovacevic voltou a não chegar a tempo. Sem muito fazer por isso, o Moreirense ia para o descanso em vantagem. 

Muito se fala de nuances tácticas quando não se resiste a comparar o Ruben com o João. Essa análise porém é redutora porque nos esquecemos da estrelinha. O Ruben tinha avisado para isso e o segundo tempo confirmou que a João Pereira tem também faltado sorte: 2 remates à barra. A equipa reentrou bem e fez uns bons 15 minutos. Mas depois cedeu ao nervosismo, começou a lançar a bola na frente à toa em vez de jogar de ouvido como antigamente. Faltou um grito para dentro do campo e as coisas complicaram-se ainda mais. Nesse particular, Trincão teve uma noite desinspirada e estragou quase todos os lances em que entrou. Nesse transe, ele e Bragança ignoraram, em duas ocasiões distintas, Matheus Reis isolado pela esquerda. E quando Braganca saiu, a equipa deixou de ter cérebro e passou só a viver da emoção. Bem lutou Gyokeres para evitar o nosso fado, mas a equipa não o ajudou rigorosamente nada. Pelo que nem mesmo as substituições que desta vez João Pereira não adiou, mudaram fosse o que fosse para melhor. Não, a equipa perdeu-se emocionalmente no relvado. 

Em 2 semanas o Sporting vê-se na iminência de ser apanhado na liderança pelo Porto (e potencialmente ultrapassado pelo Benfica). Acabou-se assim a almofada confortável que amortecia a chegada de um novo treinador. Frederico Varandas bem que pode ser um vidente e ter visto na bola de cristal da Alcina Lameiras em João Pereira o futuro do Sporting com 4 anos de antecedência, mas bastaram 9 dias para que o Sporting perdesse por 3 vezes e 1 dia para que perdesse 6 elementos da equipa técnica. As coisas no futebol mudam muito depressa, dizia Amorim, que foi conseguindo adiar essa mudança antes de ele próprio mudar para Manchester e deixar os jogadores que em si acreditaram órfãos com dois terços da época por completar. Nessa recriação de Amorim do célebre ditame de Pimenta Machado de que no futebol o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira, Varandas até pode estar certo e o amanhã provar que a presente desconfiança de sócios e adeptos é mentira. Mas é preciso cuidar de que haja amanhã, e isso trata-se no presente, que a natureza tem horror ao vazio e logo surgem ervas daninhas. Ou então, o presente trata de nós, um presente que certamente nenhum Sportinguista desejará em época natalícia.  

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

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26
Out24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

La vie en rose


Pedro Azevedo

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De um Evangelista espera-se que proclame a boa nova. Assim foi com Mateus, João, Lucas ou Marcos. O Armando quis seguir-lhes os passos, mas o Gyokeres ditou-lhe um novo testamento.

 

Em Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein descreve que uma proposição é tão figurativa da realidade quanto uma maquete o é de um edifício. Ora, se o Leitor se recorda, na minha última crónica eu já havia anunciado ser impossível parar Gyokeres dentro da legalidade. Ontem voltou a provar-se que tal proposição é representativa da realidade: assim como um pai que faz girar o filho numa roda de um parque infantil, empurrando ora num sentido, ora noutro, o Gyokeres deixou um defesa fanalicense almariado. De seguida, não deu hipótese ao guarda-redes. Para o Gyokeres, é tão fácil como brincar com meninos. Estava aberto o marcador em Famalicão. Depois, o miúdo Quenda fez-se grande e tornou-se o mais jovem jogador da história do Sporting a marcar na Primeira Liga. Não querendo ficar atrás, outro produto da nossa Formação (Inácio) fechou a conta.  

Se o verde original do nosso equipamento representa a esperança, ontem em Famalicão vimos "La vie en rose": 9 jogos, 9 vitórias, primeiro lugar isolados no campeonato. E a águia nem pia(f)...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

14
Mar24

Tudo ao molho e fé em Deus

Extraído o apêndice


Pedro Azevedo

Caro Leitor, a boa notícia que emerge da noite é que estamos quase-quase a concentrar-nos exclusivamente no campeonato nacional. Assim, o apêndice da Liga Europa já foi cortado ontem a fim de evitar uma peritriunfite (inflamação generalizada de vitorias) e as amígdalas da Taça não deverão resistir ao bisturi da Luz, pelo que Ruben Amorim poderá por fim cumprir o seu sonho de só ter de pensar na bicha solitária da Liga. É isso(!), se com o Mourinho aprendemos o que é a periodização táctica, agora com o Amorim percebemos o conceito de priorização tácita. Graças a este brilhante pensamento, o Sporting continuará a posicionar-se num bloco médio baixo no que à tabela periódica (para nós, uma constante) dos clubes europeus mais significativos diz respeito, vendo-se assim obrigado todos os anos a vender os seus melhores jogadores, enquanto os seus rivais com melhor ranking continuarão a ganhar valores milionários pela simples presença no Mundial de clubes. Não se preocupe porém o Leitor, porque para o ano há mais. Isto é, para a época que vem podemos continuar a fingir que ligamos à Europa. Sugiro até que antes dos jogos europeus se troque "O Mundo sabe que..." pelo irónico "Portugal na CEE", dos GNR, e o símbolo do leão por um pedregulho (de Sísifo), só para que não nos esqueçamos que lidamos com a Europa com o mesmo empenho que os nossos governantes tiveram o trabalho de lidar com as nossas agricultura e pescas no passado. 

 

Geralmente, depois de um jogo perdido, quem treine o Sporting vê-se na necessidade de conceder a derrota. Mas ontem não, foi a vitória de Ruben Amorim e da priorização tácita. E dos adeptos que ficam em êxtase quando veem o Sporting libertar-se de competições, o que leva à interrogação se nos querem sequer ver nesses certames. Será que podemos não nos inscrever? É proibido desistir a meio, se a coisa estiver a dar muito trabalho? A quem nos podemos queixar em caso de bullying? A ideia de fundo que estes entusiastas da derrota passam é que o plantel é curto para tanta competição. Nesse caso, um burro pensaria que a solução seria aumentar o plantel. Felizmente, temos inteligências raras em Alvalade que privilegiam planteis curtos para ser mais fácil gerir o balneário. Assim, ficamos com um balneário são... e zero títulos, Como na época passada, o que cumpre mais ou menos com o último lema conhecido do fundador, encontrado aqui há dias na etiqueta de um velho frasco de lixívia numa escavação ali ao pé do Lumiar: "Tão bons como os melhores balneários da Europa". Parabéns então ao Amorim por esta retumbante vitória. Com uma especial dedicatória ao Edwards e ao Paulinho, que tudo fizeram para  que este... êxito se confirmasse. (O St Juste ficou ligado aos 2 golos do adversário.)


É tal o desprezo que damos à Europa que nem se percebe o ênfase em sermos conhecidos internacionalmente como Sporting Clube de Portugal. Eu acho que até disfarçava se nos chamassem Sporting de Lisboa. Ou só Sporting, que podia ser confundido com o de Gijón (Astúrias) ou de Charleroi (Bélgica). Assim, como está, é que não, é impossível escondermo-nos. Sessenta anos após Alexandre Baptista (que recentemente nos deixou) e outros briosos leões terem trazido para Portugal a Taça dos Vencedores das Taças. Ultrapassando a Atalanta pelo meio (desta vez. quatro tentativas não foram suficientes para conseguirmos uma vitória). 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres. Ele e Hjulmand estão a anos-luz de todos os outros no poder físico e qualidade e constância da decisão. Menção honrosa para Franco Israel. Os restantes largaram a letargia a partir dos 10 minutos finais, o que significa que perderam 80 minutos num ritmo muito baixo para o padrão europeu. 

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11
Mar24

Tudo ao molho e fé em Deus

Agricultura desportiva


Pedro Azevedo

Tenho-me batido neste blogue por uma sã cultura desportiva e como a sua existência em Portugal poderia catapultar o nosso futebol para outro patamar, o que nada nem ninguém me preparou foi para o tema da agricultura desportiva. Ainda assim, procurarei em diante estar em conformidade com o que ocorreu ontem no campo das cebolas de Arouca, cidade onde o Sporting plantou as sementes do que se espera ser o título de campeão nacional. Tratando-se de um campo de cebolas, a colheita será lá para Maio, restando perceber se ao descascá-las vamos chorar de tristeza ou de alegria. Eu acredito na aleg(o)ria. E em comê-los (aos rivais) de cebolada. 

Na antecâmara do jogo só dava Arouca. Nas televisões falava-se de um trio, de ataque ou de cozinha (descasca da cebola), temível. De Jason, Mugica e até de Cristo, o que sem dúvida era coisa para meter muito respeito. Ademais, ter Cristo do lado de lá, sem já haver Jesus deste lado para empatar, deixava em aberto a possibilidade de um milagre arouquense de multiplicação dos golos. Enfim, segundo os sábios, a perspectiva para o Sporting não se afigurava nada católica. 


Consultado o Borda d'Agua, constatei ser Março o mês ideal para semear cebolas, o que contrariava a ideia original de que seria mau deslocar-nos agora a Arouca. O Amorim também olhou para o famoso almanaque e forneceu logo as sementes. Ora, se o objectivo com as cebolas é sacar-lhes o bolbo, no futebol a nossa meta é libertar a potência do nosso Volvo. A cavalo da tecnologia sueca, pois claro, ou não tivesse o Gyokeres nascido na pátria dos ABBA. Como o Gyokeres é o sol, com ele as culturas desenvolvem-se viçosas. Vai daí, começámos logo a facturar. 


Com o campo muito pesado, o Quaresma não podia usar a sua óptima progressão com bola e arriscava-se a perdê-la algumas vezes. Inteligente, o Amorim substituiu-o pelo Inácio. Assim começou o segundo tempo, período em que tivemos melhor controlo do jogo. Mas como o controlo é ilusório e o tempo caminhava para o fim, o receio de levarmos com uma batata, plantada ao acaso num campo de cebolas, avolumou-se. Eis então senão quando o Catamo esfregou a lâmpada e soltou o Geny(o). Com o 2-0, pudemos por fim respirar de alívio. Quer dizer, pudemos todos menos os nossos Vikings, que ainda agora estariam a semear se não os tivessem tirado do campo a tempo. Em consequência, o Hjulmand roubou uma bola, o Gyokeres a dividida e o esférico voltou ao dinamarquês para acabar dentro da baliza do Arouca. Mesmo a tempo do anúncio do furacão Chega, que virou tudo à direita (espero que a "desVentura" não prejudique as colheitas). Cá por mim, pedia já um subsídio (afinal, é de agricultura que falamos, não é verdade?). 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

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06
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Gyokeres oxidou o Limão Mecânico


Pedro Azevedo

Se no cinema estamos habituados ao conceito de filmes de autor, realizados por visionários como Hitchcock, Tarantino, Scorsese, Almodóvar, Kurosawa, Godard ou Fellini que se destacam pela sua singularidade e inovação, no jogo da bola também existe o chamado futebol de autor, desenvolvido ao longo dos anos por revolucionários do jogo como Herbert Chapman, Helenio Herrera, Gusztáv Szebes, Rinus Michels, Johann Cruijff, Arrigo Sacchi ou Josep Guardiola. No futebol, o rótulo é atribuído a partir do momento em que se nota uma personalidade própria e muitas vezes disruptiva no trabalho do treinador. Porém, não só de equipas grandes se faz a história do futebol de autor, há também casos de sucesso que envolvem pequenos clubes que se tornam rapidamente de culto. Como a Atalanta, de Gasperini, ou o Brighton, de De Zerbi. Ou, em Portugal, o Estoril, de Vasco Seabra, com a conceptualização de um carrossel que se desenvolve a partir de um sistema base de 3-4-3. Dada a cor das camisolas, a escassez de recursos financeiros e a óbvia influência holandesa no seu jogo, para efeito desta crónica vou denominar o modelo canarinho como "O Limão Mecânico": Seabra baseou-se no princípio de que se a vida nos dá limões, então fazemos uma boa limonada. Assim, conseguiu reunir e potenciar um conjunto de muito razoáveis jogadores, adaptáveis ao seu sistema e modelo, que bem espremidos vêm batendo o pé aos Grandes, garantindo pontos e a admiração da comunidade futebolística em geral. O problema é que ontem o Estoril deparou-se com Gyokeres, o homem que veio do gelo. Com o contacto, o limão secou e a sua mecânica enferrujou, ou seja, Gyokeres oxidou o Limão Mecânico.  

 

Com o Belchior, o Baltasar e o Gaspar presos no trânsito caótico de uma sexta-feira ao fim da tarde na 2ª Circular, o Viktor desdobrou-se em vestir a pele de todos eles e de enfiada começou a distribuir presentes pela equipa, naquilo que foi o último ensaio geral para as festividades de um Dia de Reis comemorado à espanhola (ou não houvesse um dedo de Guardiola na forma como o Sporting joga e não deixa jogar o adversário). Como figurantes, os jogadores do Estoril, com defesas a atacar como avançados e avançados a organizar o jogo desde trás como se fossem defesas. Na antecâmara, a imprensa desportiva havia elogiado sobremaneira a melodia saída da imaginação do maestro e compositor Vasco Seabra, uma espécie de caixinha de música em forma de carrossel de Natal. Mais uma equipa de autor, mais um tremendo desafio para o Sporting de Ruben Amorim, dizia-se. No jogo, porém, a equipa da Linha não entoaria mais do que o som do silêncio ("Sound of Silence")... Para começar, o Gyokeres apareceu na esquerda, Pela frente, o Rodrigo Gomes, bom jogador e a última coqueluche do futebol nacional. Não demorou mais do que uns poucos segundos para que o Gyokeres desarticulasse o pobre do Rodrigo até entregar de presente ao Edwards. Não contente, o sueco passou para a direita. Recebe do Geny. Pela frente o Pedro Álvaro, já exaurido pelo sprint prévio. Faz que vai para dentro, mete por fora, o Pedro como se estivesse numa sauna, fora do caminho, e novo presente açucarado para o Edwards: 2-0 no marcador, os estorilistas foram apressadamente para o balneário à procura de um ortopedista que lhes voltasse a atarrachar as partes do corpo que se soltaram no relvado de Alvalade. Reinício do jogo e grande jogada de um apanha-bolas do Sporting: o miúdo repõe a bola rápida e sincronizadamente para o Gyokeres, que, acto contínuo, a lança à mão para o Nuno Santos. O remate ainda é deflectido, mas só para nas redes do Estoril. Mais um presente. De seguida, o Pote recupera a bola e avança. Tem dois adversários pela frente, mas o Gyokeres arrasta ambos numa diagonal e o Pote fica isolado e faz um daqueles célebres passes à baliza cujo resultado é o golo. Novo presente, ainda que indirecto. Depois, o sueco antecipa-se e serve Trincão. Novo golo, o suspeito do costume na assistência. Muita Parra e pouca uva depois, o pobre do Raul vê o Gyokeres passar como cão por vinha vindimada. O presente era, de novo, para o Edwards, mas um canarinho antecipa-se e o Geny na ressaca atira por cima. 

 

O resultado está mais ou menos feito. O Quaresma, grande exibição, salva o golo de honra do Estoril, substituindo-se ao Adán. Edwards e Geny isolam à vez o Gyokeres, mas o sueco está em noite de entregar presentes e não de desembrulhar os presentes dos outros como é seu timbre. Edwards ainda atira ao ferro, mais tarde Pote replicá-lo-á. Pelo meio, o Estoril marca: uma bola parada, que geralmente é defendida à zona. Mas o Sporting defende-a com zona, o que é uma outra coisa, infecção viral que afecta pele e corpo e contagia toda a equipa. Desta vez o portador é Paulinho, que assiste magistralmente um jogador do Estoril para golo - mais um triunfo do futebol associativo.

 

O jogo termina. Mais um teste vencido pelo Sporting de Ruben Amorim. Mais uma equipa com direitos de autor protegidos que não passou a sua musiquinha. Toda a gente conhece como o Sporting joga, poucos sabem como desmontar a forma como o Sporting joga. Da mesma forma que conhecimento é ter a noção de que o tomate é um fruto e  sabedoria é não misturá-lo numa salada de frutas. Compreender o Sporting é fácil. No papel tudo é lógico, tudo faz sentido: encaixam-se os nossos corredores num fecho-éclair, cava-se um dique para impedir a passagem da bola entre os centrais e os médios... Mas depois a bola entra directa no Gyokeres e este mostra ter a intuição que derruba qualquer lógica. Enquanto os outros pensam, ele acredita. E nós, também!!!

 

Feliz Dia de Reis!!!

 

P.S. Já toda a gente sabe que o Edwards é um bocadinho como o Sitting Bull: dentro do campo é um guerreiro a atacar, mas fora dele é sossegado, não fala, apenas murmura, pelo que é mais ou menos indiferente a língua em que lhe façam as perguntas. Sugestionado por isso, o jornalista da SportTV inventou um novo dialecto. Não havia necessidade, mas acabou por ser um momento televisivo "importanting"...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

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