Rui Costa e o julgamento da história
Pedro Azevedo

Já com o troféu do Guinness de votação nas urnas (parabéns aos militantes benfiquistas) e a caminho de se celebrar como campeão intergaláctico dos comunicados de imprensa, o Benfica está mais para um partido político do que para um clube de futebol. Fazendo-se passar por uma força anti-sistema, permanentemente desafiando o sector de arbitragem e pontualmente hostilizando a própria Federação (os jogos caseiros da Selecção não voltaram a ser disputados na Luz, na sequência das ameaças contidas num comunicado do clube), o Benfica é o mais demagogo dos clubes de futebol: o seu presente lider (Rui Costa), pese a falta de memória recente, veio alegadamente do sistema dos sistemas (vouchers, mala ciao, e-mails, facturas...), mas vende a ideia de ser um reformista e renovador, embora à sua volta se tenham amontoado as demissões numa primeira fase. Julgou-se ser tudo produto da conjuntura eleitoral, mas os hábitos antigos emergiram mesmo com uma nova equipa e assim que reeleito partiu para novos ataques ao poder instituído que ele próprio ajudou a eleger, em nome da melhoria do futebol português (diz ele). Discriminando as minorias no caso dos DireitosTV, o presidente do Benfica não aliviará o tom populista até ter a maioria absoluta... de títulos, a tal sonhada hegemonia que em si própria tem laivos de um tique fascista ("Benfica uber alles") de um grande clube que se julga ungido à nascença e não se conforma com a realidade: a incompetência e erros próprios dos seus dirigentes do futebol que o afastam do sucesso em condições ideias de concorrência leal. Grande jogador de futebol do passado e indiscutível benfiquista, ninguém duvida que Rui Costa sente o clube como poucos. Mas a sua emergência como líder do clube, tal como a de outros, está cada vez mais longe de constituir a lufada de ar fresco que um novo estilo de dirigismo, de gente ligada quase umbilicalmente ao futebol, prometia. O detonador terá sido o Jamor, um (J)amor de perdição para o presidente dos encarnados que a partir daí cresceu em crispação na inversa proporcionalidade das prestações pobres da sua equipa de futebol. Porque é aí que reside o problema do Benfica, problema esse que é agudizado por quem acredita que a solução está em confrontar e condicionar os árbitros. Optando pelo ruído desenfreado, Rui Costa procura nessa estratégia desviar as atenções da indignação dos "índios", gerando assim uma mole de "idiotas úteis" de ocasião potenciadores de violência verbal e física, da qual, no fim, Rui Costa, presumivelmente, lavará as mãos como Pôncio Pilatos. À semelhança do que já ocorre recorrentemente no Pavilhão da Luz, quando entoa o ignóbil silvo do very-light. Conseguirá Rui Costa arrepiar caminho a tempo? Assim vai o futebol português...
