A angústia da bola antes do craque
Pedro Azevedo

Há vários dias que a bola se sentia vazia, sem ar, frouxa, à beira de ver os seus planos furados porque tratada ao pontapé e exposta aos maus tratos e tortura daqueles que com ela não sabendo lidar a magoavam mesmo sem querer. Ainda que com as orelhas a arder, caprichosa, orgulhosa, qual Mustang ela resistia ao domínio de quem a queria adestrar, nem que para isso tivesse de produzir alguns efeitos concebidos apenas para ludibriar. Até que conheceu o craque. Mal tomou contacto com ele, a bola reconheceu imediatamente o toque diferenciado de quem sabia o que estava a fazer, o trato seguro e confiante daquele que nunca mais deixou de a ter por perto, intimamente. Trocaram carícias. Nesse instante, o seu estado de alma alterou-se. Inchou de alegria com a sua nova conquista, ficou mais redondinha, tornou-se dócil e meiga. Já não precisaria mais de correr inebriadamente sem sentido ou de voar para parte incerta. Com o craque, bola e chuteira fundiram-se num só, unidos numa "ligadura funcional" onde não se percebia onde terminava o esférico e começava o pé. E viveram felizes para sempre, para gáudio dos meninos que todos os dias ensinam os mais graúdos que o essencial do futebol é a bola e os jogadores e o que está à sua volta é como uma moldura, que pode ser neutra, melhorar ou piorar a obra de arte original.
