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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

25
Nov23

Maradona


Pedro Azevedo

Cumprem-se hoje 3 anos desde a morte de Diego Armando Maradona, para mim o mais sobredotado jogador que o mundo viu. Do homem, de Diego, já muito se falou e sinceramente o tema pouco ou nada me interessa. Eu não vejo jogadores de futebol, actores, músicos ou quaisquer outros mitos pop tomando o lugar dos pais como educadores, pelo que dispenso tê-los como exemplo para os meus filhos, o que quer dizer que por mim bem poderiam deixar de ser escravos de uma imagem criada pela máquina de propaganda do marketing e sua rotativa de dólares. Sim, aqui o que me importa é Maradona, o jogador, o craque que aos 16/17 anos já era melhor do que todos os outros da liga argentina, ao serviço do Argentinos Juniors. O Pibe inconsolável, que chorou a desfeita de Menotti de deixá-lo fora do Mundial de 78 e se redimiu com uma prestação memorável no Mundial de júniores do ano seguinte. O Barrilete Cósmico que marcou o golo do século à Inglaterra, como se nesse transe o Tango se tivesse vingado do Quickstep britânico nas Malvinas. O Maradona de Nápoles, um caso raro de identificação de uma cidade com um jogador, popularizada em murais um pouco por todo o lado. 

 

O que sempre me fascinou em Maradona foi a forma como ele adestrava a bola e ela lhe obedecia, como se só de um corpo se tratasse. Aí foi o melhor de sempre, indubitavelmente. Com a bola ou uma tangerina. Classe pura. Mesmo parado, só com um esbracejar os seu adversários caíam aos seus pés. Não era só a recepção imaculada, mas também a ginga com que escondia a bola em progressão, o passe preciso e o remate mais colocado do que forte. Maradona não chutava, passava a bola à baliza como se tivesse um GPS instalado na sua bota canhota, bastas vezes a apontar uns milímetros abaixo de onde os postes intersectam a barra. Sim, porque Maradona fazia tangentes, mas nunca era secante. Todos estes condimentos permitiam-lhe fazer constantemente a diferença, mesmo quando em condição física débil. Como no Mundial de 90, incapacitado por uma lesão no tornozelo, em que fintou o Brasil inteiro até dar a bola de presente a Caniggia para este finalizar. O mesmo engodo gingão com que ludibriara os ingleses 4 anos antes. 

 

O Santos de Pelé tinha Gilmar, Zito, Coutinho, Dorval, Mengálvio e Pepe, no Barcelona de Messi coexistiam Deco e Ronaldinho, mais tarde Xavi, Iniesta, Puyol ou Piqué, Cruijff no Ajax contava com Rep. Haan, Krol, Suurbier, Keizer ou Neeskens e Ronaldo no Real tinha a companhia de Modric, Benzema, Ozil, Bale, Pepe ou Sergio Ramos, o Nápoles de Maradona era ele, Careca e mais 9. Ademais, a equipa do sul de Itália tinha de se haver com os gigantes do norte, que atravessavam um dos melhores períodos da sua história: a Juventus era a base da selecção de Itália que havia ganho o Mundial de 82, reforçada com o astro Platini e Boniek, o AC Milan tinha Baresi, Costacurta, Maldini e os 3 holandeses (Van Basten, Rijkaard e Gullit), o Inter contava com Zenga, Bergomi, Altobelli, Berti, Serena e os 3 alemães (Klinsmann, Brehme e Matthaus). Ainda assim, Maradona venceria 2 Scudettos pelo Nápoles, os primeiros e únicos da sua história até Spalletti ter levado o clube de volta ao título italiano na temporada transacta. No Mexico 86 a história foi semelhante: dos outros, só de Valdano reza a história. Maradona marcou 5 golos, produziu igual número de assistências e foi a musa inspiradora que extraiu um pouco mais de cada um até à vitória final. Tal como no Nápoles, essa Argentina foi a Argentina de Maradona, a de 82 ainda era a de Kempes, Fillol, Tarantini e Passarella. 

 

Homem controverso, misturando momentos de rara humanidade com uma fatal adição a drogas, e jogador mais genial que o mundo viu, Diego Armando Maradona morreu há 3 anos. Paz à sua alma. E saúde ao vídeo, para que o possamos renovadamente admirar. Agradecidos por nos mostrar aquilo que nem em sonhos de criança ousámos pensar ser possível fazer com uma bola de futebol. 

maradona sporting.png

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