Upgrade mental
Pedro Azevedo
A mais pura das verdades sobre o ocorrido na Luz é que a inibição pelos nossos jogadores demonstrada não se deveu a questões técnicas, tácticas ou físicas. Não, esse "inconseguimento" (obrigado, Assunção) teve tudo a ver com o plano mental: anos e anos de traumas conduziram-nos a um estado de alma em que não confiamos suficientemente nas nossas capacidades e sobrevalorizamos as do adversário, um sentimento de inferioridade que tem raiz profunda no insucesso verificado após as gloriosas décadas de 40 e 50 do século passado. Nesse sentido, sem dúvida que o Sporting é o clube mais português de Portugal. É assim curioso verificar que, mesmo posteriormente aos 3 títulos de campeão nacional obtidos nos últimos 5 anos, o jogador Sportinguista, e por extensão toda a Estrutura do futebol profissional, sócios, adeptos e simpatizantes, continua a não ter total confiança no seu potencial, a duvidar de si próprio nos momentos decisivos. É aquilo a que Nelson Rodrigues se referia, a propósito do Brasil de antes de 58 (consequência do "Maracanazo" de 50), como um "Complexo de Vira-lata", que na prática se reflecte num excesso de humildade (bem patente e muito corporizado no discurso do nosso treinador, que tacticamente vejo como muito bom) que não propicia a emergência do estado de graça da equipa e inibe a fantasia, inventividade e improvisação acima da média dos nossos jogadores. Digamos que os êxitos recentes serviram para nos retirar da cave (estatuto de "Underdog", abaixo de cão) e nos elevarem para o patamar do "Complexo de Vira-lata". Falta porém ainda dar o passo assertivo que nos catapulte para o topo da cadeia alimentar na selva do futebol português, de forma a termos um leão que permanentemente ruja e não um que por vezes entrecorte esses rugidos com a emissão de uns tímidos latidos. [A barreira mental é mais difícil de ultrapassar do que a do som, por exemplo. Nesse sentido, superar o mach-1 ou 2 será sempre menos complicado do que ver emergir o mach(o)-alfa Sportinguista, dominador e plenamente confiante das suas capacidades. Mas esse passo tem de ser dado.]
