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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

07
Abr24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Geny ao volante do Chapa do título


Pedro Azevedo

O William Blake, que foi um poeta e filósofo importante do Século XVIII, escreveu um dia que há o conhecido, o desconhecido e no meio estão as portas da percepção. Com esta afirmação, o escocês pretendeu estabelecer uma fronteira entre a realidade e a sua percepção. Sendo certo que muito do que é conhecido é real, nem tudo o que é desconhecido só por isso deixa de ser real. Pelo que por vezes aquilo que algumas pessoas dão como real é apenas uma percepção que têm da realidade, não tendo necessáriamente de ser a realidade. Aliás, com a perda de independência de alguns media, os opinion makers enviezados e o spin da comunicação assente em agências, talvez nunca como hoje a realidade tenha estado tão longe da percepção que as pessoas fazem dela. 

 

Vem o arrazoado acima a propósito do Sporting-Benfica da noite passada. Na antecâmara do jogo, os analistas discutiam quem poderiam ser as figuras do derby. Do lado do Sporting falava-se de Pote, Gyokeres, Morita e Hjulmand, do Benfica emergiam Di Maria, Rafa, Aursnes e João Neves. Uma infinitésima parte eventualmente terá mencionado Daniel Bragança, ninguém (a não ser talvez em Moçambique) referiu Geny Catamo. No entanto, os dois foram decisivos para a vitória do Sporting. E no caso do Geny, mesmo em Moçambique, quem apostaria 1 cêntimo na probabilidade de este resolver o jogo com um remate de pé direito? Ninguém, porque a percepção das pessoas era de que ele só teria pé esquerdo e o direito só serviria para subir num Chapa. A realidade porém é que o Geny marcou com os dois pés. E deu o triunfo aos leões. Sendo que o golo do Benfica foi obtido por Bah, que até aí só tinha marcado um em toda a época, outro jogador improvável. Com o Bragança há mesmo uma dissonância entre a percepção e a realidade que vai muito além do mero cálculo probabilístico: o Dani é visto como um jogador macio, o que é uma reminiscência de um passado que não dá espaço para contemplar a natural evolução de qualquer ser humano. (Quando um actor como Ronald Reagan foi eleito como presidente dos EUA, as pessoas dividiram-se entre as que percepcionaram que a sua carreira anterior o havia ajudado nesse faz de conta essencial à política e os que acharam ainda mais extraordinário um actor canastrão se ter feito eleger para o cargo mais importante do mundo.)

 

A percepção dominante sobre Roger Schmidt também não deixa de ser surpreendente. Na época passada, durante muito tempo, o Benfica passou por cima dos seus adversários. Liderou a Liga desde o início até ao fim e chegou aos quartos da Champions. Além disso, a equipa sempre jogou um futebol vistoso. Mas o fim de temporada foi menos exuberante que o seu início e essa foi a imagem que permaneceu na cabeça das pessoas. Pelo que o treinador entrou pressionado nesta época e assim continua, entre acusações de mexer pouco na equipa e uma outra curiosamente conflitante com a primeira: a de que troca muito de ponta de lança. A verdade é que se mexeu pouco na equipa tal deveu-se a ter colocado quase sempre os melhores em campo. E se trocou muito de ponta de lança, está à vista de todos que nenhum dos pontas de lança dos encarnados é suficientemente bom. Sabendo-se que o treinador benfiquista não é totalmente responsável pelas aquisições, se calhar a percepção que os adeptos têm sobre o treinador deveria transferir-se para o presidente, mas na realidade é Schmidt quem paga as favas (que são verdes). 

Como é fácil criar uma percepção, logo os jornalistas acenaram com o facto - o drama, a tragédia, o horror - de o Gyokeres não marcar há 3 jogos. Ainda que a realidade nos mostre que este continua vivíssimo da silva, explorando o espaço e simultaneamente ligando o jogo como pivô como antes nenhum ponta de lança do Sporting, e que só por manifesto azar e sortilégio dos ferros não bisou no conjunto dos derbies. Pelo que temo que a realidade se venha rapidamente a impôr à força a esses jornalistas e o sueco continue a ser instrumental na nossa gesta com destino ao título. Busca que hoje foi conduzida por Geny, o geny(o) da Lâmpada (para contrapor ao génio do Pote) ao volante de um Chapa moçambicano, autocarro onde todos andam de mãos dadas para não saltarem borda fora. Como é o caso dos jogadores do Sporting no que diz respeito ao título. 

Tenor "Tudo ao molho...": Geny Catamo ("O Nambauane"), secundado por Daniel Bragança e o grande capitão Coates. No plano negativo, Morita apresentou-se fora da forma, sem arranque e aquele controlo das situações que o caracteriza, e Inácio esteve bastante mal, mostrando imensas dificuldades em parar um jogador alto, louro e percepcionando como tosco (Tengstedt) que ontem lhe deu água pela barba ao se posicionar sobre o lado esquerdo da defesa do Sporting. Matheus Reis uma vez mais foi induzido a marcar o adversário errado e deixou novamente Bah sozinho.

 

P.S. Os meus parabéns aos nossos Leitores Sol Carvalho e José Pimentel Teixeira (emérito bloguista e autor do recente "Torna-Viagem", livro que não devem deixar de comprar, à semelhança de "Quatro Desafios de Escrita!", do igualmente emérito bloguista e nosso Leitor José de Xã), que neste momento certamente sentir-se-ão duplamente satisfeitos pela vitória do Sporting e contribuição decisiva de um jovem moçambicano. Haverá festa rija em Moçambique e esse é um efeito que só o futebol proporciona e deveria ser aproveitado por clube e país.

 

P.S.2. A percepção da realidade que o Artur Soares Dias teve do soco do Di Maria no Pote foi menos violenta do que a percepção com que ficou de os Super Dragões alegadamente lhe poderem vandalizar a pastelaria depois de uma certa visita à Maia. Porém, na realidade, aparentemente só a primeira se verificou, o que demonstra que a percepção muitas vezes não corresponde à realidade (ainda que haja VARs que nem perante a realidade cumpram o protocolo, perguntando-se então qual a sua utilidade e se essa passa pela criação de uma realidade alternativa).

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03
Abr24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

As confissões de Schmidt


Pedro Azevedo

O futebol português tem várias tradições. Entre as que motivam um maior culto, destacam-se os xitos, quinhentinhos, cafés com leite, fruta e até mesmo as cavas em túneis. Outra tradição igualmente muito estimada, e do amplo conhecimento do seu treinador, é a de o Benfica, na hora do aperto, jogar contra 10. Ontem voltou a acontecer. O inusitado é que por uma vez tal não ocorreu por influência dos homens do apito. Não, foi mesmo o Sporting que foi a jogo com menos 1. Ou melhor, o Trincão autoexcluiu-se: enquanto os restantes 21 jogadores andavam à volta de uma bola, o Trincão andou aos toques em outra. Tal como o magala na tropa, sempre de passo trocado, sem nunca suspeitar que era o único que levava a bola errada. Por isso, não concordei com o Ruben Amorim quando no fim disse  que não tivemos jogo entre-linhas. Porque a bola chegou lá, a esse espaço, o problema é que tivemos um Trincão que voltou a ligar o complicómetro de 2023, que tudo aferrolhou, agrilhoou, fechou a cadeado. Em suma, foi um trincão, sim. Mas das Chaves do Areeiro. Ainda assim, o Amorim manteve-o 90 minutos em campo. Não por não ter visto o que todos vimos, mas por um "statement": como clube conservador que somos, connosco as tradições são para manter. E se não há uma "ajudazinha" dos árbitros ao rival, então dá-se um retoque do tipo Restaurador Olex, ou seja, uma bola só para o Trincão, para ele pôr os olhos no chão, não a passar a ninguém e acabar inevitavelmente por a perder, e finge-se que se joga naturalmente com 11. No fim, o orgulho: jogámos 90 minutos em inferioridade numérica na casa do rival, contra o melhor Benfica da temporada, e ainda assim sacámos um empate que valeu uma qualificação para o Jamor. Haveria melhor "mind game" ou factor mais desmoralizador para o adversário na antecâmara do match-point de Sábado? Claro que não. Mas, atenção: no Sábado temos de jogar com 11. Onze onde se pode incluir o Trincão. O de 2024, bem entendido, não o que ontem foi reviver o passado ao Estádio da Luz.

 

Por cada Trincão que cair, um Bragança se levantará. Foi com este mote, recriado do filósofo António Oliveira, que o Sporting se adaptou ao jogo e graças e ele não ficou apeado no intenso tráfego que se fez sentir ontem à noite na Segunda Circular. Porque foi o Daniel que assegurou os mínimos de circulação que evitaram a nossa morte por asfixia. Fornecendo o oxigénio que permitiu à equipa respirar e até ousar cortar a respiração ao adversário. Como no lance do segundo golo, quando encontrou Geny para o 1x1 contra Aursnes. Bem acompanhado pelo Hjulmand, que marcou um golo de bandeira e soube atrair a pressão nem sempre eficaz do Benfica para libertar companheiros sem oposição. Pelo que o problema surgiu a partir daí e não devido aos nossos meio-campistas. 

Se a solução tantas vezes testada a aprovada é pôr a bola em Gyokeres (viram como ele não ataca a bola por alto quando na defesa?), não se entende porque deixámos tantas vezes o nosso melhor jogador sem bola. Mas com um interior adaptado como Paulinho, mais eficaz em tabelinhas perto da área, e outro, de espectro mais largo, completamente "fora dela", o sueco só apareceu na sequência de bolas perdidas a meio-campo ou de passes de longa distância como aquele em que St Juste o visou e acabou em golo. Ainda assim, na retina ficou aquela arrancada em que deixou dois pelo caminho e terminou com uma paulada na bola que a esta hora ainda deve estar a abanar o poste da baliza do Trubin. 

Não creio que as alterações ao intervalo tenham tido uma influência significativa na melhoria da nossa exibição ou sequer que a nossa exibição tenha melhorado por aí além. Até porque onde se deveria mexer não se mexeu, talvez por falta de confiança no Edwards actual (o de Bérgamo). E é preciso não esquecer que do outro lado não estavam 11 bidões. Não, havia um Rafa, um Di Maria, um Aursnes e, principalmente, um super João Neves. E o Schmidt, qual Egas Moniz, com o (em)baraço na garganta, confessou os seus pecados anteriores e desta vez ajudou a sua equipa. Pelo que o resultado do jogo, que não o da eliminatória, acabou por ser lisonjeiro, para tal contribuindo a elasticidade de Israel entre os postes, guarda-redes que curiosamente se sente melhor como um prisioneiro em solitária, enquadrado apenas por dois postes e uma barra, do que em cada saída precária. 


Quanto a Roger Schmidt, a Taça já se acabou, pelo que entre o campeonato e a Liga Europa que seja esta última a dar-lhe o balão de oxigénio de que precisa para ainda respirar. Assim saibamos nós ser competentes.

Tenor "Tudo ao molho...": Daniel Bragança

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01
Mar24

Tudo ao molho e fé em Deus

Morita e o Momento da Verdade


Pedro Azevedo

As crónicas dos jogos sucedem-se de sequela em sequela a uma velocidade furiosa, mas sem Michelle Rodriguez a quem recorrer em caso de conspícua falta de inspiração. A ansiedade do autor aumenta, temendo que um dia destes uma delas bata na trave como o Paul Walker e/ou desapareça no firmamento ao som do I'll Be Missing You, do Puff Daddy, Diddy ou Sean Combs (o homem muda de nome mais depressa do que o diabo da agulha esfrega o olho ao vinil). Tenho pesadelos e procuro o conforto do sindicato, mas descubro que este ainda não foi constituído por divergência de conceitos entre bloguers, blogueiros e bloguistas, o que põe em causa os direitos de autor de posts de receitas de tarte merengada, de desconto no pêssego em calda ou simplemente de contrariedades e ansiedades verificadas ao nível do pipi, entre outros eméritos candidatos a Pullitzer residentes nesta comunidade cujo potencial desaparecimento é temido como uma das terríveis ameaças que se perspectivam para o futuro da humanidade. Resignado, abrevio o tempo com um penteado à Vin Diesel e acelero teclado fora. Três são as rotações que a Terra promete sobre si própria até ao próximo jogo (Farense) e eu também preciso de dar umas quantas voltas à minha cachimónia para que entretanto me saia um texto minimamente em forma de assim-assim. 

 

Um jogo com o Benfica tem a vantagem de automaticamente resolver o problema da falta de assunto. Desde logo pelos casos e casinhos que o envolvem e quase sempre o prolongam bem para lá dos simples 90 minutos. Analisemos então um desses casos pela pena do humorista Duarte Gomes: o lance descreve-se brevemente por ter havido uma carga fora de tempo, simultanemente nas costas e numa perna, do João Neves sobre o Pote, que Fábio Veríssimo não sancionou. Tendo a falta ocorrido dentro da área do Benfica, logo deveria ter sido marcado um penálti. Mas o Duarte tem uma opinião  diferente: "Pedro Gonçalves, com a bola à sua mercê, direcionou a sua perna direita para o lado, para a trajetória de corrida de João Neves. O contacto - absolutamente evidente (NA: é Neves que toca em Pote e não o seu contrário) - não resultou de ação faltosa do médio encarnado, mas daquela opção do avançado do Sporting". Ou seja, para o inefável Duarte Gomes há uma lei que deve inibir um interveniente do jogo de se cruzar com outro numa esquina da área deste, especialmente se este último estiver a deslocar-se a grande velocidade. Já sobre a velocidade empregue ter sido impruente ou negligente, termos esses, sim, que constam das leis, nem uma palavra, ainda que o abalroamento tenha sido uma realidade. Acontece que 1 minuto depois o Pote marcou mesmo de verdade. E olhou para o Veríssimo como quem diz: "Karma is a bitch!". Estás a ver, Duarte? [O Duarte Gomes sabe bem do que fala, ele que um dia cismou interpor-se na trajectória da bola entre Ricardo Peres, adjunto de Paulo Bento no Sporting, e Rui Patrício, durante o aquecimento antes de um jogo, para depois imediatamente direccionar o seu corpo na direcção de Peres, promovendo o contacto (peitaça), terminando a sua acção a advertir o treinador de guarda-redes com um cartão amarelo perante a indignação geral de quem assistia a tão elucidativa lição de arbitragem.]

 

O Sporting ganhou o jogo no meio campo, produto da acção conjugada do requintado "Tsubasa" Morita e do sobrequalificado operário Hjulmand, que, quais Garrinchas de ocasião, meteram a dupla de Joões do Benfica no bolso. Pelo que a razão para a eliminatória ainda estar em aberto deve-se à má definição de Pote, Edwards e Geny, que desperdiçaram ingloriamente imensas jogadas promissoras. E se não fosse Gyokeres, que deixou Otamendi no passeio a anotar a matrícula do camião que o atropelou, poderíamos estar a lamentar um resultado muito aquém da exibição produzida. Porque a qualidade individual de Di Maria chegou a ameaçar sobrepor-se ao superior colectivo Sportinguista, mostrando à saciedade as vantagens de ter um fora de série. 


Evidenciando a vã ilusão do que é o controlo do jogo, em duas jogadas praticamente consecutivas o Benfica empatou. Fazendo pouco ou nada para tal, ou simplesmente, tendo Di Maria para tal. Mas se Diomande ficou a dormir no primeiro, o VAR estava bem acordado e viu a interferência do jogador benfiquista em fora de jogo que tapou a visão do nosso guarda-redes, Israel, que no fim comemorou com a Faixa de Ga(n)za situada na Superior, mostrando que o Sporting é de facto um clube diferente e cheio de sortilégios que nos aquecem e enriquecem a alma. 


Tempo ainda para Nuno Santos voltar a surpreender-nos com um Puskas, mas uma vez mais o galardão ficará adiado. Depois de uma letra, trivela e lob, agora foi um pontapé à Karaté Kid, mas o Momento da Verdade (também tinha um Morita) ficou adiado possivelmente para a segunda mão (ou demão, que a vitória de ontem foi o primário). 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa Morita 

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18
Fev24

No Futsal são...


Pedro Azevedo

... 5 contra 5 e no final ganha o Sporting. Em contraposição, no futebol são 11 contra 10 e no final ganha o Benfica. [Conclusão: o nome Liga Placard ajusta-se bem a uma realidade (futsal) em que a superioridade numérica se expressa na diferença de golos no marcador (placard) e não na diferença de nº de jogadores de campo de ambas as equipas. Já o nome Liga Portugal Betclic, aplicado ao campeonato de futebol, deveria ser mudado para Liga Power Play Benfica, de forma a melhor reflectir a quantidade de vezes em que os adversários dos encarnados se encontram em inferioridade numérica de jogadores em campo. A não ser que a ideia de angariação da Betclic como patrocinadora da Liga tenha vindo de uma associação (in)feliz com a aposta certeira no handicap de cartões vermelhos nos jogos que envolvam o Benfica...]

 

Nota: Depois de uma vitória do Sporting (4-2) na final da Taça da Liga, que o Benfica contestou ao exigir a sua repetição, ontem os Leões voltaram a bater o rival. Só que desta vez por goleada (7-3).  [À hora em que escrevo ainda não me foi permitido consultar o regulamento da competição para esclarecer a dúvida se uma vitória por mais de 3 golos de diferença obriga a repetição de jogo ou a substituição do treinador perdedor.]

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11
Dez23

A liderança em aberto para 4


Pedro Azevedo

Na próxima jornada do Campeonato, a 14ª da competição, os quatro primeiros classificados jogam entre si, com o Sporting a receber o Porto e o Braga como anfitrião do Benfica. A novidade é que, dada a proximidade pontual entre os 4 clubes, qualquer um deles poderá ascender à liderança no fim da jornada, o que diz bem acerca do equilíbrio que neste momento existe entre os contendores, com o Braga nas últimas jornadas a recuperar inúmeros pontos à concorrência. Podendo o Sporting ganhar, empatar ou perder com o Porto e o Benfica ganhar, empatar ou perder com o Braga, em termos estatísticos teremos 9 cenários possíveis em cima da mesa. Probabilisticamente, o Sporting será o clube que terá mais hipóteses de chegar ao fim da jornada em primeiro lugar, tendo 4 conjugações de resultados a seu favor. Segue-se o Porto, que só se ganhar será o primeiro colocado, indiferentemente de o Benfica ganhar. empatar ou perder em Braga (3 conjugações). O Benfica tem uma única possibilidade de passar à frente, caso Sporting e Porto empatem o seu jogo. A novidade é o Braga poder ascender à liderança. Tal acontecerá num único cenário, se vencer o Benfica e Sporting e Porto empatarem. Nesse caso, os minhotos ficarão empatados com Sporting e Porto na liderança, tendo no entanto melhor diferença de golos (como Braga e Porto só jogarão na última jornada da primeira volta, não considero aqui os resultados registados entre os três). No caso particular do Sporting, ganhando liderará sempre. No caso de empatar, o segundo lugar será o pior cenário. Se porventura perder, ficará sempre em terceiro. Antevê-se assim uma jornada plena de emoção e riquíssima do ponto de vista matemático como se poderá verificar pelo quadro infra:

classificação 14.png

Quem ficará por cima no fim das hostilidades? "Faites vos jeux (rien ne va plus)"!

13
Nov23

Tudo ao molho e fé em Deus

Perder por ideias que não são nossas


Pedro Azevedo

Em Post anterior, eu havia escrito que o futebol português nunca nos engana e que a nossa melhor hipótese no derby seria anteciparmo-nos e enganarmos o futebol português com um jogador recém-chegado e ainda não aculturado a este meio-ambiente (Gyokeres). Esteve quase a dar certo! Vamos por partes: em primeiro lugar, o futebol português continua a não nos enganar. Mas tenta. Mesmo que, pelo menos desde meados dos anos 80, já saibamos do que a casa gasta, ainda há quem pense que com papas e bolos se enganam os tolos. Vai daí, menosprezando-nos, não fazem a coisa por menos e enviam-nos mesmo o dono de uma pastelaria... Depois, o tema do Gyokeres. O sueco não vai em fitas, joga jogo a jogo o jogo pelo jogo, como um homem de barba rija, e é terrivelmente eficaz. Não foi por ele que perdemos ontem, mas poderia muito bem ter sido por ele que o teríamos ganho, assim tivesse havido ainda um pouco mais de ambição colectiva no primeiro tempo. Mas não houve, o que poderia ter passado por um lateral/ala mais ofensivo (no ano do título eram Pedro Porro e Nuno Mendes), e pusemo-nos a jeito para o que restava do jogo. Por fim, as razões principais pelas quais não deu certo, que remeto para os próximos parágrafos. 

 

Não deu certo porque o Inácio foi expulso e ficámos 46 minutos a jogar com menos 1. Como a expulsão resultou de um segundo amarelo, o lance não foi ao VAR. Se tivesse ido ao VAR, o alegado toque que originou a falta e o cartão não seria nítido na pantalha vermelha e branca que realizou a transmissão (mais uma singularidade da infindável xico-esperteza lusa), pelo que provavelmente o Inácio teria sido despenalizado e nós continuaríamos a jogar com 11. Todavia, Rúben Amorim, no final, concedeu que foi falta, e, se o nosso próprio treinador viu aquilo que a televisão não mostrou, eu não vou estar aqui a defender o indefensável. 

 

Também não deu certo porque uma chave de pernas por trás ao Gyokeres que o poderia ter lesionado gravemente nos ligamentos de um joelho, perpetrada pelo excelente João Neves (curiosamente, mais tarde decisivo no volte-face encarnado), não mereceu do árbitro e VAR mais do que um cartão amarelo, mantendo-se assim o Benfica com superioridade numérica no campo. Essa dualidade de critérios foi aliás flagrantemente expressa no tratamento dado aos dois maiores pantomineiros em campo: enquanto Edwards viu o amarelo por simulação, Rafa atravessou o jogo todo a recrear o Baywatch, sem Pamela Anderson ou naufragos por perto que o justificassem, passando incólume ao critério arbitral. 

 

Igualmente não deu certo porque o árbitro decidiu prolongar a partida por mais 6 minutos, o que pareceu excessivo a toda a gente que não torcesse pelo Benfica. Paradoxalmente, o timing do último golo, já nos descontos dos descontos, justifica-se pelo tempo perdido nos festejos do golo do empate.

 

Finalmente, não deu certo principalmente porque numa altura em que era preciso esconder a bola e há muito que o Morita já andava de bofes de fora, o nosso treinador fez entrar o Paulinho para o meio campo em detrimento do Bragança. Usando o argumento de que era preciso ganhar bolas de cabeça. Se era por isso, não se entende porque foi o baixinho Esgaio batido ao primeiro poste no golo do empate do Benfica e não estava lá o Paulinho, sabendo-se que St Juste estava logo atrás e as outras torres (Coates, Diomande, Gyokeres, Hjulmand) concentradas no meio, junto à pequena área. Onde estava o Paulinho (para lá daquela hesitação à entrada da nossa área, em que deixou a bola bater no chão por clara desadaptação à função)? [Se Amorim propala tanto a ideia da nossa cultura de posse de bola, não se entende porque trocou a cultura pela agricultura (mandando a ideia "às couves") e se preocupou mais em reagir ao adversário do que agir em consonância com as suas ideias base.]

 

Concluindo, nada do que se passou ontem na Luz e que se relaciona com o futebol português nos enganou, era tudo esperado. Quem nos enganou ontem foi o nosso treinador, que desta vez mexeu mal e não resistiu a lançar jogadores da sua predilecção, mesmo que fora do seu habitat natural, dando assim uma prova de falta de confiança a um jogador (Bragança) que até estava a subir bastante de produção. O Edwards, que apesar de pantomineiro criou 2 lances de golo (aquele que Pote desperdiçou, até bem mais evidente), o Hjulmand (melhor exibição de verde e branco), o Morita - "You say Morato, I say Morita... Let's call the whole thing off" -, imperial no 1º tempo com os seus passes de primeira sempre precisos e a tirarem diversos adversários simultaneamente do caminho da bola, o Diomande, o Coates, o patinho feio Matheus Reis e, acima de todos, o Gyokeres mereciam melhor contrapartida para o engenho e o labor que puseram em campo. Faria bem por isso Amorim assumir as culpas na globalidade, e não tanto no que concerne a Inácio. (Se de cada vez que um jogador influente apanhar um cartão amarelo o seu  treinador o tirar do campo, então o medo de perder uma peça suplantará a vantagem de a ter em campo na mentalidade desse treinador.)

 

Uma pena perdermos um jogo assim, quando durante uma segunda parte inteira em inferioridade numérica conseguimos jogar com mais critério do que o nosso adversário (mérito da repetição de treino, que é uma competência do treinador Amorim), o qual se foi mantendo ligado à vida quase exclusivamente pelas acções de João Neves e de Aursnes. Frustrante, porque 6 pontos de avanço na tabela classificativa a 2 minutos do fim viraram igualdade pontual no fim da contenda. Como se não bastasse, a sempre aparente, falaciosa e errónea ideia do controlo do jogo, ontem (novamente) reiterada em conferência de imprensa por Amorim. Mas será que não se aprende que um jogo só está devidamente controlado quando a vantagem no marcador é de tal forma expressiva que assim o recomenda? Ou, pelo menos, quando a bola está na nossa posse? Custa perder assim, mas a maior derrota foi abdicarmos das nossas ideias para nos tentarmos adaptar às ideias dos outros, borrando assim uma pintura digna de um Mestre. Mesmo no finalzinho do jogo.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

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12
Nov23

Tudo ao molho e fé em Deus

Antevisão ao derby


Pedro Azevedo

O futebol português não engana ninguém, todos sabemos com o que contar desde os tempos de escola em que aprendemos a contar. O futebol português não enganar ninguém é uma inevitabilidade como a morte e os impostos, algo incontornável e não passível de mudança, uma ciência tão exacta como a matemática. Pelo que, se formos passivos, não poderemos esperar outra coisa que não seja o futebol português não nos enganar. Há, por isso, que ser activo: se não é possível esperar que o futebol português não nos engane, talvez seja possível antecipar-nos e enganarmos o futebol português. Enganando-o primeiro, pode ser que o futebol português ceda à tentação de não nos enganar e passe verdadeiramente a enganar-nos. Com uma vitória dos nossos na Luz, por exemplo, um evento inversamente proporcional ao querido futebol português que nunca nos enganou. Há porém um dilema moral a contornar: por que razão deveremos enganar alguém ou alguma coisa que nunca nos enganou? Talvez porque ser enganados é um direito que nos assiste, se tal corresponder a sonhar, ter ilusão ou esperança e nos permitir viver melhor. Resolvida a questão do "porquê", reside ainda o problema da forma: como podemos enganar o futebol português? Bom, A solução para esta questão deve ser entregue a consultores externos, não contaminados. Como o Gyokeres, por exemplo, que ainda não está aculturado como o Edwards e não estará à espera que logo à noite o Artur Soares Dias se digne a marcar um penalty na iminência de levar uma pantufada na área escarlate. Não, a acção de sabotagem ao futebol português que nunca nos enganou passará por um futebol que o futebol português nunca viu, sem fitinhas, trapaça, circo ou estados de alma, um futebol de barba rija, jogado por homens da resistência. Só assim, pelo contraste, se enganará um futebol português que tem um padrão diametralmente oposto. Ele nunca nos enganará, e nós precisaremos de o enganar para que jamais voltemos a nos desenganar. In Gyokeres we trust?! (Quem diz Gyokeres, diz o Gyokerismo como modo de comportamento necessário para vencer todos os obstáculos.)

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25
Out23

Zero ao Kubo


Pedro Azevedo

Três jogos, três derrotas, três vezes zero pontos, zero ao cubo. Ou ao Kubo, no caso particular, tanto o talentoso esquerdino japonês pôs a cabeça em água à defesa do Benfica. Todavia, que ninguém se iluda, a vitória da Real Sociedad assentou no seu colectivo, pressionante, envolvente como um polvo e, quando em posse, sempre capaz de esconder a bola aos encarnados (a ausência de Florentino terá pesado). Aquele Benfica da época passada, vibrante e afinado pelo diapasão de Roger Schmidt, não se viu ontem na Luz, salvando-se dois produtos do Seixal: João Neves, que não sabe jogar mal, e Tiago Gouveia, que entrou tarde mas ainda foi capaz de sacudir a pressão basca e dar azo às únicas ocasiões de golo do Benfica em toda a partida. Valeu, ainda assim, a experiência de Otamendi, pois sem ele a debacle muito provavelmente teria ocorrido. 

 

A juntar à derrota do Benfica, o Braga, apesar da boa réplica dada ao todo poderoso Real Madrid, também ficou pelo caminho. Mais uma jornada negra em termos de pontos para o ranking de Portugal na UEFA, o que nunca serão boas notícias para o futebol português e, por conseguinte, para o Sporting. 

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22
Ago23

Schmidt e a "Táctica do Canguru Perneta"


Pedro Azevedo

Há uma corrente de opinião que defende que um treinador deve estabelecer o sistema táctico a partir das características dos jogadores que tem à disposição. Porém, muitos treinadores são fiéis ao sistema táctico da sua predilecção, independentemente dos recursos disponíveis. Nesses casos, ficam dependentes da forma como correr o mercado: se tiverem a última palavra sobre as contratações e o mercado correr bem, então os resultados serão satisfatórios; se a Direcção é que contrata, não há dinheiro para satisfazer os pedidos do treinador e vai-se apostar em segundas linhas, ou o treinador engana-se no perfil dos jogadores, então os resultados serão menos bons. 

 

Uma situação diferente das consideradas em cima é a que se está a passar esta temporada com Roger Schmidt. A viver o que parece ser uma crise de abundância(!), o treinador mostra-se de tal forma focado naqueles que lhe parecem ser os seus onze melhores jogadores que não teve pejo em afastar dois laterais esquerdos para nessa posição encaixar o polivalente Aursnes, salvaguardando assim no processo a titularidade de João Mário. A opção é curiosa, aceita-se, mas, independentemente da gestão de balneário relacionada com a motivação dos jogadores preteridos, levanta questões sobre a dinâmica global da equipa. É que uma ala esquerda composta pelo norueguês e o irmão de Wilson Eduardo está condenada a não assegurar a profundidade, ficando o Benfica manco em campo. Mais, com Di Maria, no lado contrário, também a vir para o meio, Bah será verdadeiramente o único jogador capaz de procurar a linha de fundo. A não ser que o argentino passe para o meio, Rafa bascule para a esquerda, entre Neres no Onze e Schmidt se decida definitivamente entre Aursnes e João Mário. Caso contrário estou em crer que esta época teremos um Benfica disposto no campo como um canguru perneta, procurando saltar ("queimar") sequencialmente linhas sucessivas em posse através do jogo interior e a alimentar-se em excesso da bolsa marsupial fornecida quase em exclusivo pela velocidade de Rafa para ousar dar saltos mais significativos. 

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