Amorim contra “Weltschmerz"
Pedro Azevedo
Os adeptos do Sporting passaram décadas com a consciência de que o que o clube demonstrava no campo não estava de acordo com a sua grandeza. Quer dizer, na mente do adepto, o Sporting era o maior, mas depois, na prática, os resultados não se adequavam a esse pensamento. E isso chegou a ameaçar mudar a mentalidade do adepto, tornando-o mais conformista, menos ambicioso, com laivos até de fatalista - um non sequitur, porque o que havia a fazer era mudar os resultados e não a mentalidade. Os alemães, que são pródigos em encontrarem palavras que designam condições, chamam Weltschmerz ao sentimento causado quando o estado físico não permite acompanhar a idealização da mente, e os adeptos Sportinguistas padeceram dessa angústia durante muito tempo. Até que chegou Rúben Amorim, que com o seu optimismo - "E se corre bem?" - , liderança e comunicação, mas também com as suas convicções e inteligência (sistema de jogo inalterado de base, mas sempre sujeito a sucessivas nuances de dinamicas introduzidas com o propósito de o melhorar), devolveu na prática, e não apenas em teoria, o estatuto de grande clube ao Sporting. Com alguns erros pelo meio, como foi o caso dos avançados móveis, mas aprendendo com eles e sabendo evoluir a partir daí. Também, aqui e ali demonstrando alguma azia por o clube não segurar alguns dos seus melhores jogadores em momentos críticos (caso Matheus Nunes), mas de uma forma geral chamando a si a razão dos pontuais inêxitos (os êxitos sempre partilhou com toda a Estrutura) e assim mostrando uma notavel solidariedade com a administração da SAD e a sua entidade patronal. Chegou, por fim, a hora da sua partida, longe de ser a ideal. Mas fica uma obra, um ideário, um roteiro de sucesso que vai servir ao novo timoneiro, cenário bem diferente daquele que Rúben encontrou na sua apresentação em Alvalade. E há também um plantel motivado, com bons hábitos profissionais e que tem um pilar fora e dentro do campo que se chama Hjulmand, não por acaso precocemente elevado a capitão. É sobre estas boas fundações que futuramente assentará o trabalho de João Pereira, e esse parece-me augúrio suficiente de que o caminho de sucesso continuará a ser percorrido nesta temporada. Depois haverão outras, novos plantéis se formarão e com eles novos testes e desafios à liderança de João Pereira, cujo legado é difícil mas bom. Pior seria se fosse mau... E mau será perdermo-nos em sebastianismos que minem o trabalho do novo treinador, o que não significa que não sejamos para sempre reconhecidos por aquilo que Amorim fez por nós, que foi muito e até impensável, observadas as circunstâncias em que encontrou o clube, tendo sido para mim o melhor e mais dedicado treinador que vi ao longo da minha vivência de Sporting.

