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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

03
Jul24

Estranha forma de vida


Pedro Azevedo

Escrevo esta crónica sob a forma de um apelo, o de que os jogadores da nossa Selecção se unam, ponham o ego de lado e ofereçam o caneco ao povo português e... a Ronaldo. Sim, a Ronaldo, da mesma forma que os argentinos deram o Campeonato do Mundo a Messi. Sejamos claros, Ronaldo tem a justa ambição de passar à história com um estatuto semelhante a Messi. Durante mais de uma década isso nem se discutiu, a rivalidade entre ambos catapultou-os para o Olimpo dos deuses onde não havia lugar para mais ninguém. Mas a estrela de Ronaldo empalideceu na última década, período em que Messi conseguiu juntar uma Copa América ao título de campeão do mundo. Destacando-se. Ora, o que eu vi nesse torneio mundial foi uma equipa unida em torno de Messi, com um craque como Di Maria, campeão em Portugal, Espanha e França e ganhador da Champions, perfeitamente alinhado nesse propósito. É aqui que a porca torce o rabo, porque eu não vejo esse alinhamento em Portugal. O que vejo é uma imprensa que desdenha do jogador e que criou o mito de que há uma Selecção apesar de Ronaldo ou que com pesar ainda há Ronaldo na Selecção. E isso estimula a desagregação, gera ansiedade de querer mostrar demais, dá espaço à ambição porventura desmedida de jovens lobos já não tão jovens assim como Bruno Fernandes que se veem como líderes sem trono. Porém, é preciso dizer que, apesar de excelente jogador, Bruno, ao contrário de Di Maria, não tem um currículo preenchido de títulos, nunca venceu um campeonato nacional ou uma Champions, não esteve no Europeu que Portugal conquistou. O que quer dizer que não obstante a sua indiscutida qualidade individual, que no entanto nunca o aproximou de uma Bola de Ouro, não contribuiu decisivamente para o sucesso colectivo. Aconselha-se por isso mais humildade e uma maior noção do ridículo. Pelo que há que arrepiar caminho e promover o aggiornamento. Que não passa por querer à força promover Gonçalo Ramos - apenas 14 golos num contexto gaulês em que o PSG é marcadamente hegemónico - em detrimento de Cristiano Ronaldo. Evidentemente, Ronaldo é hoje um jogador diferente, já não tem a explosão de outros tempos em que levava a equipa nacional às costas, é hoje dependente de outros colegas. Mas com ele a Selecção não perdeu uma única fase final de um certame internacional de relevo e venceu todos os jogos da última qualificação europeia, com ele como máximo goleador. E foi providencial no Europeu ganho, com 2 golos à Hungria que permitiram um apuramento rés-vés Campo de Ourique para o mata-mata e 1 golo e uma assistência que nos puseram na final. Assim como foi determinante nos 3 golos da vitória sobre a Suiça que nos deram a possibilidade de discutir a final da Liga das Nações que vencemos. Merece por isso, mas não só, todo o nosso respeito. E não só, porque quando se fala de um Ronaldo obcecada por recordes individuais de golos e Bolas de Ouro estamos a olvidar que colectivamente contribuiu para 4 títulos de campeão do mundo de clubes (por 2 clubes diferentes), 5 Champions (2 clubes), 3 campeonatos ingleses, 2 campeonatos espanhóis, 2 campeonatos italianos, 14 taças e supertaças domésticas e europeias, uma Taça dos Campeões Árabes e o Euro e a Liga das Nações pelo nosso país. Ora, só isto deveria fazer-nos pensar que não há "apesar de Ronaldo" e sim "com Ronaldo". Agora o que é preciso é aliviar-lhe a pressão, pô-lo naquele estado "soltinho" em que se apresentou naquele jogo de preparação com a Irlanda. Pressão aliás que Bruno e Bernardo, os seus delfins, também têm estado a sentir, talvez porque o foco de todos eles não esteja no essencial, a vitória de Portugal. E, sim, Ronaldo tem um estatuto especial. Como Messi o tem na Argentina, onde ninguém o ousa contestar. Qual é o problema? Não fez por isso? Então, saibamos ganhar com ele, haja um treinador que indique que nem todos os livres (especialmente aqueles na zona da meia-lua) deverão ser da sua autoria e aproveitemos a nosso favor algumas das características que Ronaldo ainda não perdeu e que ainda inspiram temeridade nos adversários. Em vez de andarmos a ver problemas onde um qualquer estrangeiro só observaria soluções. Estranha forma de vida esta de ser português...

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