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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

06
Out25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Um ocaso nada por acaso


Pedro Azevedo

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Um elemento essencial da cultura corporativa de qualquer empresa é a sua identidade, pelo que, quando os leões vão a campo disfarçados de panteras (cor de rosa), um dos seus símbolos identitários está a ser posto em causa, não havendo causa por mais nobre que seja (e a da prevenção do cancro de mama indiscutivelmente assim o é) que o justifique. Coincidência ou não, o Sporring foi sempre muito meiguinho, não explorou os 30-40 metros existentes nas costas da subida defesa bracarense, nem conseguiu trocar dois ou três passes seguidos sem perder a bola. Foi assim uma exibição arco-íris, paz e amor, "woke" até dizer chega (Chega?), sempre em defesa das minorias (Braga). Para tal também contribuiu a inexistência do nosso meio campo, com Simões a passar de titular a não-convocado sem razão conhecida (admito que o cor de rosa não lhe assente bem), Morita mais a pensar no hara-kiri do que disponível para a batalha no miolo e Hjulmand abaixo do melhor que já lhe vimos, sem ninguém capaz de transportar a bola em progressão e assim encontrar uma forma alternativa de contornar a zona de pressão do Braga. Com Inácio e Debast sempre à beira do abismo, a permanentemente oferecerem a bola ao adversário, o que deixa à beira de um ataque de nervos um ser fleumático. Ainda assim os deuses da fortuna estiveram connosco. É que já se sabe que no fim do arco-íris há um Pote, e Suarez por caminhos sinuosos encontrou o ouro. Antes do intervalo, Rui Silva evitou que o Braga arrombasse o cofre, após Lelo ter aplicado um pé de cabra (a bola elevou-se quase na perpendicular, como se tivesse levado uma marrada).

 

No segundo tempo, não se registaram melhorias significativas. Borges trocou Morita pelo "Ponytailshvili", mas o rabo de cavalo ("chonmage") não faz um samurai (dos bons tempos do japonês), a sua bravura sim. Já a entrada de Alisson (por Trincão, cujo holograma foi projectado no relvado durante 1 hora) deu mais velocidade e capacidade no 1x1 à equipa, mas Suarez, já muito cansado, disso não beneficiou. Entrou então Ioannidis, um jogador com maior potência e que se julgaria ideal para finalmente aproveitar o muito espaço existente nas costas dos bracarenses. Paradoxalmente, o Sporting nunca o solicitou dessa forma, antes pedindo-lhe um jogo associativo. Incapaz de exercer a mesma pressão sobre a saída de bola que é uma das grandes virtudes de Suarez, o não aproveitamento das melhores qualidades do grego acabou por ser um "loose-loose" para o Sporting. E assim o Braga foi continuando a acreditar, até que Hjulmand puxou a camisola de um adversário numa bola parada e o VAR assistiu o árbitro no sentido de este marcar o competente penalty. Zalazar não perdoou (o que é uma características dos Zalazares, seja em que país fôr) e assim voaram 2 pontos que nos teriam permitido simultaneamente aproximar do Porto e distanciar do Benfica. "É o que é",  dirá o Rui Borges naquele seu jeito sincero e conformista de quem não esconde a realidade mas também não a contraria, e "nesse sentido" talvez seja melhor pôr-se a pau, porque o treinador parece preso a estatutos, não está a aproveitar as melhores características dos seus jogadores, claramente menosprezou na antecâmara da época a importância da posição "8" e não está a conseguir suster a instabilidade exibicional que faz a equipa descer do 80 até ao 8 no espaço de duas semanas. Já não há Gyokeres, para esconder o que está menos bem, pelo que Borges hoje trabalha sem rede. E também não há St Juste, o que se calhar não é o melhor para o ambiente do balneário. Não há coincidências, nada acontece por acaso. E quem acredita no acaso, cedo ou tarde acaba por deparar-se com o ocaso. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Suarez 

08
Abr25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Três Górgonas


Pedro Azevedo

À entrada de Old Trafford avista-se uma estátua erigida em honra de Best, Charlton e Law, a United Trinity. No novo Sporting, de Rui Borges, a trindade é composta por Gyokeres, Gyokeres e ainda Gyokeres, pelo que uma escultura que a representasse seria algo assim a jeito de três cabeças de Górgonas num corpo de Medusa. Recorrendo à mitologia viking, nesse tudo ao molho e fé em Gyokeres, o nórdico personifica simultaneamente o deus Odin, o filho (Vik)Thor e o espírito de Valhalla (o equivalente ao Olimpo, apenas reservado aos guerreiros mais bravos): ele primeiro transporta a bola, depois assiste para si próprio e finalmente imortaliza-se pelo golo. De uma forma tão óbvia que só lhe falta mesmo marcar um canto e aparecer a finalizar ao primeiro poste. Isto é tudo muito bonito enquanto permite disfarçar as nossas insuficiências como equipa e a falta de ousadia do nosso treinador, mas na realidade nenhuma dependência é boa e a nossa Gyodependência não foge à regra. Como aliás se viu ontem: enquanto Gyokeres batalhava como um leão, Rui Borges fechava-se sobre si próprio como um ouriço-cacheiro, hibernando durante o jogo como em tantos outros (Dragão, Aves...), activando a(s) defesa(s) e daí partindo só para contra-ataques como aquele que se pôde observar em conferência de imprensa quando o tema foi Harder (momento francamente embaraçoso). 

 

Se a primeira parte foi essencialmente um duelo entre Gyokeres e Hornicek que o guarda-redes do Braga venceu por 3cm (dois golos encaixados, um deles anulado por fora de jogo, e duas excelentes defesas), na etapa complementar os minhotos foram tomando o controlo do jogo perante a inércia do banco dos leões, que mexeu tarde e já claramente em marcha-atrás com a entrada de Maxi para o lugar de Geny (e não de Matheus Reis). Curiosamente, com o Braga sempre a explorar a superioridade numérica sobre o nosso lado esquerdo - os seus avançados arrastavam Matheus para dentro e na ala surgiam prometedoras possibilidades de cruzamento - , seria de uma precipitação de Maxi (com muito menos rotinas de interior do que de ala, foi atraído à toa para o eixo em vez de manter a posição de meio-termo) que se abriria a auto-estrada por onde os braguistas lançariam o centro que lhes deu o golo do empate. Para certamente enfado de Varandas e contentamento do Yves Saint Laurent da Pedreira, que o ladeava. Antes, porém, em duas ocasiôes, o Gyokeres pensou que sozinho estaria melhor que mal-acompanhado e tudo perdeu, consequência inevitável da tal dependência exagerada que surge da ausência de trabalho específico de combinações e faz com que o ego apareça e o objectivo colectivo se perca em função do individual. O Trincão não lhe quis ficar atrás e embora com menos estatuto ou moral fez o mesmo, assim se perdendo outras óptimas oportunidades de matarmos o jogo, tudo perante a passividade de Rui Borges. Enfim, "é o que é". E, "nesse sentido" (descendente), passámos para segundo. Com o Braga, a vermos o campeonato por um canudo, o que na verdade é o mesmo que observarmos o Pote pelo telescópio Hubble (parece sempre que está muito mais perto do que a realidade nos diz). Sim, porque esperou-se por Pote como quem espera por Godot, e o Beckett nem mora aqui (embora a Unidade de Performance seja uma "bela peça").

 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

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11
Nov24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

A Última Ceia


Pedro Azevedo

Desde há duas semanas que sabíamos que o nosso futuro próximo não passaria por Rúben Amorim, mas de alguma maneira a administração do clube conseguiu estender o presente umas semanas, pelo que o Rúben continuou por aqui mais algum tempo e a sensação de orfandade ficou suspensa num tempo entretanto congelado para que o alimento de que todos os Sportinguistas precisam (as vitórias) não ficasse estragado e o novo treinador a anunciar não tivesse prematuramente de meter-se em refogados. Mas tudo tem o seu fim, embora esse fim só seja conhecido quando vem acompanhado de um prazo de validade pré-anunciado. A data escolhida para a cisão teve o seu quê de auto-explicativa, na medida em que foi coincidir com o dia de São Martinho, efeméride religiosa que celebra um soldado romano conhecido pela sua personalidade filantrópica: para nós, que sonhávamos com o título nacional há 19 anos, o Rúben será sempre o homem que nos veio matar a fome. E que, posteriormente, nos reparou o estatuto, nos ensinou a comer de novo e reiteradamente à mesa dos reis, que é algo assim a jeito de na sala do Gambrinus podermos degustar o empadão de perdiz com um bom vinho, enquanto arranjamos espaço para acamar um Crêpe Suzette ("pièce de la résistance"), em vez de nos quedarmos por uns croquetes e uma imperial na barra como um fidalgo falido. Como não há forma de indeterminadamente parar o tempo, ele teve de avançar. Inexoravelmente. De forma que Braga marcaria o fim de uma era. Os últimos dias haviam sido brilhantes, com vitórias sucessivas, a última face ao "mighty" Manchester City. Mas a cauda é sempre o pior de se esfolar, e havia um jogo final em Braga para ser disputado. Um jogo de emoções fortes para adeptos e jogadores, que uma coisa é saber-se que o treinador está de partida, outra é chegar a noite de véspera da data em que ele vai apanhar o avião (e nós bem traumatizados já estávamos com escapadas precárias de avião). Como iríamos todos nós lidar com a nostalgia do momento? 

O primeiro tempo ficou marcado pela saudade de alguém ainda presente, um sentimento de perda que causou angústia e nervosismo à equipa e gerou alguma atrapalhação na definição dos lances. Eficaz, o Braga defensivamente nada nos concedeu e ofensivamente tudo aproveitou: se, lá atrás, os minhotos montaram a barraquinha do tiro ao Gyokeres e foram-se revezando com notável solidariedade nessa especialidade simultaneamente tão promotora quão idiossincrática da cultura de futebol existente em Portugal, mais à frente, o Bruma combinou com o Horta, numa espécie de Horta do Bruma, para nos dar cabo do apetite vegetariano. Resultado: ao intervalo perdíamos por 2-0. 

Com o segundo tempo veio a revolta do pasodoble sobre o fado e "pegámos o touro pelos cornos": a nostalgia ficou no balneário e passámos a "dar ao pedal" em dobro. As substituições também ajudaram a dar maior agressividade e vivacidade ao nosso futebol. Cedo, um dos que entrou (Morita) reduziu a desvantagem no marcador e com isso reentrámos no jogo. Com menos dois dias de descanso, o Braga procurou recorrer a todo o tipo de truques que escondessem o cansaço acumulado dos seus jogadores: cada pontapé de baliza a seu favor era usado pelo Matheus para reflectir sobre a sua própria existência, ao passo que uma queda no relvado do Moutinho exigia a presença simultânea do INEM, de um padre, de um médico legista e de um profissional de seguros com qualificação em avaliação de sinistros, antes do politraumatizado corpo poder ser removido do terreno de jogo para logo reaparecer todo viçoso por artes de magia negra. Tantas perdas de tempo iam quebrando o ritmo de jogo ao Sporting. Mas a vingança serve-se fria, ou não viesse da Dinamarca. E se Hjulmand com um foguete anunciou a revolução, o princípe Harder logo exibiu aquele par de huevos com que se fazem Hamlets.

 

A passagem de Amorim foi uma epopeia que só careceu de um Homero para que fosse fielmente retratada.  Como todas as epopeias poderia ter terminado em tragédia (Aquiles) ou glória (Ulisses), mas reza a lenda que Lisboa foi fundada por Ulisses e isso terá tido uma influência marcante no desempenho do alfacinha Amorim. Sendo para sempre, na mitologia leonina, o profeta e filho de deus que trouxe a boa nova, Amorim por fim reuniu 11 apóstolos naquela que foi a sua Última Ceia. E saiu em merecida glória, deixando para trás uma legião de crentes. 

 

"Sic transit gloria mundi!!!", que a luz ilumine João Pereira!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Conrad Harder. Hjulmand seria uma óptima opção.

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12
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

Muita largura de banda e mobilidade 5G


Pedro Azevedo

O Braga é uma equipa que futebolisticamente foi montada de frente para trás, o que na construção, sector caro para o seu presidente (e possivelmente caríssimo para os credores da Britalar), significa edificar uma casa pelo telhado, sem fundações. Improvisando, Artur Jorge procurou limitar o prejuízo ao colocar 2 ou 3 pilares como escora a fim de evitar que o furacão Gyokeres soprasse e o tecto ao cair lhe reabrisse a moleirinha já fechada em bebé. Ora, já diz o povo na sua infinita sabedoria, quando a manta é curta, tapa-se a cabeça e descobrem-se os pés. E o Braga, ao proteger-se da acção superior de Gyokeres, ficou exposto à intensa ventania produzida pela restante equipa do Sporting que lhe escancarou o hall de entrada. Na verdade, foi um suicídio, como nos livros do Ásterix quando o chefe dos piratas afunda o navio só para não sofrer com a abordagem do Óbelix. É que o Gyokeres parece ter caído no caldeirão da poção mágica em pequenino, tal a sua potência, e o medo que inspira nos adversários ficou bem expresso na forma como mobilizou a atenção do treinador dos bracarenses, dando razão a John Locke quando disse que "as acções dos homens são as melhores intérpretes dos seus pensamentos". Pelo que, sagaz e consciente, o Artur Jorge, na preparação do jogo, perante a inevitabilidade da derrota, escolheu a forma como quis perder. Deixando assim o aviso à navegação, restando tentar entender de que forma quererão os treinadores nossos adversários perder no futuro: se fazendo brilhar o colectivo do Sporting ou se promovendo mais uma epopeia do nosso deus sueco. A mim, dá-me igual.

 

Com o Artur Jorge em modo de "onde vai o Gyokeres, vão todos" - ainda assim o todo não chegou para impedir que o sueco marcasse o 27º golo da época -, não houve grandes obstáculos às transmissões de bola entre os restantes jogadores. Porém, a vitória leonina só começou a consolidar-se através de uma pressão fortíssima sobre o portador da bola, estratégia que viria a resultar no primeiro golo, marcado pelo Trincão. Depois, o Quaresma imitou o Beckenbauer ou o Baresi e foi campo adentro, começando por fintar dois bracarenses com a maestria de um extremo. continuando a tebelar com o Trincão como se de um médio se tratasse e terminando a cheirar uma bola perdida com o instinto de um matador - um hat-trick de predicados num único golo! Para o segundo tempo o Amorim decidiu esperar pelo Braga. Longa se tornou a espera: o resultado foi que durante longos minutos viu-se Braga por um canudo, que o medo dos minhotos de destapar as costas se sobrepôs à ambição de ser feliz. Como eles não vinham com tudo, houve algum adormecimento dos nossos. Até que numa bola parada o Adán mostrou que não era um holograma a fazer figura de corpo presente. E depois o Álvaro Djaló desperdiçou a única grande oportunidade dos bracarenses no jogo. Tal teve o condão de despertar os leões da letargia, voltando ao ataque. Logo, o Quaresma descobriu o Trincão na ala direita. Este flectiu para dentro e levantou por cima da defesa. O Gyokeres agradeceu a liberdade condicional ou saída precária e atirou à meia-volta sobre o Matheus. De seguida, o Pote serviu o Bragança para o quarto. E ainda houve tempo para um bonito golo de trivela do "Puskas" Santos que passou o risco de baliza do Braga antes que o seu guarda-redes se mexesse. 

 

Com muita largura de banda dada por Nuno Santos e o Geny(o) Catamo, o Sporting conseguiu uma mobilidade 5G (cinco golos) que facilitou as comunicações de Trincão, Quaresma, Gyokeres, Bragança e Nuno Santos com a baliza do Braga. Entretanto, no outro jogo que fez parte da cimeira de Domingo entre Lisboa e o Minho, o Benfica empatou em Guimarães. Ainda que contra 10, como é impositivo nos jogos que envolvem a equipa da águia. [Tal como as Top Models dos anos 80, que não saíam da cama se o cachet não atingisse um determinado faraónico valor, enquanto a todas as outros equipas do campeonato se aplicam as regras do jogo, aos benfiquistas são concedidas "rules of engagement" sem as quais nem pensem que eles ousam meter os pés num relvado. É o Benfica, o glorioso, o PIB e coiso, pá!] 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma. Trincão seria a minha alternativa. 

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24
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Eficiência vs Eficácia


Pedro Azevedo

Para quem se preocupa com o rendimento, o jogo de ontem do Sporting mostrou a diferença entre a eficiência e a eficácia. Quer dizer, o Sporting foi eficiente, na medida em que com os recursos disponíveis - havia jogadores importantes na dinâmica da equipa ausentes pela participação nas taças da Ásia e de África - conseguiu dominar o jogo e ter as melhores oportunidades. Mas não concretizou essas oportunidades, e nessa medida não foi eficaz. Depois, há quem analise o jogo do ponto de vista etéreo. Por exemplo, para as "viúvas" do Paulinho, a sua exclusão do onze inicial teve como consequência a derrota, ainda que tenha tido 23 minutos (mais 4 de descontos) para fazer a diferença e nem sequer se tenha dado por ele. São os mesmos que agora desenvolvem a teoria de que o Gyokeres beneficia muito da presença do Paulinho, quando o sueco tem tantos golos marcados (11) com o português em campo como fora dele (já a influência positiva de Gyokeres no rendimento de Paulinho é visível pelos 9 golos que o português marcou com o sueco em campo, contra apenas 4, dois deles com o Dumiense, sem ele presente). E, finalmente, há ainda os amantes do esoterismo, os supersticiosos: para eles, o Sporting foi também vítima da evolução do jogo, ou melhor, da evolução das infraestruturas adjacentes ao jogo: no futebol de antigamente, três pancadinhas na madeira teriam dado sorte; na era do pós-revolução industrial e dos postes metálicos, malhar três vezes no ferro produziu um manifesto azar. São os mesmíssimos que acham que os eventos do Esgaio não dar andamento pela faixa direita e lhe ter parado o cérebro no golo do Braga estão relacionados com uma tremenda falta de sorte ou com uma intervenção nefasta do bruxo Nhaga. 

 

A ideia da sorte ou azar num qualquer tipo de jogo não é totalmente descabida. Diria até que a sorte e o azar fazem parte do jogo. Todavia, aquilo a que chamamos de sorte acontece mais quando a oportunidade certa encontra a preparação adequada, e ontem mesmo os espíritos preparados não conseguiram concretizar as oportunidades que tiveram (bolas a rasar os postes, de Pote, Gyokeres e Quaresma). Pelo que as melhores oportunidades (as bolas nos postes) surgiram mais de boa preparação (remates colocados, de longe) do que de situações reais em que um jogador aparece isolado em frente ao guarda-redes. Ou seja, nessas circunstâncias, foi mais a boa preparação do jogador que criou a oportunidade e não a oportunidade criada pela dinâmica da equipa que esperou a preparação certa. E quando a dinâmica da equipa criou a oportunidade, a bola saiu ao lado. Depois, após sofrido o golo, a equipa perdeu o tino, por quebra anímica ou substituições que não produziram efeito, mostrando-se impreparada para a situação e não vendo na ameaça a oportunidade de fazer algo épico como dar a volta ao jogo. 

 

De lado ficaram também as aspirações do Sporting de vencer a Taça da Liga, falhando assim o primeiro objectivo da época. Sendo esta claramente a competição menos importante daquelas em que estamos inseridos, tal não será muito grave. Gravíssimo seria a equipa desmoralizar e os adeptos desmobilizarem, porque há ainda coisas muito importantes para ganhar esta temporada. Como o Campeonato, a Taça de Portugal e mesmo a Liga Europa, esta última uma prova que o Sporting precisa de encarar com uma ambição condizente com o lema do seu fundador. Num certo sentido, esta derrota até se poderá traduzir em algo positivo, capaz de se vir a reflectir em muitas vitórias futuras. É, todavia, imperial que se aprenda com os erros e se corrija o que está mal. Porque não podemos ter uma ala direita coxa, que não dê andamento atacante e comprometa defensivamente. Pelo que ou se vai ao mercado, ou se adapta St Juste, Quaresma ou mesmo o Afonso ali, como está é que não se pode manter (o Geny deveria ser mais uma solução como interior, ou extremo num 4-2-3-1 com, por exemplo, Quaresma a fazer de lateral). Se tal acontecer, então poder-se-á esperar sermos ainda mais eficientes, melhorando ainda mais as tarefas desempenhadas pelos recursos disponíveis ao disponibilizar melhores recursos para o processo. E sendo ainda mais eficientes, estaremos mais perto de ganhar. Porque mais oportunidades surgirão. E os golos também, por mais ou menos eficácia que haja. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma (Nuno Santos, que fez um jogo de raça, à leão, seria a minha 2ª opção). O nosso central esteve simplesmente magnífico, mostrando a sua refinada técnica (ser bom na "roleta" num jogo de sorte ou azar é sempre uma mais-valia) e impressionante velocidade. 

nuno santos braga.jpg

11
Dez23

A liderança em aberto para 4


Pedro Azevedo

Na próxima jornada do Campeonato, a 14ª da competição, os quatro primeiros classificados jogam entre si, com o Sporting a receber o Porto e o Braga como anfitrião do Benfica. A novidade é que, dada a proximidade pontual entre os 4 clubes, qualquer um deles poderá ascender à liderança no fim da jornada, o que diz bem acerca do equilíbrio que neste momento existe entre os contendores, com o Braga nas últimas jornadas a recuperar inúmeros pontos à concorrência. Podendo o Sporting ganhar, empatar ou perder com o Porto e o Benfica ganhar, empatar ou perder com o Braga, em termos estatísticos teremos 9 cenários possíveis em cima da mesa. Probabilisticamente, o Sporting será o clube que terá mais hipóteses de chegar ao fim da jornada em primeiro lugar, tendo 4 conjugações de resultados a seu favor. Segue-se o Porto, que só se ganhar será o primeiro colocado, indiferentemente de o Benfica ganhar. empatar ou perder em Braga (3 conjugações). O Benfica tem uma única possibilidade de passar à frente, caso Sporting e Porto empatem o seu jogo. A novidade é o Braga poder ascender à liderança. Tal acontecerá num único cenário, se vencer o Benfica e Sporting e Porto empatarem. Nesse caso, os minhotos ficarão empatados com Sporting e Porto na liderança, tendo no entanto melhor diferença de golos (como Braga e Porto só jogarão na última jornada da primeira volta, não considero aqui os resultados registados entre os três). No caso particular do Sporting, ganhando liderará sempre. No caso de empatar, o segundo lugar será o pior cenário. Se porventura perder, ficará sempre em terceiro. Antevê-se assim uma jornada plena de emoção e riquíssima do ponto de vista matemático como se poderá verificar pelo quadro infra:

classificação 14.png

Quem ficará por cima no fim das hostilidades? "Faites vos jeux (rien ne va plus)"!

14
Nov23

Ganhar sem Inácio


Pedro Azevedo

Não vi este facto ser debatido na blogosfera no pós-derby, mas na Pedreira, na época 2020/21, o Gonçalo Inácio - o rapaz tem "galo" nestes jogos de grau de dificuldade grande - foi expulso (segundo amarelo) numa fase ainda mais prematura do jogo (18 minutos) pelo mesmo árbitro do derby de Domingo passado (Artur Soares Dias) e o Sporting não só ganhou o jogo como marcou o golo da vitória (Matheus Nunes) já em inferioridade numérica no campo, quando o jogo caminhava a passos largos (81 min.) para o fim e o cansaço era evidente. Conclusão: a expulsão de um jogador condiciona sempre o jogo da equipa que fica com menos 1 elemento, mas não tem de condicionar necessariamente o resultado.  Aquele que a generalidade dos analistas apodou como o "Jogo do Título" está aí para o atestar. 

 

P.S. Encerro aqui a análise ao Benfica-Sporting. Adaptando o futebolês, há que levantar o teclado e passar à frente nos temas avançados no blogue.

gonçalo inácio benfica.jpg

04
Set23

Tudo ao molho e fé em Deus

Caça Grossa no Dragão e Pedreira


Pedro Azevedo

Começo a escrever esta crónica enquanto aguardo pelo desenlace do jogo no Dragão, confronto que só se iniciou há precisamente 19 horas e 25 minutos, pelo que é muito provável que entretanto o Porto venha a marcar através do 37º penálti assinalado a seu favor na sequência de mais um mergulho do Taremi ou, caso o Arruabarrena continue obstinadamente a não estar pelos ajustes, por via de lance com claro fora de jogo e interferência activa por parte do infractor, assim ultrapassando Sporting e Boavista e isolando-se na liderança do campeonato. A razão do atraso nesta publicação deveu-se a um problema técnico na bateria no meu computador, aVARiada, que afectou a comunicação com os Leitores. Sempre na vanguarda da verdade desportiva, procurei contornar a situação através do uso do telemóvel, mas temi o Vosso protesto devido às partidas que o corrector ortográfico do meu iPhone me costuma inflingir, coisas do género de trocar o farsi (do Taremi) pela farsa. Assim, na esperança de não ter de repetir esta crónica, aqui vai finalmente o meu testemunho sobre Caça Grossa, o safári da moda em que a presa é o Gyokeres, ontem em exibição na Pedreira:

 

Diga-se em abono da verdade que o guia Niakité nos procurou proporcionar belas imagens, cutucando o "Búfalo" no fito de assim suscitar a sua ferocidade. Só que o bom do Gyokeres, mais preocupado com uma bola que andava por ali, não lhe ligou nenhuma, ainda que o Niakité lhe tenha tentado despertar a atenção com malabarismos circenses do género de enrolar-se no chão com ou sem bola como se de uma foca se tratasse e o palco fosse o Zoomarine. Entretanto, aproveitando os radares apontados ao Gyokeres, o Diomande foi progredindo sem marcação pela savana bracarense até encontrar o Pote. O que aconteceu a seguir foi mais um momento de pura magia de um génio a quem um dia talvez venha a ser concedido o privilégio de vestir a mesma camisola das quinas que essa estrela do firmamento futebolístico que dá pelo nome de Toti Gomes, habitual suplente do Wolves, usa. Residem porém dúvidas sobre a legitimidade do lance, na medida em que o Matheus se interpôs com a baliza. Como procurou, mas não conseguiu, evitar a marcha da bola, só podia estar claramente em fora de jogo posicional... De seguida, marcámos o segundo. Foi do Hjulmand, em tiro raso e sem hipóteses. Mas o VAR apontou baterias (uma novidade!!!) à anulação. Justificação: um fora de jogo passivo, o que, dada a jurisprudência do Dragão, ficámos a saber ser bem mais grave do que um fora de jogo activo. Alegadamente, o Matheus não viu a bola partir. Eu diria que nem a viu chegar, tal a potência do disparo. Mas, enfim, aceitar-se-ia em termos absolutos, que não relativos (Dragão). E como uma competição se joga em vários campos... (Sobre o ângulo de visão do guarda-redes talvez não fosse má ideia os árbitros do CA fazerem uma reciclagem com os pilotos de F1, que têm de conduzir com um halo que tem um veio à frente dos seus olhos. Se não aprendessem nada, pelo menos sempre seriam despachados a grande velocidade.)

 

O jogo estava a correr-nos de feição. Ora, quando algo parece bom demais para ser verdade, nós tendemos a complicar. E foi isso que mais uma vez aconteceu. Perdendo-se inúmeras transições com o Braga perfeitamente à nossa mercê. Ligando o complicómetro, com os inefáveis Edwards e Trincão mostrando a sua total inconsequência. E com Amorim a ajudar, nas substituições. Como quando lançou Bragança no relvado. Quer dizer, é impossível não gostar do toque refinado do Daniel, ideal num 4-3-3. Mas nós jogamos só com dois médios centro, razão pela qual se pede físico e intensidade a esses jogadores. O Bragança não os tem e procura compensar esse défice com alma. Já se sabe, a alma faz falta, e o Daniel é useiro em fazê-las, algumas delas à entrada da nossa área. Não é um dado novo. Ontem, de uma delas resultou o golo do Braga. Marcado pelo Álvaro Djaló, que curiosamente entrou mais ou menos ao mesmo tempo que o Trincão, que substituiu o Pote para executar um livre idêntico: concentradíssimo, ajeitou a melena para a esquerda e para a direita num momento Pantene que deixou os Sportinguistas pelos cabelos,  disparando para a bancada. Pelo que o momento do jogo foi o minuto 72, em que o Braga mexeu bem e o Sporting mal a partir do banco. 

 

O CA fez um novo Comunicado. Novamente 3 pontos nesse Comunicado, que a juntar a outros 3 de um jogo do Sporting dão um total de 6. A manter esta média (1,5 pontos/jogo) é natural que não desça de divisão, que é como quem diz de categoria, o que será uma lástima para o futebol português. Depois do Casa Pia, agora o Casa (ou caso) Pilha. Assim vai o futebol português. [No Dragão, o CA esclarece que não havia corrente eléctrica na única tomada acessível na área de revisão do árbitro e o gerador (UPS) não tinha bateria.]

 

Tenor "Tudo ao molho...": Diomande

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