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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

05
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Mortos de sono


Pedro Azevedo

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Durante a semana puxou-se tanto o lustro aos galões de Mourinho que faltou alguém na nossa Estrutura Técnica que dissesse o óbvio ululante: o rei vai nu, vamos para cima deles que nem "tarzões". Bom, para cima deles até fomos. Durou foi pouco, mais exactamente 20 minutos, sensivelmente o tempo que demoraram os sedativos a fazer efeito. Sim, porque este derby entre o Sport Lexotan e Benfica e o Sporting Xanax de Portugal, a contar para a Primeira Liga Vallium, foi um óptimo combate... contra as insónias. Senão vejamos: tecnicamente, o jogo foi de uma pobreza franciscana, envolvendo um número apocalíptico de recepções péssimas sem pressão e de passes constantemente mal calibrados. Fisicamente, o ritmo de jogo foi digno de uma peladinha entre prisioneiros famintos de um campo de concentração nazi na II Guerra Mundial. Finalmente, do ponto de vista mental, viram-se duas equipas cheias de medo de perder. Apesar de tudo isto, o Sporting teve tudo a seu favor para ganhar o jogo: marcou cedo e o Benfica tardou a conseguir trocar dois passes sem perder a bola, tal a ansiedade revelada. Mas depois, inexplicavelmente, o Sporting começou a baixar no terreno, a não fechar as linhas de passe na saída de bola dos encarnados e sofreu um golo patético, de carambola. Tal como uma máquina de lavar roupa quando se interrompe a secagem, o Sporting, depois de deixar esfriar, não conseguiu reiniciar o programa que tinha(?) para o jogo em tempo útil, limitando-se a controlar, aquela ilusão que faz parte do jargão de futebolês de todo o treinador até levar um golo. Por acaso não aconteceu, que o remate de Rios saiu ligeiramente ao lado, mas se tivesse ocorrido castigaria o respeito em demasia que Rui Borges ontem demonstrou por Mourinho, em tempos o melhor treinador que Portugal alguma vez produziu, mas hoje um homem cansado de tantas exigentes batalhas travadas pela Europa fora e por isso um treinador (como um boxeur) conformado em ir perdendo aos pontos em vez de correr o risco de enfrentar um KO prematuro. Enfim, haveria mais a dizer, mas a sonolência como sabem é contagiosa e os bocejos no relvado tornaram-se também meus, pelo que está na hora de fechar esta crónnnniiiiccccaaaa. Zzzzzzzzzzzzzzzz...

 

"Não há dor que o sono não consiga vencer" - Honoré de Balzac

 

Tenor "Tudo ao molho...": Maxi

11
Nov25

Rui Costa e o julgamento da história


Pedro Azevedo

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Já com o troféu do Guinness de votação nas urnas (parabéns aos militantes benfiquistas) e a caminho de se celebrar como campeão intergaláctico dos comunicados de imprensa, o Benfica está mais para um partido político do que para um clube de futebol. Fazendo-se passar por uma força anti-sistema, permanentemente desafiando o sector de arbitragem e pontualmente hostilizando a própria Federação (os jogos caseiros da Selecção não voltaram a ser disputados na Luz, na sequência das ameaças contidas num comunicado do clube), o Benfica é o mais demagogo dos clubes de futebol: o seu presente lider (Rui Costa), pese a falta de memória recente, veio alegadamente do sistema dos sistemas (vouchers, mala ciao, e-mails, facturas...), mas vende a ideia de ser um reformista e renovador, embora à sua volta se tenham amontoado as demissões numa primeira fase. Julgou-se ser tudo produto da conjuntura eleitoral, mas os hábitos antigos emergiram mesmo com uma nova equipa e assim que reeleito partiu para novos ataques ao poder instituído que ele próprio ajudou a eleger, em nome da melhoria do futebol português (diz ele). Discriminando as minorias no caso dos DireitosTV, o presidente do Benfica não aliviará o tom populista até ter a maioria absoluta... de títulos, a tal sonhada hegemonia que em si própria tem laivos de um tique fascista ("Benfica uber alles") de um grande clube que se julga ungido à nascença e não se conforma com a realidade: a incompetência e erros próprios dos seus dirigentes do futebol que o afastam do sucesso em condições ideias de concorrência leal. Grande jogador de futebol do passado e indiscutível benfiquista, ninguém duvida que Rui Costa sente o clube como poucos. Mas a sua emergência como líder do clube, tal como a de outros, está cada vez mais longe de constituir a lufada de ar fresco que um novo estilo de dirigismo, de gente ligada quase umbilicalmente ao futebol, prometia. O detonador terá sido o Jamor, um (J)amor de perdição para o presidente dos encarnados que a partir daí cresceu em crispação na inversa proporcionalidade das prestações pobres da sua equipa de futebol. Porque é aí que reside o problema do Benfica, problema esse que é agudizado por quem acredita que a solução está em confrontar e condicionar os árbitros. Optando pelo ruído desenfreado, Rui Costa procura nessa estratégia desviar as atenções da indignação dos "índios", gerando assim uma mole de "idiotas úteis" de ocasião potenciadores de violência verbal e física, da qual, no fim, Rui Costa, presumivelmente, lavará as mãos como Pôncio Pilatos. À semelhança do que já ocorre recorrentemente no Pavilhão da Luz, quando entoa o ignóbil silvo do very-light. Conseguirá Rui Costa arrepiar caminho a tempo? Assim vai o futebol português...

17
Set25

O passado, o presente e o futuro


Pedro Azevedo

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O Benfica não soube ler o futuro no momento em que despediu Mourinho (para contratar Toni) quanto ele estava numa trajectória ascendente que o levaria a vencer duas provas europeias em dois anos consecutivos pelo rival Porto (num percurso que teve um longo ciclo virtuoso que incluiu "n" troféus conquistados por múltiplas equipas) e indica ter dificuldade em interpretar o presente ao preparar-se para o contratar depois de Lage o ter eliminado (Fenerbahçe) da Champions. Agindo desta forma, o Benfica sugere estar com o foco no passado, ou seja, sempre um passo atrás, a olhar pelo retrovisor, o que como sabemos é meio caminho andado para o estampanço. 

16
Set25

Filhos e enteados do futebol português


Pedro Azevedo

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Bruno Lage, que foi adjunto de Carlos Carvalhal no Sheffield Wednesday e Swansea, não ouviu certamente o seu antigo chefe explicar tintim por tintim como joga colectivamente o Qarabag e cada um dos seus jogadores. No estranho mundo do futebol português, Carvalhal,  que chegou a uma final da Taça por um clube à época do terceiro escalão do futebol português (Leixões) e depois disso realizou óptimos trabalhos no Beira-Mar, Setúbal, Rio Ave e Braga (nunca suficientes para Salvador, que depois optou sempre por pior), teve só uma breve oportunidade no Sporting durante o turbulento mandato de José Eduardo Bettencourt (venceu o Porto por 3-0), enquanto Lage já vai no segundo ciclo no Benfica.
É caso para dizer que Carvalhal, tal como Vitor Pereira, não é um bem-amado, apesar das inúmeras provas da sua competência e conhecimento do jogo. Dava jeito ao Benfica ter um treinador assim... 

06
Set25

Mau Exemplo


Pedro Azevedo

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O senhor provavelmente não será o mais culpado de ter sido colocado na secção errada, que o bilhar (de bolso) está na cara ser o mais indicado para quem sabe que há que proteger o instrumento do seu trabalho: as mãos. Mas a atitude de Raúl Moreira é paradigmática de uma forma de estar no desporto que não o enobrece e constitui um péssimo exemplo para quem o segue (os adeptos). 

01
Ago25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

(Contra)tempo


Pedro Azevedo

Caro Leitor, agora que já se conhece o desfecho da Supertaça, eu devo confessar que até estava optimista para o jogo. E porquê? (O porquê das coisas é sempre mais importante do que "o que?" ou "como?", pese embora, curiosamente, a generalidade das pessoas invista o dobro do tempo na resposta a qualquer uma das outras duas interrogações.) A razão é simples: enquanto o Sporting se preparou convictamente para jogar contra o Benfica, na colectividade de Carnide as opiniões divergiam quanto ao adversário: para o Lage, seria o Tempo; para a Direcção, o Fábio Veríssimo. Se o Sporting se dispunha a jogar contra o Benfica, mas este apenas considerava defrontar o Tempo ou o Verissimo, então ficava invalidado à partida o silogismo aristotélico que faria com que o Sporting jogasse também contra o Tempo ou o Verissimo, sem dúvida duas preocupações a menos para os Leões. Restaria porém perceber como poderíamos defrontar uma equipa que não queria jogar connosco. Ganharíamos por falta de comparência? Obriga-los-íamos a ir a jogo, ainda que por eles tivessem de haver 2 bolas extra em campo, uma por cada adversário? Além do mais, da perspectiva do Sporting, o Benfica jogar contra o Tempo seria uma causa perdida: o Tempo é a mercadoria mais importante das nossas vidas, especialmente se utilizado de uma forma em que não seja desperdiçado ingloriamente. Mas é impossível parar a sua marcha inexorável, pelo que a expressão "Ganhar (ao) Tempo" é puramente idiomática e visa apenas elucidar que o Tempo foi bem gasto. Por outro lado, ganhar a um árbitro, que não tem balizas e até é proibido de tocar na bola sob pena da jogada ser interrompida, seria o paradigma da posse de bola estéril, só fazendo sentido mesmo para um clube que se acha acima de qualquer um ou de qualquer coisa. Gloriosamente, dizem eles.. 

 

Bom, falta de comparência não houve, pelo que fomos a jogo. Um confronto entre uma equipa de futebol e um bando de protestantes, não sei se Luteranos ou Calvinistas, filosofando em rebelião contra os dogmas do Tempo e da Arbitragem. Uma coisa a fazer lembrar aquele sketch dos Monty Python - Philosophy Football -, mas com o Benfica a fazer de gregos e germânicos ao mesmo tempo (e com "O Barbas", possivelmente nas bancadas, de fato de treino vermelho, interpretando o papel de Karl Marx). Para provar que jogar contra o Tempo era uma tonteria, cedo (5 minutos) o Benfica se viu obrigado a correr atrás do Tempo. Todavia, a equipa de arbitragem anulou o nosso golo, o que por um lado serviu o Benfica e por outro mostrou que jogar contra o árbitro era uma tonteria ainda maior. Ainda assim, o Sporting foi melhor no primeiro tempo e poderia ter marcado, mas um Harder em modo "Calamity Jane" e um Morita para quem hoje em dia 1m2 é um latifúndio (não se entende porque Borges não lançou Simões, actualmente o nosso único médio capaz de transportar a bola em condução até à área adversária) impediram a criação de mais jogadas de perigo. 

Veio o segundo tempo e o Benfica marcou. Dir-se-ia, dada a forma como estava a correr o jogo, que foi galo. Mas não, foi um outro tipo de ave: um peru. De Rui Silva, um momento infeliz de um excelente guarda-redes que logo a seguir faria uma defesa "impossível" a remate do mesmo Pavlidis. A partir daí percebi o filme todo: o Lage não queria ganhar (ao) Tempo, queria, isso sim, jogar a favor do tempo, que é como quem diz, perder tempo. E o Benfica também não queria jogar contra o Verissimo, mas sim jogar com ele. As rábulas foram sucedendo-se, pouco se jogou, o nosso jogador mais esclarecido (Maxi) teve de sair e, como se já não fosse pouco, Rui Borges ainda teve a luminária ideia de lançar Esgaio para lateral esquerdo, talvez em tirocínio para o futuro, que 5 laterais/alas esquerdos de raiz é possível que não satisfaça a gula mirandelense do nosso treinador. Rui Borges que pareceu "alheiro", perdão, alheio ao que acontecia no relvado, qual professor Pardal sonhando com maquinações à volta do 3-4-3, com Hjulmand fora do seu lugar para que Fresneda fosse caçar ganbusinos para a direita e Geny se metesse para dentro, onde é perfeitamente ineficaz. Isto depois de ter andado a treinar o contrário: Fresneda a bolínar e Geny por fora. Uma coisa que deve funcionar excelentemente na cabeça do treinador, mas que dá cabo dos nervos aos adeptos e, suspeito, aos jogadores. "Nesse sentido", "é o que é": se o jogo pede um médio capaz de queimar linhas, RB mete um clone de Hjulmand (Kochorashvili). E na hora do aperto, troca de pontas de lança quando pode recuar Pote.

 

Concluindo, se do banco de suplentes raramente se vê um golpe de asa, o gabinete de arquitectura sito em Alcochete parece mais concentrado em desenhar esquemas em que o 3-4-3 (em Manchester há quem dê explicações) se desdobre em 4-2-3-1 a atacar, enquanto a defender já se viu um pouco de tudo, desde o 3-5-2, 4-4-2 e ontem 5-3-2 (o 5-4-1 de antigamente deve ter ido para o cesto dos papéis). Com tanto sistema, o meu receio é que nós, adeptos, começemos por sistema a pedir o 1-1-2. 

... Esta foi a crónica possível de um jogo que o Sporting ofereceu ao seu rival Benfica. Como aqui tenho escrito abundantemente, falta um box-to-box tipo Matheus Nunes ao futebol do Sporting (Simões talvez desse, mas não conta) que compense o menor poder de fogo causado pela deserção de Gyokeres. A minha esperança é que tanta aparente incompetência esconda um plano genial: Rui Costa vencer as eleições do Benfica e Lage também ficar. Será? 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Maxi Araujo 

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10
Jul25

Bandemónio Vermelho


Pedro Azevedo

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Antes eram os Diabos Vermelhos, agora, Rui Costa, no seu anúncio de candidatura à presidência do Benfica, referiu que é preciso "fazer o que ainda não foi feito", recuperando assim o tema (e lema) de uma velha canção de Pedro Abrunhosa e dos Bandemónio. Pelo andar da carruagem, temo que com o ardor típico das campanhas eleitorais se siga o "não posso mais viver assim, olhar para ti sem te ter perto de mim" (dedicado ao João Félix), até que alguém se lembre do "talvez...". 

27
Mai25

Os 7 Mandamentos


Pedro Azevedo

Não é que o Benfica não tenha razão de queixa naquele lance disputado entre Matheus Reis e Belotti, mas tomar a árvore pela floresta e reagir com um enunciado tipo "Os Sete Mandamentos" (no Benfica destas últimas épocas é natural que 3 pontos fiquem pelo caminho quando o oponente é o Sporting, razão pela qual o "Moisés" de Carnide há muito que anda a dividir o Mar Vermelho) não só é excessivo como visa essencialmente tapar hoje o sol com a peneira para mais tarde ver cumprido o direito peneirento, de quem se acha ungido à nascença, de ter o único lugar ao sol disponível só para si. Nesse sentido, não deixa de ser curioso que praticamente ao mesmo tempo que saiu o Comunicado, um conhecido adepto benemérito do Benfica como César Boaventura tenha apresentado uma queixa-crime contra Matheus Reis. Em nome da verdade desportiva referida no tal Comunicado, crê-se. Só falta mesmo outro buliçoso adepto benfiquista, de seu nome Paulo Gonçalves, denunciar o VAR Tiago Martins para o ramalhete ficar completo e todos ficarmos sossegados e de consciência tranquila quanto ao futuro cumprimento de regras e de procedimentos, bem como a comportamentos éticos irrepreensíveis. Se bem que, na verdade, quase todas as pessoas têm memória, excepto Rui Costa que se lembra muito pouco do período em que fez parte da administração de Vieira, embora o presidente do Benfica pense que nós é que fomos todos intervencionados com uma lobotomia. Daí partir para um Comunicado onde objectivamente o Benfica se julga maior do que o país, na circunstância representado pelo Estado, arrogando-se ao direito de unilateralmente suspender negociações que visam o oumprimento do estipulado numa lei portuguesa e auto-determinando a interdição do seu estádio aos jogos do seleccionado português até a "verdade desportiva" ser reposta segundo o julgamento do clube, claro está.  Como diria o William Blake: "Como saberes o que é suficiente, se não souberes o que é demais?". Objectivamente, o Benfica foi longe de mais no tal Comunicado e sabe-o. Não obstante, acha-se impune, o que não constitui novidade. Assim como não é nova a construção de uma narrativa de vitimizaçáo por parte de alguém que sente o chão a fugir-lhe dos pés e necessita de um spin comunicacional para desviar as atenções dos seus apaniguados, procurando assim transformar uma derrota no Jamor numa vitória futura, nesse transe vendo o desvario de Matheus Reis como uma oportunidade caída da céu ou uma boia salva-vidas lançada pelo Instituto de Socorros a Náufragos. 

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26
Mai25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Dobradinha para o jantar


Pedro Azevedo

Em Portugal, o inho e inha não são meros diminutivos, usam-se essencialmente como demonstração de carinho ou válvula escapatória de culpa. Assim, é com o mesmo propósito de tirar o ar a um balão que um português trata uma pratada de cozido, que daria para alimentar uma família inteira durante uma semana, como um cozidinho. Ao mesmo tempo que lhe mostra o seu amor. O mesmo ocorre com a feijoadazinha, as favinhas ou... a dobradinha. Esta leveza que opomos propositadamente ao peso é muito portuguesa de Portugal. No Brasil são usados aumentativos como "ão" para sublimar e vender o peso, em restaurantes do tipo Chimarrão ou Porcão e shows televisivos como o Faustão, mas cá não. Pelo que no Domingo, em Portugal, houve festa rija de Taça nas matas do Jamor. E para o jantar, uma dobradinha, assim mesmo, com sufixo a jeito de um oxímoro, como quem quer a todo o custo evitar uma indigestão após mais de duas horas e meia a enfardar. Também porque, esta época, as coisas boas para o Sporting vieram aos pares: bicampeonato  e campeonato e taça na mesma temporada. O que o Benfica procurou denodadamente evitar, no seu Jamor de Perdição, que bem poderia ser um romance melodramático do Camilo Castelo Branco. 

O Sporting começou bem e durante um quarto de hora conseguiu ligar o seu jogo por dentro. Mas depois veio um penalty contra, revertido pelo VAR por fora de jogo anterior, e com ele a dúvida. Dividido entre continuar a atacar ou melhor guarnecer a sua defesa, o Sporting descompactou-se, alongou-se no campo e abriu brechas no meio campo por onde o Benfica foi sempre encontrando espaços. E assim, durante os restantes 75 minutos, o nosso rival foi sempre superior. Valeu-nos então o Rui Silva, excelente contratação do inverno do nosso contentamento em que também chegou o Rui Borges. Sofremos um golo e poderíamos ter sofrido outro logo de seguida, se não tivesse havido uma falta prévia sobre o Trincão. Sem na altura se perceber, o Trincão começava a deixar o seu nome na Taça: primeiro a evitar que o adversário se destacasse ainda mais no marcador, mais tarde a fazer a diferença a nosso favor. Com o aproximar do fim do jogo, o futebol foi substituído pelo circo, o Benfica montou a tenda e foram mais os números de palhaçadas de quedas no relvado do que de jogadas. O jogo parava constantemente, e por cada interrupção entravam em campo os maqueiros do INEM, voluntários do Instituto de Socorros a Náufragos, avaliadores de sinistros de companhias seguradoras e médicos legistas, em suma, um sem número de não intervenientes directos no jogo. Todos à espera de mais uma palhaçada de Otamendi, sempre expedito a pedir as boas graças do árbitro, qual foca perante a audiência do Zoomarine. Até que durante uns segundos ninguém caiu e o Trincão viu uma nesga de terreno por onde se escapulir até servir o Gyokeres. Arrancou o sueco e logo se pensou que o António Silva faria contenção ou o mandaria para o chão. Mas não, o António não resistiu a ir ao encontro da bola e assim ficou fora dela. Veio então o Renato, qual elefante em loja de porcelana, e partiu a louça toda. Penalty! - assinalou o árbitro. Logo o Gyokeres converteu. Sem fazer o suficiente para isso, o Sporting empatava, mesmo no finzinho, um jogo que merecia perder. Veio o prolongamento. 

O tempo extra trouxe-nos uma equipa destroçada psicologicamente (Benfica). A cara disso mesmo era o Di Maria, que não teria jogado o seu último jogo doméstico pelo Benfica, caso o Sporting não tivesse igualado. Acresce que, quando o argentino entrou, os encarnados já perdiam: foi na sequência de um canto, após Samuel Soares ter evitado novo golo do Gyokeres, que Trincão centrou e Harder cabeceou com força e colocação para a baliza. O jogo aproximava-se do fim e Di Maria era já a única ameaça benfiquista em campo. Era preciso pará-lo e Rui Borges não hesitou em fazer entrar o jovem David Moreira, que passou no teste com distinção. E de um seu roubo de bola se originou uma triangulação entre Gyokeres, Harder e Trincão que permitiu a este último obter o terceiro golo dos leões, não sem antes fazer passar a bola entre as pernas de António Silva, que já que o tempo é para números circenses ao menos que não fiquem atrás de um Cirque Du Soleil. Sol que parece acompanhar este Sporting iluminista e muitíssimo renascentista. Em oposição ao clube curiosamente da Luz, hoje caminhante nas trevas. Como se vítima de um qualquer mau-olhado ou de um pé frio, onde antes até houve uma mão de Vata (ou "vaca" para ultrapassar aquele Marselha).

 

Tenor "Tudo ao molho...": Francisco Trincão. Rui Silva, Harder, Maxi (o primeiro a dar a cara nos duelos individuais) e Inácio (excelente nas dobras) merecem uma menção honrosa. 

 

"Em Abril, águas mil. Em Maio, ganhamos com paio"

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11
Mai25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

A Última Tanga na Luz


Pedro Azevedo

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Desde que o Marlon Brando - é favor não confundir com aquele que numa das originalidades tão típicas do povo brasileiro foi baptizado como Marlon Brandão e jogou por nós, que igualmente tinha queda para a representação, ou melhor, representava bem a queda (na área), mas não necessariamente devido a escorregar na manteiga - contracenou com a Maria Schneider em O Último Tango em Paris que se tornou comum apelidar exibições fora do comum de jogadores argentinos em pré-reforma como "O Último Tango". E, para não se confinar à Argentina e ao tango, a coisa depois generalizou-se à dança, como é exemplo o excelente "The Last Dance", da Netflix, que tem como foco Michael Jordan e os Chicago Bulls (de Pippen e Rodman, também). Mas falava-vos do Último Tango porque, na antecâmara do Benfica-Sporting, a imprensa agitou muito a possibilidade de o Di Maria se poder despedir em glória ou beleza. E, caso não o conseguisse, ainda lá estaria o Otamendi para ser o protagonista. Já sobre o Sporting, a mesma imprensa concentrou os seus prognósticos quanto a herói no Gyokeres. Por cinquenta e duas razões, o que me pareceram razões mais do que suficientes para suportar a visão de tais cassandras. 

Bom, mas uma coisa são previsões, outra, bem diferente, é um jogo em si. Veio então o jogo que podia decidir tudo e para qualquer um dos lados. E a primeira coisa que há que contar é que o Di Maria saiu ao intervalo sem glória e que o Otamendi devia ter saído ainda mais cedo, por volta do quarto de hora, fizesse o inefável João Pinheiro um bom uso do apito. Por outro lado, o Gyokeres também não conseguiu fazer muita diferença, embora o lance do golo madrugador do Sporting tenha sido todo fabricado por si até ter sido entregue a Trincão para ser transformado. Pelo que dos parágrafos supra se conclui que não houve Último Tango, ao mesmo tempo que se deduz ter havido, sim, uma última tanga protagonizada pelo melhor árbitro de Portugal Continental, Madeira e Açores, que mais uma vez se mostrou à altura do cartel que o país inteiro consagrou e a UEFA e FIFA teimosamente insistem em não querer ver. Uma má vontade, certamente, que o apagão arbitral na Luz deveu-se a um pico de tensão motivado pelo excesso de produção de renováveis (é impressionante a forma como o Conselho de Arbitragem renova de derby para derby, de Clássico para Clássico, a aposta num mesmo árbitro).

Se os rivais tentassem a sorte no Totobola, o Benfica jogava para uma aposta simples na vitória e o Sporting apostava numa dupla X2. Poder realizar uma aposta múltipla era uma vantagem para os leões, mas as águias tinham o factor casa do seu lado, pelo que cedo se percebeu que o jogo seria decidido nos detalhes: o Trincão marcou no seu estádio talismã aquilo que tarda em fazer no seu próprio estádio, o Diomande e o Quaresma escorregaram e o Benfica empatou, o João Pinheiro engoliu o apito na lance de Otamendi sobre o Pote no exactíssimo momento em que o VAR precisou de ir à casinha e o Sporting não matou o jogo e o campeonato aos quinze minutos na Luz. Reclama porém o Benfica um daqueles penáltis da tanga, formal e informalmente. Formalmente, porque não seria crível que um jogador expulso pudesse ser ressuscitado para o jogo a tempo de que sobre ele viesse a ser cometido um hipotético penalty. De forma informal, na medida em que a encenação de queda do Otamendi foi mais digna de um canastrão de filme de série B(enfica) sul-americano do que de um com todo o mérito campeão do mundo. 

No final, o jogo que tudo decidiria deixou tudo em aberto para a última jornada. Salvou-se o Benfica de um match-point no seu serviço e safou-se o Sporting de entrar no tie-break em profunda desvantagem. Agora fica tudo adiado para o Vira minhoto, com Braga e Guimarães a irem decidir a sorte dos dois rivais de Lisboa. Apesar de tudo, o Vira sempre tem mais mérito do que o Tango, perdão, a tanga... 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hjulmand. Menção honrosa para Quaresma 

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