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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

24
Fev24

Manuel Fernandes


Pedro Azevedo

Se uma pessoa se evidencia em vida, é justo que o reconhecimento público dos seus feitos também aconteça enquanto por cá anda. Ora, o Manuel Fernandes felizmente está connosco e espero que por muitos e muitos anos. Por isso, dedico-lhe esta humilde crónica como homenagem singela a um homem e um jogador de futebol que me deu inúmeras alegrias, sentimento que me gera uma dívida que nunca lhe conseguirei retribuir na íntegra.

 

Falar sobre o Manuel Fernandes é o mesmo que discorrer sobre a minha relação com o Sporting, eu que, menino, me estreei em Alvalade na época em que ele também se equipou pela primeira vez de leão rampante ao peito (de verde e branco já jogara, pela CUF). E se a minha estreia foi feliz, tal também se deveu em parte a ele, visto ter marcado um dos golos de uma esmagadora vitória (5-1) sobre o Porto do grande artista Cubillas. Além de excelente futebolista (já lá vamos), o Manel viveu o Sporting como nenhum outro futebolista depois dele. Eu bem o vi a sofrer por dentro e encolerizado por fora, na Luz, quando ao intervalo perdíamos 5-0 com o Benfica, que o apego ao símbolo que levava ao peito não lhe permitia conformar-se com a humilhação e vexação sentidas nesse momento. A vingança serviu-a fria, nove anos depois, com 4 golos no bornal numa épica vitória por 7-1 face ao rival eterno, ainda hoje o resultado mais desnivelado entre os 2 clubes em jogos oficiais. 

 

Fiél ao seu clube do coração, recusou inúmeros cantos de sereia dos nossos concorrentes ao título e só nos deixou quando lhe mostraram a porta de saída. Foi um tal de Burkinshaw, um treinador de má memória, quem lhe escancarou a porta, perante o silêncio e a inércia de uma direcção recém-eleita (Amado de Freitas) que sucedeu a João Rocha e não soube transmitir que num monstro sagrado não se toca. Se no longo-prazo pagaríamos tal dislate numa falta de mística que prolongaria a nossa travessia no deserto até se perfazerem 18 anos, no curto-prazo o défice foi imediato: deslocação a Setúbal para defrontar o Vitória e derrota por 1-0. Adivinhem quem marcou? O Manel, está claro. Na cidade do Sado pôde atenuar o enfado de ter deixado o Sporting ao reencontrar Malcolm Allison. E com Allison, Jordão, Eurico, Zezinho e Meszaros, a espinha dorsal da equipa campeã nacional pelo Sporting em 81/82. Continuou a marcar golos como sempre, até que arrumou as botas e assumiu a pasta de treinador. 

 

Do Manuel Fernandes jogador, recordo a finta curta dentro da área que o tornaria o pesadelo dos defesas, divididos entre tentar desarmá-lo ou correr o risco de sobre ele cometerem um penálti. Também a sua aceleração em poucos metros, seguida de súbita travagem com ABS que partia os rins a quem o defendia. Igualmente o seu entendimento com Rui Jordão, com quem comunicava por sinais de fumo e a quem daria múltiplas assistências para golo. Porque o Manel era assim, e muitas vezes podendo marcar, servia o companheiro mais bem colocado (ou, simplesmente, a precisar do golo para ganhar moral), altruisticamente. E quando a este duo se juntou António Oliveira, então nasceu a santíssima trindade (o Jordão era mesmo Trindade de apelido), para gáudio de todos os que seguiram de perto a epopeia de 82. Todavia, o traço que mais me impressionou nele foi a forma como se adaptou a avançado centro, ele que na CUF jogara como extremo, e como conseguiu sobreviver à pressão de substituir um outro meu ídolo de infância, o Hector Yazalde.

 

Bastas vezes injustiçado no espaço da Selecção, de Manuel Fernandes raramente se ouviu um queixume. Homem humilde, nunca deixou de ser um senhor. No relvado, apesar de craque, fez sempre prevalecer a equipa em detrimento do seu interesse individual. Assim ocorreu, por exemplo, quando aceitou recuar um pouco no terreno para dar a área a Rui Jordão. Talvez por isso só tenha conquistado uma Bola de Prata, troféu que premeia o melhor marcador do Campeonato. Ganhou, no entanto, muito mais do que isso: a admiração de todos os Sportinguistas que sempre o viram como um de nós. 

 

Longa vida, Manel, e que o seu Sportinguismo ainda possa contagiar novas gerações de leõezinhos espalhados pelo país. Como, aliás, me contagiou a mim e disso lhe estou mui grato. Grande Manuel Fernandes, enorme campeão!!!

 

"Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata." - Carlos Drummond de Andrade

 

P.S. Foi com o Manuel Fernandes (e Damas e Fraguito, os meus outros dois ídolos, que o primeiro de todos, Yazalde, já não fui a tempo de o ver jogar) que a minha relação com o Sporting passou de uma onda média (da rádio) para um tsunami de emoções (aquando da primeira vez que pisei o solo "sagrado" do velhinho José Alvalade).

ManuelFernandes.jpg

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