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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

03
Nov25

A estrelinha do Porto


Pedro Azevedo

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O resultado de um jogo de futebol é inquestionável, assim não se verifiquem forças estranhas ao mesmo como o enviezamento flagrante das regras do jogo causado por uma equipa de arbitragem ou um golo marcado, por exemplo, por um apanha-bolas. Nesse sentido, há que dizer que a vitória do Porto sobre o Braga foi justa, na medida em que marcou mais 1 golo do que o adversário. A matemática é uma ciência exacta, os números não podem ser questionados. Todavia, quem viu o jogo não pôde deixar de sentir que o Porto teve sorte. Se foi circunstancial ou já estrelinha de campeão será prematuro dizer, mas que a vitória portista pareceu obedecer a um plano superior escrito nas estrelas disso poucos terão dúvidas. Não me recordo nesta temporada de uma equipa ter manietado tanto o Porto como o Braga o fez. É certo que o Forest ganhou ao Porto, mas não dominou com tanta expressividade como o Braga. E no Dragão, o que realça ainda mais o que ocorreu. Com as linhas de passe bloqueadas, os portistas perderam inúmeras bolas e estiveram quase sempre a ver o Braga jogar. Com uma posse de bola avassaladora (69%), os minhotos não se limitaram a trocá-la em zonas recuadas. Não, foram-na circulando de fora para dentro e de dentro para fora do bloco portista, com os seus jogadores sempre em circulação, ameaçando constantemente o último reduto dos comandados por Farioli, manietando por completo as zonas de pressão do seu adversário. O Porto chegava sempre tarde à bola e com o tempo foi baixando o seu bloco até procurar defender o melhor possível a sua baliza, naquele espírito de que é melhor perder os anéis do que os dedos. Estávamos a chegar ao final do primeiro tempo quando um remate de longe e condenado ao fracasso de Samu defiectiu no jovem Rodrigo Mota e traiu Hornicek. Aconteceu futebol, talvez o desporto mais democrático e mais atreito a sortilégios capazes de desafiar a lógica. Pensou-se que um golo sofrido na compensação da primeira parte iria destruir o moral dos bracarenses e reforçar o dos portistas, mas não foi isso que ocorreu na etapa complementar. Bem pelo contrário, o Braga intensificou ainda mais a pressão e sufocou o Porto. Empatou o jogo e teve uma soberana oportunidade de passar para a frente quando Fran Navarro falhou um remate na pequena área. Mérito porém seja dado ao Porto que foi sempre resiliente, não se desorganizou por ser obrigado a correr constantemente atrás da bola, procurou e conseguiu fechar espaços na sua área e assim evitar males maiores. Foi realista e a substituição operada por Farioli, ao retirar William por Rosário, disso foi ilustrativa. Não podendo ganhar, o treinador portista afirmou assim que pelo menos queria garantir 1 ponto. Até que um erro defensivo bracarense - Victor Gomez não atacou um bola chutada na sua direcção , ficou expectante e deixou-se antecipar por Borja Sanz - permitiu ao Porto vencer um jogo que já ficaria satisfeito por empatar. 

Não sei se a história final deste campeonato ficará escrita pelo que foram os jogos dos grandes contra o Braga. Sei, isso sim, que o Sporting perdeu dois pontos com os bracarenses nos descontos e que o Porto obteve contra eles pelo menos mais 2 pontos do que deveria, o que produz uma diferença de 4 pontos entre os dois que é superior ao actual "gap" verificado no campeonato. Sem querer tirar mérito ao Porto, que é uma equipa organizada e difícil de bater, os campeonatos não se vencem sem estrelinha de campeão. Evidentemente, não há estrelinha se não houver uma boa preparação que permita aproveitar uma oportunidade concreta, e este Porto está bem preparado. Perante este tipo de sortilégio que parece levar o Porto ao colo deve o Sporting baixar os braços? Não, de todo, bem pelo contrário. A máquina portista não parece tão bem oleada nesta fase da época e o facto de tanto necessitar do elemento sorte neste período ainda prematuro da temporada deve ser visto como um sinal de esperança de que a qualquer momento os ventos da fortuna poderão mudar e a ordem estabelecida inverter-se. Assim continuemos o nosso percurso sem vacilar, acreditando no processo e não perdendo de vista a competência em tudo o que dependa exclusivamente de nós. Há que não perder o ânimo e acreditar sempre. Se o fizermos, tarde ou cedo o momento de darmos o xeque-mate neste campeonato chegará, estou certo disso. 

15
Ago25

Não subestimai o Yeremay


Pedro Azevedo

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Ao contrário de Jota Silva, que tem características mais de extremo ou de segundo avançado e usa a velocidade sem bola como uma das suas principais ferramentas (transição), Yeremay é um interior que parte da esquerda para dentro com a bola para desequilibrar através da finta curta, tabelinha, passe de ruptura ou remate. Sendo o jogador do actual plantel que mais se lhe compara o Pote, é natural que este se venha a deslocar para uma posição mais central - o "10" no 4-2-3-1 (ou 4-3-3) de Rui Borges -, partindo Trincão da ala direita. Com estes 3 jogadores atrás de Luís Suarez, ele próprio um avançado móvel, o carrossel estará montado, sendo esta linha uma porta giratória com saída na zona central. Todavia, a sua chegada irá inevitavelmente conduzir Geny e Quenda a uma relativa irrelevância, condenados ao banco de suplentes, excepto se Rui Borges fizer recuar Pote para junto de Hjulmand, assumindo Trincão a posição "10" e havendo assim espaço para um ala do lado direito, ou no caso do 3-4-3 ser reavivado. Quanto a Yeremay, é um jogador que se move com imensa facilidade em espaços curtos, mas sempre a alta rotação e com a preocupação de ser vertical, nem que para isso tenha de recorrer à lanterna de arqueólogo com que ilumina a exploração dos túneis (bola por baixo das pernas) existentes. Um jogador electrizante e que certamente irá entusiasmar as bancadas de Alvalade. Se vier, porque o custo da sua aquisição e muito elevado, um valor recorde a confirmar-se. Apesar dessa condicionante, não subestimai o Yeremay (e isso é imperativo, literalmente). 

20
Jun25

Mundial de Clubes


Pedro Azevedo

Não é que o futebol no continente americano tenha hoje equipas do calibre daquele Flamengo, de Zico, Júnior e Leandro, ou pelo menos do bom Boca Juniors, de Maradona, Gareca e Ruggieri, mas a realidade é que, após 3 jogos, as equipas portuguesas continuam incapazes de vencer as suas congéneres americanas, no Campeonato Mundial de clubes. O problema não é exclusivamente português: o campeão europeu, PSG, acaba de perder com o Botafogo e o finalista da mesma competição, Inter de Milão, empatou com os mexicanos do Monterrey, Fluminense e Dortmund igualaram-se em outra partida. Para quem esperava um "passeio no parque" das equipas europeias, este Mundial de Clubes está a surpreender. Porém, existem razões históricas que aconselhariam uma maior cautela nos prognósticos: em 8 edições do Campeonato do Mundo de selecções disputadas no continente americano, só por uma vez (Brasil, 2014) um país não-americano (Alemanha) venceu a competição. Além da adaptação ao clima, uma outra coisa que desfavorece os europeus é o ciclo competitivo: enquanto os clubes do continente americano estão em pré-época ou começaram há relativamente pouco tempo as suas competições nacionais, os europeus apresentam-se em final de época, com cerca de 60 jogos em cima. Por isso, apesar da qualidade das equipas sul-americanas estar longe do nível ocorrido antes da lei Bosman ter criado um furacão que abanou todo o futebol mundial, estão criadas as condições ideais para que este Campeonato do Mundo de Clubes tenha uma incerteza quanto ao vencedor maior do que à primeira vista seria de supor. Veremos então o que ele nos reservará...

02
Jan25

Considerações sobre o sistema e as dinâmicas


Pedro Azevedo

Este novo sistema de jogo concebido por Rui Borges no Sporting é diferente daquele (3-4-3) que vinha sendo implementado desde Ruben Amorim, mas também não é igual ao que o treinador usava em Guimarães (4-3-3). Ofensivamente, contra o Benfica, o Sporting jogou primordialmente num 4-1-4-1 (defensivamente em 4-4-2), com Rui Borges a pretender manter o mesmo triângulo invertido que usara em Guimarães, com Hjulmand como "6" e Morita e Trincão como "8s" (ou "10s", se preferirem). Ocasionalmente, Morita baixava para pegar na bola e então o sistema passava a ser um 4-2-3-1, mas esse não foi o padrão, que a intenção de Borges passou sempre por ter dois médios ofensivos enganchados em Florentino, capazes de o asfixiar, ideia de jogo que pressupõe um distanciamento relativamente grande entre o médio defensivo e os ofensivos aquando da construção e exige muita qualidade de passe entrelinhas do "6". A diferença principal face ao sistema que Rui Borges usara no Vitória prendeu-se com o papel dos alas, em Guimarães mais extremos, no Sporting mais médios. Esta adaptação favoreceu muito Geny, que como extremo puro nunca fez grande carreira por ter mais dificuldades ao receber a bola de costas para a baliza. Vendo o jogo de frente, da posição de médio, aparecendo no espaço em vez de previamente o ocupar, é um jogador totalmente diferente para melhor. Quando Pote regressar, o natural será Trincão mudar para médio esquerdo porque o homem nascido em Vidago tem melhor relação com o ponta de lança a o golo a partir de zonas interiores. Um aspecto pouco ou nada visto no jogo com o Benfca foi o "overlap" dos laterais aos médios-ala, o que terá tido mais a ver com as carcteríisticas dos jogadores [Quaresma é um central de raiz e quando sai em transporte de bola privilegia o centro do campo, vai em diagonal, à bolina (45º)] do que com o modelo de jogo pretendido por Borges. Problema: notaram-se dificuldades na saída de bola em construção desde trás sempre que não era Quaresma a conduzi-la. Última nota: ao contrário do que alguns Leitores preconizam, não vejo como o actual Debast poderá ter rendimento como "6": é certo que tem qualidade de passe à distância, mas o futebol é um jogo de equilíbrios e ele é frágil nos duelos, especialmente pelo ar, o que estaria sempre a pôr a nossa defesa em trabalhos.

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13
Dez24

O espaço: futebol e xadrez


Pedro Azevedo

O xadrez é composto por 64 casas e 32 peças, o que quer dizer que as peças partem de um posicionamento inicial para a ocupação do espaço existente nas casas livres. Ou seja, esse espaço não está ocupado inicialmente, descobre-se com o tempo e uma estratégia. Assim também acontece no futebol, e é isso que vem faltando no Sporting de João Pereira, que se torna previsível ao abrir o jogo ao adversário (entrando nas "casas livres" antes do tempo) em vez de o surpreender ao encontrar o espaço livre no timing certo. 

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23
Dez23

O Explorador dos Espaços


Pedro Azevedo

O norueguês Roald Amunsdsen liderou a primeira expedição a atingir o Polo Sul. E muitos séculos antes, ainda no tempo dos Vikings, o seu compatriota Leif Eriksson havia sido o primeiro europeu a chegar à América do Norte (Canadá). Há um gene de aventureirismo e de exploração do desconhecido nos nórdicos, algo que aliás partilham com os intrépidos marinheiros portugueses dos nossos Descobrimentos. Por isso, a chegada de Viktor Gyokeres à pátria de Gama, Cabral ou Magalhães proporcionou o contexto perfeito para uma epopeia à antiga. Porque Gyokeres é também ele um explorador, de espaços. Se o futebol é essencialmente tempo e espaço, então Viktor distingue-se pela quantidade enorme de trabalho que consegue realizar por unidade de tempo. Chama-se a isso potência, que também pode ser definida como o produto da força multiplicada pela velocidade. Ora, essa potência é aplicada maioritariamente na exploração do espaço livre no relvado, em comprimento (aquilo que agora se designa de "profundidade", como se das 20.000 Léguas Submarinas se tratasse) mas também em largura. É com a recorrente procura desse espaço que Gyokeres leva até à exaustão os seus adversários para depois melhor os desequilibrar, nesse transe mais parecendo uma jibóia que, mais do que morder instantaneamente como outras serpentes, vai progressivamente asfixiando a sua presa, sendo esse o seu "veneno". Não é à toa que desses confrontos resultem ressaltos todos eles ganhos pelo sueco. Tal fica a dever-se à sua envergadura e superior condição física, que permitem que o seu corpo consiga suportar inúmeras acelerações e mesmo forças contrárias (choques) durante um jogo de futebol, sem nunca se descompôr. Levando isso ao extremo, o que no futebol significa até à baliza adversária, quando, sem desalinhar um fio do seu cabelo no processo, finaliza com a reconhecida frieza nórdica cada uma das suas intrépidas correrias. Sempre cool, qual James Bond que vem expiar (remir) os nossos pecados do passadoComo o super-herói que efectivamente é. 

Viktor Gyokeres, a Licence to Kill!!!

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13
Dez23

Mentalidade, Cultura e Conceitos


Pedro Azevedo

Muito inteligentemente, Rúben Amorim deixou hoje subentendido não ter gostado nada da arbitragem de Guimarães. Sem o dizer declaradamente, mantendo assim a coerência, mas mostrando que fica tão revoltado no balneário quanto os seus jogadores. Contudo, o mais importante para o Sporting que retirei do seu discurso foi a declaração de que mesmo correndo o risco de os jogadores ficarem chateados com ele, vai continuar a não se referir publicamente à actuação dos árbitros. Motivo: não arranjar desculpas para o insucesso, crendo o treinador que ajuda mais dessa forma os seus jogadores. Eu que por vezes critico a titularidade de alguns jogadores e as substituições que o treinador opera, achei exemplar a forma como se referiu a este tema. Porque, sendo certo que nos últimos 40 anos, o Sporting é o clube com mais razões de queixa da arbitragem, essa realidade não pode nem deve escamotear as falhas que se observam naquilo que depende de nós. Nesse sentido, Amorim foi perspicaz em detectar esse problema e tem vindo a procurar mudar a mentalidade reinante no clube. Para que o Sporting não seja um clube de Calimeros, mas sim uma organização capaz de nos momentos certos redobrar esforços no sentido de lutar contra a adversidade e vencer, o que deve exigir uma grande união e solidariedade entre os jogadores. Ainda assim, ficará a faltar algo mais, aquele extra decisivo, que no meu ponto de vista se consubstancia na luta por uma causa. Já o disse algumas vezes no passado e assumo-o novamente: o Sporting tem um problema de cultura na sua organização, e isso está acima das competências que se podem pedir a um treinador. Falta-nos uma bandeira, a razão de nos levantarmos todos os dias e querermos superar todos os obstáculos. o porquê de aqui estarmos. O Benfica tem aquela prepotência própria de quem se considera ungido à nascença e digno de reivindicar todos os privilégios e o Porto agita a causa do Norte e da regionalização como se de um Robin Hood libertário na floresta de Sherwood se tratasse. Uns consideram-se os eleitos, acham que há regras que não se aplicam a si e têm um culto de inimputabilidade, os outros usam o "nós contra o mundo" como mote fautor de união. Ou por sentirem sistematicamente o vento pelas costas, ou por ganharem um extra de determinação ao apontarem a um inimigo, ambos ganham a motivação e confiança necessárias que em alturas decisivas lhes permitem dar um passo à frente e transcenderem-se. É exactamente esse passo que falta ao Sporting, que habitualmente claudica nos momentos decisivos. Como se não houvesse fome, vontade indómita de ganhar ou determinação superlativa. A razão principal, para mim, prende-se com uma confusão de conceitos e um défice de cultura corporativa. Querem um exemplo: eu nunca vi um presidente de um clube rival afirmar preferir dois segundos lugares a um primeiro e um terceiro lugar no campeonato nacional. Porque o Sporting nasceu para ganhar, atento o lema do seu fundador, e o sucesso desportivo é que deve desencadear o sucesso financeiro, não o seu oposto. O que é diferente de se investir num modelo económico sustentável, algo em que acredito. Mas esse modelo económico não pode depender exclusivamente da venda de jogadores, o que é um erro. Confunde-se assim o económico com o financeiro, da mesma forma que se pensa que é a vender os melhores jogadores que se vai obter o sucesso desportivo. Outra confusão incutida na mente das pessoas prende-se com a Formação: chega a ser corrente dizer-se que a Formação faz parte do nosso ADN. Nada mais errado, o que faz parte do nosso ADN é vencer, a Formação é "somente" um meio para garantir a sustentabilidade. Deve, como tal, apostar-se na Formação, o que não significa que se lancem 10 jogadores novos todas as épocas. Não, o jogador da Formação deve prevalecer sobre outro que esteja no mercado quando se considere que estão ao mesmo nível, o que infelizmente nem sempre se vê e está na origem de défices avultados. Mas sendo o Sporting um clube que nasceu para ganhar, deve sempre procurar, dentro das suas limitações próprias, os melhores jogadores disponíveis, em casa ou no mercado. Não havendo dinheiro para preencher todas as posições com 2 jogadores de grande categoria (às vezes nem com 1), então deveremos preferir os da casa. Só que é preciso não olvidar que o Sporting tem de formar a ganhar, porque ganhar faz parte do seu ADN. Por isso tenho sérias dúvidas sobre o modelo de desenvolvimento centrado no jogador. Não estamos a falar de pintos num aviário, mas sim de jogadores de futebol de uma equipa com os pergaminhos do Sporting Clube de Portugal, pelo que andar a acelerar o processo de uma série de jovens futebolistas muitas vezes só ajudará a apressar o seu desemprego. Além de se perder o foco na vitória e de em muitos casos se formatarem prematuramente os jovens jogadores de conteúdos tácticos, com o reflexo que isso depois pode ter na ausência de uma qualidade técnica distintiva, estimulação da habilidade proveniente do futebol de rua e em problemas recorrentes musculares (atente-se o caso de Nuno Mendes). Depois, também questiono como se centra um modelo no jogador, se esse jogador se desenvolve num sistema que, mais tarde, não encontra correspondência na equipa principal. Preparamos extremos que depois se têm de adaptar a interiores ou laterais, médios ofensivos posteriormente obrigados a ganhar rotação de médios de transição ou centrais não habilitados a jogar a 3. Enfim, o Post já vai longo, mas o que eu queria alertar é para o facto de haver muito a fazer no Sporting em termos de clarificação de conceitos, revolução de mentalidades e afirmação de uma cultura corporativa vencedora. E como o tempo não para e há uma decalagem evidente para a concorrência, convém avançar depressa e no caminho correcto. Caso contrário, perderemos definitivamente o comboio. [A forma como o Sporting ao longos dos anos vem encarando a participação na Europa, como se fosse a galinha que dá uns ovos de ouro e não como competições (Champions e Liga Europa) onde importa chegar o mais longe possível, é também denotativo de falta de ambição, exigência e visão de longo prazo.]

11
Dez23

Processo vs Resultado


Pedro Azevedo

Se o Quaresma não tem condições para jogar como central pela direita e é preciso adaptar o Esgaio (com o mesmíssimo resultado dos Açores, onde começámos a perder o título de 21/22), por que razão está no plantel? Se o Essugo não serve para render o Hjulmand (ou o Morita) e é necessário recuar o Pote, por que motivo não foi emprestado? Se o Trincão é sistematicamente inconsequente, por que capricho merece tantas oportunidades? Se não temos jogadores suficientes para preencher a quota do banco, ainda que lá tenham estado 2 guarda-redes, para que serve a equipa B? Qual o racional de dar uns minutos aleatórios a Tiago Ferreira ou de levar Quenda para o banco em 1 jogo? Se conscientemente trocámos o jogo de transições que nos deu o título em 20/21 por maior posse de bola, por que entrou Paulinho na Luz ("para o jogo aéreo a meio campo") em detrimento de Bragança? Se a ideia é "jogo a jogo", o que significa que o próximo jogo é o mais importante, por que razão  Hjulmand e Edwards estiveram condicionados e saíram prematuramente para evitar que apanhassem um amarelo que os eliminaria do jogo com o Porto? Que pretexto leva o Morita a jogar tão longe da baliza adversária, ele que obteve 6 golos na época passada? Não teria sido melhor o Sporting ter ido ao mercado comprar um "6" puro? Se o Sporting necessitava de um lateral/ala direito para hoje, tendo em vista o objectivo de estar na Champions milionária de 24/25 (havendo já o "handicap" de Porto e Benfica irem muito provavelmente marcar presença no Mundial de clubes de 2025, onde receberão só de prémio de presença a módica quantia de 50M€), qual a explicação para se ter adquirido um jogador que precisa de desenvolvimento (Fresneda)? Reagimos do banco em função do que se está a passar no relvado ou a pensar no balneário (não é que a gestão de recursos humanos e dos equilíbrios no balneário não seja um aspecto ponderoso, mas não pode ser tudo)? 

 

Há muitas interrogações latentes no futebol do Sporting, questões essas que passariam uma vez mais ao lado se João Pinheiro não tem tido mais uma actuação ao seu nível na cidade-berço.  Evidentemente, temos razões de queixa da arbitragem. Mas podemos optar por sermos eternas vítimas ou senhores do nosso destino. Começando por dar racional ao que fazemos, o que depende só de nós. Se falhamos nisso, de que nos queixamos? O que eu vejo é que Porro, Nuno Mendes, Palhinha ou Matheus Nunes já não moram cá, tudo jogadores em quem Rúben Amorim apostou quando nenhum outro antes viu neles valor (Porro foi comprado pelo City, mas andou cedido erraticamente, e Mendes estaria eventualmente muito verde para outros treinadores). E que, muitos milhões (165M€) recebidos depois, foram insuficientemente substituídos. E se os dois primeiros davam o balanço ofensivo de que a equipa precisava para libertar espaço para os interiores, os dois últimos eram porventura os únicos que davam sentido ao facto de o Sporting jogar só com 2 médios. Pelo que os únicos incrementos positivos face a 20/21 são o Gyokeres e o Diomande (Edwards tem números semelhantes aos de Nuno Santos em 20/21, sendo mais espectacular mas também menos consistente), com o senão de o Adán estar mais velho, o Inácio parecer ter estagnado e o Pote ter perdido o ímpeto goleador. 

 

A equipa tem um jogo eficaz e difícil de contrariar, o treinador domina o balneário e é bom comunicador. Mas entre dogmas, preconceitos e dessintonia entre as palavras e a acção prática, o Sporting continua a adiar aquilo que já deveria ter sido feito, que não deve ser escamoteado em função de uns homens do apito que em boa verdade fazem de tudo para vestir a pele do bode expiatório. Até quando? E será possível ainda assim no fim chegarmos na frente, sabendo-se que o Porto perdeu Uribe e Otávio e o Benfica já não tem Enzo e Ramos? Oxalá! 

 

P.S. Nem tudo está bem quando se ganha, assim como certamente nem tudo está mal quando se perde. O importante é sempre o processo ter lógica e ser congruente, porque durante algum tempo os resultados (bons ou maus) podem ser enganadores. 

07
Dez23

O que separa Gyokeres do Olimpo?


Pedro Azevedo

Na minha opinião, a única razão que explica o alheamento dos tubarões da Premier League em relação a Gyokeres é o seu fraco jogo de cabeça (visível, por exemplo, no segundo golo do Sporting face ao Gil). É isso que neste momento o separa de um Harry Kane ou de um Haaland, e talvez tenha sido essa lacuna no seu jogo, que o associa numa primeira leitura mais a transições do que a ataque continuado, que o afastou do radar dos grandes ingleses. A questão é se essa deficiência não pode ser corrigida. Eu penso que sim, porque o sueco tem envergadura suficiente para se afirmar no jogo aéreo. O que será necessário é um trabalho individualizado com ele, de forma a melhorar o seu posicionamento na área antes dos cruzamentos e técnica de cabeceamento. O desenvolvimento de jogadores é uma competência que nem sempre se vê no futebol profissional. Poucos treinadores a têm, pelo que geralmente esses aspectos são corrigidos (ou não) durante a formação, desenvolvendo-se o futebolista sénior apenas nos aspectos tácticos, físicos e mentais. Lazlo Boloni terá sido o último (Leonardo Jardim tinha um pouco disso, também) dos nossos treinadores com essa competênca específica, provavelmente devido à sua experiência nas camadas jovens adquirida em clubes franceses. O treinador principal tem tarefas multidisciplinares, mas o seu ênfase está mais na sistematização de um modelo de jogo e na análise dos adversários e preparação dos jogos. Mas o caso de Gyokeres merece uma atenção especial, não só pela influência enorme que já tem na equipa mas também porque a melhoria desse aspecto específico o poderá elevar para um nível estratosférico a nível europeu e não apenas nacional. Esse é o meu ponto: se corrigir a lacuna no jogo aéreo, Gyokeres poderá ser ainda melhor do que Kane ou Haaland. Quando é que o Sporting teve um ponta de lança com esse potencial? Bom, teremos de recuar ao tempo de Jardel ou de Yazalde, sendo que Jardel tinha lacunas técnicas no jogo com os pés que Gyokeres não tem e o afastaram dos grandes palcos. O Sporting tem aqui uma oportunidade única de ter um avançado que ganhe campeonatos, e não apenas jogos, precisando apenas de trabalhar o seu ponto fraco. Vamos a isso?

 

P.S. Sendo certo que o jogo leonino não pede muitos cruzamentos por alto, as bolas paradas serão sempre uma oportunidade para realçar a qualidade no jogo aéreo. 

 

P.S.2 Até agora, Gyokeres obteve de bola corrida 7 golos com o pé direito, 3 com o pé esquerdo e apenas 1 de cabeça, a que se somam 4 golos de penálti marcados com o pé direito.

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14
Nov23

O rescaldo da Luz


Pedro Azevedo

O Sporting é a equipa que pratica o melhor futebol que se pode ver em Portugal, mérito indiscutível do seu treinador. No entanto, tal não bastou para evitar a derrota na Luz, num jogo em que ficou a 2 minutos da vitória. Parece inexplicável, mas na medida do possível vou tentar escalpelizar as razões desse insucesso. 

Para uma equipa que tem o melhor lote de centrais em Portugal, o Sporting sofre demasiados golos. Se o problema não está no centro da defesa, talvez a explicação advenha da falta de um médio defensivo iminentemente repressor, um polvo como Palhinha, e da coexistência de 2 laterais/alas que são objectivamente os pontos mais fracos da equipa, por onde geralmente entram as jogadas que mais nos ferem. Além de que o nosso guarda-redes não rende pontos como o Diogo Costa, por exemplo. 

Sendo uma equipa que constrói desde a defesa, a presença de Morita é fundamental. Jogando simples, a 1 ou 2 toques, o japonês revela uma precisão fantástica no passe que nos permite sair a jogar em segurança pelo eixo do campo. Não terá sido por acaso que a sua substituição tenha coincidido com o apagão do Sporting na Luz: sem farol, a equipa deixou de ter referências de navegação segura da bola e naufragou. 

Na frente, Gyokeres faz toda a diferença. Potente, lutador, frio na hora do remate, capaz de segurar a bola sob pressão, o sueco tem tudo. Curiosamente, outra sua qualidade, o altruísmo, veio a revelar-se prejudicial na Luz: numa ou duas oportunidades de visar a baliza, Gyokeres optou por servir os companheiros em aparente ainda melhor posição, perdendo-se assim potenciais ocasiões de golo. O Sporting teria resolvido o jogo no primeiro tempo, ou mesmo no segundo, se os restantes avançados, com Pote em evidência, tivessem usado de processos mais simples em detrimento de todo um cerimonial na hora de rematar à baliza. São inúmeros os lances deste género que se perdem na inconsequência, sem remates à baliza, e isso deveria ser objecto de estudo para rectificação. 

Finalmente, o caso do treinador. Amorim prepara brilhantemente a equipa, mas não é habitualmente hábil na hora de operar substituições. Muitos poderão dizer que à segunda-feira é fácil acertar, mas quantos não levaram as mãos à cabeça no momento em que Paulinho entrou para 8, rendendo Morita? Vi o jogo rodeado de amigos Sportinguistas e não houve um único que não tivesse revelado incómodo com essa troca, estando Daniel Bragança no banco e necessitando a equipa de esconder a bola e assim gerir melhor os derradeiros momentos do jogo. É que os últimos momentos de um jogo deste tipo, entre duas boas equipas, em que se está a ganhar não são para jogar, são sim para gerir, com bola. Escondendo-a, trocando-a entre os nossos jogadores, ganhando faltas no aproveitamento do desespero do adversário. Adicionalmente, o Sporting nada ganhou com a troca de Edwards por Trincão: não resistindo ambos a hibernar por longas períodos durante um jogo, ainda assim o inglês possui um timing de passe que o português não tem, revelando-se muito mais perigoso, consequente e acutilante nas suas acções, especialmente tendo espaço nas costas da defesa adversária para explorar, o que se antevia ser o caso a partir do momento em que o Benfica teria de apostar todas as fichas. 

Estas são as razões que me ocorreram,.Tem a palavra o Leitor para acordar, discordar ou acrescentar o que lhe aprouver. 

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